André Villas-Boas: "Varandas? Não gostamos um do outro, eu não confio nele"

André Villas-Boas presidente do FC Porto
André Villas-Boas presidente do FC PortoANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

André Villas-Boas, presidente do FC Porto, esteve presente esta quinta-feira na quarta edição da Conferência "Bola Branca", da Rádio Renascença, em Lisboa. O líder do campeão nacional destacou a mudança no clube de uma época para a outra, que trouxe o título de campeão nacional de volta à Invicta, elogiou Farioli e abordou ainda o caso de Cardoso Varela e a relação com Frederico Varandas e Rui Costa.

Nova presença em Lisboa: "A segunda visita em dois dias. Ontem estive no Festival da ECO também, com muito gosto e muito prazer. É sempre com gosto. Eu visitei os deputados da Assembleia da República e disse-lhes que ser portista em Lisboa é um desporto de alta competição. Portanto, sempre que um portista chega aqui, recebe de braços abertos também sua alma portista em Lisboa, porque é uma alma também de resistência e de combate. Evidentemente, os clubes de Lisboa têm um grande poderio demográfico e seguidismo aqui em Lisboa. E a gente do Norte também, a gente do FC Porto faz aqui a sua força."

Sentimento de ser campeão: "Ser campeão é um prazer. Evidentemente, há vontade de falar sobre o que foi este trajeto, o que foi a transformação do FC Porto, do meu FC Porto, desde que tomei a presidência, de um ano para o outro. Há grandes mudanças, mudanças estruturais, na parte da direção desportiva, na parte do treinador, na parte dos jogadores, muitos câmbios que nos levaram ao sucesso. É esta transformação desportiva do FC Porto, de uma época para outra que me dá muito gosto de falar. Foi um ano difícil o ano anterior, e passámos para um ano de sucesso estrondoso, num curto espaço de tempo, o que é bom para nós."

Francesco Farioli: "Eu acho que o que se passa atualmente no futebol europeu, mundial, mas europeu sobretudo, com as mudanças cada vez mais abruptas de lideranças de treinadores, bancos a quem são dadas as confianças para projetos a longo termo, acabam rapidamente em seis meses, assim foi com o Xabi Alonso no Real Madrid, assim foi também com o Liam Rosenior no Chelsea. Portanto, são cada vez mais projetos instáveis e o Farioli acho que se sentiu em casa, agarrado a um projeto, agarrado a uma visão. Nós também fizemos os nossos câmbios de um ano para o outro, também não vos posso negar isso, onde fomos confrontados com a necessidade de ter de mudar de treinador. Infelizmente, já sofri na pele o que é a necessidade dessas mudanças e mudam-se os líderes, muda-se a forma de comunicar, mudam-se métodos. Por vezes têm resultado, outras vezes não. O que o Farioli encontrou no FC Porto foi a estabilidade, a comunicação franca e direta, uma estrutura que o suporta diariamente, a direção desportiva, o presidente, todas as pessoas que trabalham na sombra para fazer funcionar a máquina FC Porto e acho que essa estabilidade é muito difícil de encontrar."

Cardoso Varela: "Houve discussões sobre um possível envolvimento do Barcelona que me foi negado pelo Deco. As nossas conversas têm sido sobre isso e alguns jogadores do Barcelona que podem interessar ao FC Porto, jogadores da La Masia. No caso do Cardoso Varela foram-lhe vendidos sonhos falsos. Acabou por se mudar para um clube amador na Croácia ao abrigo de uma lei de exceção. O pai do Cardoso Varela foi instalado na Croácia, numa gráfica, tudo muito dúbio e estranho. Entretanto, o miúdo está relegado ao Dínamo Zagreb e tenta encontrar um futuro. Infelizmente o seu futuro não é no FC Porto. Não tem toda a culpa no processo, mas foram-lhe vendidos sonhos."

Quem lhe dá mais trabalho, Rui Costa ou Frederico Varandas? "Não lhe posso negar que o Frederico (Varandas) me dá muito trabalho. Temos uma animosidade particular entre um e outro, não gostamos um do outro. Eu não confio nele, ele não confia em mim. O Rui (Costa) é um senhor do futebol, um dos melhores talentos portugueses de sempre. Uma pessoa, digna, humana, que lidera o Benfica, o nosso maior rival, um rival histórico do FC Porto. Com muito orgulho, somos o clube com mais títulos do futebol nacional. Eu com o Rui tenho uma ligação estreita, direta, de certa forma também não fui agradável com ele. Não terei sido agradável com ele quando disse que estava no bolso do Frederico (Varandas). Um alinhamento entre Benfica e Sporting parece cada vez mais evidente, com o objetivo de calcar os calcanhares do FC Porto. Com o Frederico temos uma animosidade pessoal, porque me ataca no campo pessoal e não posso permitir, no familiar também. No campo profissional partilhámos alguma visão, na questão da centralização, que está ameaçada pelo Nacional e Marítimo com uma ideia que pode implodir o futebol português."

Vítor Bruno e Martin Anselmi: "Bom, estávamos numa situação já difícil em termos de resultados. O FC Porto apanhou-se com a possibilidade de ser primeiro ao fim de mil dias, quando fomos jogar à Madeira, num jogo que terminou mais cedo devido ao famoso nevoeiro. E depois deu-se a meia-final da Taça da Liga com o Sporting, deu-se uma derrota em Barcelos, deu-se a derrota no Nacional, e achámos que era oportuno mudar. Optámos por um treinador que pensávamos que nos ia levar até ao topo, com uma visão bem diferente, estruturante, na forma de jogar, um treinador que jogava com 3-4-3, 3-5-2 dinâmico, que nos deu vontade de explorar, principalmente ao nível do plantel que tínhamos na altura, com algumas limitações. E correram as duas mal. Os resultados ditaram que as duas correram mal, terminou muito mal também o Campeonato do Mundo, e foi por isso que decidimos mudar outra vez. E, dessa forma, investir o dinheiro que tínhamos gerado em janeiro, investir quase todo na equipa, e basicamente na reformulação do talento à disposição do treinador."

Cobiça do mercado: "Não temos indicações nenhumas. Abordagens, não. Por acaso, não. Ainda ontem neguei também mais uma abordagem do Barcelona. Portanto, é natural que haja muita gente que funciona a partir das notícias, dos quais os meios de comunicação social mais mediáticos relacionados com os movimentos de mercado, e também os movimentos de mercado atraem sempre o seu público, os adeptos dos clubes e gostam de ver as movimentações em antecipação. Portanto, tudo isto gera expectativa, ansiedade, excitação e é natural que o mercado acabe por oscilar muito. A verdade é que da parte dos nossos jogadores, dos mais consagrados na equipa este ano, temos tido muito poucas abordagens, isto é um bom sinal, é um sinal de proteção dos nossos ativos atualmente, do nosso talento, e nós queremos manter a base da equipa em realidade para o próximo ano e construir a partir dela. Temos algumas modificações a fazer, poucas, e temos de ter noção de que os clubes portugueses vivem muito também desses movimentos de mercado."

Rodrigo Mora: "O Rodrigo encontrou-se numa posição diferente. Na era Anselmi era um avançado com liberdade e isso potenciou a criatividade do Mora. O sistema de Farioli joga na posição 8 avançado ou 10 e isso obrigado a outra intensidade defensiva e provavelmente não consegue colocar em campo toda a criatividade, mas que trabalha mais para a equipa e para a ambição do treinador. Em golos não como foi a meio temporada anterior, mas o talento está lá. É um dos grandes talentos, dos melhores do mundo".

Disponível para facilitar uma saída? "Na construção do plantel correspondem as decisões do treinador e neste momento contamos com ele. Há sempre jogadores que sonham com outros voos, mas neste momento está nos nossos planos mantê-lo. No ano passado foi abordado pelo Ittihad, mas o Porto não chegou a acordo. Deve continuar no FC Porto, para bem dos nossos olhos."

Diogo Costa: "É um guarda-redes muito requisitado, que pode ter convites e que tem ambição de jogar noutros campeonatos. No entanto, é um jogador muito bem cotado, capitão do FC Porto a quem pedi que utilizasse a camisola número 2. A camisola 2 para o FC Porto traz muito peso, memória, peso e carga... por isso gostava que estivesse em campo para o ano."

 "Vamos ao mercado por um ponta de lança"

Resgatar Vitinha: "Gostaria. Chateio-o muitas vezes e ele diz 'caro presidente, ainda não é altura'. Gostava muito de o ter de volta. Os bons filhos à casa tornam e espero que assim um dia seja, com Vitinha, Ruben Neves".

Atuar silenciosamente no mercado: "João Afonso? É uma aposta, sem dúvida. Um guarda-redes em quem depositamos grandes esperanças de conquistar o seu espaço. No que analisamos a nível técnico achamos que tem grandes condições de ser um grande guarda-redes e de futuro da seleção. Sobretudo na Liga Revelação, mas anteriormente nas camadas jovens. É o terceiro açoriano no FC Porto e pode ser o segundo a estrear-se, porque o Pauleta nãos e estreou. Temos grandes esperanças".

Ausência de Samu: "Vamos ao mercado por um ponta de lança. A previsão do regresso de Samu é em outubro. Meados de novembro estará a 100 por cento e o FC Porto tem que se reforçar. Os alvos estão identificados. Jovens ou com experiência, um pouco de tudo. Temos uma lista dos melhores talentos por posição, depois por escalões, por contrato, com quem podemos negociar de forma mais aberta. O maio é uma altura má para negociar, os clubes pedem muito dinheiro. O grande mercado movimenta-se em agosto. Tentar identificar, encurtar distâncias e depois aproximamo-nos na devida altura".