"A SAD do Benfica e a administração da SAD do Benfica só aceitam este negócio se quiserem, porque os estatutos dizem que quando se compram blocos de ações superiores a 2%, as ações de tipo A, ou seja, as ações que são detidas pelo Benfica, têm o direito de veto sobre essas transações, desde que o comprador esteja numa situação de concorrência com o Benfica", afirmou Jaime Antunes, em declarações à Lusa.
Em causa está o negócio anunciado no final de abril pelo empresário José António dos Santos, presidente do Grupo Valouro, sobre o acordo para vender a sua participação de 16,38% na Benfica SAD ao fundo norte-americano Entrepreneur Equity Partners.
"Por outro lado, os estatutos também definem o que é concorrência: é o comprador ter atividades na área do futebol ou da organização de eventos desportivos. Ora, é público que este fundo tem atividades na área da organização de eventos desportivos, porque gere arenas desportivas, e, agora, também foi anunciado o seu envolvimento, direto ou indireto, na compra do Veneza em Itália. Portanto, a administração da SAD do Benfica tem tudo nas mãos para vetar o negócio, e eu acho que é isso que deve fazer", sublinhou.
O economista, ex-vice-presidente do Benfica e administrador da SAD, que deixou as funções no início do ano passado em rutura com a direção das águias, liderada por Rui Costa, vincou que estes pressupostos já estiveram na base do veto à entrada do empresário norte-americano John Textor no capital da SAD benfiquista em 2022.
Textor, que atualmente detém o Botafogo, no Brasil, e o Molenbeek, na Bélgica, e que na altura detinha uma participação significativa nos ingleses do Crystal Palace, além de também controlar dos franceses do Lyon, tentou comprar 25% da SAD do Benfica, tendo então chegado a acordo com José António dos Santos, conhecido popularmente por ‘Rei dos Frangos’ para adquirir a sua posição, mais alguns blocos a outros acionistas.
Porém, o Benfica usou o veto estatutário para bloquear a entrada do investidor norte-americano, uma situação que Jaime Antunes realçou que deve ser agora repetida.
"A administração do Benfica na altura vetou o negócio e, por isso, é que John Textor acabou por não concretizar a compra das ações da SAD, porque era concorrente do Benfica em determinadas áreas. Portanto, agora, a administração da SAD tem todas as possibilidades, se assim entender, para vetar esta compra", vincou.
De resto, Jaime Antunes também defendeu que o Benfica devia ter travado há cerca de um ano, através do direto de veto, a compra da participação de Luís Filipe Vieira, ex-presidente do clube da Luz, pelo fundo Lenore Sports Partners, que, com 5,24%, é o terceiro maior acionista da SAD vermelha e branca.
"O Benfica tinha todo o interesse em comprar diretamente ao Novo Banco as ações (penhoradas a Luís Filipe Vieira) e infelizmente a direção do Benfica não soube tratar desse assunto como devia ser", assinalou.
Por isso, o economista, que chegou a concorrer à presidência dos encarnados em 2003, garantiu que vai estar atento à posição que a Benfica SAD vai tomar relativamente ao negócio de José António dos Santos com o fundo Entrepreneur Equity Partners, admitindo tentar travar judicialmente o negócio caso o mesmo avance.
"Se a SAD não vetar o negócio, nós podemos considerar que há um prejuízo grave de uma estratégia futura do Benfica e da SAD do Benfica, e os sócios do Benfica poderão ser parte interessada numa contestação. Mas, para já, vamos esperar pela decisão da direção do Benfica", rematou.
