Sandro Cruz recorda Benfica e fala do título na Eslováquia: "Hoje sou muito mais resiliente"

Sandro Cruz em destaque no Slovan Bratislava
Sandro Cruz em destaque no Slovan BratislavaSlovan Bratislava, Flashscore

A história de Sandro Cruz não cabe apenas nos números de uma época de estreia no estrangeiro. O lateral-esquerdo do Slovan Bratislava terminou a temporada como campeão da Eslováquia e um dos jogadores mais utilizados da equipa, mas o caminho até Bratislava foi feito de dúvidas, lesões e episódios difíceis.

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Nesta entrevista ao Flashscore, Sandro Cruz fala do impacto da mudança para uma realidade de enorme exigência competitiva e abre o coração sobre temas mais profundos, como a saúde mental e o episódio de racismo que viveu em 2022. Entre memórias do Benfica, a ligação emocional a Angola e o sonho assumido de um dia jogar no Estádio da Luz, o defesa revela também uma versão mais madura, resiliente e consciente de si próprio.

"Há três anos queria desistir desta m****, mas Deus fez-me acreditar que algo especial estava para chegar!". E chegou!

Os números de Sandro Cruz
Os números de Sandro CruzFlashscore

"Muito grato pelo impacto que consegui criar no clube"

- Esta foi a sua primeira experiência fora de Portugal e terminou logo com um título de campeão. Que balanço faz desta época ao serviço do Slovan Bratislava?

Faço um balanço muito positivo daquilo que foi o trabalho desenvolvido ao longo da época. Existia sempre aquele receio de sair de Portugal e as coisas não correrem bem, até porque não fui sozinho, fui com a minha mulher, e tudo era uma incógnita. Mas acabou por correr tudo muito bem, graças a Deus, também pelo apoio das pessoas que estiveram sempre ao meu lado, fossem empresários ou familiares.

Foi uma época muito boa, mas espero ainda mais da próxima. Estou muito grato pelo impacto que consegui criar no clube e acredito que consigo fazer ainda melhor na próxima temporada.

- Quando surgiu a hipótese de ir para Bratislava, o que é que o seu coração lhe dizia?

Dizia muita coisa. Sempre gostei muito de estabilidade e de estar em clubes com projetos sólidos, que me permitissem crescer. Apesar da época no Gil Vicente não ter sido a melhor coletivamente, a nível individual foi positiva. Tivemos quatro treinadores numa época, muitas ideias diferentes e pouca estabilidade.

Esperava continuar mais um ano, mas não aconteceu. O clube encaixou algum dinheiro comigo e surgiu a oportunidade de ir para uma realidade completamente diferente: um clube habituado a ganhar títulos e a jogar competições europeias.

A adaptação teve de ser muito rápida porque no Slovan a exigência é enorme. Tens de ganhar todos os jogos, como acontece nos grandes em Portugal. Felizmente comecei bem, com assistências e golos, e isso ajudou-me a ganhar confiança rapidamente.

- Acaba a época como o terceiro jogador mais utilizado da equipa campeã. Sentiu desde cedo que este podia ser o contexto ideal para se afirmar?

Sim. Independentemente do que se diga da liga, jogar para ser campeão é sempre jogar para ser campeão, seja em Portugal, na Eslováquia ou noutro país qualquer. A pressão existe sempre porque o clube está habituado a ganhar e a jogar na Europa. Tens de encontrar motivação todos os jogos.

Sinceramente, não esperava chegar e jogar logo tanto. No primeiro jogo oficial comecei no banco e percebi que tinha de conquistar o meu espaço. A infelicidade de um colega acabou por ser a minha oportunidade. Entrei, fiz uma assistência e, a partir daí, as coisas mudaram. Ser o terceiro jogador mais utilizado no primeiro ano diz muito da confiança que o clube e a equipa técnica depositaram em mim.

- O Sandro que saiu de Portugal no verão passado é muito diferente daquele que é hoje?

Muito diferente. A forma como encaro o futebol, o dia a dia, a recuperação, a alimentação e tudo aquilo que envolve ser jogador mudou bastante. Mentalmente também sou muito mais resiliente e consistente. Isso nota-se no facto de ter feito praticamente uma época inteira sem lesões, com muitos jogos e muitos minutos. Vários treinadores já me tinham dito que aquilo que eu precisava de melhorar era precisamente a minha mentalidade: a forma como encarava o trabalho, a recuperação e aquilo que realmente queria para a minha carreira. Hoje sinto-me muito mais preparado nesse aspeto.

- Para quem não conhece bem o campeonato eslovaco, como o descreve?

É um campeonato competitivo. Existem menos equipas, mas há uma fase final em que as melhores jogam várias vezes entre si e isso aumenta bastante a competitividade. Há muitos jogadores interessantes, com muito talento, alguns deles com qualidade para jogar em campeonatos superiores. Já saíram jogadores daqui para a Bundesliga, Championship e outras ligas fortes. Muita gente não olha para a Eslováquia dessa forma, mas existe qualidade individual muito interessante. Em alguns casos, nada inferior ao que existe em Portugal.

- E Bratislava? É muito diferente de cidades como Braga, Chaves ou Barcelos?

É diferente de Barcelos e Chaves, mas em alguns aspetos aproxima-se mais de Lisboa. Agora, na gastronomia, não há comparação possível (risos). Não há nada como a comida portuguesa.

Sandro Cruz atravessou fase difícil na carreira
Sandro Cruz atravessou fase difícil na carreiraGil Vicente FC

O caso de racismo em 2022: "Foi um episódio muito duro e chocante"

- Sentiu necessidade de sair do futebol português para reencontrar uma nova versão de si?

Sim, também senti isso. Gostava de ter ficado mais um ano no Gil porque senti que ainda não tinha mostrado tudo aquilo que podia dar. Mas quando fui para a Eslováquia procurei desbloquear coisas no meu jogo que sentia que ainda estavam escondidas, sobretudo no aspeto ofensivo. Sempre me considerei um jogador sólido defensivamente, mas hoje em dia os laterais têm de fazer a diferença no último terço. Sinto que cresci muito nesse aspeto.

- 'Poucas coisas fazem sentido'. Palavras suas. O Sandro falou publicamente sobre questões de saúde mental e sobre o episódio de racismo que viveu em 2022. Olhando para trás, quão difícil foi ultrapassar esse momento?

Não tenho problema nenhum em falar sobre isso porque acho importante. Existem muitos casos, mas muitas pessoas não falam. Foi um episódio muito duro e chocante para mim. Nunca esperamos algo assim, até que seja contra nós. Afetou-me bastante mentalmente. Felizmente tive um apoio enorme do Benfica e das pessoas que estavam à minha volta. Hoje olho para trás e percebo que tudo aquilo me tornou mais forte. Até já me aconteceu algo semelhante na Eslováquia, mas já consigo lidar de outra forma. Sinto que tudo o que passei foi um processo. Criamos barreiras e um escudo mental para não deixar que essas coisas nos destruam.

No fundo, somos todos iguais e estamos aqui para trabalhar e jogar futebol. Não podemos deixar que essas situações nos façam perder aquilo que mais gostamos de fazer.

Sandro Cruz viveu episódio de racismo em 2022
Sandro Cruz viveu episódio de racismo em 2022Opta by Stats Perform, Slovan Bratislava

- O futebol expõe muito mais estas situações? Parece que as pessoas olham para vocês como máquinas.

Sim, no futebol isso acontece muito. As pessoas descarregam muitas frustrações nos jogadores. Hoje em dia é muito fácil qualquer pessoa comentar, mandar mensagens ou atacar nas redes sociais. Já desativei redes sociais por causa disso. Mas, infelizmente, não controlamos esse tipo de situações e temos de aprender a lidar com isso e a proteger a nossa saúde mental. Um jogador que não esteja bem mentalmente não consegue render dentro de campo.

- Ganhar este título teve um significado especial por tudo aquilo que viveu?

Sem dúvida. Passei por muitos altos e baixos: lesões graves, momentos difíceis, empréstimos, fases menos boas… Este título acabou por ser quase uma resposta para mim próprio. Como quem diz: 'Conseguiste, estás aqui, aproveita aquilo que conquistaste.' Por isso é um título muito especial para mim.

Sandro Cruz guarda boas memórias do Benfica
Sandro Cruz guarda boas memórias do BenficaSL Benfica

"Acredito que um dia vou voltar ao Benfica e jogar no Estádio da Luz"

- Disse recentemente que o Benfica foi o momento mais marcante da sua carreira até agora. Que significado teve o clube na sua formação enquanto homem?

O Benfica foi a minha casa. Foi lá que cresci e aprendi a ser homem. Passei nove anos no clube e metade daquilo que sou devo ao Benfica. O clube sempre valorizou muito o lado humano e ajudou-me a crescer não só como jogador, mas também como pessoa, de uma forma muito saudável. Sou muito grato por isso.

- Como foi deixar Braga e ir para Lisboa tão novo? Houve muitas lágrimas?

Por acaso não. Eu sempre disse que queria ser jogador de futebol. Quando fui para Lisboa fui cheio de vontade e de ambição. Claro que depois bate a saudade da família, mas sabia muito bem aquilo que queria para mim. Graças a Deus, deu certo.

- Durante todos esses anos de Benfica, como é que foi lidando com o facto de ver colegas a ficar pelo caminho?

É assustador. Todos têm o mesmo sonho que tu e vais vendo colegas a sair. Naturalmente pensas: 'Será que o próximo sou eu?' Mas, ao mesmo tempo, quando sentes que estás a trabalhar bem, ganhas confiança. E também há muitos casos de jogadores que saem do Benfica, afirmam-se noutros clubes e acabam por regressar.

Sandro Cruz sonha com o regresso ao Benfica
Sandro Cruz sonha com o regresso ao BenficaOpta by Stats Perform, SL Benfica

- O que acha que fez a diferença no seu caso?

A consistência e a resiliência. Sempre lutei muito e nunca deixei de acreditar naquilo que queria alcançar.

- Recorda-se do momento da estreia pela equipa principal do Benfica?

Perfeitamente. O mister Nélson Veríssimo foi uma pessoa muito importante para mim. Depois daquele episódio no Rio Ave, ele falou comigo e disse-me que ia precisar de mim. Mais tarde fui treinar com a equipa principal e o mister chamou-me para a Madeira e, no dia do jogo, disse-me que ia ser titular. Um turbilhão de sentimentos. Fui logo ligar à minha família e até chorei de felicidade. Foi um momento muito especial para todos nós. E depois a forma como os adeptos me receberam na Madeira foi incrível.

- Ficou a faltar a estreia no Estádio da Luz?

Ficou esse amargo, claro. Mas acredito que um dia vou voltar ao Benfica e jogar no Estádio da Luz. Enquanto estiver a jogar, vou ter sempre isso em mente.

Sandro Cruz é internacional por Angola
Sandro Cruz é internacional por AngolaGil Vicente FC

"Poder jogar um Mundial por Angola seria um orgulho"

- Representou Portugal nas camadas jovens, mas acabou por escolher Angola. O que pesou mais nessa decisão?

O coração. As lesões afastaram-me das seleções jovens portuguesas e, numa fase importante da minha carreira, surgiu Angola. Quando acompanhei a CAN e vi o meu irmão (Stélvio) lá, comecei a sentir algo muito forte. Representar Angola é representar as minhas origens e continuar o legado da minha família. Não me arrependo nem um segundo dessa escolha. Foi uma felicidade enorme para a minha família.

- Participar numa CAN ou num Mundial por Angola são grandes objetivos?

Sem dúvida. Poder jogar um Mundial por Angola seria um orgulho enorme e um sonho muito grande para mim. Acho que temos qualidade para conquistar coisas importantes no futuro.

- O seu pai foi internacional português de Andebol. Alguma vez tentou puxá-lo para essa modalidade?

Tentou muito (risos). Mas não dava. Tenho muito orgulho na carreira que ele construiu. Toda a gente me conhece como filho do Filipe Cruz e isso é um orgulho enorme. Deixou um legado muito grande no antigo ABC e naquela seleção fantástica em que participou. Mas eu também quero escrever a minha própria história, não quero ficar para trás (risos).

Sandro Cruz tem contrato com o Slovan Bratislava
Sandro Cruz tem contrato com o Slovan BratislavaSlovan Bratislava

"Um dia espero ser recordado como alguém que tocou as pessoas"

- Voltando ao presente e futuro do Sandro. Como olha para a próxima temporada?

O principal objetivo é voltar a qualificar-nos para a Liga dos Campeões e conquistar novamente o campeonato. A nível individual quero fazer ainda melhor, ter mais números e continuar a crescer. Já estou a preparar-me física e mentalmente para a próxima época.

- Portugal continua a ser aquele país para onde o coração puxa?

Neste momento estou feliz no Slovan e tenho contrato (até 2029). Não penso muito nisso agora. Mas claro que Portugal vai ser sempre Portugal.

- Ainda sente que tem algo a provar no futebol português?

Sim, claramente. Um treinador que tive disse-me que eu ainda não tinha provado tudo aquilo que podia mostrar no futebol português. Foi o João Coimbra.

- Se pudesse falar com o futebol, o que lhe diria?

Obrigado. E amo-te. Era isso que lhe dizia.

- E quando um dia perguntarem 'quem foi o Sandro Cruz?', o que gostaria de ouvir como resposta?

Que fui humilde, trabalhador, um bom homem e um bom jogador. Alguém que tocou pessoas. Mas, acima de tudo, alguém que deixou alegria por onde passou.