Já depois de ter falado aos jornalistas, à chegada à Assembleia da República, André Villas-Boas falou aos deputados, relembrando Pinto da Costa, deixando novos elogios a Francesco Farioli e ainda novas farpas ao Sporting.
“O FC Porto representa o Porto, representa o Norte, representa as regiões, representa a ideia de um país que não se conforma, que não se ajoelha e que não pede licença para existir. Ser portista em Lisboa, em ambiente centralista, tem um peso e uma carga” diferentes do habitual, afirmou.
Depois de destacar os méritos de Francesco Farioli e de todo o plantel e antes de recordar Jorge Nuno Pinto da Costa e Jorge Costa, André Villas-Boas lembrou que o FC Porto é “o clube com mais títulos em Portugal” e que “essa é uma marca inesquecível, daquelas que ficam na história e que ninguém apaga com conversa, com revisionismo, com ruído ou a fazer contas a títulos que não existem”.
“O Porto é orgulho, o Porto é caráter, o Porto é frontalidade, o Porto é aquela forma de estar que não pede desculpa por existir. E o FC Porto é isso mesmo, com símbolo ao peito. Por isso, este jantar nesta casa, nesta cidade, é mais do que um convívio. É uma afirmação de que Portugal é maior do que os seus centros e de que a vitória, quando é merecida, não tem geografia”, concluiu o dirigente desejoso de “que esta tradição se mantenha”.
Na casa da democracia: “Obrigado por nos receberem nesta casa, que é de todos, à Assembleia da República. E obrigado, desde já, por me deixarem dizer isto com um sorriso: estar hoje aqui, a celebrar um título do FC Porto em São Bento, tem um sabor especial. Não só porque é a casa da democracia, mas porque, para um portista, ser portista aqui, no coração da capital, é quase um desporto de alta competição. E convém esclarecer desde já algo: eu vim em paz, não se preocupem porque não trouxe nenhuma proposta de lei no bolso, não vim tentar travar a centralização, não trouxe nenhum artigo para aprovar durante a sobremesa e não vou pedir, para já, para mudarmos a capital do país para a cidade do Porto.”
A tradição ainda é o que era: “Vim fazer aquilo que esta tradição sempre fez, e bem. Celebrar, agradecer e dar os parabéns a toda a nossa família portista na Assembleia da República. Porque o FC Porto é Campeão Nacional pela 31.ª vez. E isto não é apenas um número, é uma marca, um sinal, uma confirmação e, acima de tudo, é uma conquista à Porto, com brio, com trabalho, com um sentido coletivo que não se compra nem se inventa. Hoje retomamos uma tradição, uma tradição saudável e, como todas as tradições saudáveis, eu espero que se repita. Muitas vezes e com frequência. No FC Porto há tradições que se fazem por calendário e há tradições que se fazem por mérito. Esta faz-se por mérito. E nós gostamos dela assim, porque nos obriga a uma coisa simples: se quisermos jantar mais vezes com os deputados temos de ser campeões mais vezes. Parece-me uma regra justa e é provavelmente a regra que mais disciplina traz à vida de um portista.”
A diáspora portista: “Mas esta noite não é só sobre nós, é também sobre o que o FC Porto representa. O FC Porto representa o Porto, representa o Norte, representa as regiões, representa a ideia de um país que não se conforma, que não se ajoelha e que não pede licença para existir. Por isso, agradecer-vos aqui tem peso e tem simbolismo. Agradeço à Assembleia da República e aos seus representantes a sua hospitalidade. Agradeço aos deputados portistas que, com coragem, assumem o que são onde estão. E agradeço ao Governo, aqui representado pelo Ministro dos Assuntos Parlamentares, Dr. Carlos Abreu Amorim, por estar connosco nesta celebração. Eu sei que há cada vez mais portistas da Assembleia da República, desde logo o meu caro amigo José Pedro Aguiar Branco, Presidente da Assembleia da República, pessoa que me viu crescer enquanto portista e, evidentemente, o nosso Primeiro-Ministro Luís Montenegro. E se houver por aí algum portista institucional a esconder o cachecol da gaveta, hoje é uma boa noite para deixar respirar um bocadinho mais o seu portismo. Somos Campeões Nacionais e somos Campeões Nacionais com todo o mérito, não obstante as dificuldades e os obstáculos que nos tentaram criar.”
Ser dragão na capital: “Ser portista em Lisboa, em ambiente centralista, tem um peso, tem uma carga e vocês sabem do que estou a falar. Mas é exatamente por isso que eu vos agradeço. Porque no meio do ruído, no meio das pressões, no meio das narrativas, vocês continuam a defender o Porto, a defender o Norte, a defender as regiões e a defender o FC Porto. E fazem-no com aquela teimosia saudável que é muito nossa. A teimosia de quem não aceita que o país se resuma a uma avenida e a um estúdio.”
Os méritos de Farioli: “O FC Porto foi campeão porque teve foco e união, teve método, teve exigência e teve coragem. Esta época foi uma mudança, uma transformação. De uma época para a outra mudou-se muita coisa. Mudou-se no plano desportivo, mudou-se na abordagem, mudou-se nos detalhes, mudou-se no perfil. E aqui tenho de destacar aquilo que é justo destacar. O nosso treinador, Francesco Farioli, fez um trabalho extraordinário. Não apenas no plano técnico, que é evidente, mas no plano humano, que é ainda mais importante. Soube agregar, soube unir, soube elevar, soube criar um grupo que joga como equipa e que sofre como equipa. E num clube como o nosso, onde a exigência é diária e onde a pressão é permanente, isso vale a ouro. O 31.º título do FC Porto tem, por isso, marca coletiva. Mas tem também a marca de um treinador que entrou, percebeu rapidamente o que é este clube, o que ele representa para a cidade e para a região e o que significa lutar, muitas vezes, contra os poderes instalados. Em vez de se desviar, focou-se muito no seu trabalho e ganhou.”
Os méritos dos jogadores: “E os jogadores foram extraordinários. Os que já cá estavam, que carregaram a dor de um passado recente, de anos sem títulos, transformaram essa força em energia. Os que chegaram e perceberam em tempo recorde que esta casa tem símbolos e tem regras, que aqui não há vaidades, que ninguém está acima do clube, que aqui não há desculpas, não há atalhos, há exigência e eles abraçaram isso. Hoje, somos campeões.”
Reis de Portugal: “Com este título somos agora o clube com mais títulos em Portugal. E isso é uma marca inesquecível, uma dessas marcas que ficam na história e que ninguém apaga com conversa, com revisionismo, com ruído ou a fazer contas a títulos que não existem.”
Título com dedicatória: “Permitam um momento que é importante para mim e para o FC Porto. Esta tradição não começou comigo, esta tradição tem história e tem memória. Por isso, hoje recordamos Jorge Nuno Pinto da Costa, o Presidente dos Presidentes, um homem que fez do FC Porto uma potência e que elevou este clube para um lugar de onde ninguém nos tirou e que nos deixou uma herança de ambição e de vitória. Retomar esta tradição é também uma forma de dizer que sabemos de onde vimos e que respeitamos quem construiu o nosso caminho. Recordamos também Jorge Costa, que é um símbolo vivo do nosso ADN, que conhece esta casa como poucos e que representa essa linha de continuidade entre o que fomos, o que somos e o que queremos continuar a ser.”
Um pedido simples: “No início eu disse que vim em paz, e é verdade, as também disse que não vos ia maçar com necessidades. Não vos vou maçar com o IVA, não vos vou maçar com a carga fiscal nem com o residente não habitual ou com o programa Regressar, que dava tanto jeito aos clubes de futebol. Nem com a cerveja nos estádios, nem com a centralização, nem com aquilo de que o futebol português precisa para ser mais forte, mais justo e mais moderno. Não vou maçar, só vou fazer um pedido simples, e se por acaso alguém aqui achar que estes temas fazem sentido, eu ficaria muito grato que os validassem. Com serenidade, com responsabilidade e com aquela rapidez que só aparece quando há consenso. Se for preciso, posso voltar cá para agradecer outra vez, desde que esta tradição se mantenha.”
Orgulho tripeiro: “Minhas senhoras e meus senhores, o Porto é orgulho, o Porto é caráter, o Porto é frontalidade, o Porto é aquela forma de estar que não pede desculpa por existir. E o FC Porto é isso mesmo, com símbolo ao peito. Por isso, este jantar nesta casa, nesta cidade, é mais do que um convívio. É uma afirmação de que Portugal é maior do que os seus centros e de que a vitória, quando é merecida, não tem geografia.”
Um desafio final: “E agora deixo-vos um desafio final, com toda a boa disposição, com toda a seriedade que um campeão também tem de ter. No dia em que eu vir os senhores deputados entrarem na Assembleia da República com a camisola do FC Porto eu prometo que não peço mais nada durante um mês. Um mês inteiro sem falar do IVA, da carga fiscal e da centralização. Um mês de silêncio institucional só para viver esse momento. Se acharem que é demais, aceito uma alternativa, uma bandeira ou um cachecol sobre uma varanda. Nem que seja discretamente, só para o país perceber que há portistas em todo o lado e que mesmo aqui, no epicentro de Lisboa, há quem tenha coragem de ser do Norte e de ser do FC Porto. Parabéns a todos, parabéns ao FC Porto, parabéns a nós e obrigado por esta noite. Viva o Futebol Clube Porto.”
