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Nesta entrevista em exclusivo ao Flashscore, o jogador sublinha ainda que esteve para desistir da carreira quando foi dispensado pelo SC Braga, agradece a confiança nele depositada por Luís Freire no Rio Ave e que esteve a um pequeno passo de transferir-se para um dos três grandes portugueses.
"Acabou por não acontecer, não era a altura certa e não se concretizou. Claro que na primeira semana fiquei triste, mas depois segui com a minha vida", detalha.
Pelo meio, não esconde que seria divertido se os Seagulls repetissem aquilo que o Leicester fez em 2015/16 e se sagrassem campeões ingleses.
"Este clube tem um método de trabalho que é incrível. É quase tudo gerido com base nas estatísticas. Há metas definidas e delineadas para os próximos cinco anos e um trajeto para que isso se concretize. Tudo o que pretendem, o que poderá acontecer e não acontecer", explicou.

"É incrível jogar na Premier League, um sonho que eu tinha desde criança"
- Como é que tem corrido esta experiência na Premier League? Conte-nos um bocado desta aventura no Brighton.
A experiência tem sido incrível porque é um palco onde a maior parte dos jogadores deseja e sonha chegar. E tem sido gratificante poder presenciar estes momentos no dia a dia. Em todas as jornadas há grandes jogos e, acima de tudo, tem sido uma experiência incrível: o dia a dia, a maneira como olham para o futebol, para cada detalhe e de fazerem tudo para podermos ser melhores. O Brighton, em particular, olha para o potencial dos jogadores, temos muitos jovens no plantel. Tem sido uma diferença muito grande relativamente ao Rio Ave ou ao Olympiacos, mas tem sido interessante a experiência. É incrível jogar na Premier League.
- Ainda está numa fase de adaptação, mas tem sido utilizado em quase todos os jogos da equipa. Já entrou no ritmo frenético da liga inglesa?
Após o primeiro jogo contra o Aston Villa, entrei aos 66 minutos, ganhámos, foi uma sensação incrível. Depois, chego a casa, no mesmo dia, já não sei, ou no dia a seguir, aí que começo a pensar: 'fogo, acabei de estrear-me na Premier League'. Era um sonho que eu tinha desde criança, que via um fundo muito longe, que era quase impossível lá chegar. E ainda hoje, há dias em que começo a pensar quando estou na cama, antes de dormir: 'isto é mesmo verdade? Estou mesmo na Premier League?'
Ou às vezes, no final dos treinos quando estamos a ir para o ginásio: 'fogo, é mesmo gratificante estar aqui e poder vivenciar este momento'. Em relação à estreia, foi um dia normal, mas depois do jogo houve um clique e tornou-se especial, um sentimento indescritível.
- E consegue dar alguns exemplos desta nova realidade em Inglaterra?
As principais diferenças que tenho sentido são mesmo na forma de trabalhar do clube. As coisas são feitas ao detalhe e de forma minuciosa. E os jogos também têm outro andamento. Ao início, pensei que não fosse sentir tanta diferença porque sou um jogador forte e que gosta desta componente mais física do jogo, mas quando entras nas partidas é um universo à parte.
O andamento é outro, com transições, pressão a campo inteiro, o Brighton também é conhecido por ser uma equipa que gosta de pressionar, com uma boa reação à perda da bola. Ainda há poucos dias, o nosso treinador mostrou-nos que somos a equipa da Premier League que mais quilómetros faz durante os jogos. Exige muito de nós em relação à parte física. Tem sido um teste muito, muito desafiante para mim.
- São muitos pormenores a ter em conta?
Sem dúvida. São vários detalhes: um passe tem de ser feito de determinada maneira com o pé direito, de outra com o pé esquerdo, dependendo do colega com quem jogo. O detalhe aqui é mesmo muito importante. Temos de saber, antes de receber a bola, se existe superioridade no corredor, se não a temos. Quando recuperamos a bola, temos de encontrar um passe na diagonal de forma a podermos explorar o outro corredor e sair da pressão rapidamente. São muitos pormenores que temos que assimilar nos treinos. Os treinos são difíceis, mas quando chego aos jogos sinto que é tudo muito mais fácil para mim.
- E olhando para o ambiente nos estádios, já deu para sentir o fervor dos adeptos? Como tem sido a sua adaptação à cidade e ao clube, com todas estas novidades?
Nas partidas em casa, temos sempre o estádio cheio. É um ambiente único e bonito, mesmo antes de começar o jogo tudo é totalmente diferente, com vários rituais, algumas pessoas vão aos bares e começam logo a cantar. O Brighton não é conhecido por ter adeptos muito fervorosos, mas o ambiente tem sido bom e também os jogos fora de casa têm sido uma boa experiência, os estádios estão sempre lotados.
Joguei em Old Trafford, com mais de 70 mil pessoas nas bancadas, foi incrível, um estádio histórico, ganhámos, demos a volta ao resultado. Estávamos a perder por 2-0 e vencemos por 2-3. Foi uma sensação incrível. Por enquanto, não posso dizer alguma coisa menos positiva, porque começámos muito bem esta época. Tem sido um sonho, uma experiência indescritível.
- Falou há pouco da vitória sobre o Manchester United, mas derrotar o campeão Arsenal também foi especial, uma espécie de cereja no topo do bolo, até agora?
Ainda é muito cedo. Claro que temos de sonhar alto e trabalhamos para conseguir ir além. E é o que temos feito. Na semana que antecedeu o jogo contra o Arsenal, a mensagem que o treinador Fabian Hürzeler nos passou foi que seria possível vencer. Também estou a adaptar-me a esta mentalidade que é totalmente diferente, mas gosto desta ambição.
O mister durante essa semana nas reuniões - temos muitas reuniões -, disse-nos que o Arsenal foi campeão no ano passado, foi a equipa mais consistente em tudo: 'Gosto muito do treinador, Arteta, a equipa é incrível, respeitamos ao máximo, mas acho que temos grandes hipóteses de ganhar, ainda mais jogando em casa. Temos a nossa estratégia'. A verdade é que a equipa abraçou totalmente a ideia do treinador, jogou com intensidade nos primeiros 15 a 20 minutos, ganhou várias bolas no meio-campo ofensivo. O Arsenal tentava jogar, mas não conseguia criar hipóteses de golo e no estádio começou a criar-se aquele murmurinho. O nosso treinador dá muita importância a várias coisas: nos primeiros cinco minutos, temos de ganhar o primeiro lançamento, temos de sofrer a primeira falta, temos que ganhar o primeiro duelo, temos que ganhar um canto, está a perceber?
Esses pequenos pormenores durante o jogo ajudam a nossa equipa a crescer. E claro que estamos habituados a isso, mas sentimos essa confiança dentro da equipa a crescer em cada duelo, em cada momento dos jogos. O nosso estilo de jogo é definido por isso, duelos, pressão e são aspetos muito importantes que fazem a diferença e que nos ajudam a ganharmos confiança. Foi assim que conseguimos tirar a confiança ao Arsenal, criámos as nossas oportunidades e conseguimos marcar antes do intervalo. Depois, acabámos por fazer golo no início da segunda parte e o terceiro foi a cereja do topo do bolo.
"O Brighton tem um método de trabalho que é incrível. É quase tudo gerido com base nas estatísticas"
- O Brighton está a fazer um grande início de temporada. Se o campeonato terminasse agora, seria perfeito, certo?
Seria, claro que sim. Este clube tem um método de trabalho que é incrível. É quase tudo gerido com base nas estatísticas. Há metas definidas e delineadas para os próximos cinco anos e um trajeto para que isso se concretize. Tudo o que pretendem, o que poderá acontecer e não acontecer. Mas não quero alongar-me acerca disso. Uma das metas é que o clube continue a participar nas competições europeias e que chegue à Liga dos Campeões. Se o campeonato acabasse agora, estaríamos lá e seria um objetivo cumprido (na altura da entrevista o Brighton estava em 3.º lugar, ndr).
O clube tem crescido muito nos últimos anos e tem praticado um futebol muito bonito. Criou um método e um estilo que também tem ajudado a vender jogadores para grandes clubes. Todo o staff abraça esse método, remamos todos para o mesmo lado. Quem fizer o contrário, vai embora, eles não querem saber. Até por isso, tem sido uma experiência diferente. Não vinha com essa mentalidade do Rio Ave ou do Olympiacos, apesar de serem grandes clubes que me fizeram crescer, mas aqui no Brighton são pormenores totalmente diferentes. Pretendo continuar porque tem sido uma grande experiência.
- E a adaptação à cidade, como tem corrido?
Tem sido mais fácil do que eu esperava. Tenho praia, mas não tenho areia, apenas com pedras (risos). Este ano tem sido um dos mais quentes nos últimos anos aqui em Inglaterra, especialmente em Brighton. Vivi os últimos anos em Atenas e tinha uma vida incrível, mas colocando tudo na balança, o futebol, a qualidade de vida, aqui é muito melhor. O clube dá-me todo o suporte, não só para mim, como para a minha namorada para estarmos o mais tranquilos possíveis em tudo, ajudam-nos com tudo. Querem que nos sintamos bem e que o futebol seja a única preocupação. Tem sido uma adaptação boa. Só inicialmente é que andei a ver casas, mas depois de ter resolvido essa questão, as coisas acalmaram-se.
- E como tem sido o seu dia a dia, entre os treinos, jogos e descanso?
A minha vida agora vai ser muito diferente. Vamos ter vários jogos no espaço de um mês, será uma corrida. Dessas partidas, mais de metade vão ser fora de casa, com muitas viagens, teremos ainda a Liga Conferência. Mas o meu dia a dia é normal, saio de casa por volta das oito horas, vivo a cinco minutos do centro de treinos. Tomo o pequeno-almoço no clube, depois faço tratamentos, uma pré-ativação a seguir, o treino por norma dura uma hora e meia, uma hora e 45 minutos, por vezes duas horas.
Muitas vezes fazemos também um trabalho complementar. Dez, 15 minutos depois do treino, a maior parte das vezes ficamos a fazer trabalho complementar: os defesas-centrais fazem um treino específico, os laterais o mesmo. Há um staff diferente e especializado para trabalhar com os jogadores de todas as posições. Depois, dependendo dos dias, poderemos ir ao ginásio, trabalhar mais pernas ou a parte superior. Almoço quase sempre no clube.

- Percebe tudo o que lhe dizem, como está o seu nível de inglês?
Tenho aulas de inglês, ainda estou a melhorar. Aqui a pronúncia é mais agressiva e tenho tido algumas dificuldades em entender, mas já estou muito melhor. O clube também tem essa preocupação. Há uma professora de inglês que está disponível para nós e tenho tido aulas. Depois disso, quando saio do centro de treinos, ainda faço uma sesta. Fico por casa ou então vou dar uma volta com a minha namorada e com a cadela. O centro de Brighton fica a 15, 20 minutos da minha casa. Aproveitamos para dar uma volta e jantamos. Às 22:00, 22:30, vou dormir. Nos dias de folga, como estamos a uma hora e um quarto, mais ou menos, vamos até Londres. Já lá estive com a minha família quando vieram visitar-me.
- Há pouco, o Costinha falou sobre a questão dos dados e da importância que têm no seio do Brighton e de todo o conglomerado de clubes ligados ao dono Tony Bloom. Consegue detalhar como foram os bastidores da sua contratação?
Tive um impacto inicial logo nas primeiras conversas e nos primeiros dias em que comecei a treinar percebi isso com o staff e com os restantes jogadores. Em relação à minha contratação, tinham um relatório completo com os meus dados, quanto é que consigo colocar em termos de alta intensidade nos jogos, quantos quilómetros faço, em média, nas partidas, qual é a minha mentalidade. Tinham mais laterais-direitos que tinham em mente contratar.
Um ano e meio antes de acertarem a minha contratação, começaram a perguntar a vários jogadores que foram meus adversários ou que foram meus colegas de equipa quando eu tinha 18 anos no Rio Ave, que não jogava e só treinava na equipa principal. Perguntaram-lhes como é que eu era no treino, fora do treino, como é que me conheceram. Depois, mais tarde, perguntaram a antigos treinadores meus, acho que até foi ao staff do Luís Freire. Depois, foram escalando e tiveram contacto com os meus amigos mais chegados. Falaram, por exemplo, com o Aderlan Santos, somos muito próximos e ele ajudou-me bastante. Somos amigos e ele conhece-me muito bem.
Falaram com o Marcelo, que agora joga no Leiria. Nunca foi meu colega de equipa, apenas joguei contra ele. E então depois o Marcelo veio falar comigo e disse-me isso. Dá para perceber o quão longe eles vão para tentarem ter uma margem mínima de erro quando vão contratar um jogador. No meu caso, tenho 26 anos, mas aqui sinto-me já como se fosse um cota, sou um dos jogadores mais velhos do plantel. O clube vai ao detalhe relativamente a tudo, treinos, jogos, contratações, alimentação. Os atletas têm de estar ao mais alto nível em todos os aspetos para poderem conseguir chegar cá e ter sucesso. E eu não fugi a essa regra.
- Tem tido um percurso ascendente. O próximo passo será chegar à seleção nacional. A concorrência do João Cancelo, Nélson Semedo, Diogo Dalot, Alberto Costa e Matheus Nunes não o assustam e já recebeu algum contacto do atual selecionador, Jorge Jesus, ou do anterior, Roberto Martínez?
Não, nunca tive anteriormente nenhum contacto. A seleção sempre foi e sempre será um sonho. Portugal está muito bem servido a nível de laterais. Continuo a ter o mesmo sonho e estou num dos grandes palcos para lá chegar. Só tenho de fazer o meu trabalho, ganhar o meu espaço aos poucos aqui e ter mais jogos para poder estar nessa lista e um dia ser chamado.

- Nas seleções jovens de Portugal, soma 35 internacionalizações. É um número que impõe algum respeito.
Durante a minha formação, integrei as seleções mais jovens e tive esse privilégio. Sabia que seria difícil ser chamado para a Seleção A jogando no Olympiacos, tendo em conta a concorrência. Na Premier League, sabendo que continua a ser muito difícil lá chegar, sinto que estarei um passo mais perto de concretizar esse sonho. Tenho de fazer o meu trabalho e ser consistente. Não posso deixar de ter esse sonho.
- E em relação à concorrência, o que poderá acrescentar?
O que eu podia acrescentar... Não preciso falar muito sobre o João Cancelo, a história dele já está escrita, é um jogador incrível, taticamente e tecnicamente muito forte. O meu perfil é muito mais parecido com o Diogo Dalot, mais físico, defensivamente mais sólido e é isso que poderei dar, trazer mais fisicalidade, ofensivamente consigo envolver-me nas manobras da equipa e defensivamente sou um jogador mais sólido. Dependerá sempre daquilo que o mister Jorge Jesus quer, da forma como pretende jogar. Tento sempre adaptar-me às ideias dos treinadores. Aprendo todos os dias e tento melhorar os aspetos menos positivos do meu jogo. Posso dar outro andamento ao corredor e ajudar a seleção a vencer todos os jogos. Temos uma qualidade incrível.
- E olhando para a seleção, gostou destes primeiros quatro jogos da era Jorge Jesus? Como viu a questão entre ele e Cristiano Ronaldo?
Já se falou muito, até demais sobre o assunto. Creio que nem é saudável continuarmos agarrados a isso porque o caso será resolvido da melhor maneira, espero eu. Todos nós, jogadores, dirigentes, selecionador, fãs e comunicação, teremos de remar para o mesmo lado, apoiar e ajudar ao máximo Portugal a vencer.
Mas falando de futebol, dos últimos quatro jogos, foi visível para toda a gente que fomos muito competitivos, conseguimos ganhar, que é o mais importante, e a nível de futebol acho que foi muito positivo. Em tão pouco tempo não é fácil também para o treinador e para os jogadores, mas estamos no bom caminho. Há uma boa ligação entre os jogadores, taticamente já se viram algumas coisas, mas creio que é preciso dar mais tempo.
O mister Jorge Jesus tem boas ideias de jogo. Também tenho alguns antigos colegas que já me falaram sobre ele e dizem que foi o melhor treinador que já apanharam em termos táticos. Por isso, acho que a seleção irá melhorar. E esse é também mais um motivo para tentar chegar à seleção, gostaria de ter a experiência de trabalhar com ele.

Carreira em risco aos 18 anos: "Esta é a minha última oportunidade e tenho de agarrá-la"
- Esteve sete épocas ligado ao Rio Ave, desde os juniores, passando pelos sub-23 e até chegar à equipa principal. Quais são as memórias que guarda desse período?
O Rio Ave é uma história muito bonita e fui muito feliz em Vila do Conde. Olhando para trás, por vezes, havia momentos em que me queixava: 'se calhar perdi aqui um ano ou dois, porque demorei um pouco naquela transição até chegar à equipa principal'. Agora, mais a frio, foi o caminho perfeito e foi o Rio Ave quem me deu a mão quando mais precisei e ajudou-me a ser aquilo que sou hoje em dia.
Cheguei ao clube numa situação complicada. Aos 17 anos, fui dispensado do SC Braga e cheguei a confidenciar aos meus pais que o futebol tinha acabado para mim. Não era isso que eu queria, os meus pais fizeram um sacrifício enorme desde que comecei a jogar. Fizeram de tudo para que não me faltasse nada e pudesse dedicar-me ao futebol. Depois, quando fui dispensado no SC Braga - e acho que mereci ser dispensado após a temporada que realizei -, fiquei sem chão.
Vivi praticamente quatro anos em Braga, ia todos os dias de manhã para a cidade, andava numa escola lá, todos os meus amigos eram de Braga, conheci lá a minha namorada. Quase tudo o que tinha estava lá e de um dia para o outro, acabou tudo. E foi um choque um bocado forte para mim. Disse aos meus pais que o futebol tinha acabado, que ia deixar porque não estava bem, tinha sido dispensado e também não estava bem na escola.
Senti que estava a dar um desgosto aos meus pais. 'O que vou fazer agora?' Os meus pais trabalhavam na agricultura, apesar de gostar muito, não queria também trabalhar nesse mundo. Quando surgiu a oportunidade de jogar no Rio Ave, mudou um bocadinho o chip na minha mente: 'esta é a minha última oportunidade e tenho de agarrá-la seja de que maneira for'.
Comecei bem, o primeiro jogo foi contra o FC Porto, estive bem, ganhámos e foi engraçado. Quatro meses e meio depois, consegui fazer a minha estreia pelos sub-21 no Estádio 1.º de Maio. E tinha sido dispensado pelo SC Braga há poucos meses. Na formação, treinávamos nesse estádio.
- Coincidências, certo?
É uma história bonita. Não, não guardo rancores do SC Braga, nem de perto, nem de longe. Foi o melhor que me poderia ter acontecido naquela altura, porque foi isso que me fez crescer. Mudou a minha mentalidade e agarrei-me a isso. Também tive pessoas que me ajudaram no Rio Ave, foram muitas que tiveram influência no meu crescimento, que acreditaram em mim e no meu trabalho.
No Rio Ave, fiz a primeira época nos juniores, passei para os sub-23, fizemos uma grande época e acabámos por perder o campeonato para o AFS. Depois, no segundo ano, quando estávamos bem classificados, veio a COVID-19, acabou o campeonato e não fomos campeões. Na terceira temporada, treinava com o plantel principal e quase só jogava nos sub-23. Foi nessa época que o Rio Ave desceu de divisão, tínhamos jogadores incríveis no plantel e estivemos quase a eliminar o AC Milan. Nas seleções, o mister Filipe Ramos ajudou-me, falava muito comigo, o que pretendia que fosse enquanto jogador e pessoa.
- Esse jogo no Estádio dos Arcos foi épico?
Foi. Nessa época, 2020/21, acabámos por descer de divisão e foi uma frustração enorme, fui utilizado em dez jogos, quatro como titular. Quando começo a jogar, na minha época como sénior, descemos de divisão e foi o melhor que poderia acontecer naquela altura. Tive mais oportunidades, precisava mesmo de jogar. No primeiro ou segundo treino, fui falar com o mister Luís Freire, foi ele quem agarrou o projeto na Liga 2: 'Mister, quero ser muito sincero consigo, joguei pouco, você sabe que joguei pouco ano passado e quero mesmo jogar, preciso de jogar e quero dar o melhor de mim, por favor, diga-me se conta comigo ou não o mais cedo possível porque nem que seja na Liga 3, quero é jogar'.
Aos poucos, fui ganhando o meu espaço, comecei a jogar com regularidade e acabo por jogar a época quase toda. Fomos campeões da Liga 2 e regressámos à Liga Portugal. O mister continuou a acreditar em mim, tivemos muitas dificuldades porque o Rio Ave estava impedido de contratar jogadores durante três janelas, mas conseguimos garantir a manutenção que era o grande objetivo. Antes de sair do Rio Ave, consegui crescer e fiz parte do melhor onze do campeonato o que foi muito gratificante para mim.
- E a saída para o Olympiacos?
Acabo por ir para o Olympiacos de uma forma um bocadinho diferente do normal, mas acaba por acontecer e inicialmente não era o que eu mais queria, mas depois pensei melhor e decidi que era a altura certa para o fazer, precisava de dar um passo diferente. Começou-se a falar do interesse do Olympiacos, nessa época em novembro. Sendo português, antes de sair de Portugal, tinha o sonho de jogar num dos grandes clubes, mas se as coisas não aconteceram, é porque não tinham de acontecer.
Na ocasião, falaram-me da questão de o investidor entrar no clube porque o Rio Ave estava a atravessar bastantes dificuldades financeiras. O negócio estava praticamente fechado antes do mercado de janeiro. Fiquei mais seis meses em Vila do Conde. Nessa época, o Olympiacos ganhou a Liga Conferência e apurou-se para a Liga Europa.
- E chegou a receber sondagens de alguns dos grandes clubes de Portugal?
Tive, não vou dizer que esteve quase fechado, mas estive perto de mudar-me para um dos ditos três grandes.
- E poderemos dizer qual foi?
Não sei. Deixamos aí a imaginação das pessoas. Na altura o que me chegaram a falar foi do FC Porto, mas acabou por não acontecer, não era a altura certa e não se concretizou. Claro que na primeira semana fiquei triste, mas depois segui com a minha vida.

- E quais são os próximos objetivos, consolidar a carreira na Premier League ao serviço do Brighton ou, eventualmente, abraçar outro desafio num clube mais mediático?
Estou aqui há pouco tempo e as coisas têm corrido bem. Ainda não fiz muitos jogos, mas em termos coletivos tem corrido muito bem, estou a adorar esta experiência. Não digo que descarto um clube português, um grande português, mas quero consolidar-me no Brighton e tentar manter-me na Premier League, porque estou numa outra realidade.
- E quem são as suas principais referências?
Os meus pais são as minhas principais referências. Eles não gostavam muito de futebol, mas agora foram obrigados a gostar. Cristiano Ronaldo sempre foi uma referência pela mentalidade dele, sempre gostei de ver os vídeos dele, a forma como joga e como trabalha. Em relação a jogadores que atuam na minha posição, Kyle Walker, Hakimi, Trent Alexander-Arnold, João Cancelo é incrível. O Nuno Mendes também é sensacional. No clube enviam-me alguns vídeos dele, do Hakimi e Cancelo para me inspirar, são estas as minhas referências.
- Vejo-o emocionado sempre que fala dos seus pais. Gostaria de dizer-lhes alguma coisa?
Só agradecer. Eles sabem o quão grato estou e tento mostrar isso cada vez mais, com pequenos gestos, um abraço. Quando era mais pequeno, não tínhamos tanto essa mentalidade, mas tento proporcionar-lhes o máximo que consigo. Ainda não lhes comprei uma casa, mas já fizemos várias viagens. A casa é um sonho que tenho e espero concretizá-lo.
A primeira viagem que fizemos em família foi quando tinha 21 anos e fomos até Tróia. Saímos da nossa aldeia, que é a nossa zona de conforto. Toda a família foi connosco, até levámos a minha cadela, e foram momentos incríveis e muito gratificantes. Depois, consegui levá-los até à Grécia e já estiveram aqui em Brighton. A minha namorada também é uma pessoa muito importante, começámos a namorar quando fui dispensado do SC Braga, ela é natural de Braga. Na altura, nenhum de nós tinha carta, vivia em Vila do Conde e foi um bocado difícil. Tem estado comigo neste percurso.

- E quais foram os jogadores mais difíceis que já enfrentou?
Já apanhei alguns. Vinícius Júnior no ano passado. Joguei apenas 20 minutos, mas foi muito difícil. Ele é muito forte no um contra um, muito explosivo e tem muitos recursos. Foi complicado jogar contra ele. Há pouco tempo defrontei o Odegaard, Bruno Fernandes também é especial, mas assim de repente, acho que o Vinícius foi o jogador mais difícil que já enfrentei.
- E quem são os treinadores mais marcantes? Já falou em dois.
Todos me marcaram um bocadinho. O mister Mateus nos juniores do Rio Ave espremeu-me ao máximo e disse-me o seguinte: 'Tens de melhorar, estás à porta das seleções mais jovens de Portugal, mas tens de melhorar nalguns aspetos'. O mister Pedro Cunha também. Tínhamos uma equipa nos sub-23 com uma idade média baixa e praticávamos um futebol incrível, comecei a jogar com 18 anos na equipa.
Luís Freire ajudou-me imenso, trabalhei três anos com ele. Foram anos de constante aprendizagem, é uma pessoa um pouco como eu, maluca pelo trabalho, que acredita muito naquilo que está a fazer. Dizia 'se 10 horas de trabalho não são suficientes, trabalha 12'.
O mister José Luis Mendilibar é um pouco old school em algumas coisas, mas é uma pessoa incrível. O lado pessoal dele é incrível. Consegue criar laços fortes com os jogadores nos treinos, está sempre a puxar por nós. Depois da dúvida de ir ou não para o Olympiacos, acreditou em mim e no meu trabalho. Ganhei a Liga grega, a Taça, a Supertaça, joguei na Liga Europa e na Liga dos Campeões. Foi uma experiência incrível. Mas é muito ingrato falar só de algumas pessoas e não falar das equipas técnicas. A presidente do Rio Ave ajudou-me muito, acreditou sempre em mim.
- Tem algumas histórias com Luís Freire que queira partilhar?
Ele às vezes acordava a meio da noite com ideias. Creio que foi após um jogo contra o Sporting em que perdemos por três ou quatro golos, foi uma exibição muito fraca da nossa parte. Tivemos folga e no dia seguinte ele apareceu na reunião com umas olheiras enormes e disse: 'vocês têm de acreditar nisto tanto como eu. Já vi este jogo cinco ou seis vezes. Temos de pensar neste jogo porque ficou-me atravessado e temos de nos agarrar a isto para todos podermos melhorar'. O mister Luís Freire é assim.

- Quando o Costinha ainda estava a dar os primeiros passos como sénior, um colega seu elogiou-o bastante. Quer detalhar essa história?
O Aderlan Santos cuidou de mim como se fosse filho dele. Lembro-me que concedeu uma entrevista, na altura em que o Real Madrid contratou Éder Militão ao FC Porto, perguntaram-lhe quem poderia ser o próximo Militão do Rio Ave e ele disse que acreditava muito no meu trabalho e que poderia dar muito ao futebol português. São histórias e episódios que ficam na memória e que são gratificantes.
- Representou o Olympiacos durante duas épocas e conhece bem a realidade do país. A nova geração grega tem vários talentos. Qual é o segredo?
Não vou dizer que a Liga da Grécia é melhor do que a portuguesa, mas o nível não é muito diferente. É um campeonato muito forte e competitivo. No Olympiacos a exigência é enorme e quando empatamos um jogo, parece que perdemos. Quando isso acontece, não te dizem bom dia, olham para ti de maneira diferente. Empatámos um jogo em casa da Liga Europa contra o Rangers, no dia seguinte tivemos um treino e não nos cumprimentaram e olhavam para nós de forma desconfiada.
Falando dos jovens, no Olympiacos tínhamos vários talentos no plantel, como o Mouzakitis que está agora no Hull City. E não é fácil um jogador vir da formação e estrear-se na equipa principal porque a exigência é sempre alta, temos de ganhar todos os jogos.
Giannis Konstantelias, que agora está no Borussia Dortmund e lesionou-se com gravidade, é um nome a ter em conta. Defrontei-o quando ele estava no PAOK e passei mal com ele duas vezes, o rapaz tem muita qualidade, é muito bom jogador. O clube não o quis logo vender, queriam que ficasse no aniversário de 125 anos.
- O Brighton tem sido a rampa de lançamento de vários jogadores nas últimas épocas. Quais são os colegas de equipa que mais o têm surpreendido?
É uma pergunta muito difícil, mas temos vários jogadores. O que mais me surpreendeu tem sido o Pascal Gross, mas não é uma surpresa para ninguém, já foi eleito o jogador do mês. Tem 35 anos, mas a dedicação, a paixão dele nos treinos e nos jogos são acima da média. Todos os dias, após os treinos, fica em campo mais 15 minutos, a trabalhar a finalização, a bater livres ou grandes penalidades. Com a idade que tem, faz cerca de 13 quilómetros a cada três dias. E penso 'como é que é possível?'. Pressiona como um maluco.

Mas temos um plantel com muita qualidade. Kostoulas teve uma adaptação complicada na época passada, com muitas lesões porque estava a habituar-se à intensidade da Premier League, fisicamente é muito forte, mas aqui em Inglaterra o andamento é diferente. Luka Vuskovic surpreendeu-me bastante também, tem 19 anos e uma maturidade impressionante. Também gosto muito do Diego Gómez, fez vários jogos na temporada passada, mas este ano está muito bem.
E o Malick Yalcouyé. Sendo sincero, na pré-época olhava para ele, um miúdo fininho, pequenino, tinha uma qualidade do caraças, mas depois pensava 'será que este gajo vai ter hipótese com 65 quilos na Premier League?'. Nos primeiros jogos que fizemos, passava com uma enorme facilidade pelos adversários, roda sobre eles, consegue fugir com e sem bola, procura o espaço livre, consegue progredir. Com confiança, está a tornar-se num monstro. Quando regressou da seleção da Costa do Marfim, fez o primeiro treino e marcou um golo incrível. Se não tiver lesões, pode ter muito sucesso e poderá ser mais um dos jogadores que o clube irá vender.
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