- Já passaram sete anos desde que se retirou. O que anda a fazer Gábor Király atualmente?
Comecei a construir um centro desportivo há 23 anos e, todos os anos, temos vindo a desenvolvê-lo. Agora temos sete campos de futebol, um hotel de quatro estrelas, salas de conferências e um centro de reabilitação com 12 médicos. Temos o nosso próprio clube desportivo com 400 crianças e 70 pessoas trabalham no complexo desportivo. Sou o presidente e o proprietário, por isso trato da estratégia, da estrutura, de tudo. A nossa equipa principal subiu à terceira liga pela primeira vez na nossa história, que é o nível mais alto que queríamos alcançar. Esse era o nosso sonho. Também temos equipas jovens desde o jardim de infância, desde os cinco anos, até às equipas de adultos. É um centro de treinos construído em família e desenvolvemo-lo todos os anos.
- Reformou-se aos 43 anos, uma idade notável para um futebolista...
Comecei aos 17 anos com o meu primeiro jogo profissional e terminei aos 43. Em 26 anos joguei 882 jogos profissionais. Muita ação, muitos golos, muitas experiências positivas e negativas, mas estou simplesmente feliz por ter feito parte do mundo do futebol. Cada ano, cada clube foi uma grande experiência e absorvi tudo. Quando comecei, o meu sonho era que, ao terminar, sentisse que tinha atingido a forma máxima do meu corpo e do meu conhecimento. Consegui, porque já não há nada que o futebol me possa dar. Cometi erros, fiz grandes defesas, cheguei ao Campeonato da Europa de 2016 com a seleção, joguei na Bundesliga e na Premier League. Tudo o que queria, vivi a experiência e uso-a para o futuro, para mostrar às pessoas até onde podem chegar.
- Temos de falar sobre aquilo que mais o identifica, as calças de fato de treino. É verdade que as começou a usar por acaso, porque alguém no seu clube se esqueceu de lavar os calções?
Não só os meus, os de toda a gente! A máquina de lavar não funcionava, por isso as calças não foram lavadas. No dia seguinte havia um jogo da primeira liga na Hungria, por isso tive de usar as cinzentas, e ganhámos. Nessa altura, a nossa equipa estava em posição de despromoção, e ganhámos. Depois desse jogo, tudo estava limpo novamente para o jogo seguinte, por isso voltei aos calções pretos. Mas lembrei-me que tínhamos ganho com as calças cinzentas, por isso voltei a usá-las, e voltámos a ganhar. Subimos para o meio da tabela, por volta do oitavo ou 10.º lugar. Disse para mim mesmo, estas calças cinzentas dão sorte, e desde então nunca mais deixei de as usar. É toda a história.

- Algum treinador ou árbitro alguma vez lhe disse que tinha de usar calções normais, ou nunca ninguém questionou?
Algumas pessoas tentaram. Um clube contratava-me e depois dizia: 'Gábor, não queremos essas calças cinzentas.' E eu respondia: 'Contrataram-me, aceitaram-me com as calças compridas, por isso tenho de jogar com elas.' Havia piadas, claro, mas também treinava todos os dias com elas, por isso não era diferente. Usava-as também nos treinos.
- Quando um equipamento se torna parte da sua marca, como as calças de fato de treino para si ou o capacete para o Petr Čech, encara isso com naturalidade ou as perguntas acabam por se tornar irritantes ao fim de tantos anos?
É uma questão muito interessante. Sempre as usei apenas para trabalhar. Joguei 26 anos como profissional, 23 deles com as calças cinzentas. Mas as pessoas pediam-me: 'Posso ter umas calças cinzentas, para o Natal?' Eu dizia que sim, e todos os anos mais pessoas as queriam, apenas como recordação. Mais tarde pensei que talvez devêssemos criar uma marca depois da minha carreira, porque as pessoas queriam. Ainda hoje produzimos as calças cinzentas e as pessoas encomendam-nas. É divertido, uma boa história. Mas durante a minha carreira, para mim as calças cinzentas eram como as botas, as luvas ou a bola. Usava-as para trabalhar, não para exibir."
- Jogou mais de duas décadas. Como acha que a posição de guarda-redes evoluiu desde os seus melhores anos até aos guarda-redes de topo de hoje?
A posição de guarda-redes está sempre a evoluir. Todos os anos os guarda-redes são mais rápidos, mais fortes, mais ágeis. Mas os golos continuam a decidir-se pelo mesmo: se agarras a bola ou não, se estás na posição certa ou não. Muita coisa mudou, mas sinto que as pessoas já não se concentram tanto na posição e no movimento corretos. Focam-se em fazer uma grande defesa para as câmaras. A análise hoje é muito maior, mas nem sempre é pelo caminho certo, e é isso que sinto falta no futebol moderno. Vê-se guarda-redes a mergulhar para trás da linha de golo, ou para trás, em vez de avançarem e atacarem a bola.
"A tradição volta sempre"
- Vamos falar da sua carreira. Chamou a atenção dos adeptos no Hertha Berlim, na Bundesliga. Karl-Heinz Rummenigge chegou a dizer na televisão que era melhor na linha do que o Oliver Kahn, e teve aquele grande jogo em San Siro contra o AC Milan na época de estreia do Hertha na Liga dos Campeões. Como recorda esses anos de afirmação no Hertha?
Foi uma grande experiência, mas era muito jovem, 22 ou 23 anos, sem muita experiência. Aprendi muito e os passos foram muito rápidos. Joguei na liga húngara, depois de repente estava na Bundesliga. No meu primeiro ano mantivemo-nos na liga, no segundo ficámos em terceiro e qualificámo-nos para a Liga dos Campeões, por isso no início do terceiro ano já estava a jogar contra grandes estrelas, Bergkamp, Del Piero, Rivaldo... Tudo isso em três anos foi muito rápido! Tenho saudades desses tempos porque pude jogar contra grandes estrelas, grandes personalidades que já não são tão comuns no futebol moderno. Foi uma grande experiência e ficou na minha mentalidade para dar os próximos passos.

- O que pensa da situação atual do Hertha, despromovido à 2. Bundesliga? Parece estranho que um clube desse tamanho, da capital, não esteja no principal escalão.
O Hertha Berlim continua a ser o número um em Berlim, não importa em que liga jogue. Sei que o Union Berlin está na primeira liga neste momento, mas o Hertha é o maior clube, com grande história, e precisa de voltar. Muitos clubes tradicionais já jogaram na segunda, terceira, até quarta liga. Mas a tradição volta sempre. Isso é o mais importante. Os clubes pequenos às vezes sobem e ficam no topo durante alguns anos, mas acabam sempre por descer. A tradição permanece sempre.
- Em 2001 houve notícias de que o Arsenal o queria e o Hertha fixou o seu preço em 7,5 milhões de euros. Quão perto esteve essa transferência?
Os dois clubes falaram sobre o negócio, mas eu não fazia ideia do que estavam a discutir. Tinha muitas opções. Falei com o Kevin Keegan quando estava no Manchester City, com o Baresi no AC Milan, com o Trapattoni sobre a Fiorentina, e o Gianluca Vialli era o treinador do Chelsea na altura. Estávamos a jogar na Liga dos Campeões e o Hertha estava entre os 16 melhores clubes, por isso era natural que houvesse atenção sobre nós. Mas sempre me senti bem em Berlim. Era uma boa oportunidade, mas no fim os dois clubes não chegaram a acordo.
"Palace construído para o futuro"
- Acabou por ir para o Crystal Palace, onde é mais conhecido entre adeptos internacionais e ingleses, e formou uma parceria e rivalidade com o Julian Speroni. Ambos se tornaram lendas do Palace. Qual é a sua relação com ele?
O Julian é uma excelente pessoa e um grande guarda-redes. Chegámos juntos ao Crystal Palace. Depois de três anos saí, e penso que o Julian ficou cerca de 15 anos no clube. Continuamos em contacto, tal como com pessoas de muitos dos meus clubes. Sempre que joguei por um clube, dei tudo – trabalho, força, tempo... Gosto sempre de recordar os bons momentos e manter o contacto com as pessoas desses tempos. É uma sensação simples e boa."
- Da perspetiva de um guarda-redes, é melhor ter um papel claro de número um, ou uma situação como a que teve com o Speroni, a desafiarem-se mutuamente para serem melhores, a lutar pela titularidade?
Depende da pessoa. Para mim, sempre que chegava a um clube, nunca falava sobre número um, dois, três ou quatro. São os guarda-redes, a união dos guarda-redes. Claro, só um fica na baliza, mas três guarda-redes trabalham toda a semana para o sucesso do clube. Isso é o que importa. Não és tu o importante, é o clube que importa. Podes fazer uma boa exibição e decidir alguns jogos, mas o clube e a tradição vêm primeiro. Jogadores e treinadores vão e vêm, mas a tradição do clube e os adeptos ficam sempre. É preciso perceber que se joga por cada clube, porque cada clube tem uma história. Sempre foi essa a minha abordagem. Mesmo quando estive no Leverkusen só meio ano, dei 100 por cento, porque não consigo trabalhar de outra forma. É preciso jogar por cada clube com o coração, e foi isso que fiz.
- O Palace em que jogou era um clube "ioiô". Agora conquistaram três troféus em dois anos sob o comando de Oliver Glasner. O que acha deste sucesso e alguma vez imaginou estas épocas?
O sucesso deste clube deve-se ao senhor Steve Parish. Ele tornou este clube tão grande, porque tem uma grande estratégia e estrutura e constrói para o futuro. Começou a construir o Crystal Palace por volta de 2010, e é inacreditável até onde chegaram. Ganharam a Liga Conferência e a Taça de Inglaterra, é incrível. Conheço algumas das pessoas que ainda trabalham no clube, algumas estão lá há 20 ou 30 anos, e têm orgulho em avançar passo a passo. Os valores mantêm-se sempre fortes, e isso é importante. Não importa em que liga o Palace jogou, a identidade é muito importante. Continuo adepto do Crystal Palace, faço parte desse clube, tal como faço parte do Hertha Berlim ou do 1860 Munique, porque tenho essa ligação. Depois da minha carreira, por vezes trabalhei para o Crystal Palace nas salas VIP com os seus convidados, como muitos ex-jogadores. Isso ajuda a manter a ligação aos clubes mesmo depois da carreira."
- Dean Henderson tornou-se o titular indiscutível do Palace. O que pensa dele depois do seu percurso pelo Manchester United?
É uma excelente pessoa e um grande guarda-redes, e as suas exibições têm sido muito importantes para o Crystal Palace. Em situações muito difíceis esteve lá, a defender penáltis e muitos remates. É o melhor guarda-redes do Crystal Palace neste momento, não há dúvida.
Compreender o trabalho
- Em 2016 foi ao Europeu com a Hungria e tornou-se o jogador mais velho do torneio, um recorde depois batido pelo Pepe, embora continue a ser o guarda-redes mais velho a jogar num Europeu. O que significou para si representar o seu país aos 40 anos num palco tão grande?
Toda a carreira de futebol tem altos e baixos, e é importante aprender com isso. Quando tinha 30 anos, muita gente dizia que o Gábor já era velho e devia retirar-se. Eu disse que não, queria jogar, queria desfrutar do futebol, e comecei a melhorar o meu rendimento vez após vez. Aos 40 anos estava na seleção nacional ao lado de jogadores com cerca de 20, é uma grande diferença. Qualificámo-nos através do playoff contra a Noruega, e fiquei muito feliz. Simplesmente desfrutei. Via aquilo como trabalho, não como um grande espetáculo, e terminar a carreira na seleção num Campeonato da Europa foi uma grande sensação. Fiquei muito feliz.

- A Hungria tem agora uma geração talentosa centrada em jogadores como o Szoboszlai ou o Kerkez. O que pensa da seleção atual e do trabalho feito por Marco Rossi?
O Marco Rossi é o treinador certo para a Hungria, porque conhece bem o país. Ganhou o campeonato húngaro com o Honvéd, sabe como pensam os húngaros e os jogadores húngaros. É uma excelente pessoa para a seleção. Temos alguns jovens jogadores muito bons na equipa, precisam de tempo para errar e aprender. A Federação Húngara de Futebol e o seu presidente, o senhor Csányi, deram ao Rossi a oportunidade de desenvolver o futebol húngaro, e isso é um trabalho a longo prazo. Se trabalhares a longo prazo, vais ter sucesso.
- O que torna o Dominik Szoboszlai tão especial e o motor tanto do Liverpool como da Hungria?
Para mim, o mais importante é que ele quer trabalhar para o futebol. Não quer ser apenas um artista, quer trabalhar, e sabe que se trabalhares, vais ter sucesso. Jogue onde jogar, a lateral-direito ou a médio-centro, não importa, faz o seu trabalho. Ele percebe isso, e é por isso que tem tanto sucesso.
- A Hungria tem agora dois grandes talentos em clubes de topo, o Pécsi no Liverpool e o Yaakobishvili no Barcelona. Como os avalia e poderá haver uma luta entre eles para ser o número um da Hungria?
Sempre tivemos jovens guarda-redes talentosos, mas o importante é manter-se ao mais alto nível. Estive 18 anos em Inglaterra e na Bundesliga, dos 21 aos 39, ao mais alto nível. Todos os jogadores a este nível têm talento para alguma coisa, mas todos os anos tens de lutar. Tens de mostrar que és melhor, ano após ano. Na minha carreira tentei mostrar às pessoas que era o melhor guarda-redes durante 26 anos. Por vezes não consegui, e não há problema, mas tens de tentar. Estes jovens guarda-redes têm uma boa oportunidade, mas têm de trabalhar e continuar a chegar ao mais alto nível. Espero que sejam bons para a nossa seleção.
