Stam sentou-se com o Flashscore para discutir o início de época difícil do United sob o comando de Michael Carrick, os primeiros jogos de Xavi à frente da seleção dos Países Baixos e se o dominante defesa alguma vez temeu verdadeiramente um adversário.
- O Manchester United perdeu dois pontos contra o Tottenham no passado fim de semana (1-1) e este é o seu pior início de época na Premier League em 40 anos. Como avalia o desempenho da equipa nesse jogo e desde o início da temporada? O que acha que está a correr mal?
Toda a gente está desapontada com a forma como começaram a época. Penso que eles próprios também. Se ouvirmos Michael Carrick, ele está muito desapontado, porque todos queriam ter tido um início melhor. Na época anterior, quando assumiu o cargo, tiveram um desempenho muito bom. Jogaram muito bem quando regressou ao sistema 4-3-3 depois de Amorim; foram bem-sucedidos e conseguiram chegar à Liga dos Campeões, que era o objetivo.
No início desta época, esperava-se que dessem o próximo passo. Adicionaram alguns bons jogadores ao meio-campo. Por isso, é dececionante quando não se conseguem os resultados. Mas também temos de ter em conta que, num clube como o United, há uma pressão enorme e todos esperam muito deles. E também sabemos que as coisas não acontecem da noite para o dia. Por vezes, com a chegada de novos jogadores, demora um pouco até que todos se adaptem uns aos outros. Ainda assim, queremos vê-los a ter mais sucesso e, por vezes, a jogar melhor futebol.
- O que correu mal especificamente no jogo contra o Tottenham?
Especialmente a primeira parte não foi boa. Sentiram muitas dificuldades em pressionar o Tottenham e, com bola, em sair a jogar desde trás ou em ter um pouco mais de posse. Não estavam suficientemente confiantes e não encontraram as pessoas certas para pegar na bola, ser criativos ou fazer a diferença. Se olharmos para aquela primeira parte, podemos dizer: 'Ok, parece preocupante'.
Mas depois, na segunda parte, após algumas substituições, o Carlos Baleba entrou, o Joshua Zirkzee também entrou, e trouxeram elementos frescos para o jogo. E pode ver-se que eles conseguem marcar do nada, mesmo sem serem muito eficazes. Têm jogadores para fazer a diferença. O Bryan Mbeumo marcou o 1-0 e, se tivessem marcado o segundo, o jogo estava feito. Mas não o fizeram.
É possível ver a promessa de Baleba, a qualidade que ele tem. Fez a diferença de imediato, o que é muito promissor. Esperemos que consiga ser titular e manter esse nível durante muito tempo num jogo, durante 95 minutos. Acho que isso é muito importante, porque o Carrick ainda procura a parceria ideal de médios no centro do terreno, que consigam trabalhar juntos trazer essa centelha fresca juntamente com o Bruno Fernandes e ser dominantes perante o adversário, mas também não conceder demasiado defensivamente. É uma combinação das duas coisas e, com o Baleba lá, penso que isso faz uma grande diferença.

A outra questão é que, quando jogas contra 10 homens, tens de ganhar. Tens de manter o nível, tens de consolidar, tens de colocar o adversário sob pressão. Mas ficaram preocupados em certos momentos. Por vezes, perdem a bola mesmo contra 10. Demasiadas vezes recuam demasiado no terreno. Talvez seja porque querem manter a vantagem e fazem de tudo para a conservar. Mas se deres demasiado tempo ao adversário, mesmo com 10 homens, e já vimos isso contra o Manchester City, há sempre um momento em que eles vão ser perigosos. Isso aconteceu perto do final do jogo, empataram e o United perdeu dois pontos. Não digo que a vitória tivesse sido merecida, mas se lideras por um golo, tens de levar os três pontos.
De um modo geral, pensávamos que podiam dar esse próximo passo, mas sentem muita dificuldade em serem dominantes contra o adversário e em criar golos suficientes, além de concederem golos fáceis. Esse é um aspeto em que precisam definitivamente de trabalhar. Se o adversário tem a bola, tens de entrar num bloco defensivo o mais rápido possível. Tens de correr para esse bloco. Por vezes, parece que os jogadores ficam a olhar para a bola e o que vai acontecer? O adversário recupera a bola, vai atacar e só depois eles reagem.
Precisam de responder muito mais rapidamente para se colocarem no bloco, para não darem espaços ao adversário para marcar, ou pelo menos para criar perigo. Na Premier League, todos sabemos que não queres dar ao adversário qualquer tempo para ser perigoso. Se lhes deres esse pouco tempo, todas as equipas têm jogadores de qualidade que fazem a diferença, e é isso que se vê nestes jogos.
- Já que falamos do Tottenham, o que pensa de Micky van de Ven e Jan Paul van Hecke?
O Tottenham é uma boa escolha para eles neste momento. Juntamente com todo o plantel do Tottenham, começaram a assimilar as ideias do De Zerbi. Fizeram um jogo decente contra o United, tiveram a oportunidade de marcar cedo, o que teria tornado o jogo completamente diferente para ambas as equipas. Prefiro a forma como o Van de Ven é utilizado no Tottenham do que na seleção. O Tottenham utiliza-o como central e eu jogaria com ele lá por causa da sua velocidade. Nunca como lateral-esquerdo, acho que é limitado nessa posição. E todos conhecemos as qualidades do Van Hecke, ele é ótimo com a bola nos pés.
- Voltando ao United, a equipa melhorou bastante sob o comando de Carrick no final da época passada, mas não encontrou a centelha este ano. Qual acha que é a principal diferença?
Na época passada, quando chegou, era interino. O Amorim tinha um sistema totalmente diferente. Ele chegou e sabia qual era a cultura do United, como queriam jogar. Mudou o sistema de volta para um 4-3-3. Todos os jogadores sentiam-se muito mais confortáveis nesse sistema e na forma de jogar. Pôde ver-se isso logo no primeiro jogo. Foi fácil e cresceram com isso. Conseguiram alguns resultados, a confiança estava a aumentar, conseguiram manter o ritmo e outras equipas também estavam com dificuldades. Por fim, a classificação final foi uma posição de Liga dos Campeões.
Agora conseguiu o cargo, mereceu plenamente, mas agora é preciso trabalhar a partir daí. Precisas de ter as tuas ideias para construir uma unidade que consiga ter um desempenho em qualquer situação, em cada jogo. E vê-se que isso ainda não está lá. Vê-se que, por vezes, têm dificuldades na posse de bola, se o adversário pressionar da forma certa, em encontrar o jogador livre. Como podemos colocar estes jogadores com bola para que possam fazer a diferença? Foi muito óbvio ver isso no último jogo. Mas também defensivamente, penso que precisam de fazer um pouco mais em termos de intensidade para não darem oportunidades.
E sei disso porque também já passei por lá: tudo pode mudar num segundo se ganhares um jogo e se tiveres um bom jogo. Não é algo que aconteça ao longo de um longo período de tempo. Por exemplo, este fim de semana jogam contra o Leeds, e é um jogo muito difícil e muito duro em Elland Road. Mas se tiverem um bom resultado, se ganharem esse jogo, talvez tudo possa mudar a partir daí. Essa é a beleza do futebol. Por isso, esperemos que ele consiga alcançar isso com a equipa.
- Há mais de uma década que o United não consegue encontrar o treinador certo depois de Sir Alex Ferguson. Porque é que acha que tem sido tão difícil para o United, e para outros clubes com treinadores de longa data, encontrar o herdeiro do trono depois de alguém tão bem-sucedido?
Antigamente, quando o Sir Alex liderava as tropas, ainda tinham um pouco mais de tempo para trabalhar com uma equipa, para construir e, eventualmente, ter sucesso. Hoje em dia, é muito difícil para um treinador ter esse tempo para ser bem-sucedido a longo prazo. Como mencionaste, tiveram treinadores anteriores com muita experiência, como Mourinho, David Moyes, Louis van Gaal, Ten Hag. Todos eles tinham experiência ao mais alto nível e não foram bem-sucedidos. Por isso, não é garantido que, quando contratas um treinador com muita experiência, ele vá ter as ideias ou a resposta para ser bem-sucedido.
Penso que o Michael ainda é o homem certo. Precisas de ter alguém que seja próximo dos jogadores. Ele conhece os jogadores, a cultura do clube, tem um bom entendimento com as pessoas de cima na direção, e dão-lhe confiança e tempo para que possa resolver as coisas. Claro que precisa de ter um plano, mas provavelmente já discutiram isso, e também sobre como abordar os períodos de transferências, trazer certos jogadores e, a partir daí, construir. Depois, um treinador precisa de o demonstrar. É sempre uma incógnita se, ao trazeres um certo treinador, ele vai fazer o trabalho por ti. Mas o Michael provou na época passada que consegue e estou certo de que, ao longo desta época, vai crescer e obter melhores resultados.
A única questão é que todos somos muito críticos quanto ao que esperamos do United, porque toda a gente se refere sempre ao passado, aos prémios que ganharam. Os padrões são muito elevados e têm de o ser. Num clube como o United, os padrões têm de ser muito elevados e, como treinador, tens de colocar a fasquia num certo ponto. Os jogadores, especialmente, precisam de se habituar a isso. Muitos jogadores não estavam habituados a jogar num clube como o United, onde há uma pressão enorme. As pessoas estão em cima deles. A imprensa está em cima deles.
Não há nada melhor para a imprensa do que escrever negativamente sobre um grande clube como o United. Precisas de te habituar a isso como jogador e precisas de crescer com isso. Às vezes tens jogadores que sentem logo de imediato que conseguem lidar, mas há muitos jogadores que precisam de tempo. E, durante esse período, também podes ver se os jogadores são bons o suficiente, por isso talvez precises de seguir em frente, livrar-te de alguns e trazer outros. Por isso, todo o processo pode levar bastante tempo, para ser sincero.
- Quebrou um recorde quando o United o comprou por 10,6 milhões de libras em 1998, como o defesa mais caro na altura. O United voltou a quebrar esse recorde há sete anos com Harry Maguire por 80 milhões de libras. Se fosse treinador ou diretor desportivo de um clube de topo hoje, que defesa escolheria para quebrar esse recorde e qual seria o preço?
Para ser sincero, não sei. Está a tornar-se uma loucura. Quando eu jogava, as pessoas diziam que a certa altura ia parar. Mas se olhares para isso agora, são 10 vezes, 15 vezes os preços que pagaram por nós quando éramos jogadores de topo na Europa. Se tivesse de escolher um jogador agora, seria muito difícil. Para ser sincero, não tenho um nome de quem possa dizer: 'Ok, este defesa tem qualidade para ser o defesa mais caro do mundo'. É muito difícil. Claro que o Van Dijk me veio à cabeça, mas ele está numa certa idade em que se aproxima do final da carreira. Mas, para um jogador na casa dos 20 anos, a meio dos 20, talvez um pouco acima, acho muito, muito difícil escolher um. Não tenho nenhum em mente agora.
- A Lazio, outro dos seus antigos clubes, está numa situação paradoxal. A equipa está a ter um bom desempenho sob o comando de Gennaro Gattuso, mas há protestos contra o presidente. Como lê a situação por lá?
Tenho de ser honesto, não conheço toda a situação da Lazio e o que aconteceu. Li sobre isso, que houve um protesto dos adeptos. Pelo que vi, pelo que ouvi e li sobre o Gattuso, é excecional a forma como está a obter resultados, e creio que não gastaram muito dinheiro a contratar jogadores. Por isso, isso é ótimo, porque o Gattuso não teve dos trabalhos mais fáceis no passado para obter resultados, e, por agora, está a sair-se excecionalmente bem. Esperemos que consiga manter esse ritmo.
A Lazio, para mim, é um dos clubes em que realmente gostei de jogar na altura. E, mesmo quando lá estive, havia muitas dificuldades financeiras no clube. Por isso, esperamos que o clube não volte a entrar em certas situações. Mas é ótimo ver, e isso provavelmente ajuda muita gente, que a nível desportivo estão a ter um desempenho excecional.

- Na Lazio jogou sob o comando de Roberto Mancini perto do início da sua carreira de treinador, quando ele venceu a Taça de Itália. Que tipo de treinador era ele naquela altura?
O Roberto provou o seu valor como treinador, pelo que tem feito. Quando se tornou treinador da Lazio, era o seu segundo clube. Era muito jovem. Mesmo naquela altura, era claro sobre o que queria e o que esperava de nós, da equipa. Nos treinos, era muito claro na estrutura da equipa, nas vias táticas em que precisávamos de jogar, com quem queria jogar. Era bom na comunicação com os jogadores, não só na equipa, mas também com os indivíduos, sobre como os tratar, não só os titulares, mas também os suplentes. Por isso, toda a gente tinha uma ideia clara do que esperar dele, e toda a gente queria jogar por ele, porque toda a gente sabia como ele era enquanto jogador, mas também a sua personalidade era muito boa, muito positiva. Todos os jogadores tinham um sentimento muito caloroso em relação a ele como treinador, o que é muito importante, especialmente a esse nível.
- A seleção neerlandesa contratou um treinador de alto perfil, Xavi. Grande produção ofensiva nos primeiros quatro jogos, mas sem jogos sem sofrer golos...
Isso é típico dos neerlandeses. Conheces o ditado? Desde que marquemos mais um golo do que os outros, temos os três pontos, ganhámos. Em Inglaterra, fala-se muito de não sofrer golos (clean sheets). Nos Paíse Baixos, dizemos sempre que precisamos de marcar muitos golos e, se marcarmos mais do que o adversário, então são três pontos. Claro que nem todos os treinadores pensam assim.
O Xavi defende o futebol de ataque, o futebol baseado na posse de bola, e todos nós sabemos disso. Temos uma equipa que consegue fazer isso e provou-o em certos jogos, o que é muito importante. Se um treinador dos Países Baixos não o fizesse, as críticas só aumentariam. Nem sempre olhamos apenas para os resultados. Digamos que jogaríamos de forma muito defensiva e ganhamos sempre, isso não deixaria ninguém realmente feliz no país porque seria muito aborrecido e ninguém veria os jogos. É por isso que os neerlandeses são, por vezes, um pouco estranhos nas suas visões sobre futebol.

Por isso, esperamos que vá para a frente, e é isso que ele está a fazer. O mais importante é que não queres sofrer golos, especialmente quando jogas contra seleções muito boas. Se sofreres, é muito difícil superá-las. Portanto, também precisamos de ser honestos e verdadeiros connosco próprios e dizer: 'ok, não somos a melhor equipa do mundo, por isso precisamos de ter uma mistura de quando atacamos, quando defendemos e com quem vamos defender'. Essa é a discussão aqui: que jogadores precisamos de utilizar, que jogadores é que o Xavi vai incluir na sua equipa? Penso que ele vai trabalhar nisso, porque foi o que disse nos jornais e nas conferências de imprensa.
Mas gostamos que ataque. Há pessoas que estão felizes com ele. Há outras que dizem: 'Não estamos muito felizes, porque outro treinador neerlandês também poderia jogar nesse estilo', o que é verdade, para ser sincero. Mas é uma questão para as pessoas da Federação: quem escolhes, quem está disponível, o sentimento que tens com um treinador. Até agora, ele está a fazer um excelente trabalho.
- Portanto, gosta da direção que está a tomar, tática e tecnicamente, a partir dos primeiros quatro jogos?
Sim. Eu próprio, como treinador, gosto sempre disso. Queres ir para a frente, queres atacar, queres jogar um futebol baseado na posse de bola, dominante no meio-campo do adversário quando a possibilidade existe. Como disse, temos jogadores para o fazer no meio-campo. Temos jogadores de qualidade na frente.
Temos jogadores jovens muito bons que também vêm das camadas jovens, o que é muito importante. Jogadores como o Ruben van Bommel do PSV. O Mexx Meerdink, que jogou na frente como avançado, esteve muito, muito bem nestes jogos. Na defesa, por vezes, ainda duvidamos de qual é a defesa ideal. Há uma discussão sobre a idade, há uma discussão sobre os jogadores jovens. É isso que ele precisa de resolver. Mas a abordagem que ele tem parece promissora.
- Para terminar com uma nota descontraída: Eidur Gudjohnsen disse recentemente que estava, e ainda está, com medo de si, porque o senhor era uma força imponente na defesa. Dentro ou fora do campo, houve algum jogador ou treinador de quem tenha tido medo?
Não. Às vezes, podíamos ter medo de um treinador como o Ferguson, quando ele estava muito zangado. Toda a gente sabia do seu tratamento de secador. Quando ele entrava no balneário, já podias ver-lhe a cara e sabias para onde aquilo ia, porque sentíamos todos que no jogo as coisas não estavam a correr pelo caminho certo. Por isso, sabíamos o que ia acontecer e toda a gente olhava uns para os outros: quem é que ele vai escolher hoje para levar uma bronca? Isso tornava as coisas interessantes.
Quando eu era jogador e ia lá para dentro, não tinha a sensação de ter medo de um jogador. Claro que sabia que com certos adversários precisava de estar mais focado, mais concentrado. Se jogas contra jogadores como Ronaldo Fenómeno, ou Thierry Henry, Dennis Bergkamp, Alan Shearer ou Michael Owen, sabes que com certos avançados precisas de estar mais focado do que com outros.

Jan Koller da República Checa também era difícil de enfrentar, porque ele era grande, mas também bastante rápido. Ele tinha pernas longas, pés grandes, e os seus toques também eram bons. Muitas pessoas pensam que, quando é um jogador grande, talvez a sua capacidade técnica não seja tão boa, mas o Jan era um jogador muito bom com a bola também. Às vezes, como defesa, queres antecipar, queres colocar-te à frente dele para ganhar a bola, mas devido ao seu tamanho e à forma como usava o corpo, era muito difícil fazê-lo. Por isso, ele era um jogador difícil de enfrentar. E naqueles dias, quando jogávamos com a seleção contra a República Checa, eles tinham uma equipa muito boa, por isso cada jogo era difícil. Havia sempre uma batalha entre nós e os checos. Eram bons jogos.
