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Exclusivo com Fábio Martins: "Rejeitei propostas porque já não preciso de decidir tudo pelo dinheiro"

Fábio Martins terminou etapa no Al-Hazem, da Arábia Saudita
Fábio Martins terminou etapa no Al-Hazem, da Arábia SauditaArquivo Pessoal, Flashscore

Fábio Martins, atualmente livre no mercado, revisita seis anos na Arábia Saudita, fala das escolhas que marcaram a carreira e admite que quer regressar a Portugal ainda em condições de fazer a diferença. Um exclusivo Flashscore.

Acompanhe o futebol saudita no Flashscore

Seis anos depois de trocar Portugal pelo Médio Oriente, Fábio Martins olha para trás sem arrependimentos. Saiu numa altura em que o campeonato saudita ainda estava longe da dimensão atual, construiu um percurso sólido, foi capitão nos últimos dois clubes e tornou-se uma figura respeitada a milhares de quilómetros do nosso país. Pelo caminho, viu Cristiano Ronaldo transformar o futebol na Arábia Saudita, defrontou algumas das maiores estrelas do mundo e percebeu que o sucesso pode assumir significados muito diferentes ao longo de uma carreira.

Aos 33 anos e atualmente livre no mercado, o antigo jogador de SC Braga, Famalicão ou Chaves está agora numa fase diferente. Conquistou uma estabilidade financeira que lhe permite gerir o próprio futuro de outra forma e rejeitou propostas aliciantes de mercados periféricos em prol da estabilidade familiar. Ainda quer jogar "mais um ou dois anos" no estrangeiro e depois regressar "bem" a Portugal para terminar a carreira.

Em entrevista exclusiva ao Flashscore, Fábio Martins fala sem filtros sobre dinheiro, escolhas e sacrifícios, recorda a história por detrás da camisola de Cristiano Ronaldo, analisa o crescimento e os problemas do futebol saudita e olha para o futuro, dentro e fora das quatro linhas. Pelo meio, fala ainda da Liga portuguesa, de FC Porto, Benfica e Sporting, elogia João Palhinha e deixa uma convicção forte sobre Jorge Jesus, antigo companheiro de equipa do seu pai, na seleção nacional.

Fábio Martins passou uma temporada no Al-Hazem
Fábio Martins passou uma temporada no Al-HazemArquivo Pessoal

Da ambição de jogar no FC Porto à escolha pela estabilidade: "Não me arrependo"

- Fábio, o Bruno Varela disse recentemente, em entrevista ao Flashscore, que é uma "lenda na Arábia Saudita" e que, em Portugal, não existe verdadeira noção daquilo que representa no contexto saudita, pelo respeito que conquistou, pelos golos e pela consistência ao longo dos anos. Sente que aquilo que construiu nestas seis épocas o colocou nesse patamar?

Não me vejo como uma lenda, mas sinto o carinho que muita gente tem por mim. A verdade é que já foram seis anos e fui construindo o meu caminho, mostrando a minha qualidade dentro e fora de campo. A Arábia Saudita é um contexto em que também tens de te mostrar fora das quatro linhas, ajudando os colegas e até na organização do dia a dia do clube. Felizmente, as coisas foram-me correndo sempre bem, tanto desportivamente como nessa vertente exterior.

Fui também capitão nos últimos dois clubes por onde passei, o Al-Khaleej e o Al-Hazem, e isso demonstra a confiança e o respeito que têm por mim, desde as direções e os treinadores aos próprios colegas. Naturalmente, fico muito feliz com esse reconhecimento, porque é sinal de que estou a fazer as coisas bem. É dessa forma que encaro tudo isto.

- A milhares de quilómetros de Portugal, foi percebendo que as pessoas gostavam de si e reconheciam aquilo que fazia. Como é receber esse carinho num país tão distante do nosso?

É ótimo. A verdade é que não sou lá uma pessoa diferente daquela que sou no meu dia a dia. Fui educado pelos meus pais para ser primeiro uma boa pessoa e só depois um bom jogador. É algo que tenho sempre muito presente. Depois, dentro de campo, as coisas fluem. Quando estamos bem mentalmente, também se torna mais fácil que as coisas saiam dentro das quatro linhas. Vou fazendo o meu trabalho, marcando os meus golos bonitos, como diz o Bruno (risos), e fico muito feliz por esse reconhecimento.

Fábio Martins passou os últimos anos na Arábia Saudita
Fábio Martins passou os últimos anos na Arábia SauditaOpta by Stats Perform, Arquivo Pessoal

- Antes de ir para a Arábia Saudita, fez uma excelente época no Famalicão e chegou a falar-se da possibilidade de dar o salto para um grande do futebol português. Acabou por construir uma carreira longa no Médio Oriente. Naquela altura, imaginava que esse seria o seu caminho e que ficaria tantos anos na Arábia Saudita?

Honestamente, não. Depois daquela época no Famalicão, tinha muito presente que aquele seria o momento para sair para um grande ou, caso isso não acontecesse, tentar uma experiência diferente fora de Portugal. Para mim, já não fazia sentido continuar a passar por clubes médios ou médios-baixos, como tinha acontecido com Aves, Paços de Ferreira, Chaves, SC Braga ou Famalicão.

Surgiu a oportunidade da Arábia Saudita e, inicialmente, foi estranho. Há seis ou sete anos, praticamente ninguém estava lá. Ninguém conhecia verdadeiramente o campeonato ou olhava para a Liga saudita como uma competição com potencial para alcançar o respeito que tem hoje. Felizmente, tomei essa decisão e as coisas correram bem. Conheci um contexto e uma cultura novos, conheci pessoas diferentes e fui construindo o meu caminho.

Mas nunca pensei ficar tantos anos. Fui inicialmente por empréstimo durante uma temporada e a minha ideia era: 'Vou um ano e depois logo se vê o que acontece.' Nunca imaginaria que acabaria por ficar seis anos. Felizmente, as coisas foram acontecendo dessa forma e têm corrido bem. Agora veremos qual será o próximo passo, que ainda não está definido.

- Aos 18 ou 20 anos, qual era a sua ideia de ter sucesso no futebol? E o que significa ter sucesso hoje, aos 33? Mudou muito essa perceção ao longo da carreira?

Sem dúvida. Aos 18 ou 20 anos, depois de ter feito toda a formação no FC Porto e sendo portista ferrenho, o meu grande objetivo era jogar na equipa principal do FC Porto.

Naquela altura, provavelmente pensava que, para ter uma carreira de sucesso, teria obrigatoriamente de passar pela equipa principal do FC Porto. Depois, o tempo passa, as oportunidades surgem ou não surgem e vamos tomando decisões. Honestamente, não me arrependo de nenhuma das que tomei.

Hoje, aos 33 anos, encaro naturalmente as coisas de uma maneira diferente. Aliás, acho que o nosso pensamento vai mudando aos 26, aos 28, aos 30... Costumo brincar muito com os meus colegas, nomeadamente com o Bruno Varela, sobre isto. Se um futebolista conseguir conciliar a vertente financeira com a desportiva, tem o melhor dos dois mundos. Jogar numa Premier League ou numa Liga espanhola e, simultaneamente, ganhar muito bem é perfeito. Mas são muito poucos os jogadores que conseguem juntar as duas coisas.

Sabemos também qual é a realidade financeira do futebol português. No final da carreira, podem dizer-me: 'Jogaste na Premier League, na Liga espanhola ou na Liga francesa e ganhaste vários títulos.' Mas, na minha perspetiva, quando a carreira terminar, não são os títulos ou os clubes por onde passei que vão permitir proporcionar uma boa vida à minha família.

- É a realidade...

Pode parecer um pensamento um pouco redutor para algumas pessoas, mas é a verdade. No final da carreira, aquilo que também conta é o que conseguimos juntar e construir para proporcionar uma boa vida à nossa família. Comecei a pensar dessa forma por volta dos 26 ou 27 anos, quando surgiu a oportunidade de ir para a Arábia Saudita. Foi muito claro na minha cabeça. E não me arrependo dessa decisão, porque hoje consigo olhar para as coisas de outra maneira e definir os meus objetivos de forma diferente.

Neste momento, não dependo exclusivamente do dinheiro para tomar decisões. Tenho colegas com 34 ou 35 anos que ainda precisam de fazer o pé de meia e, por isso, acabam por aceitar ir para sítios onde talvez não quisessem estar.

Eu fiz o raciocínio contrário: preferi fazer esse sacrifício aos 26, 27 ou 28 anos para chegar a esta fase da carreira numa posição em que posso decidir melhor e pensar mais na qualidade de vida do que propriamente no dinheiro. E não me arrependo.

Fábio Martins mudou-se para o Médio Oriente em 2020
Fábio Martins mudou-se para o Médio Oriente em 2020Arquivo Pessoal

"Sinto que poderia ter jogado num grande em Portugal"

- A decisão de sair aos 26 ou 27 anos pode ter causado alguma estranheza em Portugal, sobretudo porque a Liga saudita ainda não tinha a dimensão atual. Mas o Fábio está perfeitamente confortável com esse caminho. Nunca ficou a pensar no que poderia ter acontecido se tivesse permanecido mais um ano em Portugal?

Não, estou completamente bem resolvido. Acho que saí na altura certa. Tinha contrato com o SC Braga e dificilmente conseguiria sair para um grande, porque negociar com o presidente António Salvador seria sempre complicado. Houve abordagens, mas percebi que seria difícil concretizar o negócio.

Por isso, tomei a minha decisão e, como disse, não me arrependo nada. Estou muito feliz, tenho uma família linda e temos a nossa vida muito bem estruturada. No final, é isso que importa. Acho que as pessoas falaram mais quando fui pela primeira vez para a Arábia Saudita, aos 26 ou 27 anos, porque o campeonato não era aquilo que é hoje.

Assumo que foi um risco. Não sabia muito bem para onde ia. Sabia apenas que, no clube para onde ia, estava o Banega. Pensei: 'Se o Banega está lá, não deve ser assim tão mau.' Também estava o Sebá, que tinha jogado comigo na equipa B do FC Porto. Consegui recolher algumas informações, arrisquei e, honestamente, foi a melhor coisa que fiz.

- Isso não significa que não tenha consciência de que tinha capacidade para jogar num grande em Portugal. Chegar a esse patamar não depende exclusivamente da qualidade de um jogador. Sente que tinha capacidade, mas que outros fatores impediram que isso acontecesse?

Sem dúvida. Sinto que poderia ter jogado num grande em Portugal. Mas as coisas não dependem apenas de nós ou da nossa qualidade. O mundo do futebol tem mil e um fatores que acabam por definir a nossa carreira e o nosso futuro. É o que é. Não vale a pena olhar para trás e pensar: 'E se tivesse sido desta maneira? E se tivesse sido daquela?'

A vida é para ser vivida no presente e devemos olhar para o futuro com bons olhos, pensando naquilo que ainda podemos fazer. Sou uma pessoa a quem não acrescenta muito estar constantemente a pensar naquilo que poderia ter acontecido. Não vai adiantar nada.

- Sempre foi muito transparente ao reconhecer que a componente financeira teve um peso importante na decisão de rumar à Arábia Saudita. Em que momento é que um jogador percebe que a carreira deixa de ser apenas sobre concretizar sonhos e objetivos e passa também por garantir o futuro da família?

Talvez tenha começado a pensar nisso um pouco mais cedo, mas tinha um contrato de longa duração com o SC Braga e continuava com aquela ambição de chegar a um clube maior, como FC Porto, Benfica ou Sporting. Já estava num clube de bom nível e, para a realidade portuguesa, não me podia queixar daquilo que ganhava. Naturalmente, se saísse para um grande, em condições normais também teria um salário superior. Esse continuava a ser o objetivo.

Mas faço uma excelente época no Famalicão, a temporada termina, surgem algumas abordagens e percebo que não vou conseguir sair para onde queria. Então pensei: 'Se não vou conseguir sair para onde quero, o que me impede de pensar de outra maneira?' Poderia tentar encaixar num clube da LaLiga ou até num clube de menor dimensão da Premier League. Acho que hoje é até mais fácil isso acontecer do que há seis anos.

Mas o meu pensamento foi muito prático. Pensei na minha família e, quando olhei para o contrato e percebi que iria ganhar dez vezes mais do que ganhava em Portugal, não tinha como dizer que não. Sou muito honesto em relação a isso.

- Essa decisão deu-lhe conforto para o presente e para o futuro e permite-lhe agora analisar propostas de uma forma diferente. Mas o dinheiro mudou alguma coisa no Fábio enquanto pessoa ou continua a reger-se pelos mesmos valores que os seus pais lhe transmitiram?

Honestamente, acho que não mudei rigorosamente nada. Naturalmente, começamos a escolher melhor as pessoas que nos rodeiam. As pessoas que já estavam comigo antes de ganhar aquilo que passei a ganhar são aquelas que tento manter próximas, porque sei que são genuínas, verdadeiras e que estão comigo porque gostam de mim. Tenho esse cuidado, mas, de resto, sou exatamente o mesmo Fábio. Continuo a ir aos mesmos sítios e a fazer as mesmas coisas.

E posso contar-te uma coisa: tive o privilégio de conhecer o Cristiano Ronaldo e de conviver um pouco com ele de maneira diferente. Uma coisa é termos uma determinada ideia sobre alguém, outra é estarmos pessoalmente com essa pessoa e conversarmos. Surpreendeu-me imenso precisamente por isso. Estamos a falar de uma das maiores figuras do desporto mundial e continua a ser uma pessoa humilde e disponível para ajudar os outros. 

Houve duas ou três situações em que lhe pedi ajuda para algumas coisas e esteve sempre disponível. São estes exemplos que tento levar para a vida e transmitir também aos meus filhos. O dinheiro é bom, dá-nos outro conforto e permite-nos tomar decisões de forma diferente, mas a nossa essência nunca pode mudar por causa dele.

- E essa é também uma preocupação enquanto pai? Garantir que os seus filhos possam beneficiar daquilo que construiu, mas que simultaneamente percebam que as coisas têm valor e precisam de ser conquistadas?

Sim. E, às vezes, não é fácil. O mais pequeno tem apenas oito meses, por isso ainda não precisamos de ter essas conversas. Mas o mais velho tem nove anos e, por vezes, temos de lhe mostrar que as coisas não são assim tão fáceis. Vamos ao supermercado e aparece aquele: 'Quero isto, quero aquilo.' E temos de explicar: 'Eu sei que podemos comprar, mas as coisas não podem ser sempre assim.'

Não pode ser tudo dado de mão beijada, porque corremos o risco de perder essa essência. É bom conquistarmos as nossas coisas, percebermos que temos de lutar e trabalhar para alcançar aquilo que queremos. Acho que esse é um dos maiores ensinamentos que podemos transmitir aos nossos filhos.

- Falamos muitas vezes daquilo que uma carreira como a sua proporciona: dinheiro, experiências, reconhecimento e uma vida diferente. Mas raramente fazemos a pergunta ao contrário. O que é que o futebol lhe deu que mais valorizas e o que é que lhe tirou em troca?

Sem dúvida que me tirou algumas coisas. Por exemplo, o meu filho mais velho não vive comigo. Está em Portugal com a mãe e já são seis anos que passo fora do país, sem conseguir acompanhar o crescimento dele da forma que gostaria. Isso é duro para mim.

São opções de vida que tomei e sei que, mais tarde, ele vai perceber. Também abdicamos de muitas outras coisas, como os aniversários da família. O meu filho mais novo nasceu e estive com ele apenas durante os primeiros três dias, enquanto estava no hospital. Quando os trouxe para casa, tive de regressar à Arábia Saudita. Só voltei a vê-lo quando já tinha dois meses. Ou seja, praticamente não estive presente nos primeiros dois meses da vida dele. São momentos que perdemos e que nunca vão voltar. No final, temos de colocar tudo na balança, perceber aquilo que faz ou não sentido e tomar as nossas decisões. É um pouco assim.

Fábio Martins fala sobre um possível regresso a Portugal
Fábio Martins fala sobre um possível regresso a PortugalArquivo Pessoal

"Quero regressar a Portugal ainda em condições de mostrar às pessoas que estou bem"

- Saiu de Portugal em 2020 e, entretanto, construiu grande parte da sua vida longe do país. Quando regressas de férias, aparece aquela vontade de pensar: 'Já chega, está na altura de voltar definitivamente'?

Não. No ano passado, quando assinei pelo Al-Hazem, a conversa que tive com a minha mulher foi muito clara: 'Vamos fazer mais dois anos fora e depois começamos a pensar em regressar a Portugal ou, pelo menos, em ficar mais perto, na Europa.'

Entretanto passou um ano e falta esse segundo ano de que tínhamos falado. Agora estamos a perceber como será a nossa vida, porque, se aparecer uma proposta de dois anos que faça sentido, provavelmente sou capaz de aceitar e a ideia muda novamente. Mas a perspetiva de regressar a Portugal está na minha cabeça, sem dúvida. Aliás, quero terminar a carreira em Portugal.

E quero regressar ainda em condições de mostrar às pessoas que estou bem. Não quero voltar simplesmente para assinar um contrato, estar praticamente de férias, passar a maior parte do tempo lesionado ou não ser opção. Quero ser uma opção válida, jogar e mostrar aquilo que ainda consigo fazer, da mesma forma que fazia quando saí. Sinto-me muito bem e, por isso, penso em fazer pelo menos mais um ano fora antes de regressar.

Quando vimos de férias, tudo passa muito depressa. Como estamos o ano inteiro fora, temos sempre imensas coisas para resolver e as férias voam. Tenho saudades disto, do tempo e, naturalmente, da família. Mas, colocando tudo na balança, ainda pensamos ficar mais um ou dois anos fora.

Os números de Fábio Martins
Os números de Fábio MartinsFlashscore

- Para quem perdeu um pouco o rasto durante estes anos na Arábia Saudita, que jogador é hoje o Fábio Martins em comparação com aquele que saiu de Portugal em 2020? O que encontrariam os adeptos se regressasse agora?

Provavelmente já não sou tão rápido como era, embora também nunca tenha sido propriamente um jogador muito rápido. Sou um jogador menos de linha. Nunca fui um extremo puro, sempre gostei mais de procurar zonas interiores, mas acho que essa característica ficou ainda mais vincada nos últimos anos.

Na última época, por exemplo, passei mais tempo a jogar como número 10 do que como extremo. Ainda assim, a posição em que me sinto mais confortável continua a ser a de extremo e acho que será sempre. Continuo a ser um jogador que gosta de vir para dentro e de rematar à baliza. É também por isso que, de vez em quando, aparecem aqueles golos bonitos de que o Bruno fala. Mas sou, acima de tudo, um jogador muito mais experiente e maduro.

Às vezes, as pessoas pensam que a idade passa e o jogador começa automaticamente a regredir ou a perder determinadas capacidades. Eu sinto exatamente o contrário. Sinto que hoje sou um jogador muito mais completo do que era, por exemplo, naquela época no Famalicão.

- A Arábia Saudita mudou profundamente desde que chegaste. Apanhaste praticamente o início dessa transformação e depois viveste a chegada de Cristiano Ronaldo e de muitas outras estrelas. Como foi assistir a essa evolução por dentro?

A chegada do Cristiano mudou completamente o marketing da Liga e do próprio país. Já se percebia anteriormente que as pessoas gostavam muito de futebol, mas agora o país vive verdadeiramente o futebol. É uma coisa surreal.

É engraçado sermos abordados na rua e percebermos que as pessoas conhecem e gostam do nosso trabalho. Isso já acontecia antes, mas intensificou-se muito com a chegada do Cristiano e, consequentemente, de todos os outros jogadores. Depois, toda essa visibilidade e o facto de os olhos do mundo terem passado a estar colocados na Liga obrigaram também as estruturas a mudar.

Os clubes começaram a preocupar-se com outro tipo de questões, sobretudo ao nível dos cargos diretivos e da organização. As coisas têm evoluído passo a passo. Na minha opinião, demasiado lentamente, porque poderiam estar bastante mais desenvolvidas e existir um investimento maior nessa área. Mas existe uma tentativa de melhorar e acho que essa continua a ser uma das áreas em que o futebol saudita tem muito espaço para crescer.

- O Mundial de 2034 é um dos grandes objetivos da Arábia Saudita e começa também a falar-se muito da aposta na formação, com vários treinadores, incluindo portugueses, a chegarem às academias. Estando dentro dessa realidade, como imagina os próximos passos do futebol saudita?

Estou muito curioso para perceber aquilo que vai acontecer nos próximos dois anos, porque aquilo que senti este ano foi um claro desinvestimento. As pessoas podem olhar para determinadas contratações e dizer que não existe desinvestimento. Mas, nos clubes médios e pequenos, senti claramente uma redução dos salários.

Não consigo perceber exatamente a razão. Podemos pensar em diferentes fatores ou até na possibilidade de começarem a olhar de outra forma para os jogadores a partir dos 30 anos e tentarem apostar mais em jogadores jovens. Para dar estabilidade à Liga, precisam de jogadores jovens. Jogadores de 35, 36 ou 37 anos ficam um ou dois anos e depois terminam a carreira. Num projeto de longo prazo, pensado para 2034, tem de existir um equilíbrio, mas é fundamental apostar em jogadores mais jovens. Tenho muita curiosidade para perceber como a Liga vai evoluir nesse sentido.

Fábio Martins fala sobre o futuro
Fábio Martins fala sobre o futuroOpta by Stats Perform, Arquivo Pessoal

Depois existe outra discussão muito presente na Arábia Saudita, relacionada com os resultados da seleção e com o número de estrangeiros. Neste momento, os clubes podem ter oito estrangeiros, mais dois sub-21, embora apenas oito possam jogar. Sou muito claro em relação a isso e já o disse em várias entrevistas na Arábia Saudita: o que impede um jogador saudita de sair do país e ir jogar para outro campeonato?

É isso que acontece em Portugal. Não existe um limite de estrangeiros e vemos clubes a jogar com 11 estrangeiros. Isso significa que Portugal deixou de produzir bons jogadores? Não. A sensação que tenho é que existe algum conforto por parte do jogador saudita: está no seu país, está bem e recebe muito bem para a realidade em que joga.

É necessária uma mudança de mentalidade. O problema não são simplesmente os estrangeiros. É fácil um jogador dizer: 'Não jogo porque tenho 11 estrangeiros no plantel.' Mas, em Portugal, também existem plantéis com 15 ou 20 estrangeiros. Há diferentes formas de olhar para esta discussão. Esta é a minha.

- E como sente que os jogadores sauditas olham para vocês, estrangeiros? Existe aquela ideia de que estão ali a ocupar-lhes o lugar ou a relação é diferente?

Honestamente, nunca tive razão de queixa de nenhum colega de equipa nem de ninguém na Arábia Saudita em relação a isso. Sempre fui muito bem recebido, trataram-me muito bem e dei-me bem com toda a gente, inclusive com colegas que jogavam na mesma posição. Às vezes poderia existir aquela rivalidade de: 'Estás aqui a tirar-me o lugar, eu quero jogar e, por isso, não falo tanto contigo.' Nunca senti isso. Nunca me aconteceu.

Pelo contrário, olham um pouco para nós como exemplos a seguir, porque existem coisas que ainda têm de mudar. E já se nota cada vez mais essa mudança de mentalidade, sobretudo nos mais jovens. Tentam replicar algumas coisas que fazemos, seja o trabalho de ginásio antes do treino ou os cuidados com a alimentação.

É engraçado perceber que somos um exemplo para eles e que procuram replicar algumas das nossas rotinas para melhorarem. Acho que a vida no futebol também é isso: tentar melhorar constantemente. E, para isso, é importante olhar para os bons exemplos.

Fábio Martins teve a oportunidade de defrontar Cristiano Ronaldo
Fábio Martins teve a oportunidade de defrontar Cristiano RonaldoArquivo Pessoal

Da camisola de Cristiano Ronaldo ao retrato do futebol saudita

- Falou já algumas vezes de Cristiano Ronaldo, mas há uma dimensão muito particular nesta experiência: entra em campo e pode ter do outro lado Cristiano, Benzema, Mané, Mahrez, Kanté ou Danilo. Quando foi para a Arábia Saudita, há seis anos, certamente não imaginava que acabaria por defrontar tantos jogadores deste nível. Como é viver isso?

É muito especial. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que joguei contra o Cristiano e não há palavras para descrever. Depois começaram a chegar muitos outros: Benzema, Neymar, Mané, Mahrez... Costumo brincar com os meus colegas porque, quando temos um jogo grande, tento logo perceber qual é a camisola que me falta e resolver isso (risos).

Digo muitas vezes que, quando terminar a carreira, vou fazer um museu em casa e cobrar às pessoas para entrarem, porque a verdade é que já tenho camisolas de jogadores como Cristiano, Benzema, Mahrez, Mané, Firmino, Kanté ou Danilo. Estamos a falar de jogadores de altíssimo nível e é muito especial poder viver tudo isto.

- Qual foi a camisola mais difícil de conseguir?

A do Cristiano. Não por ele ter dificultado, mas porque eu sabia que não podia chegar ao jogo sem ele saber previamente que eu queria a camisola. Depois do jogo, toda a gente a quer e torna-se muito mais difícil. Então tive de arranjar forma de chegar até ele. Falei com o meu personal trainer, para ele falar com o Dalot e o Dalot falar com o Cristiano.

Quando ia para o aquecimento, cruzámo-nos no túnel. Cumprimentei-o e a primeira coisa que lhe perguntei foi: 'O Dalot falou contigo?' E ele respondeu: 'Sim, sim, tranquilo. No final do jogo dou-te a camisola.'

Esse jogo acabou por ser muito engraçado. Aos cinco minutos marquei golo e fiquei com aquele sentimento: estava muito feliz por ter marcado, mas, ao mesmo tempo, pensei: 'Será que o Cristiano ainda me vai dar a camisola?' (risos).

Acabámos por empatar o jogo e, no final, fui ter com ele. Foi cinco estrelas, deu-me a camisola e ainda estivemos ali a conversar um pouco. Acabámos por criar uma relação que é muito especial para mim. O Cristiano é um ícone do futebol e um exemplo para todos nós, principalmente para os portugueses. É muito bom poder ter estes momentos com ele.

Essa foi, sem dúvida, a camisola mais difícil. Mas todas têm alguma dificuldade. Temos de chegar ao jogo e tentar falar com os jogadores para perceber se dá ou não. Felizmente, nunca tive uma situação desagradável. Às vezes dizem: 'Hoje não posso porque já prometi, mas no próximo jogo dou-te.'

São memórias que ficam para a vida. Quando terminar a carreira, vai ser muito engraçado poder mostrar à minha família, aos meus amigos e aos meus filhos aquilo que foi o meu caminho. Pode não ter sido uma carreira que toda a gente considere incrível, mas, no final, tenho estas camisolas, vivi estes momentos, joguei contra estes jogadores e bati-me de igual para igual com eles. Acho que é isso que fica.

- Qual é a maior ideia errada que ainda existe na Europa sobre o futebol saudita? Há muita coisa que se diz por cá. Qual é aquela ideia que ouves e pensas: 'Como é possível ainda pensarem isto?'

As pessoas acham que lá não se corre, que se joga a passo ou que vamos para lá de férias. Quando fui pela primeira vez, foi aquilo que mais ouvi: 'Agora vai ganhar dinheiro, vai estar de férias e não vai fazer nada.' Acho que são essas as duas principais ideias erradas.

Naturalmente, o futebol não tem a mesma intensidade da Europa, mas existem vários fatores que explicam isso, nomeadamente a humidade e a temperatura. No início do campeonato chegamos a jogar com 40 ou 45 graus. É impossível ter a mesma intensidade nessas condições.

Lembro-me de, há dois anos, termos feito o primeiro jogo da época, pelo Al-Khaleej, contra o Al-Ahli, e um jogador do Al-Ahli ter de ir para o hospital no final porque estava desidratado. As pessoas não veem isso. As condições são diferentes e, por isso, o futebol também não pode ser exatamente igual.

- E, olhando para o outro lado, qual é a crítica feita na Europa ao futebol saudita que considera justa? Aquela em que pensas: "Sim, aqui têm razão."

Não existe tanta exigência. Quando as pessoas dizem que, teoricamente, é mais fácil, há alguma verdade nisso. Se jogarmos num clube grande, existe sempre exigência porque estamos obrigados a ganhar. Mas, num clube médio ou pequeno, praticamente não existe pressão.

Também não há muitos adeptos. É algo de que sinto muita falta. Jogar muitas vezes com 200 ou 300 pessoas na bancada é terrível. Não existe ambiente e parece quase um jogo de treino. A motivação tem de partir de nós próprios. Não temos aquela sensação de entrar no estádio, ver as bancadas e ficar imediatamente ligado ao jogo.

Depois há outras coisas que têm de mudar, como a questão dos horários. Tive colegas que tinham de estar no clube às cinco para treinarmos às seis e apareciam às seis menos dois, quando nós já estávamos praticamente no campo. Isso não faz sentido num contexto profissional. Em Portugal seria praticamente impossível acontecer de forma recorrente.

Mas lá acontece porque também não existe grande punição. Em Portugal temos, por exemplo, as multas de balneário: quem chega atrasado paga e depois esse dinheiro é utilizado num jantar ou noutra atividade do grupo. Lá, muitas vezes, alguém chega atrasado e não acontece nada. No dia seguinte volta a chegar atrasado e continua tudo igual. No máximo leva uma chamada de atenção do treinador ou da direção.

Essa exigência tem de mudar. E não falo apenas da exigência que vem de fora, mas também daquela que o próprio jogador deve colocar sobre si: chegar a horas, trabalhar bem e preparar-se da melhor forma possível para o jogo. Isso ainda falta bastante.

Fábio Martins foi capitão do Al-Khaleej
Fábio Martins foi capitão do Al-KhaleejArquivo Pessoal

Mercado, família e pós-carreira: "Procuro encontrar um equilíbrio"

- Fábio, olhando para o futuro: já disse que gostarias de terminar a carreira em Portugal e que admite ficar mais um ou dois anos fora, dependendo daquilo que aparecer. Neste momento é um jogador livre. Que propostas têm surgido e o que está à procura?

Sim, sou um jogador livre desde que terminei a ligação ao Al-Hazem. Têm aparecido várias coisas, mas agora procuro encontrar um equilíbrio entre a componente financeira e a qualidade de vida, que também é muito importante para mim, sobretudo tendo um filho pequeno. É algo de que não vou abdicar.

Posso dizer, por exemplo, que rejeitei propostas do Iraque, Líbano e Líbia. São países que até pagariam bem, porque chegaram propostas com bons valores, mas estou numa fase em que já não preciso de decidir a minha vida exclusivamente em função do dinheiro.

Estou à espera de duas ou três situações. Já houve também abordagens da Turquia, Grécia e Chipre, além do mercado asiático. Malásia, Singapura, Indonésia, China, Japão ou Coreia também poderiam ser opções interessantes e que veria com bons olhos.

Do outro lado, Brasil ou México também poderiam ser possibilidades, caso surgisse algo positivo tanto desportivamente como financeiramente. Apesar de dizer que o dinheiro já não é o fator principal, naturalmente também não quero jogar de borla (risos). Ainda não estou nessa idade. Procuro encontrar um equilíbrio entre as duas coisas.

Acho que o meu futuro poderá passar por um desses mercados. Naturalmente, não falei dos Emirados Árabes Unidos ou da Arábia Saudita porque também ainda podem acontecer, apesar de os campeonatos já terem começado. Estamos igualmente à espera de duas ou três situações por aí. É uma questão de analisar.

Aquilo que senti este ano foi que o mercado, sobretudo no Médio Oriente, baixou bastante. Os salários desceram e tenho vários colegas na mesma situação que eu. Principalmente a partir dos 30 anos, houve ou continua a existir maior dificuldade para encontrar clube.

Há muitos jogadores ainda sem equipa por causa disso. Estamos habituados a receber determinado valor e, de repente, oferecem-nos metade.

É difícil para a cabeça de um jogador aceitar isso. Pensamos: 'Estou exatamente no mesmo sítio, fiz uma grande época no ano passado, porque razão vou reduzir o meu salário para metade?'

É também por situações destas que ainda não resolvi a minha vida. Posso continuar na Arábia Saudita e até quero continuar, mas não vou ficar por um corte superior a metade do salário. Para mim, não faz sentido. Nesse caso, prefiro experimentar algo diferente, noutro contexto e talvez com maior qualidade de vida.

Sei que o mercado está a fechar, embora, sendo jogador livre, possa assinar a qualquer momento. Também não quero ficar muito mais tempo sem resolver a minha situação, mas existem algumas possibilidades que podem concretizar-se. Vamos ver.

- Como tem sido este período de espera?

Tem sido bom e difícil ao mesmo tempo. A parte boa é poder aproveitar a família em Portugal, estar com os amigos e, sobretudo, com o meu filho mais velho, com quem passo praticamente o ano inteiro sem estar. Só vai ter comigo de vez em quando, nas folgas ou em períodos de férias mais curtos. Naturalmente, é muito bom poder aproveitar estes momentos. Mas, por outro lado, é difícil para a nossa cabeça perceber que os campeonatos já começaram e eu continuo aqui em casa.

Treino todas as manhãs e tenho outros colegas que estão na mesma situação. Falamos muito sobre isto. É difícil gerir, porque estamos focados e trabalhamos para estar preparados. E, no que depende de mim, sei que estou pronto. Fisicamente estou mais do que preparado para dar uma resposta.

Não vou ser aquele jogador que chega a um clube e precisa de duas, três ou quatro semanas para estar em condições de jogar. Ao mesmo tempo, custa ver os campeonatos a decorrer e continuarmos em casa, à espera de que apareça a oportunidade certa. É difícil de gerir, mas é o que é. Acredito que vai dar certo. Vamos esperar mais um pouco.

- Como lida com o facto de a carreira estar cada vez mais próxima do fim? Assusta a ideia de deixar de jogar futebol e perder todo o dia a dia de um futebolista?

Sim, fico um bocadinho nostálgico. Parece que ainda agora tinha 18 anos e estava a começar a minha carreira profissional e, de repente, já tenho 33 e estou cada vez mais perto do fim. Acho que vai ser um dia triste quando tomar essa decisão, porque não é apenas aquilo que as pessoas veem no jogo. É tudo o que envolve o futebol: os treinos, o ambiente de balneário, o dia a dia. Quando terminamos, perdemos tudo isso. Estamos a falar de algo que fez parte da nossa vida durante 15 ou 20 anos.

Por isso, acho que vai ser uma decisão muito difícil e dura. As primeiras semanas também deverão ser complicadas. Ainda há pouco falava disso com alguns dos jogadores com quem treino, como o João Mendes e o Ricardo Pereira. Aquilo que penso é que, quando terminar, quero já ter alguma coisa para fazer.

Se ficar em casa sem nada para fazer, acho que será ainda pior para a cabeça. Quero que seja uma transição simples: 'Ok, terminei, mas já tenho isto para fazer.' Pode ser através dos meus negócios, de uma empresa imobiliária, por exemplo, que é uma possibilidade que temos pensado, ou até através de alguma função no futebol.

Se terminar e começar imediatamente outra coisa, acho que será mais fácil mentalmente. O que não quero é terminar, ficar três meses sem fazer nada e só depois começar a pensar no futuro. Acho que aí será muito mais duro. Porque ficamos em casa, sentamo-nos no sofá e pensamos: 'A esta hora estava a treinar. A esta hora estava a caminho do estágio.' E aí, sim, dói.

- Vê-se a continuar ligado ao futebol depois de terminar a carreira?

Não sei bem. Quando regressar definitivamente a Portugal, acho que vou querer tirar o curso de treinador. Honestamente, não me vejo muito como treinador principal. Apesar de sentir que tenho alguma capacidade de liderança e de conseguir mobilizar os outros, não me imagino propriamente nesse papel. Não sei explicar porquê.

Talvez como treinador adjunto ou numa função que não tenha tanta visibilidade. Acho que já tive essa exposição durante 15 ou 20 anos e, quando terminar, provavelmente vou querer afastar-me um pouco desse lado. Também não me vejo como agente. Agora está muito na moda e parece que toda a gente quer ser agente, mas não é algo em que me imagine.

Um cargo diretivo, por outro lado, talvez fizesse sentido. Ser diretor desportivo, por exemplo. Sou uma pessoa muito metódica e organizada e acho que poderia ser algo interessante para mim. Dentro do futebol, diria que seriam essas duas possibilidades.

Fora do futebol, temos já um projeto imobiliário, uma empresa ligada à compra e venda de imóveis. Ainda está numa fase embrionária, mas é algo que queremos desenvolver mais a sério nos próximos anos. É uma área de que gostamos e que também poderá ocupar bastante do meu tempo.

Fábio Martins analisa campeonato português
Fábio Martins analisa campeonato portuguêsArquivo Pessoal

FC Porto mais sólido, Palhinha como "tampão" e Jorge Jesus no sítio certo

- Continua a acompanhar o campeonato português? Depois de seis anos fora, como tem visto a evolução da Liga e este início de época?

É engraçado, porque aos 18 anos era maluco pelo FC Porto. Continuo a ser portista, mas essa maluquice passou. Não sou aquele adepto que vai discutir com os amigos por causa de um FC Porto-Benfica. Acho que isso aconteceu de forma natural, porque quando chegamos à Liga e começamos a defrontar o FC Porto, começamos também a ver as coisas de outra forma. O carinho continua lá, naturalmente, porque passei 12 anos da minha vida com o símbolo do FC Porto ao peito. Quero que o FC Porto ganhe, claro, exceto quando jogo contra eles.

Gosto muito de acompanhar o nosso campeonato e também sigo os clubes por onde passei. O SC Braga, por exemplo, tem crescido imenso em termos de condições. Atrevo-me a dizer que, neste momento, talvez seja a equipa com melhores condições em Portugal para os jogadores, ao nível de instalações e espaço.

As pessoas podem não ter essa noção, mas o SC Braga está a crescer muito e acredito que, mais tarde ou mais cedo, isso vai traduzir-se em títulos importantes, seja no campeonato ou através de boas prestações europeias.

Também acompanho o Famalicão, naturalmente, porque tenho um carinho enorme pelo clube e foi um sítio onde as coisas me correram muito bem, e o Chaves, agora na Segunda Liga. Temos também um grupo de amigos com uma Fantasy da Liga e isso obriga-me a estar ainda mais atento a todas as equipas. Acompanho tudo com alguma nostalgia e saudade. Às vezes vejo um jogo e penso: 'Joguei naquele campo, marquei ali aquele golo.'

Nesses momentos bate a saudade de voltar a Portugal, de jogar novamente cá e de viver o ambiente do nosso futebol, apesar de também existirem aspetos menos positivos, como toda a discussão em torno das arbitragens, dos programas televisivos ou dos media. Mas tenho saudades. E, para as matar, vou acompanhando os jogos.

- Do que viu neste início de campeonato, quem lhe parece mais bem posicionado para o título: FC Porto, Benfica, Sporting ou até o SC Braga?

No meu ponto de vista, o FC Porto é a equipa mais sólida. É uma equipa muito sólida defensivamente e ainda não sofreu qualquer golo. Acho que vai continuar a ser aquilo que foi na época passada: talvez não seja tão exuberante ofensivamente, mas é muito forte defensivamente. Num campeonato com mais de 30 jogos, isso faz muita diferença.

Em termos de plantel, gosto muito do Benfica esta época. Tem muitas soluções, sobretudo do meio-campo para a frente, e muitos jogadores de qualidade. Acho que será o principal rival do FC Porto e que serão essas duas equipas a andar mais próximas na luta pelo título. O Sporting também tem excelentes jogadores e uma equipa que já vem montada das últimas épocas...

A tabela classificativa da Liga Portugal
A tabela classificativa da Liga PortugalFlashscore

- Acha que João Palhinha pode ser o elemento desbloqueador no Benfica?

Vai acrescentar imenso, sem dúvida. É um jogador muito batido, experiente, internacional e que vai acrescentar muito ao Benfica. Acho também que é uma posição em que o Benfica precisava de alguém com aquelas características, uma espécie de tampão, como se costuma dizer. É também por isso que digo que o plantel do Benfica está muito bem estruturado.

Talvez defensivamente ainda tenha uma ou outra lacuna, mas, do meio-campo para a frente, tem muita qualidade. O Sporting já vinha com uma equipa bastante consolidada e acrescentou o Zalazar e mais um ou outro jogador que poderá ajudar. Mas, honestamente, não vejo o Sporting como um claro candidato ao título este ano.

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Acho que haverá uma luta entre FC Porto e Benfica pelo título e, depois, Sporting e SC Braga estarão mais próximos numa segunda luta. Também não vejo o SC Braga a conseguir chegar ao nível de FC Porto ou Benfica nesta época. Acredito que fará novamente uma boa temporada, que dará luta nas taças e poderá fazer um bom percurso europeu, mas, para o título, vejo sobretudo FC Porto e Benfica.

- E o que acha de Jorge Jesus na seleção portuguesa? Acha que vai dar certo?

Acho que já foi tarde. Já precisávamos de um treinador assim há mais tempo. Um Jorge Jesus, um Mourinho, alguém deste género, com capacidade para colocar a equipa a jogar como quer, com uma ideia própria e bem definida.

- O Fábio apanhou o Jorge Jesus na Arábia Saudita, com equipas muito difíceis de bater.

É engraçado porque o Jorge Jesus jogou com o meu pai no Estrela da Amadora, se não estou em erro. Sempre que me encontrava com ele, a primeira coisa que perguntava era pelo meu pai: 'O teu pai está bom? Está tudo bem? Manda-lhe um abraço.' Nem perguntava por mim (risos).

Fiquei genuinamente feliz com a escolha, porque acho que é o homem certo, neste momento, para levar a nossa seleção a conquistar títulos. Estou muito ansioso para ver os primeiros jogos e perceber aquilo que vai montar. Matéria-prima temos de sobra. Acho que faltava alguém no banco capaz de colocar todas essas peças no sítio e montar o puzzle para que as coisas funcionem. Neste momento, acho que é o homem certo.

Fábio Martins conquistou respeito dos pares na Arábia Saudita
Fábio Martins conquistou respeito dos pares na Arábia SauditaArquivo Pessoal

"Dou muito mais importância a ser uma boa pessoa"

- No dia em que decidir que está bom e que quer dedicar a sua vida ao imobiliário, à família ou a outras coisas, o que gostaria de ouvir como resposta à pergunta: quem foi o Fábio Martins?

Gostava que dissessem que fui um grande gajo, um excelente homem de balneário, um excelente capitão e muito mais do que apenas um excelente jogador. Naturalmente, é sempre bom ouvir que fomos bons jogadores, mas dou muito mais importância a ser uma boa pessoa, um bom capitão e alguém importante dentro de um balneário.

O futebol é um contexto difícil. Temos 25, 26 ou 27 egos dentro do mesmo balneário, todos querem jogar, e conseguir unir essas pessoas, juntá-las e fazê-las caminhar na mesma direção nem sempre é fácil. Acho que tenho essa virtude. Sobretudo nos últimos anos, sinto que tenho feito bem esse trabalho. É dessa forma que gostaria de ser recordado no final da carreira.

- Última pergunta: se o futebol fosse uma pessoa e o encontrasse na rua, o que lhe gostaria de dizer?

Obrigado. Obrigado por tudo aquilo que me deste e por tudo o que aprendi contigo. Porque a verdade é que aprendemos muito, e não apenas sobre futebol. Aprendemos sobre a vida, sobre como lidar com as adversidades e também sobre como lidar com o sucesso. Fala-se muito em saber lidar com os momentos difíceis, mas há também muita gente que tem dificuldade em lidar com o sucesso.

Por isso, seria um agradecimento muito claro ao futebol por tudo aquilo que me ajudou a construir. É nostálgico falar sobre isto e pensar no final, porque sei que essa decisão está cada vez mais próxima. Vai ser difícil. Vou tentar prolongar ao máximo o momento de tomar essa decisão, mas sei que um dia chegará.

Já vivi muito e aprendi muito com o futebol. Fico muito feliz por tudo aquilo que consegui construir. É muito bom podermos viver daquilo de que gostamos. No meu caso, sinto até que foi mais o futebol que me escolheu a mim do que eu que escolhi o futebol. E fico muito feliz por isso.