Dinamarca: AGF à beira de pôr fim a um jejum de 40 anos sem títulos

O ala sueco Eric Kahl tem um papel importante na equipa de Aarhus
O ala sueco Eric Kahl tem um papel importante na equipa de AarhusMorten Kjaer / Gonzales Photo / Profimedia

O Aarhus Gymnastikforening (AGF) está prestes a conquistar o seu primeiro campeonato dinamarquês em 40 anos, podendo finalmente terminar um longo jejum desde o último título em 1986. Faltando apenas duas jornadas para o fim da Superliga dinamarquesa, o AGF pode sagrar-se campeão já este domingo, quando defrontar o Brondby em Copenhaga.

A maioria dos adeptos do AGF já não se recorda da última vez que o clube ergueu o título dinamarquês, em 1986. Ainda assim, têm sido a grande surpresa da época 2025/26, liderando a Superliga dinamarquesa com dois pontos de vantagem sobre o FC Midtjylland quando restam apenas alguns jogos.

Se alguém, no final da época passada, tivesse previsto que o AGF — conhecido em Aarhus como "De hviie" ("Os Brancos") — estaria nesta posição tão perto do fim da temporada, provavelmente seria considerado pouco sensato.

O AGF terminou a época anterior numa fase desastrosa, somando sete derrotas consecutivas nos play-offs do campeonato, o que levou ao despedimento do treinador alemão Uwe Rosler, mais conhecido por ter passado parte da sua carreira no Manchester City.

Tobias Bech teve um papel fundamental ao longo da época
Tobias Bech teve um papel fundamental ao longo da épocaMorten Kjaer / Gonzales Photo / Profimedia

Perspetivas sombrias para a época

Para um clube de dimensão considerável — na perspetiva dos habitantes de Aarhus (a segunda maior cidade da Dinamarca) — que não conquista qualquer troféu desde 1986 e cujos anos dourados remontam ao final da década de 1950, as expectativas antes do início desta temporada eram muito baixas.

A construção do novo estádio do AGF, atualmente designado "Skovens Arena" (Arena da Floresta), tem sofrido atrasos significativos e derrapagens orçamentais, colocando pressão financeira tanto no projeto como no clube.

No final de 2025, o projeto acumulava uma dívida de 34 milhões de euros, e a conclusão foi adiada do prazo inicial de 2026 para o início ou meados de 2027.

Isso deixou o AGF com poucos recursos para renovar um plantel em que várias das principais figuras, como o avançado Patrick Mortensen, os defesas Fredrik Tingager e Henrik Dalsgaard, e o guarda-redes Jesper Hansen, estão a aproximar-se do final das suas carreiras.

Além disso, a equipa tem sido obrigada a jogar num estádio provisório em Vejlby, um subúrbio a norte de Aarhus, enquanto o novo recinto é construído no local do antigo Ceres Park. Este estádio temporário, embora funcional, tem menor capacidade e custos de operação mais elevados, o que resulta em menos bilhetes vendidos e despesas acrescidas.

O AGF prevê um défice de 4 milhões de euros para o exercício financeiro de 2025/26 devido aos encargos associados ao estádio provisório.

Jacob Poulsen foi o grande trunfo no mercado

Pouco fazia prever que as expectativas fossem superadas esta época, já que o AGF começou com um empate 1-1 fora frente ao Sonderjyske e uma derrota caseira por 1-2 diante do Randers.

No entanto, na quarta jornada, o AGF arrasou o FC Copenhaga com um triunfo por 3-2, que poderia ter sido ainda mais expressivo, e a partir daí, a formação de Aarhus nunca mais abrandou.

Grande parte do sucesso do Aarhus deve-se ao antigo internacional dinamarquês Jacob Poulsen, contratado ao Viborg para substituir Rosler no início da época, por decisão do diretor desportivo Carsten V. Jensen.

Ao contrário dos anteriores treinadores, David Nielsen e Uwe Rosler, frequentemente vistos como conflituosos, Poulsen é descrito como um técnico 'moderno', que aposta na confiança nos jogadores em vez de depender apenas do controlo. Esta abordagem trouxe equilíbrio ao plantel.

Poulsen implementou um modelo mais flexível, privilegiando a paciência, passes curtos e pressão homem a homem eficaz, em detrimento da força física.

Além disso, um dos segredos do seu sucesso tem sido a capacidade de potenciar individualidades, permitindo que os jogadores encontrem soluções dentro de campo.

Poulsen incutiu uma mentalidade forte na equipa, o que lhes permite manter a calma em situações de pressão e reagir nos jogos mais apertados.

No geral, Poulsen deu espaço a jovens talentos como Sebastian Jorgensen, Frederik Emmery, James Bogere e Jacob Andersen, em claro contraste com Rosler, que apostava sempre nos mais experientes para resolver os jogos.

Estatísticas impressionantes

Os números falam por si. O AGF está invicto em 26 dos seus últimos 28 jogos na Superliga e apresenta a defesa mais sólida da Liga, tendo concedido apenas 30 golos em 30 partidas, ao mesmo tempo que marcou 54.

A equipa manteve um forte poder ofensivo, com um xG recente de 1,49 nos últimos cinco encontros, o que demonstra a intenção de aproveitar ao máximo esse potencial.

O internacional norueguês Kristian Arnstad é o símbolo da transformação vivida pelo AGF sob o comando de Poulsen.

Arnstad teve dificuldades para jogar no Anderlecht, com Brian Riemer, atual selecionador dinamarquês, mas no AGF tornou-se uma presença garantida na convocatória da Noruega para o Mundial-2026.

Atualmente, tudo passa por Arnstad, que passou do meio-campo para uma posição de número 10 à esquerda, sendo titular habitual esta época, com mais de 2400 minutos disputados e 12 participações em golos (nove golos e três assistências).

Arnstad será certamente titular entre os onze escolhidos quando o AGF viajar até Copenhaga para defrontar o seu maior rival, o Brondby, este domingo.

Num curioso volte-face, o AGF roubou o título dinamarquês ao Brondby há dois anos, vencendo por 2-3 fora frente à equipa de Jesper Sorensen, mesmo quando ao Brondby bastava vencer para ser campeão.

Agora, o Brondby tem a oportunidade de se vingar, mas se o AGF completar a sua época de sonho e levantar o troféu em casa do Brondby, será a humilhação máxima para a equipa de Steve Cooper, que caiu na hierarquia da Superliga dinamarquesa.

Para a cidade de Aarhus, o tempo vai parar às 17:00 deste domingo, quando o AGF tentar pôr fim a 40 anos de sofrimento.