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O relógio não para e aproxima-se o apito inicial do jogo mais mediático da história da Associação Cultural, Desportiva e Recreativa de Lamelas. Numa pequena aldeia do concelho de Castro Daire, com pouco mais de 300 habitantes, vive-se por estes dias um entusiasmo difícil de descrever. O motivo? A visita do Vitória SC, histórico emblema do futebol português, para a terceira eliminatória da Taça de Portugal. É também esta a beleza do nosso futebol.
De um lado, uma equipa da Divisão de Honra da Associação de Futebol de Viseu. Do outro, um conjunto habituado aos grandes palcos do futebol nacional. O Flashscore conversou com Rui Gomes, treinador do Lamelas, para perceber como se prepara um dos jogos mais especiais da história do clube.
"Existe uma ansiedade e uma expectativa enormes em torno deste jogo, sobretudo para que tudo corra bem em termos de organização e logística. Nota-se uma grande vontade de fazer as coisas da melhor maneira possível", começou por explicar Rui Gomes, que assumiu o comando técnico do Lamelas na temporada passada.
Há jogos que valem muito mais do que 90 minutos. Para o Lamelas, o duelo com o Vitória SC é um desses casos. A bola ainda não começou a rolar, mas a aldeia já vive num frenesim por este acontecimento que promete ficar na memória de várias gerações. Entre os habituais compromissos profissionais, os treinos ao final do dia e os preparativos de uma organização pouco habituada a tamanha exposição, há um sentimento que une todos os que vivem o clube: o orgulho.
Para o treinador, não há dúvidas quanto à dimensão do acontecimento. "É o jogo mais importante da história do clube, pelo mediatismo e pela dimensão do adversário, um adversário de uma dimensão que o Lamelas nunca defrontou."
O único senão é a impossibilidade de disputar o encontro no habitual recinto do clube, no coração da aldeia. Um pormenor que, segundo Rui Gomes, teria tornado a ocasião ainda mais especial. Ainda assim, a mudança de palco para o Complexo Desportivo de Castro Daire não diminuiu o entusiasmo de uma comunidade em que praticamente toda a gente tem alguma ligação à associação.
"Numa aldeia tão pequena, toda a gente acaba por contribuir de alguma forma para a vida do clube. Há uma enorme expectativa pela chegada do dia do jogo, porque será um momento histórico, não apenas para o Lamelas, mas também para as pessoas que vivem na aldeia."
David contra Golias: "Não mudámos absolutamente nada"
A diferença entre os dois emblemas não se mede apenas pelos escalões que os separam. Enquanto os jogadores do Vitória SC têm no futebol a sua profissão, muitos dos atletas do Lamelas dividem os dias entre o trabalho e a paixão pela modalidade.
É uma realidade que ajuda a perceber a dimensão do desafio, mas que não levou Rui Gomes a alterar a preparação da equipa. Apesar da importância do encontro, a semana de preparação decorreu dentro da normalidade.
"Não mudámos absolutamente nada. Treinámos três vezes, como fazemos habitualmente, e preparámos o jogo com base naquilo que conhecemos do adversário, tal como acontece nos encontros do campeonato. Trabalhámos os diferentes momentos do jogo, sempre de acordo com o nosso modelo de treino", explicou.
"Sabemos que vamos defrontar uma equipa de um nível completamente diferente daquele a que estamos habituados, mas não faria sentido alterar toda a nossa rotina. Por isso, mantivemos os mesmos objetivos, a mesma exigência e a mesma forma de trabalhar", reforçou.
O treinador natural de Santa Comba Dão admite, ainda assim, que o sorteio da 3.ª eliminatória da prova rainha do futebol português mexeu com o balneário. Durante os primeiros dias, a perspetiva de defrontar o Vitória SC dividiu atenções com o arranque do campeonato distrital. Uma distração compreensível, mas que o técnico acredita ter sido ultrapassada.
No entanto, os resultados não corresponderam totalmente às expectativas. O Lamelas não conseguiu vencer os dois últimos encontros disputados no campeonato, apesar de Rui Gomes considerar que a equipa foi superior aos adversários.
A última jornada deixou marcas no grupo, depois de uma vantagem de 3-1 desperdiçada diante do Carregal do Sal, que conseguiu chegar ao empate (3-3). Ainda assim, a aproximação do jogo da Taça ajudou a devolver a alegria aos treinos.
"Começámos a semana com alguma tristeza, sobretudo por causa do resultado do último jogo do campeonato. Mas, entretanto, o ambiente melhorou. Voltou a haver mais alegria, mais descontração e vontade de trabalhar", garantiu ao Flashscore.
"Sinto uma grande expectativa por parte dos jogadores. Todos querem que chegue o dia do encontro para terem a oportunidade de viver um momento tão especial", acrescentou.

Sporting, Marítimo e Vitória SC: a sorte de Rui Gomes na 3.ª eliminatória
Se na preparação nada mudou, o mesmo não se pode dizer de tudo o que rodeia a equipa. Os jornalistas, as câmaras e uma atenção mediática pouco habitual passaram a fazer parte do quotidiano do clube nos últimos dias. Uma exposição que, segundo o treinador, tem sido encarada com naturalidade, até porque alguns jogadores já viveram experiências semelhantes.
Ainda assim, para muitos dos atletas, o duelo com o Vitória SC poderá representar uma oportunidade única na carreira. Já para Rui Gomes, será o reencontro com um cenário que conhece bem.
O técnico prepara-se para defrontar uma equipa da Liga pela terceira vez na carreira, sempre na mesma fase da Taça de Portugal. Primeiro, ao serviço do Sacavenense, quando mediu forças com o Sporting, no Jamor. Depois, enquanto treinador do Mortágua, diante do Marítimo. Agora, o destino volta a colocá-lo perante um adversário de dimensão nacional, desta vez ao comando do Lamelas.
A experiência acumulada ajuda-o a relativizar o mediatismo e a concentrar as atenções no que pode acontecer dentro das quatro linhas. Rui Gomes estudou o Vitória SC ao pormenor e encontrou uma equipa que, na sua opinião, tem produzido mais futebol do que aquele que os resultados deixam transparecer.
"O Vitória SC é uma equipa que, pelo futebol que pratica e pelas oportunidades que cria, tem tido resultados inferiores àquilo que produz em campo. Se olharmos para os golos esperados, o chamado xG, percebemos que tem criado ocasiões para marcar mais golos do que aqueles que efetivamente conseguiu", destacou ao Flashscore.
"Sabemos, por isso, que vamos enfrentar uma equipa muito difícil de defender. Mas aquilo que mais gostava de ver era o Lamelas a colocar em campo o trabalho que desenvolve durante a semana e aquilo que procura fazer no campeonato", reiterou.
O desafio será, por isso, enorme. Habituado a assumir a iniciativa na Divisão de Honra da AF Viseu, o Lamelas terá pela frente um adversário com argumentos para o obrigar a passar grande parte do encontro em organização defensiva. Mas há uma ideia da qual Rui Gomes não pretende abdicar: a identidade da equipa.
"Estamos habituados a jogar no meio-campo adversário, a assumir uma postura ofensiva. Neste encontro, isso poderá não acontecer. Mas, se formos obrigados a jogar mais recuados, será pela capacidade do Vitória para nos empurrar para outras zonas do terreno, e não por uma decisão nossa de abdicar daquilo que somos", perspetivou.
"Temos de estar preparados para esse cenário. Foi isso que procurámos trabalhar e acredito que, depois do último treino, estaremos preparados para enfrentar as dificuldades que o jogo nos vai colocar", acrescentou.

O sonho de conseguir aquilo que ninguém fez
É precisamente aqui que entra a magia da Taça de Portugal. Uma competição que, ano após ano, proporciona encontros entre mundos completamente distintos e alimenta a esperança dos clubes mais modestos. Em Lamelas, ninguém ignora a diferença de qualidade, experiência e recursos. Mas também ninguém quer entrar em campo com a derrota antecipadamente assumida.
Rui Gomes foi à procura de inspiração na história da prova e encontrou um dado que tornou o desafio ainda mais aliciante: segundo a pesquisa que realizou, nunca uma equipa dos campeonatos distritais conseguiu eliminar um adversário da Liga na Taça de Portugal.
"Claro que toda a gente pensa um bocadinho nessa possibilidade. Estive a pesquisar e, até hoje, nunca uma equipa dos campeonatos distritais conseguiu eliminar uma equipa da Liga na Taça de Portugal", anunciou.
A ambição não significa desconhecimento da realidade. Rui Gomes sabe que o favoritismo pertence inteiramente ao Vitória SC, mas recusa retirar aos seus jogadores o direito de sonhar.
"Sabemos que será extremamente difícil, mas existe sempre aquela esperança de conseguirmos fazer uma grande exibição e transformá-la numa vitória. Gostávamos muito de ser os primeiros a conseguir essa proeza", atirou.

E é também por isso que o treinador não se revê inteiramente numa das expressões mais utilizadas no futebol quando um pequeno enfrenta um gigante: a ideia de que não existe nada a perder.
"Tenho dito aos jogadores que devemos pensar um bocadinho naquela expressão de que 'não temos nada a perder'. Porque eu acho que temos, sim, alguma coisa a perder: a oportunidade de mostrar a nossa capacidade", revelou.
Uma reflexão que ganha outra dimensão quando se olha para a composição do plantel. Segundo Rui Gomes, entre 50% e 60% dos jogadores já não têm grandes perspetivas de atingir outros patamares no futebol, seja pela idade, seja pelos compromissos profissionais que mantêm fora dos relvados. Alguns ultrapassaram os 30 anos e sabem que dificilmente voltarão a disputar um encontro desta dimensão.
"Mais do que a exposição mediática, queremos que as pessoas percebam que existe qualidade nesta equipa e que há muito trabalho por trás daquilo que fazemos em campo", rematou.

Uma aldeia inteira por detrás de um clube
Independentemente do que acontecer dentro das quatro linhas, há uma vitória que o Lamelas já conquistou: a possibilidade de colocar o nome de uma pequena aldeia do interior no mapa do futebol português.
Rui Gomes não sabe quantos adeptos do Vitória SC estarão presentes, nem se os apoiantes do Lamelas conseguirão fazer-se ouvir perante uma massa associativa de outra dimensão. Mas há algo de que não duvida: a ligação das gentes da terra ao clube.
"Tanto em casa como fora, temos quase sempre a maioria dos adeptos presentes nos jogos. Isso demonstra bem a ligação que existe entre a população e o clube. As pessoas gostam muito do Lamelas, acompanham a equipa e fazem questão de estar presentes. É um sentimento de pertença muito forte", elogiou.
É essa ligação que ajuda a explicar por que razão um jogo de futebol se transformou num acontecimento tão importante para a comunidade. Portanto, quando soar o apito inicial, as diferenças entre os dois clubes continuarão a ser enormes. O Vitória SC terá do seu lado o estatuto, a experiência e o favoritismo. O Lamelas entrará em campo com a esperança de quem sabe que oportunidades destas não aparecem todos os dias.
O treinador espera que, no final, o nome do clube fique associado a uma equipa organizada, fiel aos seus princípios e capaz de dignificar o futebol distrital. Mas também a uma associação que sabe receber quem a visita.
"Gostava que dissessem que somos um clube que sabe receber bem as pessoas. Depois, no plano desportivo, gostava que reconhecessem que somos uma equipa com uma identidade bem definida, que sabe aquilo que faz quando defende e quando ataca", desejou.
O resultado será conhecido ao fim de 90 minutos... ou talvez mais. A memória do acontecimento, essa, promete durar para a eternidade. Porque, numa aldeia de pouco mais de 300 habitantes, há sonhos que não cabem nas quatro linhas de um campo de futebol.

