“Esta qualificação foi a maior alegria desportiva que eu tenho do Torreense”, salientou Vítor Mendes, em declarações à Lusa, enquanto passeava pelo Jardim da Graça, um dos espaços icónicos na cidade de Torres Vedras e também com forte simbolismo para o clube.
O antigo futebolista dos azuis grená foi um dos responsáveis pelo simbólico início de partida ocorrido na segunda mão da meia-final – em que o Torreense bateu o Fafe, da Liga 3, por 2-0 –, e destacou que o momento sobrepõe-se à histórica subida de divisão, em 1990/91.
“A subida de divisão é um campeonato e o jogo de ontem é uma semifinal. É diferente, pois não contam os pontos, mas os golos. No decorrer do jogo, com todo o simbolismo e com aquela envolvência… foi uma alegria tremenda. Fiquei feliz por ver os outros felizes”, sublinhou um dos melhores marcadores de sempre do Torreense, com 68 golos apontados durante 11 temporadas.
O antigo médio integrou as gerações que sucederam à emblemática equipa azul grená que conquistou a única presença na final da prova rainha, em 1955/56, perdida para o FC Porto (2-0), mas elenca a atual caminhada como mais especial.
“Não me lembro bem desse jogo, tinha 15 anos, mas senti a importância do de ontem”, analisou o ex-futebolista, de 85 anos, antecipando já a presença na tribuna do Estádio Nacional, em Oeiras.
E será esse o momento que o promete emocionar.
“Com esta idade já é difícil, mas creio que no Jamor, quando tocar o hino nacional, vai cair a pele”, adivinhou o antigo atleta que integrou a equipa que se sagrou campeã da II Divisão, em 1962/63, e, posteriormente, a que subiu da 3.ª à 2.ª Divisão, em 1972/73.
Com intenção de rumar ao Jamor estava também Leonel Martins, que reside em Torres Vedras há 35 anos e, por isso, considera a qualificação para a final da prova rainha um momento marcante.
“Não consegui bilhete para ir ao estádio ontem, com muita pena minha, mas vi pela televisão e achei um bom jogo. Este momento está ao nível de quando subimos à 1.ª Divisão, em 1990/91 e é igualmente importante”, salientou o adepto, de 77 anos, que verá os dois clubes do coração (Torreense e Sporting) enfrentarem-se na final da competição.
Sobre preferências, a mensagem foi clara: “vou bater palmas pelos dois até ficar com as mãos inchadas”, atirou, notando que “o que interessa é o ambiente de festa que se vai viver”.
“E o porco assado”, brincou também, numa afirmação que mereceu a aprovação dos conterrâneos com quem analisava as incidências do jogo da meia-final.
Os golos de David Bruno e Stopira deram a vitória ao emblema da Liga 2 frente ao Fafe, da Liga 3, na segunda mão das meias-finais, após o empate 1-1 em Minho, assegurando a qualificação do Torreense para a final da Taça de Portugal, reeditando um percurso que apenas teve igual desfecho há sete décadas.
Nas ruas centrais de Torres Vedras vive-se, por isso, um dia feliz e, nos cafés, o feito domina as conversas.
Que o diga Maria Zélia, que, aos 80 anos, ainda se recorda “lindamente” da terça-feira de Carnaval (16 de fevereiro de 1999) em que o Torreense eliminou o FC Porto, por 1-0, no Estádio das Antas, no Porto, na quinta eliminatória da Taça de Portugal.
“Nessa noite nem me deitei para esperar a chegada da equipa”, lembrou, assinalando que o momento compara-se ao que foi vivido após garantida a qualificação para a segunda final da Taça de Portugal da história do clube.
Questionada sobre qual o desfecho de que gostaria para o duelo decisivo, deixou o resultado nas "mãos do destino".
“Sou sportinguista, mas sou de Torres Vedras. Ficarei feliz com qualquer que seja o vencedor. Aconteça o que acontecer, será bom”, antecipou, retomando depois a conversa com as três amigas para enaltecer o feito histórico do emblema do Oeste.
Mas se entre a população mais velha paira no ar a felicidade, a mesma observa-se entre as gerações mais jovens, que também não escondem a alegria.
E foi precisamente a felicidade no rosto que chamou a atenção para Sandra Martins, uma das muitas adeptas que não conseguiu bilhete para a meia-final, mas que admitiu que não poderá perder a oportunidade de ir com o pai ao Jamor.
“Não ligo muito a futebol, mas este é um momento único e vou querer lá estar com o meu pai”, assumiu a torreense de coração, que espera, aos 42 anos, assistir pela primeira vez à final da Taça de Portugal no Estádio Nacional, em Oeiras.
Sobre a segunda mão da meia-final, assumiu ter sido “sofrida”. “Ia dando-me uma coisinha má”, gracejou.
Sete décadas depois, o Torreense vai marcar presença pela segunda vez na final da segunda prova mais importante do calendário do futebol português e a conquista reflete-se na população, num cenário confirmado por Pedro Siopa.
Colaborador de um estabelecimento comercial, o jovem confirmou uma “disposição diferente” entre a população.
“Nota-se que as pessoas estão mais alegres”, disse, revelando que, desde a noite de quinta-feira e durante a manhã, ouviu por várias vezes o apuramento ser tema de conversa entre os clientes do café e também entre as pessoas que passeavam pela rua.
Nascido e criado em Torres Vedras, descreveu que o momento está a ter “um impacto muito grande” na vida da cidade, perdendo mesmo a conta às vezes que já ouviu o nome do Torreense ser dito durante a manhã.
O Torreense vai defrontar o Sporting na final da 86.ª edição da Taça de Portugal de futebol, num encontro que está marcado para o Estádio Nacional, em Oeiras, no próximo dia 24 de maio.
Todavia, a equipa de Luís Tralhão continua também a lutar pelo regresso ao escalão máximo do futebol português, ocupando atualmente a terceira posição da Liga 2, em zona de play-off de subida.
Um regresso ao primeiro escalão, que já disputou em seis temporadas, a última das quais em 1991/92, promoveria nova celebração na cidade, antes mesmo da festa da final da Taça.
