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Gonçalo Ramos: "Se o Cristiano Ronaldo quiser abandonar a seleção tem de fazer uma despedida de acordo com a sua imagem"

Gonçalo Ramos, avançado do AC Milan e da seleção nacional
Gonçalo Ramos, avançado do AC Milan e da seleção nacionalREUTERS/Daniele Mascolo

Gonçalo Ramos, avançado internacional português do AC Milan, foi o último protagonista do programa "Soltinhos pelo Mundo", do "Canal 11". Na segunda parte da entrevista, o atacante formado no Benfica recordou os anos no clube da Luz e falou ainda na relação com Cristiano Ronaldo e do caso do capitão da seleção nacional.

Pepe e Otamendi: "Apanhei o Pepe quando ele estava no FC Porto, é chato, dá umas porradas, é rápido, agressivo. Quando o apanhei ele estava no máximo da sua experiência e a apanhar-me miúdo. Ele não me dizia nada ao ouvido, dentro de campo ele tem aquele ar de meio assassino, mas não dizia nada. É como o Otamendi, tem aquele ar de assassino, de guerreiro, para te virar e matar, mas não dizia nada. No treino apanhava muitas vezes o Otamendi, dávamos grandes porradas um ao outro, mas na lealdade."

Outros centrais que o marcaram: "Van Dijk e Konaté no Liverpool, são os dois gigantes, o Upamecano é uma besta. E o Balerdi puxava-me a orelha, o braço, beliscava-me nas costas. Eu não lhe faço o mesmo, mas também provoco-o, se for numa bola dividida mato-o logo. Uma vez dei-lhe com o ombro na cara."

As duras de Jorge Jesus: "Como qualquer miúdo, eu tinha muitas duras. É impossível dizer que não se aprende com o mister, mesmo que seja daquela forma especial que ele tem de lidar com os jogadore. Faz parte do dia a dia, muitas vezes é engraçado. Quando somos miúdos abala-nos um pouco mais, mas é uma grande aprendizagem, taticamente, pormenores."

Pormenores que não esquece: "Ele (Jorge Jesus) diz sempre aos avançados, quando estão de costas para a baliza, para não jogarem de primeira, mas sempre a dois toques, porque o mister diz que se falhares de primeira, dá sempre aquela sensação de que foste precipitado. Num treino, num apoio frontal, joguei de primeira e falhei e o mister disse: 'A bola nos teus pés parece uma melancia'. Não era todos os dias, mas de vez em quando saía-lhe uma destas. Da próxima vez eu dava dois toques na bola e rezava para que o primeiro fosse bom. Rir? Se isso agora me acontecer talvez me ria, mas na altura..."

Reencontro com Jorge Jesus na seleção: "No golo que marquei no último jogo, à Noruega, ele dizia-me para não sair da zona da área. E depois eu fiz o golo e ele disse-me: 'Eu estava-te a dizer, ó!' Eu começo-me a rir e o míster depois começa-se a rir também."

Formar dupla com Cristiano Ronaldo: “Respeitamos o estatuto do Cris, mas acho que, muitas vezes, poderíamos jogar juntos. Podíamos estar a recompensar a boa forma, os meus golos, não abdicando do Cris. Tanto que já aconteceu jogarmos juntos. Há um jogo no Dragão contra a Eslováquia em que jogámos juntos, fizemos um grande jogo. Não só eu e ele, a equipa toda. É possível, não tem de se abdicar de um para jogar o outro. Há todas as possibilidades, para mim o importante é eu jogar mas não quero que saia ninguém em específico, é uma decisão do míster."

Caso de Cristiano Ronaldo no estágio: ”Foi uma situação meio estranha. Tínhamos um treino, chegámos e percebemos que o Cris já não estava lá. É sempre uma situação chata, acabam por soar muitos alarmes e haver muito barulho à volta da Seleção. E é um barulho mau. É o Cris, que dispensa apresentações, é o nosso capitão a abandonar o estágio. E, claro, tudo o que ele faz, seja bom ou menos bom, vai ter uma grande repercussão. Deixa-nos ali ‘o que é que se está a passar?’. Meio que nem parece verdade. Ficámos tipo ‘ok, foi embora? Não foi...' Durante o treino percebemos que não estava, depois disseram que foi embora. ‘Para o hotel?’. Não, tinha ido mesmo embora e essa foi a última noticia que tivemos dele. Não dá para ignorar, mas nem comentámos muito e tentámos abstrair-nos. Era tipo ‘Ok, ele foi embora, estamos aqui, temos jogo amanhã, não há grande coisa que possamos fazer. Vamos jogar. Não conseguimos ir buscá-lo nem impedi-lo de ir. Depois já são assuntos para direção e cargos mais importantes. Seja o Cris ou outro, ninguém quer que abandone o estágio.”

Despedida de Cristiano Ronaldo da seleção: “Assim é que não pode ficar. Se, de facto, o Cris quiser abandonar a seleção, tem de fazer uma despedida de acordo com a sua imagem, o seu legado e o seu estatuto. Mas acima de tudo pelo seu legado, por tudo o que fez e deu ao país, à seleção e à Federação. Inspirou-nos a todos. Se quiser abandonar é isso que deve fazer. Se não quiser, isso não sei, têm eles que decidir, não faço ideia."

Regresso de Cristiano Ronaldo aos convocados de Jorge Jesus: "Se calhar, por uma atitude de cabeça quente, vamos amuar e deixar de falar com ele? Acontece. Na vida, no trabalho, no futebol... Um dia acordei com os pés fora da cama, acordei chateado com a minha mulher e descarrego num colega de trabalho. Ou chateio-me com o colega de trabalho e depois respondo mal à minha mulher. Se o Cris for ao próximo estágio, vamos estar lá, vou cumprimentá-lo exatamente da mesma maneira, não vou tocar no assunto, é um assunto dele. Se tiver e quiser resolver, resolve com o míster, com a Federação. Se quiser falar connosco estamos para ouvir mas ninguém, acho eu, lhe vai cobrar nada."

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