A paixão de Carlos Brum pelo futebol vem de infância. Mais precisamente de quando tinha 10 anos e, aproveitando a presença americana na base das Lages, nos Açores, pôde ver, no canal norte-americano, a reviravolta portuguesa diante da Coreia do Norte, no Mundial de 1966.
“Lembro-me de ver esse jogo na adega. Estávamos a perder 3-0 e fomos ganhar 5-3, com aquela exibição do Eusébio. Eu tinha 10 anos, o meu pai até foi comprar foguetes para celebrar a vitória. Aí nasceu a minha paixão pelo futebol e pela seleção. Aí e com aquele golo do Carlos Manuel à Alemanha, a 30 metros da baliza, na qualificação para o Mundial do México”, lembra Carlos Brum ao Flashscore, a meio de mais uma viagem para um Mundial, uma aventura que começou no Mundial de 2002, na Coreia do Sul e no Japão.
“Nesse ainda fui de avião. Depois disso deu sempre para ir a conduzir. Fui a todos os Europeus e todos os Mundiais desde aí. Falhei apenas o do Brasil. Ainda tentei mas a despesa total era de 26 mil euros”, lembra o adepto português, que recorda igualmente os jogos que mais o marcaram nesta odisseia: “O de França, claro, porque fomos campeões. Mas também o jogo com Inglaterra, no Euro-2000, quando estávamos a perder 2-0 e fomos ganhar 3-2.”

Quinze países e o Irão a trocar-lhe as voltas.
O plano de viagem, que começou dia 20, partindo de Odiáxere, passava por 15 países, mas depois de Espanha, França, Suíça, Liechtenstein, Áustria, Alemanha, República Checa – com paragem para assistir ao jogo de Portugal e à vitória por 4-0 -, regresso à Áustria, Eslovénia, Croácia, Bósnia e Sérvia, Carlos Brum está agora na Grécia, de onde sairá de avião diretamente para o Catar, depois do Irão lhe ter trocado as voltas.
“Estamos aqui há duas semanas. Temos avião ao meio-dia do dia 18 para o Catar. Terei de deixar a carrinha num amigo meu, aqui em Atenas, porque o Irão negou-nos os vistos para passarmos com a carrinha. Lixaram a viagem toda”, lamenta.

Uma carrinha… com sentimentos
Carlos Brum começou esta aventura nos anos 70. “Não tinha muito dinheiro nessa altura, comecei com uma carrinha Volkswagen antiga. O primeiro jogo de Portugal que vi no estrangeiro foi esse tal com a Alemanha, em 1985, na qualificação para o Mundial do México. E desde aí que falhei muitos poucos jogos da Seleção. Fui a todos os Mundiais e Europeus mas também aos jogos de qualificação. Só falhei um com a Albânia porque a minha esposa não se estava a sentir bem, teve de ser operada e então não consegui ir”, recorda Carlos Brum, que conduz agora uma carrinha de sete metros, com outras condições, e com o patrocínio do Flashscore.

“A que levei ao Europeu da Ucrânia e da Polónia, em 2012, e depois ao Mundial da Rússia, em 2018, era mais pequena. Vendi-a, juntei um pouco mais de dinheiro e fui buscar esta à Alemanha. Tem um grande motor mas também tem sentimentos. Todos os dias temos de falar com ela e quando nos esquecemos ela faz o favor de aquecer, temos de a desligar durante uns cinco minutos e depois continuar viagem. Ela bem nos avisa”, brinca Carlos Brum que, depois de muitas viagens sozinho – “mais vale só que mal acompanhado”, diz -, desta vez terá a companhia de Ricardo Ferreira, de 40 anos, que conheceu em 2020, na Hungria, no Campeonato da Europa.
“Dei boleia ao Ricardo para Portugal, ficámos amigos e eu convidei-o para fazer esta viagem comigo. Antes fazia mesmo a maioria das viagens sozinho”, diz Carlos Brum, que se orgulha de nunca ter tido qualquer problema mecânico em todas estas odisseias.
“Sou um excelente condutor. Nunca vou a mais de 100 quilómetros/hora. Nunca tive sequer um furo. Antes de cada viagem faço uma boa revisão à carrinha e todos os dias de manhã, antes de sair, dou-lhe um beijinho, pergunto como ela está e seguimos caminho”, explica.
O percalço e o susto de uma vida
Com tantos milhares de quilómetros percorridos, a verdade é que, desta vez, Carlos Brum e Ricardo Ferreira tiveram mesmo um percalço. Involuntário, sim, mas um percalço.
“Foi na Geórgia. Um camião passou por nós, saltou uma pedra e rachou o vidro. Agora olha, temos de andar assim, quando chegar a Portugal tenho o seguro e meto outro”, explica Carlos Brum, que tem obviamente muitas estórias para contar.
“No Mundial da África do Sul estava a conduzir da Etiópia para a fronteira com a Tanzânia. Era a final da Liga dos Campeões, entre o Inter e o Bayern. Estávamos a passar a fronteira mas disse aos meus amigos que tínhamos de parar para ver o jogo. Vimos um restaurante inglês aberto, a dar o jogo. A comida era péssima, a cerveja quente mas o Mourinho ganhou. No Sudão fomos assaltados. Apontaram-nos armas à cabeça, queriam todo o nosso dinheiro. Conseguimos fugir. Como? Cozinhei para eles. Esparguete, muito vinho, ficaram bêbados e conseguimos sair. Foram sete garrafas de vinho! É a estória mais assustadora que tenho”, conta Carlos Brum.

189 países, dez línguas
Com a Geórgia, onde o vidro entrou nas peripécias de viagem, o adepto português passou a 189 países visitados. “Já a contar com o Catar, que já lá estive em agosto. É um cromo repetido”, brinca Carlos Brum. Línguas faladas são dez, ao todo.

“Inglês, francês e alemão aprendi no liceu. As outras foi a viajar. Saí da ilha Terceira para conhecer o Mundo em 1977. Só estou em Lagos desde 1998, depois de voltar da Ásia, onde vivi durante 22 anos, em todos os países exceto o Butão. É difícil conseguir visto para lá. Falo português, espanhol, inglês, francês, italiano, alemão, grego, nepali, thai e indiano”, elenca o adepto português.
Um Mundial diferente
Este é, para todos, um Mundial diferente. E Carlos Brum, que já viveu vários na primeira pessoa, não foge à regra, embora impere, como em tudo na sua vida, o otimismo.
“Vai ser num país árabe, algo que nunca aconteceu. Estamos a falar de uma realidade com conflitos políticos, elementos radicais. Eu espero e acho que tudo vai correr bem mas é sempre um risco. Depois o facto de ser jogado nesta altura do ano. Altera um bocado a lógica do Mundial. Mas isso é a corrupção, toda a gente sabe o que aconteceu. Mas uma vez que está feito, que está escolhido, não se pode voltar atrás. Espero que corra tudo bem, que seja um grande Mundial, e que o Catar tente compensar as famílias dos trabalhadores que morreram. Mas promessas, já sabemos como são os políticos…” lamenta Carlos Brum.
Um T1 com vista para o Catar
A fechar, Carlos Brum leva o Flashscore numa visita guiada ao seu T1 adaptado, sobre rodas, para o Mundial. Saiu de Portugal com quatro quilos de bacalhau, queijos, enchidos e vinho.
Do lado de fora, a decorar a carrinha, os principais símbolos nacionais e, claro, o Flashscore.

“Tem o Eusébio, a Amália e o Cristiano Ronaldo, são os nossos símbolos. Depois tem a minha cara, a bandeira de Portugal e coisas dos Açores, que eu sou muito bairrista. Desta vez lembrei-me e pedi a amigos de bares, cafés, padarias, uma pequena ajuda monetária em troca de uma estrelinha com o reclame deles. Deu para fazer as revisões em Portugal, para o gasóleo até chegar aqui e espero que para o gasóleo até regressarmos a casa. Mas nada disto teria sido possível sem a forte ajuda do Flashscore, a quem agradeço publicamente por toda a força que me deu”, termina Carlos Brum.
