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Reportagem: Lutadores treinam na estepe da Mongólia enquanto aguardam a festa do Naadam

Na Mongólia, os lutadores treinam na estepe enquanto aguardam a festa do Naadam
Na Mongólia, os lutadores treinam na estepe enquanto aguardam a festa do NaadamProfimedia

Ouve-se um apito e dezenas de imponentes lutadores lançam-se pelas pradarias da Mongólia atrás de uma bola de futebol, uma pausa recreativa no meio do exigente treino que perpetua a tradição desportiva mais antiga do país.

Estes lutadores mongóis treinam a um ritmo constante, passando semanas a viver e a treinar em campos situados na estepe mongol com o objetivo de alcançar uma vitória nas provas da competição anual do Naadam, em meados de julho.

"O Mundial de futebol está a decorrer neste momento, por isso quisemos improvisar algo criativo esta manhã", sorri Batsuuri "Basu" Namsraijav, tetracampeão nacional de luta e fundador do seu próprio campo de treino.

Mas no geral, "continua a ser um treino intenso", insiste à AFP.

Mais de 1.000 lutadores vindos de todos os cantos do país vão defrontar-se a partir de 11 de julho num torneio de dois dias, conhecido coloquialmente como "Três jovens viris": luta tradicional, corridas de cavalos e tiro com arco.

Neste novo complexo desportivo batizado de "Basu", os lutadores passam cerca de um mês a viver nas tradicionais yurtas e em cabanas de madeira. O treino decorre numa arena coberta e no ginásio do campo, ou num terreno de treino exterior.

Um ambiente que "era muito mais simples antes", confessa Basu, de 39 anos. "Hoje temos um local onde os desportistas podem treinar devidamente, mantendo-se próximos da natureza".

O treino começa ao amanhecer, seguido de duas sessões de combate, depois uma refeição rica em calorias, composta por carne de vaca ou de ovelha, legumes e chá com leite. O acesso a este campo, situado a cerca de 100 km da capital Ulã Bator, é muito restrito e há poucos visitantes autorizados.

Como as competições do Naadam decorrem ao ar livre, Basu considera que treinar nas verdes pradarias mongóis prepara os lutadores para as condições que terão de enfrentar.

"Tal como os cavalos de corrida, (os lutadores) devem preparar cada parte de si próprios: os seus corpos, a sua alimentação, o seu espírito", explica.

Jovens campeões

Ao contrário da disciplina olímpica da luta, o estilo tradicional mongol não inclui categorias de peso nem limites de tempo, e por vezes um combate pode durar quase uma hora.

Um lutador só perde quando uma parte do seu corpo que não sejam as plantas dos pés toca no chão, e não é raro que lutadores mais jovens ou mais leves consigam vencer adversários de maior envergadura. O campeonato do ano passado foi conquistado por Batmagnai Enkhtuvshin, nascido em 2001, e agora outros jovens intensificam o esforço para tentar conquistar o troféu.

Os campos de treino, onde os lutadores mais experientes transmitem as suas técnicas às novas gerações, continuam a ser um dos pilares deste desporto e continuam a atrair jovens mongóis apesar da rápida urbanização do país.

Uma prática federada e inscrita na identidade mongol, mesmo que as mulheres ainda não tenham autorização para lutar nesses campos.

Sumiyabazar Naranbaatar, jovem promessa da luta com 22 anos, declara à AFP que decidiu dedicar-se a este desporto depois da suspensão do Naadam durante a pandemia de Covid.

"Foi muito estranho. Tem uma história tão longa e, de repente, já não havia mais luta", recorda: "Foi nesse momento que decidi dedicar-me à luta. Sempre quis tornar-me lutador, mas então disse para mim próprio: 'Porque não tentar?'".

Enquanto o sol desaparece por detrás das colinas, Sumiyabazar e os outros lutadores regressam às suas yurtas e cabanas. Nos últimos dias antes do Naadam, já não haverá pausas para jogar futebol, pois o treino tornar-se-á mais intenso.

A vitória traz ao vencedor o respeito do público e honra à sua família e província. Para a Mongólia, explica Basu, o Naadam "são os nossos Jogos Olímpicos nacionais".


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