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Sérgio Conceição e o futuro: "Nos últimos oito anos ganhei sempre títulos e é assim que quero continuar"

Sérgio Conceição treinou o Al Ittihad na última temporada
Sérgio Conceição treinou o Al Ittihad na última temporadaAl Ittihad

Sérgio Conceição, treinador português de 51 anos, sem clube desde que deixou o Al Ittihad, no final da época passada, deu uma entrevista ao "Koora Break", da Arábia Saudita, onde falou do seu futuro, da relação com Benzema, da passagem na Arábia Saudita e da aposta em Vitinha, agora no PSG, no FC Porto.

Sérgio Conceição deu uma grande entrevista ao podcast Extra Time do canal árabe Koora Break, onde falou abertamente sobre a experiência no Al-Ittihad e o seu próximo projeto, o dia-a-dia em Jeddah e a cidade onde continua a viver.  

Arábia Saudita: “Se ainda estou a viver na Arábia Saudita é porque fui extremamente bem acolhido aqui. É um povo que vive muito o futebol, e há poucos dias tive a oportunidade de vibrar com a seleção do país e com a conquista da Taça do Golfo. Vivo o futebol da mesma forma que eles, com a mesma paixão. O Ittihad, à imagem dos outros clubes e do futebol árabe, tem uma margem de evolução grande, e aquilo que desejo é muito sucesso e muitas felicidades, e é um local no qual, como treinador, nunca direi não a um bom projeto.”

Futuro na carreira: “Procuro um projeto onde eu tenha a possibilidade de transmitir a minha paixão, determinação e forma de ver uma equipa. Não falo apenas dos jogadores, mas também da estrutura, o presidente, a ambição do clube com a ambição da região, da cidade, dos sócios, dos simpatizantes, dos adeptos. Tem de haver um conjunto de situações que para mim façam sentido, porque senão fica difícil, e eu gosto de abraçar um projeto para ganhar, não para ser mais um. Nos últimos oito anos, ganhei sempre títulos, com exceção destes meses no Ittihad, e é assim que eu quero continuar.”

Lidar com o jogador de futebol na atualidade: “Eu olho para a mesa dos jogadores e passado duas ou três refeições sei onde é que cada um deles está sentado. Para mim é muito importante olhar nos olhos de um jogador, chamá-lo para perceber qual é a história e o percurso dele, no futebol e na vida, para no momento certo o poder ajudar.”

Influências das escolas de treinadores belga, italiana e portuguesa: “Todas tiveram influência. Eu gostei muito de fazer o segundo e terceiro níveis de treinador na Bélgica, primeiro pelo meu francês, e depois porque encontrei uma forma de olhar para o treino diferente da que vi depois em Portugal. Em Itália, fui jogador em anos maravilhosos, no momento em que o campeonato italiano era o melhor do mundo, apanhei treinadores com ideias muito interessantes, e acho que foi tudo isso que me permitiu depois escolher aquilo que eu acho que é o melhor como base. Depois temos de passar por adaptações e ajustarmo-nos à própria evolução do futebol, tendo a nossa criatividade. O Jorge Jesus costuma dizer que o treinador tem de ser criativo e não copiar ninguém, criar exercícios e situações que levem o grupo a melhorar e a potenciar os jogadores para poder ganhar.”

Segredo do sucesso dos treinadores portugueses: “Acho que não há nenhum segredo. Há uma geração de treinadores portugueses com qualidade, com uma grande capacidade de adaptação. E não é só nos treinadores, eu acho que o português que emigra é alguém que se adapta bem, tem uma capacidade criativa na forma como consegue contornar desafios e problemas. Mas acho que é essa capacidade de adaptação e essa criatividade que o treinador português tem, que faz com que hoje esteja na moda e tenha sucesso. E é o que desejo a todos: muito sucesso.”

Luis Diaz: “O Luis Diaz fui buscá-lo ao Barranquilla, e quando chegou ao FC Porto teve ali cerca de seis meses para se adaptar, ele driblava em todo o lado e saía muito da sua posição. Teve de se adaptar. Mas tinha características que me convenceram quando observei três ou quatro jogos dele, e depois veio-se a confirmar o potencial que tinha, sobretudo a partir do momento em que ganhou algum rigor tático e percebeu o que o jogo lhe dava e o momento em que podia usufruir de toda a capacidade que tinha, aí ganhámos um jogador extraordinário. Prova disso é o trajeto que tem feito nos clubes por onde passou, não só agora na Alemanha como também em Inglaterra."

Vitinha: "O Vitinha era um jogador da equipa B, que não jogava com assiduidade, fui buscá-lo para uns treinos na equipa principal e estreou-se comigo, foi emprestado um ano ao Wolverhampton, no ano seguinte regressou, teve também os seus meses difíceis comigo, para ele perceber que o futebol, no caso dele, não era só capacidade de passe curto e qualidade técnica, era preciso também outras características num médio e ter algo diferente em termos de intensidade, capacidade de recuperação e chegada à área contrária. Ganhou tudo isso e foi titular indiscutível na época em que fizemos 91 pontos, e para mim é um orgulho vê-lo ao nível a que está hoje.” 

Relação com Benzema: “Fantástica. Para nós era uma referência no balneário, porque foi Bola de Ouro, tinha a sua idade, o seu percurso e os seus títulos às costas, mas depois era também um jogador muito ambicioso, determinado, com muita vontade de ajudar a equipa, e também perdemos o grande peso que ele tinha na capacidade de envolver os outros no balneário.”

Patamar de competitividade da liga saudita: “Está num patamar de evolução e de crescimento. No panorama internacional, existem clubes e campeonatos históricos que têm uma competitividade que a Arábia ainda não tem, e isso é absolutamente normal. Mas houve uma melhoria e uma evolução muito interessantes nos últimos anos, a chegada de alguns jogadores deu à liga uma visibilidade que não tinha até então, e mesmo em termos de competitividade, a liga melhorou bastante. Na Liga dos Campeões Asiática, onde encontramos outras equipas, vi e senti que as equipas do campeonato saudita eram mais fortes e mais competitivas do que as dos outros países da Ásia, em geral. Por isso eu acho que está no caminho certo, agora é preciso continuar essa evolução e esse trabalho, e é preciso olhar para quem opina não com sentido destrutivo, mas sim construtivo.”

Contextos diferentes em Portugal, Itália e Arábia Saudita: “São realidades diferentes. Eu trabalhei em Portugal muitos anos, a fase final da minha história com o FC Porto foi feliz em termos desportivos, porque ganhámos a Taça de Portugal. Eu tinha praticamente construído um grupo, não apenas os jogadores, mas toda a estrutura, a relação que eu tinha com o presidente. Eu acho que isso é fundamental para se ganhar, e daí os meus títulos durante esses anos. Devo recordar que foram anos difíceis porque tivemos três anos sob fairplay financeiro e dois anos de uma pandemia que ninguém queria, com estádios vazios e repercussões financeiras também. Depois de uma pausa, vim para Itália, um contexto diferente daquele a que estava habituado e onde encontrei uma equipa com qualidade individual mas sem a mesma estrutura capaz de ser a base da força da equipa e dos adeptos. Mesmo assim, conseguimos ter seis meses positivos onde chegámos a duas finais e vencemos uma contra o Inter, que foi nesse ano finalista da Champions, e chegámos à final da Taça de Itália eliminando os dois adversários que, para mim, estavam em melhor forma nessa altura: A Roma do Ranieri e o Inter do Simone Inzaghi. A Arábia... muitas vezes dizemos que o futebol é universal e é igual em todo o lado mas isso não é bem assim. São realidades diferentes.” 

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