Recorde as incidências da partida
Num jogo em que se esperava o prolongamento do estado de graça do campeão FC Porto, ainda à procura de atingir os históricos 91 pontos do reinado de Sérgio Conceição, a verdade é que os dragões foram presa fácil para o caçador João Henriques e caíram com estrondo na deslocação ao terreno do AFS (3-1).
Farioli apresentou uma autêntica revolução no onze portista, algo que também ajuda a explicar o descalabro. Ainda assim, mérito para uma equipa há muito condenada à descida, mas que, nas últimas duas semanas, conseguiu travar o antigo e o novo campeão nacional, Sporting e FC Porto, respetivamente.

Orgulho em jogo e identidade
A verdade é que a descida do AFS já estava consumada desde 17 de abril, dia em que o empate frente ao Rio Ave (2-2) confirmou matematicamente a despromoção. O cenário tornou-se nesse dia definitivo para um conjunto que passou grande parte da época no último lugar da Liga e que muitos julgavam emocionalmente derrotado. Ainda assim, a resposta dada em campo desde então acabou por contrariar essa ideia.
Desde a confirmação da descida, o AFS empatou frente ao Sporting (1-1), venceu o Nacional (1-2) e surpreendeu agora o recém-coroado campeão FC Porto (3-1), assinando uma reta final de campeonato inesperadamente competitiva para uma equipa sem objetivos classificativos.
A vitória frente aos dragões acabou por simbolizar tudo aquilo que João Henriques tentou construir desde que assumiu a equipa. Mais do que um triunfo isolado, foi a confirmação de uma identidade competitiva recuperada numa fase em que o clube parecia sem rumo.
Durante a semana, o treinador trabalhou sobretudo o lado emocional do grupo. Internamente, o jogo diante do FC Porto foi encarado como a derradeira oportunidade para provar que o AFS não tinha desistido da época, mesmo já sem possibilidade de permanência. O empate diante do Sporting tinha deixado sinais positivos, mas vencer o campeão nacional permitiria validar definitivamente a evolução da equipa e valorizar um grupo de jogadores com rótulo de despromoção.
João Henriques pediu intensidade, pragmatismo e espírito de sacrifício. Uma equipa preparada para sofrer sem bola, mas agressiva nos momentos certos para explorar os espaços. E os números do encontro ajudam a explicar a execução do plano: mais remates enquadrados do que o FC Porto (5-4), mais desarmes (11-6), mais duelos ganhos (53-43) e mais interceções (10-7).

O contexto herdado e a valorização de ativos
Essa competitividade ganha ainda mais relevância olhando ao contexto encontrado pelo treinador quando chegou ao clube de Santo Tirso. João Henriques assumiu o comando técnico na 15.ª jornada, numa altura em que o AFS somava apenas três pontos, fruto de três empates e 11 derrotas, com nove golos marcados e 37 sofridos.
Os resultados finais não chegaram para evitar a descida, mas alteraram claramente a imagem da equipa. Em 18 jogos sob o comando do técnico português, o AFS somou três vitórias, oito empates e oito derrotas, conseguindo discutir jogos com adversários de outro nível competitivo. Pelo caminho, vendeu cara a eliminação na Taça de Portugal diante do Sporting, atual campeão nacional e finalista da prova rainha, empatou com os leões no campeonato e bateu agora o FC Porto.

Os números recentes ajudam a reforçar essa ideia. Por exemplo, nos últimos 15 jogos da Liga, o AFS perdeu apenas cinco vezes e somou 16 pontos, um registo que colocaria a equipa no 11.º lugar da prova nesse período. Curiosamente, 16 dos 20 pontos conquistados no campeonato surgiram já na segunda volta, a melhor de sempre do clube no principal escalão.
Também individualmente houve valorização. Jogadores como Roni, Devenish, Tunde ou Pedro Lima, este último associado ao Sporting, chegam ao final da época mais expostos ao mercado, muito fruto da competitividade demonstrada nesta reta final.
"Falamos nos títulos que o FC Porto venceu, mas existem tantos outros títulos menos mediáticos. Não são só os resultados, mas há a questão de potenciar vários ativos do clube, que pode aqui ter um bom encaixe financeiro. Temos feito o nosso trabalho e estão a emergir vários nomes da vossa parte (comunicação social)", considera o treinador do AFS.
Já sobre Pedro Lima, o treinador dos avenses não tem dúvidas: "Ele é um dos jogadores deste grupo que tem pedigree para que possa assumir um desafio desse nível. Não sabemos os contornos desse rumor, mas ficaria tremendamente feliz se fosse verdade. Para além de ser um bom jogador, conseguia afirmar-se a esse nível. É um menino extraordinário, reconhece a importância do grupo e trabalha muito. Depois de ter números, vai espoletar o interesse de muita gente".

O próprio João Henriques sai reforçado deste contexto. A vitória do AFS frente aos dragões marcou a terceira ocasião em que o treinador português conseguiu roubar pontos aos azuis e brancos na Liga, depois do triunfo ao serviço do Paços de Ferreira, em 2018, e do empate conquistado com o Leixões, em pleno Estádio do Dragão, em 2017.
O contrato com o AFS termina no final da temporada e, embora a continuidade ainda esteja em aberto, existem já sondagens da Polónia para um eventual regresso ao país onde deixou boa imagem ao serviço do Radomiak.
No meio da ressaca da inesperada derrota do FC Porto em casa do lanterna-vermelha, ficou uma ideia difícil de ignorar: o AFS caiu, mas recusou-se a deixar de competir. E essa talvez tenha sido a maior conquista de João Henriques nestes últimos meses.
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