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Almeida Garrett: o projeto que cresceu até desafiar o Benfica por troféus

Almeida Garrett volta a medir forças contra o Benfica
Almeida Garrett volta a medir forças contra o BenficaCJ Almeida Garrett

O Clube Jovem Almeida Garrett continua a ultrapassar fronteiras no andebol feminino nacional. Depois de ter alcançado, na última época, a primeira final da Taça de Portugal da sua história e garantido o regresso às competições europeias duas décadas depois, a formação de Vila Nova de Gaia abre agora a nova temporada com outro marco: a presença na Supertaça, frente ao Benfica, dominador da modalidade em Portugal nos últimos anos.

Os resultados ajudam a explicar o crescimento, mas contam apenas uma parte da história. Por detrás das finais, do regresso às lides europeias e das (muitas) atletas que começam a chegar à equipa principal existe um projeto construído ao longo de vários anos, assente na formação, na qualificação dos treinadores e numa estrutura multidisciplinar pouco habitual para um clube desta dimensão. Tudo isto sem pavilhão próprio, sem sede e com equipas que, em alguns dias, chegam a estar espalhadas por cinco recintos diferentes.

Francisco Silva, vice-presidente do Almeida Garrett, não tem dúvidas de que aquilo que o clube está a viver está longe de ser fruto do acaso.

"É o resultado de quatro ou cinco anos de trabalho sustentado, estruturado e financeiramente exigente. Acreditamos que não foi obra do acaso. Às vezes é muito fácil dizer que aconteceu por isto ou por aquilo, pelo árbitro ou porque uma bola foi ao poste, mas nós, dentro do clube, sentimos efetivamente que temos crescido", começa por explicar o dirigente, em entrevista exclusiva ao Flashscore.

A subida à I Divisão, há quatro anos, foi preparada precisamente com essa preocupação. O clube já tinha vivido uma experiência anterior no principal escalão, num contexto marcado pela pandemia, com um plantel muito jovem, poucas possibilidades de reforço e uma temporada que Francisco classifica como "dramática". Um ensinamento para o futuro, que ajudou a construir o caminho de outra forma.

A chegada de Luís Santos ao comando técnico ajudou a acelerar a transformação. A exigência colocada pelo treinador obrigou também a direção e toda a estrutura a acompanharem esse crescimento. Seguiram-se duas meias-finais da Taça de Portugal, uma presença numa final four da Taça FAP e uma aproximação às competições europeias.

"Tivemos dois anos de muito sucesso com o Luís", anota.

Helena Soares, que assumiu posteriormente a equipa, deu continuidade ao processo e começou igualmente a beneficiar do trabalho feito na formação. Resultado? Chegada à final da Taça de Portugal, a primeira da história do clube.

"Só o facto de termos chegado lá já representou um grande momento para nós e foi também o reflexo da evolução que o clube tem tido nos últimos três ou quatro anos", recorda Francisco Silva, salientando também a importância que a experiência teve para as jogadoras e para as jovens que começavam a ser integradas na equipa principal.

"Temos conseguido manter uma regularidade nos lugares cimeiros e garantir praticamente a manutenção logo na primeira fase, o que nos dá uma segurança muito grande para começar a preparar as épocas seguintes".

Almeida Garrett aposta em vários departamentos
Almeida Garrett aposta em vários departamentosCJ Almeida Garrett

Aposta diferenciadora na estrutura: "É algo que não abdicamos"

Num contexto em que a profissionalização do andebol feminino português continua longe de ser generalizada, o Almeida Garrett tomou uma opção clara: antes de concentrar todos os recursos na contratação de jogadoras, decidiu investir nas pessoas que trabalham à volta delas.

O clube paga os cursos aos treinadores que pretendam aumentar a formação, desde os primeiros graus até ao Master Coach. Atualmente, conta com duas treinadoras com esse nível de qualificação, enquanto Helena Soares também frequenta a formação.

"É algo de que não abdicamos. Queremos que exista formação contínua, mesmo sabendo que corremos o risco de, no ano seguinte, esses treinadores saírem para outro clube. O curso é deles, não é do Almeida Garrett, e está tudo bem. Enquanto estiverem connosco, queremos proporcionar-lhes condições para continuarem a evoluir", afirma Francisco ao Flashscore.

A mesma lógica foi aplicada à equipa que trabalha diariamente com as atletas.

"Neste momento temos treinador principal, treinador adjunto, treinador de guarda-redes, psicólogo, nutricionista, fisiologista e analista de vídeo. Temos praticamente uma equipa técnica e multidisciplinar completa, que dá apoio não apenas às seniores, mas também à formação", descreve.

"Temos uma estrutura fantástica e excelentes profissionais. O fisioterapeuta, o treinador de guarda-redes e a nutricionista, por exemplo, estão também ligados à Federação e às seleções nacionais", completa.

Francisco Silva, vice-presidente do Almeida Garrett
Francisco Silva, vice-presidente do Almeida GarrettCJ Almeida Garrett

Essa é, aliás, uma escolha que obriga frequentemente a tomar decisões difíceis. O vice-presidente recorda conversas em que surgia a possibilidade de contratar determinada atleta e a resposta dentro do clube era simples: para onde iria o dinheiro?

"Deixamos de ter treinador de guarda-redes ou fisiologista para libertarmos essa verba e contratarmos uma atleta?"

A opção foi continuar a investir na estrutura.

"Fomos dando pequenos passos. Começámos, por exemplo, por ter fisioterapeuta para os tratamentos, depois para acompanhar dois ou três treinos das seniores, os jogos e também as fases finais da formação."

A aposta chegou também à tecnologia. O Almeida Garrett utiliza uma plataforma de gestão (XPS) através da qual as atletas conseguem acompanhar os treinos, tratamentos de fisioterapia, trabalho específico e relatórios. A informação acompanha-as mesmo quando estão nas seleções nacionais e pode ser partilhada com futuros clubes.

"Provavelmente ainda não estamos no patamar dos grandes clubes, mas também não devem existir muitos com uma estrutura deste género. Não o digo para nos gabarmos, mas é a realidade", admite o dirigente.

"Criámos aqui uma família. Não existe apenas o treino ou o jogo, há toda uma envolvência à volta do clube."

Várias jovens da formação são aposta na equipa sénior
Várias jovens da formação são aposta na equipa séniorCJ Almeida Garrett

A formação é o coração do Almeida Garrett

Se a equipa principal é atualmente a face mais visível do crescimento do emblema de Vila Nova de Gaia, o coração do projeto continua a estar mais abaixo.

Desde 2021/22, o Almeida Garrett conquistou oito títulos nacionais na formação. Para Francisco Silva, mais importante do que os troféus é a continuidade desses resultados e, sobretudo, o facto de muitas dessas jogadoras começarem agora a completar o percurso até à equipa principal. 

"Quando existe continuidade já não podemos dizer simplesmente que tivemos sorte ou que naquele ano correu bem. Esta geração começou a aparecer precisamente em 2021/22. Estamos há oito anos à frente desta direção e o investimento que fomos fazendo na estrutura do clube, nos treinadores e em tudo aquilo que gravita à volta das atletas e do jogo começou a produzir resultados", sublinha ao Flashscore.

E na nova época, quatro ou cinco atletas desse grupo estarão no plantel principal: "Para nós, esse é o melhor resultado que a formação pode apresentar: conseguir colocar estas atletas a jogar na I Divisão, numa equipa sénior, e vê-las ter sucesso e construir o seu próprio percurso".

O clube procura também transmitir às mais jovens a ideia de que o andebol pode ser mais do que uma atividade complementar.

"Estamos a criar uma estrutura que lhes permita perceber que podem ser profissionais de andebol. Que podem dizer: ‘Quero ser jogadora de andebol’. Naturalmente, os estudos estão lá e acho muito bem que assim seja. Temos inúmeros exemplos de atletas de alta competição que são médicos, engenheiros ou que concluíram os seus cursos enquanto competiam. Porque não podem também as meninas dizer que querem ser jogadoras de andebol?", explicou.

Já existem exemplos concretos. Júlia Figueira deixou o Almeida Garrett para assinar um contrato profissional com o Porriño, em Espanha. Outras atletas seguiram para Itália, enquanto Sofia Ferreira rumou ao Benfica antes de continuar a carreira na Alemanha.

"Quando elas seguem o seu caminho e conseguem concretizar o sonho de serem jogadoras de andebol, para nós é um sinal de que estamos a fazer as coisas bem", assegura Francisco.

O orgulho, porém, vem acompanhado de uma preocupação: o reduzido retorno financeiro do investimento realizado pelos clubes formadores.

No andebol, explica o vice-presidente, uma atleta pode cumprir todo o processo de formação num clube e sair sem praticamente qualquer compensação financeira. O dirigente gostaria de ver mecanismos que permitissem, mesmo numa escala muito inferior à do futebol, recompensar quem desenvolve jogadoras.

"Mesmo um pequeno retorno poderia ser novamente investido na formação. Em vez de prepararmos uma atleta, no ano seguinte poderíamos preparar duas ou três. Não há problema nenhum em sermos um clube formador, que prepara as atletas, lhes dá capacidades e depois as vê chegar ao alto rendimento. Se isso contribuir para termos campeonatos mais competitivos e seleções mais fortes, ganhamos todos", assinala.

Na época passada, o universo do Almeida Garrett rondava as 215 atletas, sendo que entre 75% e 80% estavam nos escalões até sub-18. O projeto vai dos babies às masters e inclui ainda uma equipa B sénior, na Divisão de Honra, considerada fundamental para aproximar as jovens do nível exigido na I Divisão.

"Temos falado sobretudo da equipa sénior, mas o Almeida Garrett representa muito mais do que isso."

Almeida Garrett tem percorrido um caminho muito interessante
Almeida Garrett tem percorrido um caminho muito interessanteCJ Almeida Garrett

Rifas, francesinhas e folhas de Excel

O crescimento competitivo não eliminou uma realidade muito diferente da que envolve os maiores clubes nacionais. Encontrar dinheiro continua a ser uma das tarefas mais difíceis.

"Costumo brincar com o pessoal da direção e dizer que conseguimos mais facilmente arranjar pessoas para fritar batatas e bifes do que para bater à porta de alguém a pedir dinheiro", conta Francisco.

A frase é quase literal. Todos os anos, no Halloween, o clube organiza uma festa da francesinha. As atletas seniores vão para a cozinha, os treinadores ajudam a preparar a comida e cada escalão participa em iniciativas destinadas a angariar receitas.

"Cada festa é destinada a um dos escalões, precisamente para que todos sintam que fazem parte do processo de angariação de fundos."

Patrocinadores, apoios municipais, rifas e festas ajudam a equilibrar um orçamento que nunca deixa grande margem de segurança.

"Procurar apoios é uma tarefa difícil e ingrata, mas felizmente temos conseguido alguns bons patrocinadores. Ainda assim, não cobrem totalmente os custos de uma época. É necessário complementar com rifas, festas e muitas outras iniciativas", confessa Francisco Silva.

A filosofia da direção passa também por tentar evitar que as quotas pagas pelas atletas da formação sejam utilizadas para financiar a equipa principal: "Tentamos, a todo o custo, evitar que as quotas da formação sirvam para pagar as despesas das seniores".

Depois surgem viagens, hotéis, arbitragens e, agora, despesas europeias. O regresso às provas continentais, 20 anos depois, leva o Almeida Garrett a receber em outubro uma equipa cipriota. O adversário propôs a realização das duas mãos em Portugal, solução que permite reduzir os custos em comparação com uma deslocação ao Chipre.

Almeida Garrett chegou à final da Taça de Portugal
Almeida Garrett chegou à final da Taça de PortugalCJ Almeida Garrett

As dores de crescimento: "Logisticamente, é brutal"

É precisamente quando se olha para as infraestruturas que o contraste entre o crescimento desportivo e a realidade diária do Almeida Garrett se torna mais evidente. O clube não tem pavilhão próprio. Não tem sede. Não tem sequer um espaço estável para receber quem o visita. À quarta-feira, entre formação e seniores, pode chegar a estar das 18:30 às 22:00 distribuído por cinco pavilhões diferentes.

"Logisticamente, é brutal", resume sobre a exigência que é a preparação do dia-a-dia do clube.

Os dirigentes transportam material de um recinto para outro. O trabalho de ginásio é feito no Porto, no espaço de uma das treinadoras. Algumas atletas de 14, 15 e 16 anos treinam às sete da manhã antes de entrarem na escola.

"Depois, à quarta-feira treinamos num pavilhão, à quinta-feira noutro... Estamos constantemente a mudar", descreve.

Até a própria entrevista de Francisco Silva acabou por simbolizar essa realidade. Estava prevista para a Escola Almeida Garrett, mas a indisponibilidade momentânea do espaço obrigou a conversa a realizar-se na esplanada de um bar. Para o vice-presidente, esse é agora o principal obstáculo ao crescimento.

"Não termos sequer um espaço onde possamos receber alguém em condições é complicado", lamenta.

O clube quer estabilizar a equipa sénior entre as quatro melhores do país, eventualmente chegar ao top-3 e tornar as participações europeias regulares. Mas Francisco Silva acredita que, para isso, o próximo passo terá necessariamente de ser estrutural.

"Se tivéssemos uma estrutura que pudéssemos utilizar e rentabilizar, conseguiríamos fazer muito mais. Não é apenas uma questão de ter um pavilhão disponível ao final do dia ou um ginásio. A maioria das nossas atletas são estudantes e poderíamos desenvolver outro tipo de trabalho com elas, tanto nas seniores como na formação", aponta.

As limitações começam também a afetar a própria capacidade de receber atletas. Há treinos em que 35 ou 40 jogadoras partilham o mesmo campo.

"Sentimos até que estamos a ser negligentes com elas, porque aquilo deixa de ser verdadeiramente um treino de qualidade. Não queremos simplesmente aceitar mais atletas porque vão pagar uma quota e depois, no final da época, logo se vê se continuam ou não. Não é essa a nossa forma de trabalhar", explica.

O clube recusa aumentar indiscriminadamente o número de inscrições apenas para receber mais quotas. A prioridade, garante Francisco, é preservar a qualidade da formação. A esperança é que os resultados dos últimos anos ajudem agora a desbloquear soluções.

"Esperamos que toda esta visibilidade que temos conseguido, com a final da Taça de Portugal, a Supertaça e a participação europeia, possa também abrir algumas portas a nível estrutural".

Almeida Garrett defronta Benfica na Supertaça
Almeida Garrett defronta Benfica na SupertaçaCJ Almeida Garrett

O Benfica e a tentativa de encurtar uma distância

Antes de pensar no próximo pavilhão ou na próxima eliminatória europeia, há um troféu em disputa. O Almeida Garrett volta a encontrar o Benfica, adversário que derrotou as gaienses na final da Taça de Portugal e que conquistou os últimos cinco campeonatos. Francisco Silva reconhece sem dificuldade a diferença existente.

"O Benfica está alguns furos acima de todas essas equipas. Acaba por jogar quase um campeonato à parte", admite o vice-presidente.

A profundidade do plantel encarnado é uma das principais diferenças. Quando troca três ou quatro jogadoras, explica, o nível competitivo permanece praticamente inalterado. O Almeida Garrett não dispõe da mesma margem.

"É muito difícil manter um jogo equilibrado com o Benfica porque, mesmo quando conseguimos competir bem, eles têm capacidade para trocar três ou quatro jogadoras e manter praticamente o mesmo nível. Nós, muitas vezes, conseguimos trocar uma ou duas e, mais cedo ou mais tarde, essa diferença acaba por aparecer", explica.

O caminho para encurtar a distância passa, por isso, pelo trabalho e pela capacidade de tirar partido da continuidade. Enquanto o Benfica mudou algumas peças importantes, o Almeida Garrett manteve grande parte do plantel. Contratou apenas uma jogadora no exterior e completou o grupo sobretudo com atletas provenientes da formação.

"Acredito que essa continuidade nos dá alguma segurança, porque já conhecemos as dinâmicas e o trabalho que temos vindo a desenvolver."

A final da Taça deixou ainda uma sensação importante. O Almeida Garrett entrou nervoso nessa decisão, recuperou durante a primeira parte e conseguiu criar dificuldades ao campeão nacional, antes de uma nova quebra permitir ao Benfica aumentar a vantagem. Agora, na Supertaça, o plano passa por prolongar a incerteza.

"Ficou provado que conseguimos competir. Se conseguirmos manter o jogo equilibrado durante mais tempo, criar dificuldades e alguma incerteza, acredito que podemos levar o jogo para um ponto em que possa cair para o lado que ninguém espera", analisa.

Ganhar seria, nas palavras do dirigente, "surreal".

"Era fantástico. Seria surreal e muito bonito. Sabemos perfeitamente que vai ser muito difícil, mas vamos para lá disputar o jogo e tentar mantê-lo equilibrado durante o máximo de tempo possível", reconhece Francisco Silva ao Flashscore.

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Mas o significado desta presença talvez vá além do resultado. Para várias das jovens que chegam da formação, o primeiro jogo oficial da época será já uma final frente ao melhor clube português dos últimos anos. Muitas cresceram a jogar fases finais, finais e encontros com bancadas cheias e chegam agora ao palco sénior.

"Nota-se alguma ansiedade para começar, ainda por cima com um jogo desta dimensão logo de entrada. Mas muitas destas jogadoras já estão habituadas, ainda que num contexto diferente, a disputar fases finais, finais e jogos com pavilhões cheios na formação."

"Estamos a formar atletas, mas também mulheres", sublinha Francisco. "Pedimos-lhes que lutem sempre, independentemente de as coisas estarem a correr bem ou mal, e que honrem o clube e o próprio trabalho que fizeram para chegar até aqui."

Almeida Garrett agarrou bilhete europeu
Almeida Garrett agarrou bilhete europeuCJ Almeida Garrett

O regresso à Europa, 20 anos depois

A final da Taça de Portugal não valeu apenas um marco histórico. Permitiu também ao Almeida Garrett regressar às competições europeias, 20 anos depois, abrindo uma nova frente de crescimento para um clube que continua a aprender a lidar com exigências cada vez maiores.

"Representa muita responsabilidade. É um novo desafio também para nós enquanto estrutura. Estamos a lidar com toda a logística da EHF, marcação de jogos, delegados, arbitragens, alojamentos... Tudo aquilo que envolve o pré-jogo é novidade para nós e estamos também a adaptar-nos", descreve.

A participação na EHF European Cup é vista, porém, como muito mais do que uma recompensa desportiva. O Almeida Garrett quer aproveitar a exposição para mostrar aos patrocinadores e às entidades locais que o investimento feito no projeto está a produzir resultados.

"Queremos que olhem para o Almeida Garrett e percebam que existe trabalho, que os resultados aparecem e que o clube funciona. Também é especial começar a ver o nome e o símbolo do Almeida Garrett nas plataformas da Federação Europeia e dar a conhecer o clube a outras realidades", justifica.

Há ainda a possibilidade de essa dimensão internacional ter reflexos noutros projetos do clube, nomeadamente no KakyGaia, torneio internacional organizado anualmente.

"Abre-se aqui um horizonte muito interessante. Queremos muito passar esta eliminatória. Seria muito bonito conseguir duas vitórias nesta participação e continuar em prova", atira o dirigente.

A estreia europeia desta nova fase será frente a uma equipa do Chipre, com os dois encontros previstos para Portugal, uma solução que ajuda a aliviar os custos. Ainda assim, avançar na competição significará novas despesas e mais trabalho para uma estrutura já muito exigida. Francisco não hesita.

"Participar na EHF European Cup já é um enorme desafio. Passar uma eliminatória traz ainda mais trabalho e mais dores de cabeça, mas são boas dores de cabeça. Foi o trabalho das atletas que nos levou até aqui e vamos dar tudo para conseguir bons resultados."

E é quando surge a questão financeira que melhor se percebe a filosofia da direção.

"Se vocês quiserem, nós vamos. Depois, quando aparecerem as folhas de Excel e começarmos a fazer contas, aí é que ficamos assustados. Colocava-se muitas vezes a questão: ‘Se formos à Europa, financeiramente vai ser um estouro.’ E eu dizia sempre: ‘Mas nós vamos’", brinca.

Para Francisco, seria difícil pedir às atletas que lutassem por objetivos desportivos e, depois de os alcançarem, colocar obstáculos à concretização dessa recompensa.

"Se fosse atleta, não me sentiria minimamente confortável se alguém me dissesse: ‘Vai ser difícil e, se formos, se calhar...’ Nunca colocámos a questão dessa forma. Vamos fazer o nosso melhor, lutar pelos nossos objetivos e continuar a crescer. Se os outros conseguem, nós também vamos conseguir."

Almeida Garrett prepara nova temporada
Almeida Garrett prepara nova temporadaCJ Almeida Garrett

"O barco está muito grande, mas havemos de o levar para a frente"

Francisco Silva joga andebol desde os dez anos. Tem 44. Foi jogador, treinador e é agora dirigente. A mulher jogou, treinou e é atualmente coordenadora do Almeida Garrett. As três filhas também praticam a modalidade no clube. A própria direção nasceu muito dessa ligação familiar e afetiva.

Há oito anos, quando um grupo de pais procurava reerguer o Almeida Garrett depois de um período diretivo difícil, Francisco e vários amigos decidiram avançar. Hoje continuam juntos.

"É associativismo e voluntariado puro. Costumo dizer que, se não estivéssemos juntos por causa do andebol, provavelmente estaríamos juntos na mesma", conta.

É também o que permite compreender como um clube sem sede, sem pavilhão próprio e obrigado a multiplicar rifas, festas e deslocações consegue ter mais de duas centenas de atletas, uma estrutura multidisciplinar, oito títulos nacionais na formação desde 2021/22, uma equipa na I Divisão, outra na Divisão de Honra, uma final da Taça no currículo, uma Supertaça para disputar e o nome novamente inscrito nas competições europeias.

"Neste momento, o Almeida Garrett já é uma paixão. Se há oito anos me dissessem que chegaríamos a este ponto, provavelmente responderia que não. Dá muito trabalho e ocupa-nos imenso tempo. Trabalho por conta própria e, às vezes, dou por mim a pensar: ‘Estou a dedicar mais tempo a isto do que ao meu trabalho, isto não pode ser’", exalta.

O problema, agora, é outro: "O barco está muito grande, como costumo dizer, mas havemos de o levar para a frente."

Reportagem de Rodrigo Coimbra
Reportagem de Rodrigo CoimbraFlashscore