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Nádia Rodrigues sobre a hegemonia do Benfica: "Mantermo-nos no topo é a parte mais difícil"

Nádia Rodrigues parte para a 7.ª temporada ao serviço do Benfica
Nádia Rodrigues parte para a 7.ª temporada ao serviço do BenficaArquivo Pessoal, Flashscore

Nádia Rodrigues construiu um percurso que nem a própria imaginava. Em entrevista ao Flashscore, a internacional portuguesa de 25 anos falou sobre a hegemonia encarnada, os sonhos que ainda quer concretizar e fez a antevisão à Supertaça diante do Almeida Garrett, primeiro troféu em disputa na nova temporada do andebol feminino (23 de agosto, em Santo Tirso).

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Quando chegou ao Benfica, em 2020, Nádia Rodrigues estava convencida de que a aventura poderia durar apenas uma época. Seis anos depois, prepara-se para iniciar a sétima temporada de águia ao peito, já como uma das jogadoras mais experientes do plantel, uma das capitãs e com 12 títulos conquistados. Um percurso que nem a própria imaginava quando cedeu à tentação de acompanhar as colegas de escola na modalidade.

Hoje, aos 25 anos, a internacional portuguesa assume um papel cada vez mais importante numa equipa habituada a vencer, mas reconhece que o maior desafio está precisamente em prolongar essa hegemonia. Entre a pressão inerente à camisola encarnada, as mudanças no plantel e adversários cada vez mais preparados, Nádia acredita que manter a senda vitoriosa é a parte "mais difícil" e olha já para a Europa como o próximo grande passo do Benfica.

Em entrevista exclusiva ao Flashscore, Nádia Rodrigues percorre o caminho desde as raízes no SIM Porto Salvo até à afirmação no Benfica e na seleção nacional, fala dos sacrifícios de uma carreira que continua a encarar com a mesma diversão dos primeiros anos e não esconde a ambição para o futuro. Jogar no estrangeiro, disputar um Mundial, sonhar com os Jogos Olímpicos e ver o andebol feminino português aproximar-se do nível do masculino são algumas das metas de uma jogadora que, acima de tudo, quer chegar ao fim da carreira com uma certeza: "fui feliz".

"Sei de onde vim e nunca quero esquecer essas raízes"

- Como é que o andebol entrou na sua vida? Houve algum momento ou alguém em particular que despertou essa paixão?

O andebol entrou na minha vida por volta do 5.º ano. Tinha dez anos e sempre fui um pouco Maria-vai-com-as-outras (risos). Todas as minhas colegas da turma jogavam andebol depois das aulas, por isso também decidi experimentar. Não foi uma paixão imediata. Não comecei a jogar e pensei logo que adorava aquilo. Foi um processo. Aos poucos, fui começando a gostar e a perceber que talvez quisesse continuar durante algum tempo. E acabei por chegar até aqui.

Nádia Rodrigues não esquece as raízes
Nádia Rodrigues não esquece as raízesOpta by Stats Perform, SL Benfica

- Começou na Sociedade de Instrução Musical (SIM) de Porto Salvo. Que memórias guarda dessa fase e que papel teve o clube na sua formação, não apenas enquanto atleta, mas também enquanto pessoa?

Enquanto pessoa, acho que me deu sobretudo responsabilidade. Apesar de sermos muito novas, vivíamos experiências completamente diferentes das dos nossos colegas. Íamos para torneios, dormíamos fora de casa e tínhamos de nos desenrascar um pouco sozinhas, naturalmente sempre com o apoio dos treinadores e dirigentes.

Isso obrigava-nos a assumir responsabilidades, a saber estar numa equipa, a viver em comunidade e também a aprender a partilhar. Foram valores que o Porto Salvo me transmitiu muito. Enquanto atleta, sinto que foi o primeiro clube a acreditar em mim antes de eu própria acreditar. É algo que continuo a levar comigo. Sei de onde vim e nunca quero esquecer essas raízes.

Quando estou no Benfica, não sinto que seja apenas o Benfica e eu. Levo comigo todas as pessoas que passaram pelo Porto Salvo, incluindo aquelas cujo percurso já terminou ou que tiveram uma carreira mais curta do que a minha. Saímos todas do mesmo sítio e sinto também essa responsabilidade.

- Aos 25 anos, o que é que ainda existe na Nádia daquela menina que começou a jogar no Porto Salvo?

A brincadeira, sem dúvida. Talvez às vezes até possa jogar contra mim, porque podem pensar que estou mais descontraída ou menos concentrada. Mas sempre fui assim: levo o treino a sério, mas gosto de brincar. Nunca quis levar o desporto tão a sério que deixasse de existir a parte divertida. É provavelmente uma das características daquela menina que continuo a levar comigo para os treinos.

- Quando aconteceu o clique de perceber que o andebol poderia tornar-se realmente importante na sua vida e que poderia fazer carreira na modalidade?

Foi há relativamente pouco tempo, talvez há quatro ou cinco anos. Quando cheguei ao Benfica, achava que ficaria aqui apenas uma época e que provavelmente depois me mandariam embora (risos). Não imaginava que isto pudesse durar muito mais. Entretanto passou um ano, depois outro, e dois anos depois de chegar ao Benfica comecei também a ser chamada à seleção nacional. Foi aí que comecei a pensar: 'Talvez tenha algum valor.'

Mesmo assim, ainda hoje me questiono às vezes sobre o futuro. Será que vou jogar no estrangeiro? Será que vou tentar? Será que vou conseguir? Mas, ano após ano, estando no Benfica, disputando competições europeias, sendo campeã nacional e assumindo um papel mais importante também a nível nacional, comecei realmente a perceber que talvez consiga levar isto mais longe.

- Portanto, quando começou a jogar, nunca imaginou chegar ao Benfica e conquistar todos estes títulos?

Nunca. Para mim, ia ficar para sempre no Porto Salvo, com as minhas amigas todas (risos). Nunca imaginei verdadeiramente que pudesse chegar onde estou hoje.

Nádia Rodrigues em ação pelo Benfica
Nádia Rodrigues em ação pelo BenficaArquivo Pessoal

"O início no Benfica foi um choque, mas tem sido um processo giro"

- Já passaram vários anos desde que chegou ao Benfica. Como tem sido esta jornada?

Foi um pouco dura no início. Vinha de um clube onde jogava há muitos anos, onde existia um ambiente muito familiar, e cheguei a um clube com uma responsabilidade completamente diferente.

No Benfica há adeptos que não são nossos familiares. São pessoas que pagam para estar no pavilhão e para nos ver jogar. Isso traz outra responsabilidade. É uma camisola muito mais pesada do que aquela que carregava no Porto Salvo.

No início foi um choque, porque não estava habituada. Tive de crescer e ganhar responsabilidade. Mas tem sido um processo muito bonito. Cheguei a lugares e conheci partes de mim, enquanto atleta e enquanto pessoa, que nunca pensei conhecer. 

Também tem sido difícil. É necessário abdicar de muitas coisas e fazer sacrifícios que nunca imaginei fazer. Mas tudo aquilo de que abdiquei tem sido compensado ao longo destes anos. Tem sido um processo duro, mas muito bonito.

- Foi em 2020, em plena pandemia, que surgiu a oportunidade de representar o Benfica. Recorda-se do momento em que recebeu o convite?

Sim, lembro-me de estar em casa porque ainda estávamos em pandemia. A treinadora ligou-me. Já tinha trabalhado comigo no Porto Salvo, penso que dois anos antes, e falou-me dessa possibilidade. Lembro-me perfeitamente de que a minha mãe estava a tomar banho e fui logo dizer-lhe: 'Mãe, acho que vou para o Benfica'. E ela respondeu: 'Como assim vais para o Benfica?' (risos). 

Nem pensei muito. Disse logo que sim. Nem sabia quais seriam os horários dos treinos ou como faria para ir de Oeiras para Lisboa e voltar. Simplesmente pensei: 'Ok, vou.' Foi um momento muito feliz.

- Vai iniciar a sétima temporada no Benfica. A Nádia de hoje é muito diferente da jogadora que chegou ao clube em 2020. O que é que o Benfica lhe deu?

Deu-me, acima de tudo, muito suporte. A atleta que chegou ao Benfica não tem nada a ver com aquela que sou hoje. Por exemplo, no meu primeiro ano achava o ginásio extremamente aborrecido. Não queria fazer esse trabalho e, nos treinos, pensava sobretudo: 'Quando é que chega o jogo?'

Hoje percebo que todo esse processo, provavelmente, é ainda mais importante do que o próprio dia do jogo. Ganhei também uma responsabilidade muito maior comigo própria, com a equipa e com as minhas colegas. É minha responsabilidade manter-me bem ao longo de toda a época.

Até ganhei medo das lesões (risos). Antes, para mim, era simplesmente jogar andebol e parecia que nunca nos acontecia nada. Acima de tudo, o Benfica foi uma estrutura que acreditou em mim mais do que eu própria acreditava. Fez-me crescer enquanto atleta, física e mentalmente, e deu-me todas as condições necessárias para chegar ao nível em que estou hoje.

Acho que muitas atletas que chegam ao Benfica e permanecem aqui durante dois ou três anos acabam por sentir exatamente isso: é uma estrutura muito grande, que nos acompanha e nos ajuda a elevar o nosso nível.

- Está num clube de excelência a nível nacional. Olhando para si própria, o que sente que tem feito para merecer essa confiança e continuar tantos anos no Benfica?

No primeiro ano recebi alguns reparos. Diziam-me que tinha de ser mais séria e levar o trabalho um pouco mais a sério. Podia continuar a ser brincalhona, mas tinha de perceber aquilo que queria. E isso provocou um clique em mim. Como estava sempre convencida de que no ano seguinte iria embora, comecei a pensar: 'Se quero ficar mais um ano, tenho de ser menos brincalhona e um pouco mais séria'.

Depois chegámos a uma fase em que até me diziam que estava séria demais (risos). Mas já não significava que tivesse deixado de querer brincar. Simplesmente comecei a levar isto tão a sério e a gostar tanto que sentia que tinha de dar muito mais de mim. Todos os anos o objetivo tem sido esse. A brincadeira continua lá, talvez naqueles 5%, mas os restantes 95% têm de ser encarados com muita seriedade.

- Em seis épocas conquistou 12 títulos. Consegue parar para valorizar tudo aquilo que já ganhou ou chega-se a um ponto em que vencer passa a ser encarado como uma obrigação?

Quando ganhamos o primeiro campeonato, a primeira Taça de Portugal ou a primeira Supertaça, existe aquele sentimento de 'uau'. Nunca tinha conquistado nada e, de repente, entro numa excelente equipa e começo a conquistar títulos. No segundo, no terceiro ou no quarto título continuamos a sentir aquela euforia e nunca perdemos o gosto de ganhar. Isso não desaparece. Quando perdemos uma Supertaça ou uma Taça de Portugal, como já aconteceu, ficamos muito tristes e perguntamo-nos imediatamente o que aconteceu. Portanto, esse desejo de vencer continua sempre presente.

O que talvez mude seja a forma de festejar. Quando conquistamos a Supertaça ou o campeonato e ainda temos outra competição pela frente, festejamos, claro, mas sabemos imediatamente que não podemos parar porque ainda há mais para ganhar. A Taça de Portugal, por ser a última competição da época, permite um festejo diferente: acabou, conquistámos e na próxima época começa tudo novamente.

Talvez no primeiro título tenhamos sentido simplesmente que éramos as melhores do mundo (risos). Hoje existe outra responsabilidade. Há sempre outra competição ou outra época pela frente. O gosto de ganhar nunca desaparece. O que aumenta, a cada título conquistado, é a responsabilidade.

Jogadoras do Benfica dedicaram título a Viktoriya Borshchenko
Jogadoras do Benfica dedicaram título a Viktoriya BorshchenkoSL Benfica

Momentos marcantes no Benfica: "Foi um título muito duro a nível emocional"

- O Benfica habituou-se a ganhar no andebol feminino. O que é mais difícil: chegar ao topo ou manter esta capacidade de vencer época após época?

Manter. Sem dúvida. A equipa vai mudando. Umas vezes mais, outras menos. Sai uma jogadora, depois outra, e a base que existia há sete anos acaba por já não ser a mesma.

Apesar disso, a identidade tem de continuar presente. Essa é provavelmente a parte mais difícil: manter essa identidade, não desiludir os adeptos, não nos desiludirmos a nós próprias e corresponder àquilo que a equipa técnica nos pede. Chegar ao topo é difícil, mas permanecer lá e continuar a ganhar ano após ano é ainda mais complicado.

- Na última época tiveram apenas cinco derrotas em 39 jogos. Por serem tão pouco frequentes, sentem ainda mais essas derrotas? Como é que uma equipa tão habituada a ganhar lida com esses momentos de frustração?

Sinceramente, acho que é importante perder. Quando uma equipa ganha consecutivamente, pode começar a criar algum ego e a sentir que é quase imbatível. Sempre que perdemos, isso obrigou-nos a parar e a perceber: 'Ok, perdemos este jogo. O que é que nos faltou? Faltou identidade? Intensidade? O que fizemos mal?'

As derrotas da última época ajudaram-nos a perceber que somos humanas, que é normal perder e que não somos invencíveis. Mas também temos quase uma regra: perdemos um jogo, mas não podemos perder o seguinte (risos). É um pouco essa a nossa mentalidade. Perdemos um, mas queremos responder imediatamente e ganhar o próximo, se possível até por uma diferença superior àquela pela qual perdemos.

Claro que uma derrota é sempre dura, sobretudo porque não estamos habituadas a perder. Mas também sabemos parar e perceber que não é o fim do mundo. Temos de identificar aquilo que fizemos mal para sermos muito melhores no jogo seguinte ou na próxima oportunidade de disputar um troféu.

- E essa pressão constante para ganhar é algo de que uma jogadora aprende a gostar?

É algo que nos é incutido desde o início. Só o facto de estarmos no Benfica já traz essa pressão. Podemos ter 17, 18 ou 27 anos. A partir do momento em que estamos aqui, existe sempre. Desde o primeiro minuto, quando cantamos o hino, até ao final do jogo. Não diria que aprendemos a gostar da pressão. Aprendemos a viver com ela. Faz parte da nossa vida enquanto atletas. Não posso dizer que adore ou que não goste. Simplesmente faz parte e já estou habituada.

- Ao longo destes anos viveu muitos momentos marcantes. Consegue escolher um ou dois que tenham sido particularmente especiais durante a passagem pelo Benfica?

Há dois que me marcaram particularmente. Um deles foi um campeonato que conquistámos há cerca de dois anos. Foi muito especial porque a Maria Unjanque tinha perdido o pai e não estava presente, e também tínhamos a Viktoriya ausente. Foi um título muito duro a nível emocional e que dedicámos às nossas pessoas que não puderam estar connosco.

Outro momento foi esta última Taça de Portugal. Também foi muito marcante porque sabíamos que várias jogadoras iam sair. Saíram cinco atletas e sentimos que aquela base que tínhamos construído ao longo de cinco ou seis anos começava a desfazer-se. É perfeitamente normal. As pessoas seguem para o estrangeiro, procuram outros clubes e outros desafios. Mas sentimos que era o início do fim de um ciclo.

Foram provavelmente os dois momentos que mais me marcaram: um por tudo aquilo que vivemos emocionalmente com pessoas que não puderam estar presentes e o outro porque representou o encerramento de uma fase importante da nossa história.

- Apesar de ter apenas 25 anos, é já uma das atletas com maior longevidade no plantel e uma das capitãs. Que papel sente que tem atualmente no balneário do Benfica?

Sou uma das capitãs, a terceira, mas tento não me agarrar demasiado a esse papel. Não sou propriamente aquela líder tradicional. A minha liderança aparece mais dentro do jogo. Como defendo muito e jogo muitas vezes como terceira na defesa, acabo por assumir um papel importante na organização defensiva. É aí, durante os jogos e também nos intervalos, que sinto que tenho uma presença mais forte.

Fora do campo, tento sobretudo trazer alguma leveza aos problemas que vão aparecendo. Somos três capitãs e temos personalidades diferentes, por isso também lidamos com as situações de formas diferentes.

Sei que estou no Benfica há muitos anos e que tenho alguma importância dentro da equipa, mas tento nunca fazer com que essa importância seja maior do que a de qualquer outra colega. Quero estar sempre ao nível delas e enfrentar os problemas juntamente com elas. Ter mais anos de Benfica ou o título de capitã não pode subir-me à cabeça. Acho que consigo lidar bem com isso e acredito que as minhas colegas também o sentem dessa forma.

Nádia Rodrigues é internacional portuguesa
Nádia Rodrigues é internacional portuguesaArquivo Pessoal

Início de época com a luta pela Supertaça: "O Almeida Garrett tem-nos surpreendido bastante"

- A nova época começa imediatamente com a possibilidade de conquistar um título, na Supertaça frente ao Almeida Garrett, equipa que venceram na final da Taça de Portugal. Que jogo espera?

Espero sobretudo um jogo muito pensado da parte delas. É uma equipa bastante aguerrida e jovem, tal como nós também fomos há alguns anos. Tem um estilo de jogo diferente do nosso, mas acredito que será um encontro muito equilibrado. Se não conseguirmos encaixar bem no jogo delas, podemos ter muitas dificuldades, porque têm excelentes soluções e jogam muito bem.

Espero um jogo aguerrido, forte e bastante competitivo. Talvez fisicamente possamos ter alguma vantagem e temos essa responsabilidade, mas acredito que será daqueles jogos competitivos que nem sempre encontramos a nível nacional. O Almeida Garrett tem-nos surpreendido bastante e é uma equipa que consegue bater-se muito bem connosco.

- O Almeida Garrett fez uma época histórica, chegou à final da Taça de Portugal e regressa agora às competições europeias, 20 anos depois. Sentem que equipas como esta estão cada vez mais preparadas para encontrar soluções que permitam desafiar o domínio do Benfica?

Penso que sim. A nossa base tem mudado relativamente pouco ao longo dos últimos anos e, por isso, o nosso estilo e a nossa forma de jogar também se têm mantido bastante semelhantes. Naturalmente, fazemos sempre algumas alterações, mas, depois de dez ou 20 jogos contra nós, as adversárias começam a conhecer-nos cada vez melhor e a encontrar soluções diferentes.

Acho que isso poderá acontecer ainda mais nesta época. Como disse anteriormente, mantermo-nos no topo é a parte mais difícil. As equipas vão-nos conhecendo, sabem quais são as jogadoras que têm pela frente, começam a perceber aquilo que fazemos e conhecem as nossas jogadas. Isso torna cada vez mais difícil superar determinados adversários. Temos conseguido continuar a sair por cima, mas sobretudo as fases iniciais dos jogos podem tornar-se bastante complicadas.

Nádia Rodrigues perspetiva duelo exigente na Supertaça
Nádia Rodrigues perspetiva duelo exigente na SupertaçaOpta by Stats Perform, SL Benfica

- Depois de tantos títulos conquistados, ainda existe aquele nervosismo especial quando se aproxima um jogo em que está um troféu em disputa ou passa a ser encarado como apenas mais um encontro?

Existe, claro. Acho até que esses são os piores jogos nesse sentido, porque é apenas um encontro. Não há uma segunda volta nem uma segunda oportunidade. É um jogo decisivo e qualquer equipa pode ganhar. Naturalmente, temos sempre aquela esperança e confiança de que vamos vencer porque acreditamos que somos superiores, mas tudo pode acontecer num único jogo. Podemos ter uma má exibição ou surgir qualquer outro fator que condicione o encontro e o título fica perdido.

Por isso, entramos sempre mais nervosas neste tipo de jogos. Às vezes até se nota dentro de campo, mas tentamos manter a calma ao máximo.

- Sendo o primeiro jogo oficial da temporada, que impacto poderá ter a Supertaça no restante da época?

Se ganharmos, voltamos a sentir que somos as melhores do mundo (risos) e começamos a época com um ambiente muito positivo dentro do grupo. Se perdermos, obriga-nos a parar e a refletir de uma forma ainda mais profunda, porque estamos a falar da perda de um título. E, logo no fim de semana seguinte, começa o campeonato.

A Supertaça tem também essa particularidade: descansamos muito pouco depois dela e temos imediatamente outro jogo. É um resultado que pode ficar marcado durante algum tempo. Por isso, a Supertaça acaba por representar sempre aquele primeiro choque, positivo ou negativo, da nova temporada.

Nádia Rodrigues espera evolução do andebol feminino em Portugal
Nádia Rodrigues espera evolução do andebol feminino em PortugalArquivo Pessoal

"Ainda existe pouco investimento e pouca visibilidade no feminino"

- Conhece esta realidade melhor do que ninguém. Como explica o domínio do Benfica no andebol feminino português? São pentacampeãs nacionais e têm conquistado praticamente todos os títulos nos últimos anos. O que torna esta equipa diferente das restantes?

Acho que aquilo que temos de especial talvez nem seja assim tão especial. É sobretudo uma questão de foco e das condições que o Benfica nos proporciona. O clube faz uma grande aposta em nós e, por isso, temos a responsabilidade, com todo o gosto, de dar o nosso melhor.

Não quero dizer que os outros clubes não o façam, mas nós temos excelentes atletas e, sobretudo, condições que muitas outras equipas não têm. Por exemplo, podemos viajar para a Madeira no dia anterior a um jogo, enquanto outras equipas têm de viajar no próprio dia. São diferenças importantes.

Também temos de provar que merecemos esse investimento. Se não apresentássemos resultados e não demonstrássemos que estas condições são importantes para o nosso rendimento, provavelmente também não continuaríamos a tê-las.

Lembro-me perfeitamente de que, na minha primeira época, não tínhamos tudo aquilo que temos hoje. Foi também necessário provar, jogo após jogo e época após época, que fazia sentido continuar a apostar em nós.

Acho que essa é uma das grandes diferenças no andebol português. Ainda existe pouco investimento e pouca visibilidade no feminino. O andebol masculino tem crescido bastante, mas o feminino tem demorado mais a acompanhar essa evolução. Nós destacamo-nos também porque temos o apoio de uma estrutura muito grande, enquanto outras equipas não dispõem das mesmas condições.

- E qual o próximo grande passo para o andebol feminino português? Será aproximar os clubes nacionais das melhores equipas europeias?

Sim. Pelo menos internamente, no Benfica, esse é um dos nossos principais objetivos. Temos a obrigação de lutar por tudo aquilo que existe para conquistar a nível nacional, mas neste momento queremos também chegar o mais longe possível nas competições europeias.

Há alguns anos conseguimos estar perto das meias-finais da EHF Cup, mas, desde que entrámos nesta nova competição, ainda não conseguimos chegar à fase de grupos. Esse é um dos nossos grandes objetivos. Sabemos que, internamente, somos uma equipa com a responsabilidade de ganhar, mas a nível europeu ainda estamos longe de conseguir afirmar-nos como gostaríamos. Queremos dar esse passo e mostrar que as equipas portuguesas também podem estar nos grandes palcos europeus.

- Tem acompanhado por dentro a evolução do andebol feminino português. Sente que a modalidade está hoje num lugar muito diferente daquele que encontrou quando jogava em Oeiras, apesar de ainda estar longe do cenário ideal?

A nível nacional, acho que estamos melhor. Existem clubes que estão efetivamente a apostar na formação e já começam a aparecer algumas meninas e jovens jogadoras com bastante qualidade. Acredito que, daqui a dois, três ou quatro anos, poderemos ter um campeonato nacional mais forte. Mas ainda estamos muito atrasados.

Continuam a existir clubes que não são profissionais e que nem sequer conseguem proporcionar as condições mínimas para as atletas treinarem. Nem estou a falar de salários. Estou simplesmente a falar de condições para trabalhar. Há clubes que nem sequer têm fisioterapeuta.

Isso choca-me um pouco porque já vivi uma realidade em que também não tinha essas condições e hoje tenho. Depois chego à seleção nacional e encontro colegas que continuam sem as ter nos seus clubes. Sinto que o andebol feminino está a crescer, mas continua muito atrás. E não sei quando aparecerá alguém capaz de dizer: 'Vamos fazer o andebol feminino avançar.'

Esse trabalho não depende apenas dos clubes. A federação também tem de assumir um papel importante nesse crescimento.

- O que falta ao andebol feminino português para dar outro salto, nomeadamente em termos de profissionalização, visibilidade e condições para as jogadoras?

Principalmente apoios e investimento. Acho que faltam patrocínios e uma aposta maior na modalidade. Naturalmente, estou a falar enquanto atleta. Não conheço aquilo que acontece ao nível das estruturas ou todas as decisões que são tomadas. Mas acredito que é necessário olhar para o andebol feminino como algo que também pode crescer e gerar visibilidade.

Não podemos pensar que apenas o masculino consegue ter espaço na televisão ou despertar interesse. O feminino também pode fazê-lo. E nem falo exclusivamente do andebol. O futebol feminino cresceu bastante e acredito que podemos fazer algo semelhante noutras modalidades. É sobretudo necessário acreditar mais no desporto feminino e as próprias federações têm um papel importante nessa aposta.

Nádia Rodrigues renovou com o Benfica até 2027
Nádia Rodrigues renovou com o Benfica até 2027SL Benfica

"Tenho vivido momentos muito bons na seleção"

- Além do Benfica, representa também a seleção nacional. O que significa vestir a camisola de Portugal?

É uma sensação diferente e uma responsabilidade completamente diferente. No Benfica represento o clube e todas as pessoas que acompanham a modalidade. Na seleção nacional, sinto que represento todos os portugueses e também todas as meninas que sonham um dia chegar à seleção. Por isso, é uma camisola com um peso tão grande ou até maior.

Desde que cheguei à seleção nacional, tenho vivido momentos muito bons, tanto a nível individual como coletivo. É um enorme orgulho, mas também uma grande responsabilidade.

- Quando pensa no futuro, que objetivos gostaria ainda de concretizar, tanto no Benfica como na seleção nacional?

No Benfica, quero continuar a ser campeã nacional, conquistar Supertaças e Taças de Portugal. E ser campeã europeia seria provavelmente a concretização de um sonho.

Na seleção nacional, gostava muito de disputar um Mundial. Temos as próximas qualificações pela frente e esse é um dos meus objetivos. E, um dia, quem sabe, chegar aos Jogos Olímpicos. Acho que seria muito importante para qualquer menina portuguesa que joga andebol poder ver a sua seleção feminina nos Jogos Olímpicos.

- Olhando para aquela menina que começou a jogar sem sequer estar apaixonada pelo andebol, parece-lhe surreal estar agora a falar de títulos, da seleção nacional, de Mundiais ou até dos Jogos Olímpicos?

É mesmo surreal. Nunca pensei que pudesse chegar até aqui. Quando faço uma retrospetiva de tudo aquilo que já aconteceu, dos títulos que ganhei, das derrotas, das experiências que vivi e dos objetivos que tenho para o futuro, custa acreditar.

Aquela menina que não queria propriamente jogar andebol e que chegou a pensar várias vezes em desistir está agora aqui a recordar títulos e a falar daquilo que ainda quer conquistar. Tem sido uma caminhada muito dura, porque abdicamos de muitas coisas, mas também tem sido muito bonita.

- Conhecendo aquilo que encontrou quando começou e a realidade atual, como gostaria que estivesse o andebol feminino português daqui a dez anos?

Gostava que todos os clubes conseguissem proporcionar às atletas, pelo menos, as condições mínimas para trabalharem. Neste momento, provavelmente somos um dos clubes mais profissionais em Portugal. Daqui a dez anos, gostava que essa realidade estivesse muito mais generalizada e que as atletas pudessem trabalhar em condições que também lhes permitissem chegar melhor preparadas à seleção nacional. Sobretudo porque tenho uma irmã que também joga andebol e gostava que ela pudesse viver uma realidade muito melhor e mais forte do que aquela que eu encontrei. Gostava que, daqui a dez anos, o andebol feminino tivesse em Portugal uma importância semelhante à do masculino.

A nível europeu, espero também que existam mais equipas portuguesas capazes de se afirmar como referências. E, naturalmente, gostava que o Benfica fosse uma delas. Quem sabe se, daqui a dez anos, não estaremos a recordar uma equipa do Benfica que conseguiu ser campeã europeia.

Nádia Rodrigues começou a jogar no SIM Porto Salvo
Nádia Rodrigues começou a jogar no SIM Porto SalvoArquivo Pessoal/DraccarCarvalho

"O andebol permitiu-me fazer e viver muitas coisas que provavelmente nunca teria experienciado"

- Quando decidir terminar a carreira, que legado gostaria de deixar? Quando alguém perguntar quem foi Nádia Rodrigues, o que gostaria de ouvir como resposta?

Nunca pensei muito nisso, por acaso. Gostaria que dissessem que fui uma atleta séria, apesar de ter sido sempre muito divertida. Que encarei o trabalho com seriedade e dei tudo aquilo que tinha para dar. Sabemos que este é um percurso muito duro, com muita pressão e que nos obriga a abdicar de muitas coisas. Mas, acima de tudo, gostava que se lembrassem de mim como uma atleta que foi feliz.

Acho que isso é o mais importante. Quero chegar ao fim e sentir que fui feliz naquilo que fiz, do início ao fim, independentemente de todas as dificuldades que encontrei pelo caminho. Gostava que se lembrassem de mim dessa forma: como uma atleta feliz.

- Se o andebol fosse uma pessoa e tivesse a oportunidade de se cruzar com ele na rua, o que lhe diria?

Diria obrigada. O andebol permitiu-me fazer e viver muitas coisas que provavelmente nunca teria experienciado de outra forma. Conheci países que talvez nunca tivesse imaginado visitar. Desde os dez anos até aos 25, são 15 anos a viajar por Portugal e pelo mundo para disputar jogos e torneios. Proporcionou-me muitas experiências e momentos que, de outra forma, provavelmente nunca teria vivido. Por isso, só poderia dizer: obrigada.

- E quando terminar a carreira e lhe perguntarem o que significou o Benfica na sua vida, o que responderá?

Casa. Durante muitos anos, o Benfica foi casa. Se o Porto Salvo foi a minha primeira casa, o Benfica é, sem dúvida, a segunda. Foi o lugar que me impulsionou. Provavelmente, se não tivesse passado pelo Benfica, também não teria conseguido chegar a outros patamares. Foi o clube que acreditou em mim, que apostou em mim e que me permitiu estar aqui durante sete anos. Isso representa um investimento enorme numa atleta.

Espero que, daqui a algum tempo, possa ir jogar para o estrangeiro e olhar para trás, para o Benfica, como o clube que me preparou e impulsionou para esse próximo passo. Foi a minha segunda casa e o clube que me deu as condições para construir o resto da minha carreira.

- Para terminar, que mensagem gostaria de deixar às jovens atletas que sonham construir um percurso no andebol, sabendo que nem todas terão imediatamente acesso às condições que encontrou no Benfica?

O principal é gostarem verdadeiramente de jogar andebol. Podemos passar muitos anos a jogar em clubes mais pequenos e com menos condições, mas, se não gostarmos realmente daquilo que fazemos, à primeira adversidade será muito mais difícil continuar.

Eu própria senti isso no início. Sabia que gostava de jogar andebol, mas ainda não percebia até que ponto gostava realmente de estar aqui. Foram surgindo situações ao longo do percurso que me obrigaram a perguntar a mim própria: 'Gostas mesmo disto ou não?'

É aquilo que digo sempre à minha irmã: diverte-te e gosta daquilo que estás a fazer. Se não gostares, dificilmente vais conseguir continuar durante muito tempo. Essa é a principal mensagem que deixo às jovens atletas. Divirtam-se com aquilo que fazem.

O andebol exige muito de nós. Obriga-nos a abdicar de muitas coisas e existem momentos muito duros, mas não pode deixar de existir prazer. Se não estivermos a divertir-nos, sobretudo quando ainda não somos profissionais, deixa de fazer sentido encarar isto como uma obrigação. Se continuo aqui e ainda tenho tantos projetos e objetivos para o futuro, é porque gosto genuinamente de jogar andebol e continuo a divertir-me com aquilo que faço.