Diário do Mundial: A linha ténue entre o Mundial, a glória do Knicks e tiros em Times Square

Polícia de Nova Iorque isolou áreas da cidade para evitar uma confusão ainda maior
Polícia de Nova Iorque isolou áreas da cidade para evitar uma confusão ainda maiorSELCUK ACAR / ANADOLU / ANADOLU VIA AFP

Viver a cobertura de um Campeonato do Mundo é ter a certeza de que o guião do dia seguinte nunca estará sob o nosso controlo. Se há alguns dias o foco eram os protestos e o forte aparato policial nas ruelas da Cidade do México, a madrugada deste domingo em Nova Iorque reservou um capítulo ainda mais intenso, onde a euforia do desporto e o medo se cruzaram num dos pontos mais icónicos do planeta.

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A cidade que nunca dorme já estava em estado de transe. Na mesma Nova Iorque que respira o clima do Mundial e viu o empate entre o Brasil e Marrocos do outro lado do rio Hudson, o basquetebol decidiu reclamar o seu protagonismo.

Após um jejum de longos 53 anos, os New York Knicks sagraram-se campeões da NBA. Uma conquista histórica, aguardada por gerações, que pintou as ruas de laranja e azul logo nas primeiras horas da madrugada. Mas a festa, infelizmente, não demorou a flertar com o perigo.

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O prenúncio do caos

Assim que o jogo acabou em San Antonio, os primeiros relatos da imprensa local já indicavam que a imensa aglomeração na Times Square testava os limites do controlo urbano. Com o decorrer da histeria coletiva e daquele clima anárquico, um autocarro escolar começou a ser vandalizado.

A autarquia e as forças de segurança nova-iorquinas já temiam o pior: a fusão explosiva entre a massa de adeptos da NBA e o fluxo maciço de turistas e adeptos do Mundial criou um enorme funil humano.

Tiros no coração de Nova Iorque

Por volta das 02:00 locais, vivenciei de perto o momento em que a celebração descambou para o crítico. Acompanhado por um amigo, também jornalista, tentávamos cruzar a região de carro. O trânsito, pesado e completamente bloqueado, já refletia a tensão das ruas. Foi quando o som que ninguém quer ouvir em solo americano ecoou pelo betão: disparos de arma de fogo.

Festa pelo título do Knicks após 53 anos terminou em cenas de violência no coração de Manhattan.
Josias Pereira / Flashscore

Não houve um tiroteio, mas sim tiros isolados vindos de uma suposta discussão. O suficiente para o pânico se instalar. De dentro do veículo parado, assistimos à transformação instantânea da euforia em desespero.

A correria foi generalizada. As pessoas gritavam, procuravam abrigo e, na tentativa cega de fugir da linha de fogo, batiam contra o nosso carro e contra os veículos ao redor. Ver de perto a histeria coletiva provocada por disparos remete, inevitavelmente, para uma ferida social crónica e muito específica dos Estados Unidos: o debate infindável sobre o porte de armas.

Policias correm pela Times Square após tiros serem disparados no local
Policias correm pela Times Square após tiros serem disparados no localKENA BETANCUR / AFP

Segundo informações posteriores da polícia de Nova Iorque (NYPD), três pessoas foram detidas perto da Rua 39, e uma arma de fogo foi apreendida. A confusão, que envolveu uma escaramuça, terminou com um adolescente atingido no pé esquerdo no cruzamento da Rua 42 com a Broadway. Foi socorrido sem risco de vida. O susto, porém, ficou marcado na retina de quem estava ali.

Polícia de Nova York isolou o local dos disparos
Polícia de Nova York isolou o local dos disparosKYLE MAZZA / NURPHOTO / NURPHOTO VIA AFP

Nova Iorque sitiada pelas forças de segurança

A reação da NYPD foi imediata e impressionante pelo volume. Em questão de minutos, um contingente maciço de patrulhas e agentes tentava rasgar a multidão para aceder ao epicentro do tumulto.

Para escoar o fluxo humano e rodoviário da Times Square, as regras de trânsito foram temporariamente suspensas: curvas à esquerda antes proibidas foram totalmente autorizadas pelos oficiais na tentativa de esvaziar a área e evitar uma tragédia ainda maior.

Parte da Times Square foi interditada pelas forças de segurança
Parte da Times Square foi interditada pelas forças de segurançaKYLE MAZZA / NURPHOTO / NURPHOTO VIA AFP

A festa e o caos

O que deveria ser a crónica de uma noite perfeita de celebração desportiva terminou como um lembrete amargo sobre os desafios de segurança pública em eventos desta magnitude. A aglomeração extrema num curto espaço de tempo é o maior pesadelo das autoridades locais.

E esta foi apenas a primeira grande jornada em Nova Iorque. Nos próximos dias, novas claques de diferentes partes do globo vão invadir a cidade, elevando ainda mais a temperatura do Mundial.