Bruno Baltazar: "Ligação que criei com os adeptos do Radomiak é muito especial"

Bruno Baltazar, treinador do Radomiak Radom
Bruno Baltazar, treinador do Radomiak RadomRadomiak Radom

O regresso de um treinador a um clube raramente acontece por acaso, muito menos quando esse clube atravessa uma das fases mais delicadas da época. Mas foi precisamente nesse contexto que Bruno Baltazar voltou ao Radomiak Radom, numa altura em que a equipa lutava pela permanência na Ekstraklasa e acumulava instabilidade dentro e fora de campo.

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Sem tempo a perder, Bruno Baltazar arregaçou as mangas, pôs mãos à obra e a resposta surgiu rapidamente: manutenção garantida, recordes ofensivos batidos e uma ligação ainda mais forte aos adeptos e à direção.

Nesta entrevista exclusiva ao Flashscore, o treinador português explica os motivos que o levaram a regressar à Polónia, fala da evolução do Radomiak enquanto projeto e analisa uma das edições mais competitivas de sempre do futebol polaco. E garante: apesar do reconhecimento conquistado em território polaco, continua a acreditar que teria sucesso também no futebol português.

"Sabia que podia voltar a ter um impacto positivo no clube"

- O que o fez aceitar regressar ao Radomiak numa fase tão delicada da época? 

O que me seduziu foi o campeonato e o país. A minha primeira passagem pelo Radomiak foi difícil e atribulada. É um clube que está a crescer muito rapidamente e, naturalmente, esse crescimento traz sempre alguns problemas inerentes. Mas gostei muito da competição e do ambiente nos estádios. É um campeonato muito atrativo.

Depois da minha passagem por França, queria encontrar um projeto onde me sentisse confortável para obter resultados. É verdade que o Radomiak estava numa situação complicada, talvez na Ekstraklasa mais 'louca' de sempre, pela competitividade e proximidade pontual entre tantas equipas nas últimas jornadas. Mas já conhecia o clube, o presidente, muitos jogadores e isso deu-me conforto para regressar.

Também tenho confiança no meu trabalho e nas minhas capacidades. Sei que consigo ter um impacto positivo nas equipas e, felizmente, isso voltou a acontecer na minha carreira.

Radomiak terminou campeonato no 10.º lugar
Radomiak terminou campeonato no 10.º lugarFlashscore

- Essa ligação emocional criada anteriormente ao clube e aos adeptos também foi importante para tomar essa decisão?

Saí na pausa de inverno com 20 pontos e a equipa a meio da tabela, algo bastante positivo para um clube como o Radomiak. Já existia um impacto positivo criado anteriormente e os adeptos conheciam o meu trabalho. Isso também deu conforto ao presidente para tomar a decisão de me trazer de volta numa época muito atribulada, marcada por vários episódios pouco normais no futebol e que acabaram por prejudicar a temporada do clube.

A minha chegada foi vista como a de alguém que já conhecia o contexto e podia trazer estabilidade. Felizmente, conseguimos garantir a manutenção a três jornadas do fim.

- Assinou um contrato de três anos, algo cada vez menos habitual no futebol atual. Que mensagem sentiu que o clube lhe estava a transmitir?

Foi uma clara prova de confiança. Obviamente, havia a condição de alcançar a manutenção para ativar automaticamente os dois anos seguintes de contrato, mas fico satisfeito por sentir essa confiança do presidente. Agora o objetivo passa por continuar o trabalho e ajudar no crescimento do Radomiak. É um clube que tem evoluído muito nos últimos anos. Tem as suas dores de crescimento, naturalmente, mas fico feliz por fazer parte desse processo numa liga e num país cada vez mais competitivos no futebol europeu.

- Chegar a meio da época, numa situação tão delicada, exige uma abordagem completamente diferente daquela que existe quando se inicia uma temporada. O que procurou implementar logo de início?

Sempre que há uma mudança no comando técnico é fundamental perceber o contexto e o estado emocional da equipa. Não existe uma fórmula mágica. A experiência que já tenho ajuda-me a perceber aquilo de que cada grupo precisa. Cheguei a uma equipa que já tinha tido três treinadores e que vinha de muita instabilidade. Por isso, foquei-me muito mais na parte emocional do grupo. Mantive muitas coisas positivas que já vinham do trabalho anterior e procurei mudar apenas pequenos detalhes. Naquele momento, o mais importante era mexer o mínimo possível na estrutura técnico-tática e trabalhar sobretudo a cabeça dos jogadores.

- A manutenção foi alcançada, mas o clube também bateu o recorde de golos marcados numa única edição da principal divisão polaca. O que representa isso para o Radomiak?

Quando garantimos a manutenção ainda existiam pequenos objetivos importantes possíveis de serem atingidos. Podíamos bater o recorde de pontos e igualar a melhor classificação da história do clube. Não conseguimos tudo, mas alcançámos o recorde de golos marcados. Para muita gente isso pode não significar muito, mas para um clube desta dimensão são marcas importantes, porque elevam a fasquia para o futuro e mostram evolução.

Bruno Baltazar regressou ao Radomiak Radom
Bruno Baltazar regressou ao Radomiak RadomRadomiak Radom

"O futuro do Radomiak parece-me bastante promissor"

- Onde acredita que o clube pode crescer nos próximos anos?

O crescimento que encontrei agora, comparando com a minha primeira passagem, é muito evidente. Houve melhorias organizacionais importantes no dia a dia do clube. Ainda existe muito caminho para percorrer, mas o crescimento é claro. O estádio está praticamente cheio em todos os jogos, com médias acima dos dez mil espectadores. O futuro parece-me bastante promissor. É difícil definir exatamente onde o clube pode chegar, mas o crescimento é evidente e sustentável.

- O Radomiak criou uma ligação muito forte a Portugal, com vários treinadores e jogadores ligados ao futebol português. Como explica isso?

Fui o primeiro treinador português do clube e essa ligação começou através de um antigo diretor desportivo que tinha fortes ligações a Portugal. A partir daí criou-se uma identidade muito própria. É um caso de estudo, numa liga polaca que ainda é bastante conservadora na escolha de jogadores estrangeiros, mas o Radomiak apostou numa abordagem diferente, muito ligada à escola portuguesa. Temos uma forma de jogar diferente da maioria das equipas da liga, mais apoiada, mais técnica e mais ofensiva, e criamos muitas dificuldades às outras equipas.

Claro que também temos de respeitar as especificidades da Ekstraklasa, que é um campeonato extremamente físico e competitivo, mas acredito que conseguimos trazer algo diferente.

A tabela classificativa da Ekstraklasa
A tabela classificativa da EkstraklasaFlashscore

- Como explica a enorme competitividade desta edição da Ekstraklasa? O Lechia Gdansk foi o melhor ataque e desceu de divisão...

E com o melhor marcador do campeonato. Temos de ser justos, pois o Lechia começou o campeonato com menos cinco pontos. É uma equipa orientada por um treinador inglês, muito focada no ataque, mas também com algumas vulnerabilidades defensivas.

A liga continua a ser muito física, intensa e bastante centrada nas bolas paradas e nos duelos. Há equipas muito diretas e outras com mais qualidade técnica e coletiva. Essa diversidade torna o campeonato muito interessante. Cada ponto custa imenso a conquistar e isso aumenta ainda mais a competitividade.

- Os adeptos polacos são muito apaixonados. Como descreve o ambiente, sobretudo numa época tão competitiva?

É impressionante. Foi a primeira vez que vi o nosso estádio completamente cheio e o ambiente foi incrível. Mesmo sendo um clube pequeno, conseguimos ter mais de 14 mil adeptos no estádio. Em praticamente todos os campos da liga existem grandes ambientes, bons estádios e uma experiência de jogo muito forte. Sinceramente, acho que, fora das grandes ligas europeias, a Polónia está entre os melhores campeonatos da Europa ao nível do ambiente nos estádios.

- O que podem esperar os adeptos do Radomiak da próxima época?

Tenho contrato por mais dois anos e quero continuar. A ligação que criei com os adeptos é muito especial e sinto um enorme orgulho em representar este clube. O objetivo passa por continuar a crescer juntos e fortalecer ainda mais essa ligação.

Bruno Baltazar à conversa com Luquinhas
Bruno Baltazar à conversa com LuquinhasRadomiak Radom

"O que diferencia os treinadores é a capacidade de gestão humana"

- Está fora de Portugal desde 2019. O que lhe acrescentaram todas estas experiências internacionais?

Acrescentaram-me muito, tanto como treinador como pessoa. Cada país, cada clube e cada contexto obrigam-nos a adaptar. Um clube é quase uma micro-sociedade. É preciso perceber a cultura, os adeptos, o contexto político, social e emocional do clube. Tudo isso influencia o trabalho. Hoje sinto que tenho uma capacidade de análise muito mais rápida e madura graças às experiências que vivi. Isso obriga também a uma enorme capacidade de adaptação humana, não apenas tática.

Se não tivermos essa capacidade, é muito difícil ter sucesso. Não podemos chegar a todos os contextos com a mesma abordagem. O que funciona num país pode não funcionar noutro. É preciso perceber o ambiente, a cultura e aquilo de que o grupo necessita naquele momento.

- Hoje em dia, ser um bom gestor emocional é tão importante como ser um bom estratega?

Sem dúvida. A gestão humana é fundamental. Estamos a lidar com pessoas e as pessoas precisam de se sentir bem para renderem. O treinador tem de criar um ambiente positivo, ser honesto, coerente e saber gerir expectativas, conflitos e emoções. Para mim, aquilo que diferencia realmente os treinadores é precisamente essa capacidade de gestão humana.

- Como foi aprimorando essa capacidade ao longo da carreira?

Com experiência e muito trabalho diário. Sei que preciso de resultados para continuar a crescer, mas também sei que esses resultados dependem muito da relação que consigo criar com os jogadores, dirigentes e adeptos. Tenho ambição, naturalmente, e gostaria de estar num patamar superior, e tenho consciência de que já estou num patamar muito bom, mas tento seguir o meu caminho de forma tranquila, sustentada e profissional.

- Se pudesse construir hoje a equipa perfeita para a sua ideia de jogo, como a definiria?

A primeira coisa seria a qualidade humana. Esse é o verdadeiro scouting: perceber o caráter e o lado humano dos jogadores. Depois gosto de equipas dominadoras, ofensivas, que controlem o jogo com bola, criem muitas oportunidades e reajam rapidamente à perda da bola. Esse é o meu ideal de futebol.

Bruno Baltazar tem mais dois anos de contrato
Bruno Baltazar tem mais dois anos de contratoRadomiak Radom

"Acredito que teria sucesso em Portugal"

- O regresso a Portugal continua a ser um objetivo?

Claro que regressar a Portugal será sempre um objetivo. Gostaria muito de trabalhar na Liga. Mas teria de ser o projeto certo, num contexto onde sentisse confiança e margem para crescer. Não é algo que me tire o sono. Estou tranquilo e focado no meu percurso. Ainda sou novo e vou continuar o meu caminho.

- Sente que continua a ser um treinador subvalorizado em Portugal?

Não diria subvalorizado. Já estive próximo de regressar a Portugal... Acho natural que, estando há vários anos fora de Portugal, tenha saído um pouco do radar. O mercado é muito competitivo e surgem constantemente novos treinadores. Mas não sinto qualquer falta de reconhecimento. Sei perfeitamente da minha capacidade e acredito que teria sucesso em Portugal também.

- Entre tantos países e experiências, qual foi a que mais o marcou?

Inglaterra, sem dúvida. Desde miúdo que idolatrava o futebol inglês. Ter trabalhado no Nottingham Forest, mesmo como adjunto, foi uma experiência muito especial. A forma como se vive o futebol em Inglaterra é única. Gostava muito de voltar um dia, agora como treinador principal. Já tive essa possibilidade, mas não se concretizou.

Olhar para o Mundial-2026: "Portugal tem capacidade para lutar pelo título"

- Que expectativas tem para o Mundial-2026?

Acho que vai ser um Mundial muito diferente, até pela dimensão geográfica e pelo número de jogos. Estou curioso para perceber qual será o impacto real da competição. Quanto aos favoritos, diria França, Portugal e Espanha. E acredito sinceramente que Portugal tem capacidade para lutar pelo título. Temos uma geração extraordinária e espero que consiga conquistar algo histórico.

- Sentiu tristeza por a Polónia não se ter qualificado?

Sim, claramente. É um país que me acolheu muito bem e gostava de os ver no Mundial. Além disso, seria importante para jogadores como Lewandowski terminarem a carreira internacional numa grande competição.

O grupo de Portugal no Mundial-2026
O grupo de Portugal no Mundial-2026Flashscore

- E como olha para esta nova ligação entre o futebol polaco e o FC Porto?

Não me surpreende. Está a surgir uma geração muito interessante de jogadores polacos. O Pietuszewski é provavelmente o maior exemplo neste momento. O futebol polaco está a produzir jogadores mais técnicos, mais modernos e preparados para competir em ligas fortes. É um mercado que merece atenção.