Acompanhe o Al Hazem no Flashscore
Numa entrevista exclusiva ao Flashscore, o guarda-redes falou sobre os primeiros meses da estadia na Arábia Saudita, da aventura que viveu para conseguir uma camisola de Cristiano Ronaldo, da saída tumultuosa do Vitória SC e daquilo que falhou quando foi aposta no Benfica de Rui Vitória. Pelo meio, recordou o dia em que Jorge Jesus comparou-o a uma… parede.
"Queria estar no Mundial a 300%, mas lesionei-me com gravidade"
- O Bruno tinha idealizado uma coisa, mas a lesão acabou por trocar-lhe os planos?
A nível de expectativas, se calhar foi das épocas em que tive mais na minha carreira e depois tive a maior desilusão. A maior expectativa porque fui jogar num campeonato diferente, após cinco anos num clube como o Vitória SC, no qual me sentia super bem, acarinhado por toda a gente e depois mudar para um campeonato diferente, um país diferente, uma cultura diferente e participar num campeonato com grandes nomes: Cristiano Ronaldo, Mahrez, Mendy, Sergej Milinković-Savić, Kessié, Darwin Núñez, Ivan Toney, Benzema... Não perspetivava conseguir chegar a esse nível e depois havia a possibilidade de poder participar na fase final do Mundial, prova onde queria estar a 300%. Só que depois a meio da temporada acabo por ter uma lesão que, infelizmente, tira-me essa possibilidade. A época estava a ser positiva, pelo menos até à altura em que me lesionei.

- E quais eram as suas expetativas quando se transferiu para o Al Hazem?
O início exigiu alguma adaptação devido à diferença de cultura e do campeonato. Ainda assim, acabou por ser muito diferente daquilo que eu estava à espera, pela positiva. Tinha uma ideia de que os árabes eram mais fechados, porque acho que a imagem que temos de fora é essa, devido à cultura que têm e a todas as restrições que existem no país. Mas encontrei pessoas tranquilas.
Obviamente, é preciso saber em que contexto estamos e respeitar a cultura deles. Há muitas coisas com as quais não concordo, mas é a maneira deles serem, é a cultura deles. Acho que, quando os respeitamos e eles sentem esse respeito pela sua cultura, ganhamos muito o respeito deles. Foi um bocado isso que aconteceu.
Sinto que, por exemplo, dentro da minha equipa sou uma pessoa muito acarinhada pelos meus colegas, principalmente pelos árabes, precisamente pelo entendimento que tive da cultura deles. Enquanto estrangeiros, muitas vezes temos a função de tentar melhorar algumas coisas, mas acho que isso tem de ser um processo progressivo. Nota-se que, nas equipas grandes da Arábia Saudita, muita coisa já mudou devido à influência dos jogadores estrangeiros que lá estão.
Ainda assim, é importante perceber qual é a cultura deles e como é o seu dia a dia. Quando assim é, acabam por receber-nos de uma forma tranquila, porque sabem que estamos lá para ajudar. No fundo, a ideia que eu tinha deles revelou-se completamente diferente, pela positiva. Adaptei-me bem.
- O Bruno contraiu uma lesão grave no menisco externo do joelho direito.
Foi difícil porque, quando me lesionei, ainda tive a esperança de que retirassem o menisco, fizessem uma limpeza e que estivesse bem no espaço de um mês, mês e meio. Só que os médicos disseram-me logo que não queriam fazer isso, porque a curto prazo iria ter muitos problemas. Todos me aconselharam, e falei com vários especialistas, a fazer a reparação do menisco, ou seja, a sutura, a "cozer" o menisco, porque isso iria dar-me mais anos de futebol. Se retirasse o menisco, seria um problema muito grave a curto prazo, nem sequer a médio prazo.
Foi aí que entrou a desilusão do Mundial. Disse ao médico: 'Não posso ficar de fora do Mundial. O Mundial é uma vez na vida.' E ele respondeu-me: 'Tens de escolher entre tentar estar bem para o Mundial, sabendo que ninguém te garante que isso vai acontecer, ou garantir mais anos de carreira.' Obviamente, tenho de olhar pela minha carreira. Tenho 31 anos.
Depois da operação, deram-me uma estimativa entre quatro e seis meses de recuperação. Neste momento, estou há dois meses fora da competição. Estou numa fase de reforço muscular e depois vou começar a correr progressivamente. Primeiro, tenho de recuperar a massa muscular que perdi neste período, porque isso é inevitável.
A estimativa que me dão é estar bem mais ou menos no início da próxima época, ali entre agosto e setembro. Nessa altura já terão passado quatro meses e meio, cinco meses de recuperação. Depois pode ser mais três semanas, menos duas, vai depender da forma como me for sentindo. Mas a previsão aponta para um regresso entre os quatro meses e meio e os seis meses.

"Fui ganhar na Arábia Saudita o suficiente para ajudar a minha família"
- E a ideia passa por prosseguir a carreira na Arábia Saudita?
Sim, tenho mais um ano de contrato. A época foi boa, fizemos uma temporada muito positiva e batemos o recorde de pontos do clube na liga. Obviamente que o contexto na Arábia Saudita é diferente. Muitas vezes, os contratos são curtos e os jogadores assinam apenas por um ano ou um ano e meio. A expectativa que tenho é que vamos perder alguns jogadores importantes, mas acredito que o clube tenha capacidade para voltar a construir uma boa equipa e fazer uma boa época, ou pelo menos uma época tranquila. O objetivo passa pela manutenção, por isso a minha ideia é continuar lá, cumprir o ano de contrato que me resta e depois logo se verá.
- Existem várias realidades no campeonato saudita. É verdade?
Acho que isso é público. Obviamente que nós, quando vamos para a Arábia Saudita, não podemos mentir. Vamos para um contexto que, financeiramente, acaba por ser melhor para nós. Não há nenhum jogador que esteja a jogar em Portugal e vá para a Arábia Saudita para ganhar o mesmo, ou apenas mais dois, três ou quatro.
Fui ganhar o suficiente para, neste momento, ter condições diferentes para ajudar a minha família e para ir construindo aquilo que temos como objetivos: ter uma casa melhor, melhores condições no dia a dia e viver com mais tranquilidade.
Quando estamos em Portugal, e sou da opinião de que nós, jogadores de futebol, não nos podemos queixar muito, porque temos a sorte de fazer aquilo de que gostamos e de receber salários muito superiores à realidade da maioria das pessoas, a verdade é que existe uma grande diferença. Não falo das equipas grandes, mas do SC Braga para baixo. Aliás, o SC Braga, hoje em dia, é um clube que paga muito melhor do que a maioria. Pelo menos é essa a ideia que tenho, embora possa estar errado.
Conheço a realidade que vivi no Vitória SC e sei que o clube não atravessa a melhor fase a nível financeiro. E, daí para baixo, sabemos das dificuldades que muitos clubes têm para pagar salários elevados. É por isso que tanta gente procura o estrangeiro. Muitas vezes, as pessoas não percebem porque é que um jogador sai de uma equipa de meio da tabela em Portugal para ir para uma equipa pequena na Turquia, ou porque vai para a Segunda Liga da Arábia Saudita.
Mas a explicação é, muitas vezes, financeira. Aqui ganhas um determinado valor, ali podes ganhar duas, três ou quatro vezes mais. Quando começas a olhar para a tua idade, começas também a pensar noutras coisas e a dizer para ti próprio que tens de criar um pé-de-meia e garantir melhores condições para o futuro.
Respondendo à pergunta, sem entrar em pormenores, foi uma decisão que, com a minha idade, sentia que tinha de tomar. Hoje dá-me uma estabilidade maior e permite-me ajudar mais a minha família, dar-lhe condições diferentes e melhores e, ao mesmo tempo, começar a preparar o futuro. Acima de tudo, foi uma decisão tomada a pensar nisso.

- E qual é o nível da Liga saudita, é um campeonato competitivo?
Não gosto muito de entrar nesses debates. Às vezes, as pessoas perguntam e dizem: 'O Cristiano disse que a liga é das melhores do mundo.' E eu respondo que o Cristiano está lá há mais tempo e também não posso estar aqui a contrariá-lo (risos). Mas, fora de brincadeiras, quem sou eu para falar pormenorizadamente da liga? Fiz 20 jogos, depois acabei por me lesionar e não voltei a jogar. Foi a minha primeira época na Liga Saudita.
A imagem que tenho é a de uma liga competitiva, bem mais competitiva do que aquilo que as pessoas pensam. Eu próprio tinha uma ideia antes de ir para lá e acabei por criar uma imagem completamente diferente. Não quero estar a puxar a brasa à nossa sardinha, mas a liga tem mais qualidade do que aquilo que se pensa. Os jogadores sauditas não são maus, como muitas vezes se diz. São bons jogadores. Talvez lhes falte algum compromisso em termos de profissionalismo. Pelo menos é isso que vejo na minha equipa.
A liga vai crescer e tem de crescer, sobretudo ao nível da organização. Desde que o Cristiano Ronaldo foi para lá, tem havido um crescimento enorme e acredito que a liga vai atingir outro patamar. Os estádios são bons, os relvados são muito bons, quase perfeitos. Treinamos quase todos os dias no nosso estádio e o relvado está sempre impecável. Não sei o que fazem, mas está sempre espetacular.
Acho que, ao nível da organização, ainda há aspetos que podem melhorar. Agora, em termos de competitividade, não acho que seja muito diferente da realidade portuguesa. Os quatro clubes mais ricos conseguem contratar os melhores jogadores. Depois há outros que lutam pelos lugares intermédios da classificação e que, não sendo grandes clubes, têm um poder financeiro considerável e conseguem também contratar bons jogadores.

Fábio Martins, uma lenda na Arábia Saudita e a odisseia até ficar com a camisola de CR7
- Gostaríamos que o Bruno falasse um pouco sobre este período em solo saudita.
Tive o prazer e o gosto de estar com o Fábio Martins, que é uma pessoa incrível em todos os sentidos. Brinco muito com ele, dizendo que é uma lenda na Arábia Saudita, mas a verdade é que é mesmo. Em Portugal não se tem bem a noção daquilo que o Fábio representa no contexto saudita. É um jogador muito respeitado por tudo o que tem feito na Arábia Saudita, pelos grandes golos que marca e pelo rendimento consistente que tem apresentado ao longo dos anos. Inclusive, esta época fez uma temporada muito positiva connosco.
Tive a sorte de o ter como companheiro de equipa. É uma pessoa cinco estrelas, sempre pronta a ajudar, um excelente colega. Fora do campo também é uma pessoa muito tranquila. Íamos muitas vezes almoçar ou jantar juntos. Também mantenho contacto com o Jorge Fernandes, que estava no Al Fateh e com quem joguei no Vitória SC. O staff do Al Nassr é praticamente todo português, por isso também havia várias pessoas que conhecia. Com o Rúben Neves, do Al Hilal, também troquei algumas palavras. Lembro-me igualmente do Kaio César, quando joguei pela primeira vez contra eles.
Obviamente, sempre que jogas contra uma equipa que tem portugueses, brasileiros ou alguém com quem já partilhaste balneário ou competiste noutro campeonato, acabas sempre por conversar. Agora até me faltam alguns nomes, mas lembro-me, por exemplo, do Rui Pedro Brás, diretor desportivo do Al Ahli. Ficámos bastante tempo à conversa.
É normal. Quando estamos nestes contextos, acabamos sempre por falar. Saber que do outro lado está alguém da mesma nacionalidade ou que fala a mesma língua cria logo uma proximidade diferente e acabamos por conviver um pouco antes ou depois dos jogos.
- Depois há sempre uma troca de camisolas, depois há aquela camisola que está toda a gente quer... a da Ronaldo. Ficou com a dele?
Fiquei, fiquei com a dele porque o meu filho queria muito a camisola dele. Também troquei camisolas com o Mendy, com o João Félix e, obviamente, com o Jorge. Gostava também de ter ficado com a do Benzema, mas, na altura em que jogámos contra eles, eu estava lesionado e não tive essa oportunidade. Mas a do Ronaldo era, pelo menos, a mais importante, sobretudo pelo meu filho.

- Mas foi fácil ficar com a camisola do Cristiano Ronaldo?
Até posso contar o diálogo, porque foi curioso. Chegámos ao túnel e eles já estavam lá. Foi um jogo em nossa casa, que perdemos por 0-2. Eles já estavam preparados para entrar em campo quando chegámos. Cumprimentei o João Félix e depois fui cumprimentar o Cristiano. Já tinha estado com ele na seleção e ele lembrou-se de mim, o que me deixou contente.
Cumprimentei-o e disse-lhe: 'Cris, bom jogo.' E ele respondeu: 'Bom jogo.' Depois aproveitei e perguntei: 'Olha, no final do jogo achas que dá para trocarmos a camisola?' E logo de seguida dei a dica: 'É que o meu filho gosta muito de ti e queria muito a tua camisola.'
Ele olhou para mim e respondeu: 'Se te portares bem, eu dou-te a camisola.'
Comecei logo a rir e ele insistiu: 'Estás-te a rir? Se te portares bem, eu dou-te a camisola.'
Percebi logo o que ele queria dizer, que era algo do género: 'Se não defenderes tudo, tens a tua camisola no final.'
Durante o jogo, lembro-me de que, logo nos primeiros minutos, houve um remate do Coman e eu fiz uma defesa muito boa. Como os estádios na Arábia Saudita nem sempre estão muito cheios, muitas vezes consegue ouvir-se o que os jogadores dizem em campo. E ele começou a gritar: 'Já começas, já começas... No Guimarães não defendias assim.'
Mandou-me essa boca e eu comecei a rir. Lembro-me de que o Fábio Martins também ouviu. Nessa altura estávamos muito recuados, a defender perto da nossa área. A bola saiu para canto e o Fábio veio ter comigo e disse: 'Pronto, já levaste uma dura.' E eu respondi: 'Mas estou a fazer um bom trabalho.'
Foi engraçado. Depois, durante o jogo, não falámos muito mais. Houve apenas um lance em que ele caiu numa disputa comigo e pediu penálti. Eu dizia-lhe que não era penálti, que não lhe tinha tocado. Ele insistia que eu lhe tinha tocado. Falámos, mas sempre de forma tranquila. Também não podia ser muito agressivo, senão ainda ficava sem a camisola (risos).
Mais tarde, já perto dos 80 minutos, ele acabou por marcar. Nem bateu particularmente bem na bola, mas ela entrou. À Ronaldo. Parece que, de qualquer maneira que toca na bola, ela acaba por entrar. É impressionante a facilidade que ele tem para fazer golos. Parece algo automático.
Depois do golo, festejaram e o jogo continuou. Passados alguns minutos, numa altura em que a bola estava parada, aproximei-me dele e disse-lhe: 'Tu és tão bom que até quando falhas o remate fazes golo.' Ele começou-se a rir e respondeu: 'No final dou-te a camisola.'
E cumpriu. Acabou o jogo, nós fomos para o balneário e eles ficaram em campo a festejar com os adeptos. O nosso balneário era separado do deles. Eu estava sentado quando ele apareceu à porta do nosso balneário. Tirou a camisola, olhou para mim e disse: 'Toma, Varela.'
Atirou-ma e foi embora. Nem tive tempo de lhe dar a minha. Foi simplesmente lá entregar a camisola e saiu. Depois acabei por trocar a minha camisola com o João Félix.
- E como é que os seus colegas reagiram quando viram o Cristiano Ronaldo à porta do balneário?
O pior disso tudo foi que os árabes viram o que aconteceu com o Cristiano e começaram logo a pensar que eu tinha uma relação próxima com ele. Viram-no aparecer no balneário, chamar-me pelo nome e entregar-me a camisola, e tiraram logo as suas conclusões.
Quando se joga contra o Ronaldo, é normal que muitos dos jogadores e funcionários levem camisolas dele, do Manchester United, do Real Madrid ou do Sporting, para tentar que ele as autografe.
De repente, começaram todos a dizer: 'Tu és amigo do Ronaldo, tu és amigo do Ronaldo.' E, de um momento para o outro, tinha mais de uma dezena de camisolas nas mãos para lhe levar a assinar. Eu dizia-lhes: 'Mas eu não sou amigo dele. Estive com ele uma ou duas vezes na seleção e existe aquele respeito normal entre portugueses. Vocês viram que ele nem levou a minha camisola, deu-me a dele e foi embora.'
Obviamente fiquei muito contente por ele me ter dado a camisola, mas não tenho nenhum tipo de relação próxima com ele.
Ainda lhes disse que, se aparecesse com 12 camisolas para autografar, provavelmente nem me deixavam chegar perto dele. Acabei por não conseguir fazer esse favor aos árabes, mas foi um episódio engraçado.

Saída do Vitória SC: "Fiquei menos satisfeito com a falta de frontalidade"
- Após uma ligação de cinco anos, o Bruno saiu do Vitória SC, mas parece que as coisas não correram da melhor forma entre si e a direção do clube. O que aconteceu?
Acho que foi uma situação simples. O Vitória SC queria mudar um pouco o ciclo que estava a viver e fazer alterações no plantel, apostando mais em jogadores jovens para, mais tarde, conseguir uma maior rentabilidade financeira. Nós, os jogadores mais velhos, percebemos isso. Obviamente, quando tens um jogador de 31 anos, não vais conseguir vendê-lo pelos mesmos valores que um jogador de 24 ou 25 anos. Isso faz parte do futebol e a minha saída acabou por ser natural.
A única coisa que já disse noutras ocasiões, e não tenho qualquer problema em repetir, é que fiquei menos satisfeito com a falta de frontalidade que, na minha opinião, existiu nesse processo. Não tenho problemas com ninguém, nunca tive uma má relação com o presidente. Havia uma relação de respeito mútuo e sempre existiu frontalidade entre nós.
Por isso, acho que ele podia ter falado diretamente comigo e ter tido essa conversa. Acabou por chegar tudo em tom de recado. Era o vice-presidente que falava comigo, enquanto o presidente falava diretamente com o meu empresário e fazia uma pressão constante no sentido de encontrar uma solução para a minha saída. A única coisa que condeno foi precisamente essa falta de uma conversa direta comigo, porque acredito que tínhamos uma relação que justificava isso.
- Mas depois falou com o presidente António Miguel Cardoso?
Tivemos uma conversa depois de eu ter rescindido o contrato, no dia em que já ia viajar para a Arábia Saudita. Nesse dia fui ao estádio despedir-me dos meus colegas, das pessoas do clube e, depois da rescisão, acabámos por conversar.
Uma das coisas que lhe disse foi precisamente que deveríamos ter tido essa conversa antes de toda a controvérsia. Bastava que o presidente tivesse sido direto comigo e me dissesse: 'Bruno, nesta época não quero contar contigo. Acho que tens de procurar outro clube, seja na Arábia Saudita, na Turquia ou noutro contexto. No próximo ano quero apostar em jogadores mais jovens e fazer uma limpeza no plantel.'
E estava tudo bem. Eu podia concordar ou não, mas compreenderia aquilo que era o projeto e o plano do clube. Até porque a minha intenção era ficar mais um ano. Tinha mais um ano de contrato e gostava de o cumprir. Ainda assim, teria percebido e respeitado a decisão de forma tranquila. Foi a única situação que me deixou menos satisfeito. De resto, não saí zangado nem de relações cortadas com ninguém. Foi apenas esse ponto que eu e o presidente acabámos por abordar nessa conversa.
Faltou apenas um pouco mais de frontalidade, tendo em conta todos os anos que passei no clube e as inúmeras vezes que me reuni com o presidente para falar das mais diversas situações, desde prémios a questões relacionadas com o dia a dia do Vitória SC.
De resto, são ciclos e decisões. Nós, enquanto jogadores, temos de respeitar as decisões dos clubes. E a verdade é que o Vitória SC acabou por conquistar, de forma inédita, a Taça da Liga, apesar de todas as convulsões internas que existiram.

- E o que falta ao clube para poder lutar por títulos de forma mais regular?
É um clube com muita massa associativa, com adeptos muito presentes, e que também tem evoluído bastante ao nível das infraestruturas. Falo pelos cinco anos que lá estive: o Vitória SC teve um crescimento enorme em todos os sentidos.
As pessoas e os profissionais que trabalham em Guimarães são incríveis. Em todas as áreas encontrei pessoas muito competentes. Arrisco-me a dizer que, ao nível do trabalho desenvolvido, o Vitória SC não fica atrás dos chamados clubes grandes. Falo da competência, da qualidade do trabalho e do profissionalismo que existe no dia a dia.
Acho que o Vitória SC está preparado para tentar dar um passo em frente. Obviamente, a questão financeira tem um peso muito grande. Comparar o Vitória SC ao SC Braga, nos dias de hoje, é difícil. Apesar de serem grandes rivais, a realidade financeira do SC Braga acaba por colocá-lo noutro patamar, e isso é um facto.
Ainda assim, acho que o Vitória SC equilibra essa balança através dos adeptos. Na minha opinião, o Vitória SC é claramente superior nesse capítulo, quer em número, quer no apoio que dá à equipa. Basta olhar para aquilo que foi a época do SC Braga no ano passado. Se fosse o Vitória SC a fazer uma época semelhante, o impacto seria enorme. Acho que os adeptos têm capacidade para empurrar o clube para outro patamar. Disso não tenho qualquer dúvida.
- Olhando para o que disse, é preciso criar um projeto mais viável e sustentável?
A nível financeiro, o Vitória SC perde claramente para clubes como o SC Braga e isso acaba por colocá-lo alguns passos atrás. Mas acho que, acima de tudo, é importante haver sustentabilidade nos projetos. Têm existido muitas mudanças, sobretudo ao nível dos treinadores, e o Vitória SC precisa de encontrar aquilo que quer para o seu projeto, identificar um treinador que represente essa ideia e, a partir daí, dar continuidade ao trabalho.
A época acabou por ser positiva, sobretudo se tivermos em conta todas as perdas que o Vitória SC sofreu. Estamos a falar da saída de jogadores como eu, o Tiago Silva, o Tomás Händel, o Mikel Villanueva, o João Mendes ou o Nuno Santos. Eram muitos jogadores importantes e praticamente todos titulares.
Apesar disso, o Vitória SC conseguiu vencer a Taça da Liga, valorizou vários jogadores e criou ativos importantes. Fala-se da saída do Diogo Sousa para o Estrasburgo, fala-se do Noah Saviolo e de outros jogadores que poderão render encaixes financeiros ao clube. Além disso, conquistou um título e terminou o campeonato em nono lugar.
Claro que o nono lugar não é uma posição que satisfaz um clube como o Vitória SC, mas também é preciso olhar para o contexto. Houve muitas mudanças no plantel e na equipa técnica. Por isso, olhando para o conjunto da época, acho que o balanço acaba por ser positivo.
Houve aspetos negativos, naturalmente, mas em termos de resultados considero que foi uma temporada positiva, precisamente por todas as alterações que existiram. E houve a conquista de um título. Um clube como o Vitória, que já não ganhava nada há muitos anos, dificilmente pode considerar uma época negativa quando conquista um troféu, ainda que seja a Taça da Liga. A não ser que tivesse descido de divisão, o que não aconteceu.
Sinceramente, também acho que o mister Luís Pinto estava a fazer uma boa época. Tendo em conta todo o contexto, parecia-me que o trabalho estava a ser positivo. Mas as decisões são tomadas por quem dirige o clube e têm de ser respeitadas.
No fundo, acho que o Vitória SC precisa de sustentar um pouco mais aquilo que é o seu projeto. É um clube muito exigente, onde as pessoas têm pouca paciência e onde parece que só interessa ganhar. Quando não se ganha, dá a sensação de que está tudo mal.
É precisamente aí que deve entrar a parte mais racional. As pessoas que tomam decisões têm de manter alguma serenidade e, se calhar, proteger um pouco mais aqueles que estão mais expostos, que são os treinadores e os jogadores.

"Diogo Sousa é um craque e Noah Saviolo é extremo de equipa grande"
- O Diogo Sousa está a caminho do Estrasburgo e o próximo jogador a sair poderá ser o Noah Saviolo. Qual é a sua opinião sobre estes dois jogadores?
Acho que o Noah tem aquilo a que eu chamo qualidade de extremo de equipa grande. Em cada dez ações que tem no corredor, em oito ou nove vai para o um contra um. Umas vezes ganha, outras não, mas nota-se claramente que tem qualidade e capacidade para assumir esse risco. Acima de tudo, tem personalidade. Tem aquela confiança de quem acredita nas suas qualidades e pensa: 'Sou bom e vou para cima do meu adversário.' E acho que é precisamente esse tipo de extremo que as equipas grandes procuram, porque são esses jogadores que fazem a diferença e que têm capacidade para desbloquear jogos mais complicados.
Depois, se o colocarmos num contexto com jogadores de maior qualidade, numa equipa que tem mais posse de bola e passa mais tempo em ataque organizado, acredito que pode crescer ainda mais e ter muito sucesso. Tem-se falado do Benfica ou da Roma, por exemplo. Acho que ele é um miúdo com uma capacidade enorme e vamos ver até onde consegue chegar. Na minha opinião, tem todas as qualidades para ser extremo de uma equipa de topo. Já o Diogo Sousa é um craque!
- A família Varela apaixonou-se pela cidade de Guimarães?
Sim, já estou completamente instalado. Inclusive, até vendi a casa que tinha em Lisboa. Na Arábia Saudita estou sozinho e a minha família ficou em Portugal. A minha mulher, o meu filho e os nossos cães estão todos em Guimarães. No fundo, essa decisão também teve muito a ver com o crescimento do meu filho.
Quando fui para o Vitória SC, ele começou a vida escolar na cidade e adaptou-se muito bem. Quem tem filhos percebe isso. Muitas vezes, temos de tomar decisões a pensar neles. Se ele está feliz, se está adaptado, se já tem os amigos dele na escola e se nós também nos sentimos bem ali, torna-se difícil voltar a mudar tudo.
Por isso, neste momento, ainda não ponderamos regressar a Lisboa. Sou lisboeta, é verdade, mas, nesta fase, estamos bem em Guimarães. Acima de tudo, por causa do Diego. Ele está muito bem adaptado à escola, adora a cidade e faz questão de continuar lá o seu percurso escolar. Depois logo veremos o que o futuro reserva, mas, para já, estamos muito felizes em Guimarães.
- O Bruno foi um espectador atento da liga portuguesa esta época. Quais foram os jogadores que mais o surpreenderam?
Luis Suárez, sem dúvida. Acho que chegou com uma pressão enorme em cima dele, porque o Viktor Gyökeres deixou uma marca muito forte no campeonato. E, sendo sinceros, poucos acreditavam que pudesse aparecer um avançado capaz de ter um impacto semelhante.
Mas a verdade é que o Suárez não ficou muito atrás daquilo que o Gyökeres fez. O Gyökeres era o grande destaque do nosso campeonato e o Suárez conseguiu, de certa forma, fazer com que não se falasse apenas dele. Foi, provavelmente, o jogador que mais me surpreendeu, até porque eu próprio não conhecia tão bem o Suárez antes desta época. Acabou por me surpreender muito pela positiva.
Falando do meu Vitória SC, gostei muito da época do Diogo Sousa. Acho que é um jogador de qualidade extrema, algo que já tinha visto nos treinos e que sempre disse em conversas mais informais. Sempre acreditei que o Diogo tinha características para atingir um nível muito alto.
E, sinceramente, acho que não ficará muito tempo no Estrasburgo, porque tem cabeça, mentalidade, personalidade e qualidade para voos ainda mais altos e para representar clubes de um patamar superior. Depois, também gostei muito da época realizada pelo Noah Saviolo. Acho que foi mais uma das boas afirmações da temporada.
- Existe o momento certo para se lançar um jovem na formação na equipa principal?
Há o exemplo do Gonçalo Oliveira. É um jogador elogiado por muita gente, fez uma boa época na equipa B e na Youth League. No entanto, quando surgiu uma oportunidade para jogar no Estádio da Luz, num jogo frente ao Vitória SC, quem acabou por atuar na posição de defesa-central foi o Enzo Barrenechea, que é médio de origem.
Quando se diz que os jovens têm qualidade e que estão preparados, também é preciso apostar neles quando aparecem essas oportunidades. É nesses momentos que os jogadores se afirmam e mostram se estão ou não preparados para outro nível.
- O Bruno quando assumiu a titularidade na baliza do Benfica foi lançado às feras?
Tenho a noção de que, inicialmente, o projeto não passava por eu começar a época como titular. A ideia era que fosse entrando aos poucos na equipa. O Júlio César seria o titular após a saída do Ederson, e eu assumiria o papel de número dois, até porque vinha de uma época de experiência na Liga e era um jogador formado no clube.
Só que o Júlio César lesionou-se no último jogo da pré-época. Na semana seguinte jogávamos a Supertaça, curiosamente frente ao Vitória SC, e acabei por entrar na equipa. Como ele ficou cerca de um mês e meio em recuperação, fui eu quem assumiu a baliza nesse período.
As coisas correram muito bem nesse início de época. Joguei a Supertaça, comecei o campeonato como titular e cheguei mesmo a ser chamado à seleção nacional. Foi uma fase muito positiva e, mesmo quando o Júlio César recuperou da lesão, continuei a jogar.
No entanto, também tinha consciência de que estava numa situação particular. Quando se está dentro do futebol, percebe-se esse tipo de coisas. Hoje, com mais idade e maturidade, também consigo olhar para trás e compreender melhor o lado do treinador. Quando tens um guarda-redes como o Júlio César no banco e um jovem como eu a jogar, é natural que, mais cedo ou mais tarde, exista a tentação de apostar novamente num jogador com aquele currículo. A não ser que as coisas estejam a correr de forma irrepreensível, sabes que essa possibilidade existe sempre.
Acho que estava a atravessar um bom momento e que as coisas estavam a correr bem. Depois surgiu aquele erro no jogo contra o Boavista, que acabou por ditar a minha saída da equipa. Mas faz parte do futebol.
- Mas o plano não passava por regressar ao Benfica após essa temporada em Setúbal?
Na altura, tinha uma ideia diferente para o meu percurso quando saí do Vitória FC. Antes mesmo de saber do interesse do Benfica, tinha dito aos meus empresários que, caso surgisse a possibilidade de sair, gostaria de dar um passo intermédio e experimentar um contexto diferente.
Havia, por exemplo, a possibilidade de me transferir para o Standard de Liège. Era um clube que ia disputar a Liga Europa, tinha uma situação estável na Liga belga, era treinado pelo Ricardo Sá Pinto e o treinador de guarda-redes que trabalhava com ele gostava muito de mim. Além disso, tinha uma boa relação com ele.
No entanto, a partir do momento em que o Benfica vendeu o Ederson ao Manchester City, decidiu ativar a cláusula de recompra. A partir daí, não havia grande margem para fazer outra coisa, porque essa possibilidade estava prevista no contrato.
Obviamente, fiquei muito feliz. Era um sonho de criança regressar ao Benfica. Ao mesmo tempo, foi um desafio enorme, porque acredito que essa tenha sido uma das épocas mais importantes dos últimos anos para o clube. Digo isto porque estava em causa a conquista do pentacampeonato, algo extremamente difícil de alcançar em Portugal. Ganhar cinco campeonatos consecutivos é um feito muito raro e, por isso, sentia-se a importância daquele momento.
Foi uma pena não termos conseguido atingir esse objetivo, porque sei bem aquilo que o penta poderia ter significado para mim, para o clube, para os meus colegas e para a minha família. Mas o futebol também é isto.
- Ainda tem pesadelos com aquele golo do Herrera?
Não, já tive momentos mais difíceis ao longo da carreira, fora de brincadeiras. Obviamente que foi uma situação que me marcou, sobretudo pela forma como aconteceu e pelo momento da época em que aconteceu. Acredito que, se não tivéssemos perdido aquele jogo, teríamos continuado em primeiro lugar e, naturalmente, ficado mais perto de conquistar o campeonato.
É verdade que ainda tínhamos de jogar fora com o Sporting, mas sinto que aquele jogo acabou por ter um peso muito grande. Já estávamos na reta final da Liga e, da forma como tudo aconteceu, com um jogo tão disputado e um golo sofrido aos 90 minutos, foi inevitavelmente marcante.
Admito que nessa noite não consegui dormir. Havia muita adrenalina, muitos pensamentos sobre o jogo, sobre o que poderia ter sido feito de forma diferente e tudo o que envolveu aquele momento. Mas faz parte do futebol. São memórias que não estão entre as melhores da minha carreira, mas acabam por ficar connosco. Acima de tudo, procuro olhar para essas situações como experiências e tentar retirar sempre algo positivo de cada uma delas.
- É também possível evoluir com as adversidades?
Sim, evoluiu. O crescimento faz parte da nossa vida, tanto a nível profissional como pessoal. Aprender a lidar com a frustração é uma das coisas mais importantes neste percurso. Depois desse jogo contra o FC Porto, eu era muito novo, tinha 22 ou 23 anos. Tive de aprender a lidar com a frustração daquele momento, mas também com toda a pressão que existia à volta da situação. Obviamente que tudo isso me fez crescer bastante.
- Numa entrevista ao Flashscore, o Ferro admitiu que teve aconselhamento especializado durante muito tempo. A saúde mental no mundo do desporto continua a ser um assunto tabu?
Sim, já tive acompanhamento psicológico. Neste momento não estou a trabalhar diretamente com ninguém, mas já trabalhei e nunca tive qualquer problema em falar sobre isso. Na altura do Benfica não iniciei um trabalho muito formal, mas mantive várias conversas com a doutora Ana Bispo Ramires, uma profissional muito conceituada em Portugal. Foi, aliás, ela quem demonstrou interesse em trabalhar comigo, algo que me deixou muito lisonjeado. Lembro-me de ela me dizer que tinha trabalhado muitos anos com o Rui Patrício e que via algumas semelhanças entre os nossos percursos. Segundo ela, ambos começámos a jogar ao mais alto nível sob uma enorme pressão.
Recordo-me perfeitamente de ser miúdo e de ver o Rui Patrício a jogar no Sporting. Muitas vezes perguntava-me como é que ele conseguia lidar com tudo aquilo. Bastava entrar em campo para aquecer e já havia adeptos a cantar pelo guarda-redes suplente, que na altura era o Stojkovic. Se o Sporting empatasse, a culpa era dele. Se perdesse, a culpa era dele. Se ganhasse mas sofresse golos, a culpa também era dele.
Eu perguntava-me como é que ele conseguia aguentar tudo isso, como tinha estrutura mental para suportar aquela pressão constante. Por isso, para mim, o Rui é um dos maiores exemplos de resiliência do futebol português. Tudo aquilo por que passou e a forma como se transformou num ídolo mostram bem a força que teve de ter. Tenho uma enorme admiração por ele, não apenas pelo guarda-redes que foi, mas também por tudo aquilo que conseguiu ultrapassar.
No meu caso, não chegámos a iniciar um acompanhamento formal, mas fomos conversando. Além disso, no Vitória FC existia um gabinete de Psicologia e tínhamos reuniões regulares. Sempre que sentíamos necessidade, podíamos sentar-nos e conversar com os profissionais que lá trabalhavam. Por isso, para mim, esse tema sempre foi encarado com naturalidade. Quem está no futebol percebe a importância deste tipo de acompanhamento. Os jogadores não devem ter qualquer problema em assumir que recorrem a ajuda especializada, porque isso é perfeitamente normal.
Hoje em dia, felizmente, o tema já é encarado de forma diferente. No passado era mais tabu. Havia quem dissesse que os jogadores que recorriam a acompanhamento psicológico eram mais frágeis ou não sabiam lidar com a pressão. Não tem nada a ver com isso.
Acho que devemos utilizar todas as ferramentas que temos à nossa disposição. E, se essas ferramentas existem, faz sentido saber aproveitá-las. Quem trabalha estas questões e tem consciência da importância desse processo acaba muitas vezes por estar mais preparado para lidar com as exigências da profissão. Depois há também quem prefira guardar esse trabalho para si, e isso é igualmente legítimo. Muitas vezes, grande parte do sucesso constrói-se longe dos holofotes, no silêncio e no trabalho que ninguém vê.
- Guarda alguma mágoa por não ter triunfado quando regressou ao Benfica?
O Benfica foi a concretização de um sonho de criança. Cheguei ao clube com 11 anos, passei por todos os escalões de formação, fui apanha-bolas, joguei na equipa B, saí por empréstimo e, mais tarde, tive a oportunidade de regressar à equipa principal. Foi todo um percurso dentro do clube até chegar ao momento com que sempre sonhei. Jogar no Estádio da Luz com a camisola do Benfica era um sonho que tinha desde miúdo, tal como a minha família. Por isso, quando olho para trás, vejo essa passagem como a concretização de um sonho.
- E o Vitória FC?
O Vitória Futebol Clube foi a minha primeira grande experiência nos grandes palcos do futebol e um clube que me tratou de forma incrível em todos os sentidos. Apesar de já ter acumulado muitos jogos na Liga 2 quando cheguei a Setúbal, sinto que foi aí que começou verdadeiramente o meu crescimento enquanto jogador. Foi o início do meu percurso no futebol ao mais alto nível e um período muito importante para a minha evolução.
Posso dizer que o Vitória FC foi o clube que me abriu as portas para aquilo que viria a ser a minha carreira. Foi lá que comecei a crescer de forma mais consistente, tanto como jogador como pessoa, e teve um papel fundamental na construção do Bruno Varela que sou hoje.
- Como é que foi a experiência no Ajax?
O Ajax surgiu numa fase complicada da minha carreira e acabou por me abrir portas importantes. Posso dizer que representou o regresso da minha felicidade. Vinha de uma época no Benfica em que tinha começado a jogar regularmente e em que as expectativas eram muito altas. Depois aconteceu um verdadeiro turbilhão de emoções. Passei de primeiro para terceiro guarda-redes e, naturalmente, isso afetou-me bastante. Estava desmotivado, triste e em baixo.
Foi nesse contexto que surgiu a oportunidade de ir para o Ajax, a meio da época. Mesmo sem jogar nessa segunda metade da temporada, vivi momentos muito felizes. Ganhámos a Taça, conquistámos o campeonato e chegámos às meias-finais da Liga dos Campeões. Por tudo isso, o Ajax acabou por representar um novo começo para mim.

"Cabo Verde vai surpreender no Mundial"
- Ainda se arrepia sempre que se fala do dia 13 de outubro de 2025?
O dia em que garantimos a qualificação foi uma autêntica loucura. Foi um momento incrível em todos os sentidos. Estamos a falar de um arquipélago com cerca de 500 mil habitantes que conseguiu qualificar-se para a maior competição de seleções do mundo. É algo difícil de explicar. Acreditámos sempre. Mesmo quando muita gente já não acreditava, sobretudo depois de um início menos positivo, dentro do grupo mantivemos sempre a convicção de que era possível.
Essa crença ficou ainda mais forte depois da vitória sobre os Camarões, em casa. Nesse momento percebemos que estávamos muito perto de alcançar o objetivo e isso deu-nos ainda mais confiança. Depois foi uma festa enorme. Celebrámos muito, mas, acima de tudo, sentimo-nos extremamente orgulhosos. Era um objetivo em que acreditávamos verdadeiramente e, quando essa crença nasce dentro do grupo, a conquista acaba por ter um significado ainda mais especial.
Contra muitas das previsões e expectativas que existiam, conseguimos contrariar tudo isso. Acabámos por ser uma espécie de intrusos numa competição para a qual muita gente não esperava que nos qualificássemos. Conseguimos fazê-lo e acredito que o maior prémio agora seja toda a comitiva poder desfrutar desta experiência da melhor forma possível e representar Cabo Verde ao mais alto nível.
- O que se pode esperar da seleção de Cabo Verde no Mundial-2026?
Acho que Cabo Verde vai surpreender. Atenção, quando digo surpreender não estou a dizer que vamos ganhar a competição ou que vamos necessariamente passar a fase de grupos. Mas acredito que a equipa tem qualidade para surpreender pela forma como joga e pela qualidade dos seus jogadores.
Sendo uma seleção africana sem a notoriedade de países como Senegal, Marrocos, Argélia ou Egito, a verdade é que pouca gente conhece realmente a nossa equipa. Se mostrares a bandeira de Cabo Verde a muitas pessoas, provavelmente não saberão identificar o país. Quando falas de Cabo Verde, há quem nem saiba exatamente onde fica. É uma realidade.
Para terem uma ideia, na Arábia Saudita falava muitas vezes de Cabo Verde e as pessoas não sabiam quem éramos. Eu dizia-lhes: 'Mas Cabo Verde está no vosso grupo do Mundial, como é que não sabem?' Depois mostrava-lhes o grupo e ficavam surpreendidos.
Tendo em conta todo esse desconhecimento, acredito que possamos ser uma agradável surpresa. Conheço a qualidade que existe dentro do grupo e sei aquilo que esta equipa é capaz de fazer.
Além disso, somos uma seleção um pouco diferente da imagem que muitas pessoas têm do futebol africano. Muitas equipas africanas apostam num jogo mais direto, mais físico. Nós também temos intensidade e capacidade física, mas somos uma equipa que gosta de jogar, sobretudo quando encontra bons relvados e boas condições.
Temos jogadores com qualidade técnica para isso e um treinador que promove esse tipo de futebol. É por tudo isso que acredito que Cabo Verde pode surpreender muita gente.
Não sei quantos pontos conseguiremos fazer nem até onde poderemos chegar, mas acredito que, em termos de qualidade de jogo e competitividade, Cabo Verde vai apresentar-se a um bom nível e deixar uma imagem muito positiva. Oxalá consigamos ir o mais longe possível.
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- E como irá o Bruno Varela viver este Mundial?
Para ser franco, será muito difícil. Vou ser sincero: é difícil. Mas acho que a parte mais complicada foi no início, quando me disseram que provavelmente teria de ser operado e que a recuperação poderia demorar entre quatro e seis meses. Nessa altura foi difícil aceitar a realidade.
Fui operado há quase dois meses e só nos últimos dias comecei a andar normalmente, sem o auxílio de muletas. Gostava muito de estar no Mundial, mas sei que não será possível. Neste momento, é impossível. Ainda assim, acima de tudo, fico feliz pelos meus colegas. Eles merecem. Merecem desfrutar desta competição e proporcionar uma alegria enorme ao povo cabo-verdiano.
Não estarei lá fisicamente, mas vou acompanhar tudo de perto e estarei sempre a apoiar a equipa. É difícil, muito complicado, mas o futebol também é isto. Temos de saber aceitar os momentos menos bons e seguir em frente.

- O Bruno foi internacional português nas seleções mais jovens e enquanto sénior já foi convocado. Calculamos que estará com o coração meio dividido. O que poderemos esperar da seleção portuguesa no Mundial?
Portugal nunca conquistou um Mundial, mas, pela qualidade dos jogadores que tem atualmente, acho que deve ser considerado um dos favoritos. Olhamos para a seleção nacional e vemos jogadores de nível altíssimo em praticamente todas as posições. Em termos de talento individual, diria até que esta é, provavelmente, a melhor geração que Portugal já teve.
Por isso, acredito que Portugal tem de ser colocado entre os principais candidatos ao título, a par da Argentina, que conquistou o último Mundial. A Espanha, pela equipa que tem e pelo futebol que pratica, também é uma das favoritas.
Posso estar enganado, mas acho que o Brasil continua a merecer esse estatuto. É a seleção mais titulada da história da competição e, mesmo não atravessando talvez o seu melhor momento, continua a ter grandes jogadores. Num torneio que se decide em sete ou oito jogos, a melhor versão do Brasil pode aparecer a qualquer momento.
Portugal, Espanha, Argentina e Brasil são as primeiras seleções que me vêm à cabeça quando penso nos favoritos. Mas depois há equipas que nunca podem ser ignoradas. A Alemanha é sempre forte, a Inglaterra é sempre forte e, claro, estava a esquecer-me da França.
Peço desculpa, mas a França tem uma qualidade impressionante. Basta olhar para os jogadores que possui: Mbappé, Olise, Cherki, Doué... é quase uma brincadeira. Há dias vi uma análise com jogadores franceses que nem sequer tinham sido convocados e a equipa que formavam tinha qualidade para lutar pelo título mundial.
- E quais são as suas referências e os jogadores que lhe inspiram?
Sempre gostei muito do Petr Čech desde miúdo. Adorava as características dele, a forma como se posicionava na baliza e a tranquilidade com que jogava. Apesar de ele ser canhoto e eu destro, sempre foi um guarda-redes de quem gostei muito. Também olho para o Manuel Neuer pela longevidade e pelo nível que continua a apresentar ao mais alto nível. O Buffon é outra referência, sobretudo pela postura que sempre teve ao longo da carreira. Por isso, diria que não tenho propriamente um ídolo. Tenho várias referências e procuro retirar um pouco de cada uma delas. Adoro o Oblak, gosto muito das características do Ederson, e também sou um admirador do Courtois e do Alisson. Se tivesse de destacar dois nomes das últimas épocas, diria que o Courtois e o Neuer têm sido, provavelmente, os melhores.

O dia em que Jorge Jesus comparou Bruno Varela a uma… parede!
- E quais são os seus planos a curto, médio prazo?
O principal objetivo neste momento é recuperar bem da lesão e voltar a jogar. Agora estou de férias, mas continuo focado na recuperação. Vou aproveitar alguns dias com a família para viajar e desligar um pouco, porque também é importante. Ainda assim, serão apenas sete a nove dias de pausa antes de voltar ao trabalho. Não há muito tempo a perder. Nesta fase, cada dia conta e o objetivo passa por recuperar o mais rapidamente possível.
Acredito que será difícil estar a 100% logo no início da pré-época, mas espero já estar numa fase bastante positiva da recuperação. Depois será continuar a trabalhar para alcançar o objetivo principal, que é estar bem no arranque do campeonato ou, no máximo, nas primeiras jornadas da nova época.
- Bruno e quais foram os treinadores que mais o marcaram em todas estas etapas?
É uma pergunta difícil, porque tive vários treinadores que me marcaram ao longo da carreira. Começo pelo mister José Couceiro, que foi quem me deu a primeira oportunidade de jogar na Liga. É alguém que vai estar sempre ligado ao meu percurso e com quem mantenho uma excelente relação. É uma pessoa incrível e muito especial para mim. Por isso, deixo-lhe um abraço muito grande.
Obviamente que também tenho de falar do Rui Vitória, por me ter dado a oportunidade de me estrear na equipa principal do Benfica. Foi um momento muito importante da minha carreira e, por isso, também é um treinador que me marcou. Mas há outro nome que não posso deixar de referir: o mister Moreno. E não apenas pela componente técnica ou por aquilo que fez enquanto treinador, mas sobretudo pela pessoa que é e pela coragem que demonstrou.
Assumiu o Vitória SC num momento muito difícil e teve a coragem de pegar na equipa da cidade dele, sabendo toda a pressão que isso acarretava. Não era apenas a exposição dele, era também a da família, dos filhos, dos pais, dos tios, dos primos. Mesmo assim, avançou e assumiu essa responsabilidade. Foi nesse período que construímos um dos grupos mais fortes e unidos de que tenho memória no Vitória SC. Todos tínhamos uma relação muito próxima com ele. Era uma pessoa muito humana, muito próxima dos jogadores e também muito divertida no dia a dia.
Aquilo que mais admirei nele foi precisamente essa coragem. Acho que foi um ato de enorme valentia assumir aquele desafio nas circunstâncias em que o fez. Acabámos por realizar uma época muito positiva e, apesar de ter saído no início da temporada seguinte, deixou uma marca muito forte em todos nós.
E, claro, também tenho de falar do Jorge Jesus. Apesar de nunca ter jogado regularmente com ele como treinador principal, treinei muitas vezes sob as suas orientações no Benfica.
- E tem alguma história com ele que gostaria de partilhar?
Ele dava-me grandes duras, até porque eu ainda era miúdo. Lembro-me de uma vez, num treino de finalização, o Benfica tinha na altura o Jonathan Rodríguez, um avançado uruguaio muito forte fisicamente, uma autêntica máquina. Estava a chover bastante e eu já tinha largado duas ou três bolas durante o treino.
Numa dessas situações, o Jonathan rematou muito forte. A bola bateu à frente e eu tentei agarrá-la, mas não consegui segurar. Nessa altura, o Jorge Jesus virou-se para mim e disse: 'Ó miúdo, não agarras uma bola. Pareces uma parede. A bola bate em ti e vem sempre para a frente.'
Claro que toda a gente se começou a rir e, durante algum tempo, ficaram a gozar comigo por causa disso. Sempre que acontecia alguma situação parecida, lá vinha a brincadeira: 'Pareces uma parede, a bola bate em ti e vem para a frente.' O Jorge Jesus é daqueles treinadores que marcam qualquer jogador.
- Bruno para finalizarmos, uma última questão. Têm sido cada vez mais frequentes os casos de racismo no futebol. Qual é a sua opinião sobre tudo isto?
Claro que sim. É um tema difícil de abordar, mas a verdade é que situações de racismo nunca deveriam acontecer e, em pleno 2026, ainda menos. É complicado falar sobre isto, mas acredito que, para que estes comportamentos diminuam de forma efetiva, têm de existir punições verdadeiramente severas. Quando falo em punições severas, falo sempre com base em provas concretas. Não basta alguém acusar outra pessoa sem que exista qualquer tipo de evidência. É importante que haja provas, seja através de imagens, gravações, leituras labiais ou testemunhos consistentes. Mas quando essas provas existem, quer estejamos a falar de jogadores, adeptos ou qualquer outra pessoa, as sanções têm de ser rigorosas.
E, na minha opinião, não basta aplicar suspensões de cinco ou dez jogos. Isso, muitas vezes, acaba por não ter o impacto necessário. Tem de existir uma consequência que realmente faça as pessoas perceber a gravidade dos atos.
Por exemplo, se estivermos a falar de comportamentos racistas por parte de adeptos, acredito que os clubes também deveriam sentir as consequências de alguma forma. A perda de pontos ou outro tipo de sanções com impacto real poderia ajudar a criar uma maior responsabilização. Tenho a certeza de que muitos adeptos pensariam duas vezes se soubessem que um comportamento desse género poderia prejudicar diretamente a equipa que apoiam. Os jogadores trabalham todos os dias, esforçam-se ao máximo para conquistar pontos e objetivos, e não faz sentido que tudo isso possa ser colocado em causa por causa de comportamentos inaceitáveis nas bancadas.
Acho que o problema passa muito por aí. Enquanto não existirem consequências verdadeiramente sérias, será difícil erradicar este tipo de situações. O que mais me surpreende, muitas vezes, é a naturalidade com que algumas pessoas continuam a agir. Fazem gestos, comentários ou insultos como se nada lhes pudesse acontecer. E isso é preocupante.
Por isso, acredito que o caminho passa por punições mais severas e por uma maior responsabilização de todos os envolvidos. Só assim será possível reduzir de forma significativa este tipo de comportamentos.
