Na carta, dirigida à presidente da Comissão Europeia e a mais quatro comissários, este grupo de eurodeputados, liderado pelo português Bruno Gonçalves (PS), frisa que o “desporto é um pilar fundamental do tecido social” europeu, mas alerta que a sua vertente comercial está a assumir “um protagonismo cada vez maior”.
Para exemplificar esta situação, o grupo de eurodeputados aborda a recente tentativa do presidente da FIFA, Gianni Infantino, “de vender a investidores privados uma participação nos direitos comerciais das competições” da organização, incluindo o Campeonato do Mundo de Futebol.
“Desenvolvida à margem dos procedimentos de governação estabelecidos, esta iniciativa levantou questões fundamentais quanto à proteção do património coletivo, dos valores e dos ativos do futebol, bem como quanto aos investidores que a liderança da FIFA procurava servir”, afirmam.
Os eurodeputados salientam que “este foi apenas um exemplo de um padrão de crises de governação, ética e integridade ao mais alto nível que envolve a FIFA e a sua liderança”.
“Consideradas em conjunto, estas situações ilustram claramente como a atual liderança da FIFA instrumentaliza os seus próprios processos e mecanismos de salvaguarda da governação, falhando repetidamente no cumprimento do seu papel de entidade reguladora do futebol mundial, sempre que esses deveres e valores entram em conflito com interesses comerciais ou políticos lucrativos”, acusam.
Os eurodeputados defendem que é necessário “proceder a uma análise independente destes acontecimentos e a uma reforma fundamental da governação da FIFA”.
Nessa reforma, consideram que é necessário que seja estabelecida uma “separação mais clara de poderes” na organização, “reforçar a tomada de decisões coletivas”, garantir uma supervisão independente e assegurar uma “participação efetiva” das confederações, associações nacionais, clubes, ligas, jogadores e adeptos.
Na carta dirigida à Comissão Europeia, estes eurodeputados destacam ainda o facto de as ligas europeias terem apresentado uma queixa contra a FIFA junto do executivo comunitário relativa ao processo de tomada de decisões sobre o calendário internacional de jogos.
“A queixa manifesta preocupações quanto à utilização, pela FIFA, dos seus poderes regulatórios para promover os seus próprios interesses comerciais, à insuficiente participação das partes interessadas nos processos de decisão, ao bem-estar dos jogadores e à sustentabilidade das competições nacionais”, apontam.
No âmbito dessa queixa, os eurodeputados pedem à Comissão Europeia para “tomar medidas formais”, sustentando que “os poderes regulatórios da FIFA devem ser exercidos através de procedimentos transparentes, objetivos, não discriminatórios e proporcionais, dotados de mecanismos de salvaguarda eficazes contra conflitos de interesses”.
Os eurodeputados manifestam ainda “profunda preocupação” com a “generalização dos preços dinâmicos na venda de bilhetes”, avisando que essa prática “ameaça comprometer a ligação entre os adeptos e o desporto”.
Este grupo salienta que um dos valores fundamentais do modelo de desporto na Europa é o de que “não constitui meramente um interesse comercial: é um bem de interesse público e um património cultural para milhões de cidadãos em todo o continente europeu”.
“Todos eles depositam as suas expectativas na nossa atuação, enquanto decisores políticos europeus, para preservar o verdadeiro espírito, os valores e a integridade do futebol à escala mundial”, salientam.
