Filipe Coelho faz história na Roménia: "O amor dos adeptos pelo clube é algo único"

Filipe Coelho em destaque no Universitatea Craiova
Filipe Coelho em destaque no Universitatea CraiovaUniversitatea Craiova, Flashscore

Durante mais de três décadas, Craiova sonhou com o regresso aos títulos. Em 2025/26, esse sonho transformou-se em realidade pelas mãos de um treinador português. Na primeira experiência como técnico principal após oito anos como adjunto de Paulo Bento, Filipe Coelho guiou o Universitatea Craiova à conquista do campeonato e da Taça da Roménia, entrando diretamente para a história do clube.

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O feito ganha ainda maior dimensão quando se olha para o contexto. Numa cidade de cerca de 300 mil habitantes e perante adversários com maiores recursos, o Craiova não só conquistou os dois principais troféus nacionais como também realizou uma campanha europeia que reforçou o crescimento do projeto.

Em entrevista ao Flashscore, Filipe Coelho revisita uma época inesquecível, explica como geriu a pressão de um clube que perseguia o título há mais de 35 anos e aborda os desafios que o esperam agora, com a Liga dos Campeões no horizonte.

Filipe Coelho em destaque no Universitatea Craiova
Filipe Coelho em destaque no Universitatea CraiovaOpta by Stats Perform, Universitatea Craiova

Da pressão ao título: a receita do sucesso em Craiova

- Mister, em Portugal percebe-se a importância da conquista do campeonato e da Taça, mas talvez não a verdadeira dimensão histórica do que foi alcançado. Já tem noção daquilo que conseguiu juntamente com a sua equipa técnica e os jogadores do Universitatea Craiova?

Creio que em Portugal não temos uma noção muito clara da qualidade e da dificuldade do campeonato romeno, nem da evolução que tem tido nos últimos anos. Já nós começámos a perceber melhor a dimensão do que alcançámos no final da época, quando víamos a felicidade das pessoas. Havia adeptos a dizer-nos que esperavam por aquele momento há mais de 35 anos. Alguns nunca tinham visto o clube ser campeão. Outros diziam que era o dia mais feliz das suas vidas.

Quando observamos os rostos, as emoções e a forma como as pessoas vivem aquele momento, acabamos por perceber melhor aquilo que conquistámos. Foi uma época histórica para o clube e, provavelmente, mesmo uma das melhores da sua história, sobretudo para uma cidade com 300 mil habitantes, até pela campanha que realizámos na Liga Conferência.

- Foi melhor do que aquilo que imaginava quando aceitou este desafio?

Em termos de resultados, sim. Antes de aceitar o desafio fizemos uma análise profunda da equipa e acreditávamos que havia potencial para ter sucesso. O grande objetivo era conquistar o campeonato, que era o sonho de toda a cidade. Mas se dissesse que acreditava que íamos ganhar tudo e fazer uma época tão boa também nas competições europeias, estaria a mentir.

A forma do Craiova
A forma do CraiovaFlashscore

- Em que momento sentiu verdadeiramente que a equipa podia ser campeã?

Nunca falámos muito disso internamente. O nosso foco foi sempre o próximo jogo. O clube carregava há muitos anos o peso de querer ser campeão e de ficar perto sem conseguir concretizar. Tentámos esquecer o passado, concentrar-nos no presente e acreditar que isso nos podia dar um futuro melhor. Honestamente, só nas últimas duas semanas começámos a falar de títulos. Até aí, estávamos apenas focados em somar pontos e em melhorar diariamente.

- Apesar do equilíbrio do campeonato, houve um jogo decisivo em que venceram a Universitatea de Cluj por 5-0. Esperava uma vitória tão expressiva?

Não. Tínhamos jogado com eles poucos dias antes na final da Taça e decidimos gerir alguns jogadores para chegarem mais frescos ao jogo do campeonato. Foi estratégico. Marcar cedo ajudou-nos muito. Depois conseguimos controlar o jogo e as coisas acabaram por acontecer naturalmente. Preparámo-nos para ganhar. Agora, ganhar por 5-0, sinceramente, não era algo que estivéssemos à espera.

- O que distinguiu a sua equipa das restantes?

O compromisso de toda a gente. Não apenas dos jogadores e da equipa técnica, mas de todas as pessoas que trabalham diariamente no clube. Conseguimos blindar o balneário da pressão exterior, que era enorme desde o primeiro dia. Toda a gente falava do título. Depois houve também uma ligação muito forte com os adeptos. Eles foram uma parte fundamental deste sucesso.

Adeptos do Craiova nas celebrações do título
Adeptos do Craiova nas celebrações do títuloUniversitatea Craiova

"Fiquei surpreendido pela paixão que os romenos têm pelo futebol"

- Ficou surpreendido com a forma como o futebol é vivido em Craiova e na Roménia?

Muito. Fiquei surpreendido pela paixão que os romenos têm pelo futebol. Em Craiova isso é ainda mais evidente. É uma cidade que vive intensamente o clube. Batemos os recordes de assistência, as pessoas abordam-nos na rua, nos supermercados, em todo o lado. É uma paixão diária e muito genuína, que nos empurrou em momentos muito importantes.

- Como foi a relação criada com os adeptos ao longo da época?

Sempre me trataram com muito respeito. Naturalmente, quando cheguei, era um desconhecido para a maioria deles e existiam dúvidas legítimas. Mas começámos bem, conseguimos resultados importantes e isso ajudou. Ganhámos ao Mainz, em casa, algo que não acontecia há 40 anos. Com o passar do tempo criámos uma ligação forte. Tenho um enorme respeito pelos adeptos e acredito que eles também passaram a confiar mais em mim e na equipa técnica.

- Na Roménia tem-se discutido muito o peso do anterior treinador, Mirel Radoi, nesta conquista. Como olha para esse tema?

Nunca fui para a Roménia para competir com nenhum treinador. Fui para trabalhar, juntamente com a minha equipa técnica, e para tentar melhorar uma equipa que acreditávamos ter potencial. Apanhámos um grupo de qualidade, mas também é verdade que quando chegámos estávamos a seis pontos do primeiro lugar. Estamos muito orgulhosos do trabalho que realizámos e, acima de tudo, felizes por termos conseguido dar esta alegria aos adeptos.

- É inevitável pensar que esta época histórica possa levar à saída de alguns jogadores importantes. Isso preocupa-o?

Quando existe sucesso coletivo é normal que exista valorização individual. Mas sobre saídas e entradas, essa é uma questão que compete mais ao diretor desportivo (Mário Felgueiras) e ao presidente. O meu trabalho é preparar a equipa com os jogadores que tiver à disposição.

- Já é possível falar de reforços para a próxima época?

Ainda é cedo. Estamos a trabalhar internamente nessa questão, mas tudo dependerá das saídas que possam acontecer. O importante é perceber quais os objetivos do clube para o próximo ano e garantir que teremos condições para corresponder aos objetivos do clube.

Filipe Coelho levado em ombros pelos jogadores
Filipe Coelho levado em ombros pelos jogadoresUniversitatea Craiova

"Devemos aproveitar a oportunidade que vamos ter no play-off da Champions"

- Renovou contrato. O que o levou a continuar?

Tinha uma cláusula de renovação automática caso fosse campeão, mas acabámos por renovar antes de isso acontecer. Sinto-me bem no clube. Vejo um clube em crescimento, com boas infraestruturas e excelentes condições de trabalho. Acredito que ainda posso ajudar o Craiova a crescer. Não prometo títulos, mas prometo trabalho. Sei que é difícil repetir o que fizemos, mas, ao mesmo tempo, esse é o desafio que temos pela frente. Além disso, criámos uma boa oportunidade ao garantirmos a presença no play-off da Liga dos Campeões e devemos, pelo menos, aproveitá-la, sabendo que será muito difícil.

- Nenhuma equipa romena chegou à fase de grupos/fase de liga nos últimos 13 anos. A qualificação para a Liga dos Campeões é agora um objetivo real?

Temos de perceber que é um formato distinto e vai depender muito da nossa posição no mercado e também do sorteio. Vamos precisar de alguma sorte, até porque tenho plena consciência de que é um objetivo muito difícil. Criámos essa oportunidade e temos de tentar aproveitá-la. Primeiro temos de ultrapassar a primeira eliminatória. Depois veremos até onde conseguimos chegar. Mas é evidente que ouvir o hino da Liga dos Campeões é algo que qualquer treinador sonha viver.

Craiova sagrou-se campeão romeno
Craiova sagrou-se campeão romenoFlashscore

- Como descreve atualmente o futebol romeno?

A Roménia tem infraestruturas muito boas, vários estádios de excelente qualidade, muito próximos dos melhores estádios portugueses, e um campeonato extremamente competitivo. Mas aquilo que mais me impressiona é a paixão dos adeptos. Foram raríssimos os jogos em que atuámos perante menos de dez mil espectadores. Isso diz muito sobre a forma como o futebol é vivido no país.

- E o jogador romeno?

Tem muito potencial. É competitivo, talentoso e, cada vez mais, profissional na forma como se cuida. Os jogadores estão muito atentos à recuperação, à alimentação e aos detalhes que fazem a diferença. Além disso, são jogadores que gostam de aprender e evoluir.

- O novo selecionador da Roménia, Gheorghe Hagi, anunciou a sua primeira convocatória, na qual os jogadores do Craiova constituem a maioria. Que importância tem isso para o clube?

É sempre motivo de orgulho. Representar a seleção nacional é, para mim, o ponto mais alto da carreira de qualquer jogador. Ter vários jogadores nas seleções demonstra que estamos a trabalhar bem e a contribuir para o crescimento deles. Temos também o Romanchuk, que foi chamado pela primeira vez à seleção da Ucrânia, o Mora na seleção da Costa Rica e o Anzor Mekvabishvili na seleção da Geórgia. É sempre gratificante e é nosso dever, enquanto clube, contribuir para o crescimento dos jogadores e ajudar a seleção da Roménia.

Filipe Coelho trabalhou vários anos como adjunto de Paulo Bento
Filipe Coelho trabalhou vários anos como adjunto de Paulo BentoUniversitatea Craiova

"Aprendi imenso com o Paulo Bento"

- Depois de oito anos ao lado de Paulo Bento, quando sentiu que era o momento certo para voltar a ser treinador principal?

Tinha trabalhado muitos anos como treinador principal, desde as escolinhas aos juniores. Comecei na última divisão distrital de Lisboa e fui subindo até à Segunda Liga. Falta-me apenas trabalhar na Liga. A oportunidade de trabalhar com o Paulo Bento foi extraordinária e permitiu-me crescer muito. Mas ele sempre soube que, mais cedo ou mais tarde, eu voltaria a assumir um projeto próprio. Também sabia que nunca iria deixar um projeto a meio apenas para treinar outra equipa.

Quando saímos dos Emirados Árabes Unidos, surgiram algumas oportunidades, mas não encontrei o projeto certo. Quando apareceu o Craiova, senti que era exatamente o desafio que procurava. O Paulo apoiou-me nessa decisão e isso deixa-me muito satisfeito.

- Este sucesso confirma que foi a decisão certa?

É sempre mais fácil responder depois das coisas acontecerem. Era uma decisão de risco, porque estava numa posição muito confortável. Mas a qualidade dos jogadores e o potencial da equipa fizeram-me acreditar que era uma oportunidade que valia a pena agarrar.

- O que aprendeu com Paulo Bento?

Aprendi imenso. Permitiu-me trabalhar a um nível muito alto, participar em duas Taças Asiáticas e num Campeonato do Mundo, além de trabalhar com jogadores de topo mundial, como Son Heung-min, Kim Min-jae, do Bayern Munique, e Lee Kang-in, do Paris Saint-Germain, entre outros. Obviamente que aprendi muito do ponto de vista técnico e tático, mas aquilo que mais valorizo são as questões relacionadas com a liderança, a gestão de grupos e o comportamento profissional. Senti-me muito útil e valorizado ao longo destes anos. Sou claramente um treinador melhor hoje do que era quando comecei a trabalhar com ele.

- Como definiria a construção/reconstrução da sua ideia de jogo ao longo do tempo?

Depende sempre muito dos jogadores que temos. Algumas coisas são possíveis, outras não. Num cenário ideal, gosto de equipas que controlem o jogo com bola, que criem muitas oportunidades e que sejam equilibradas quando defendem. Quero que a equipa saiba atacar, mas também que saiba controlar os seis momentos do jogo. No fundo, gosto de equipas dominadoras e equilibradas.

- O que é que o Filipe de 45 anos diria ao Filipe de 22 ou 23 anos?

Dir-lhe-ia que sou muito melhor treinador do que era e que o caminho faz-se caminhando. Estou orgulhoso do percurso que fiz, porque tudo o que alcancei foi conseguido sem pressas, mantendo-me fiel aos meus princípios, sem pisar ninguém nem desejar mal a quem quer que fosse para ocupar determinado lugar. Foi sempre uma ambição controlada e uma enorme vontade de vencer, sem prejudicar ninguém. Isso deixa-me satisfeito quando olho para o meu percurso. Mas continuo com muita fome de conquistar mais e espero ter a oportunidade de alcançar ainda mais objetivos no futuro.

Craiova fez história na Roménia
Craiova fez história na RoméniaUniversitatea Craiova

"Não fecho a porta a um regresso a Portugal, mas tenho contrato e estou feliz"

- Entre essas coisas a conquistar, a primeira liga portuguesa continua a ser um objetivo?

Não estou obcecado com isso. Sou treinador e trabalho em qualquer parte do mundo. Portugal é o meu país e claro que não fecho a porta a regressar um dia. Mas neste momento estou focado no Craiova e nas oportunidades que este projeto me oferece.

- Já teve oportunidades para regressar?

Sim, já existiram algumas possibilidades. Mas, neste momento, disputar competições europeias e lutar por objetivos como aqueles que temos aqui é algo muito difícil de igualar. Quero muito desfrutar destes momentos. Tenho mais um ano de contrato, por isso a prioridade passa por continuar o trabalho que estamos a desenvolver.

- A presença de Mário Felgueiras no clube foi importante para a sua adaptação?

Muito importante. Só estou no Craiova porque o Mário acreditou em mim. A primeira vez que o conheci foi na Roménia e ele foi fundamental na minha adaptação. Conhece perfeitamente o campeonato e ajudou-me muito nos primeiros tempos. Está agora focado no desenvolvimento da academia do clube e vamos ver se também me consegue ajudar naquilo que diz respeito ao mercado e à preparação da próxima época. (risos)

- Que mensagem deixa aos adeptos do Craiova?

Que continuem exatamente como são. O amor que têm pelo clube é algo único. Espero que consigamos começar a próxima época da mesma forma que terminámos esta: com o estádio cheio, unidos e a lutar pelos mesmos objetivos. Porque só assim é possível viver momentos especiais.

Filipe Coelho com os dois troféus conquistados em 2025/26
Filipe Coelho com os dois troféus conquistados em 2025/26Universitatea Craiova

"Portugal tem uma das seleções mais fortes da sua história"

- Que expectativas tem para o Mundial e para a seleção portuguesa?

O Mundial será sempre um momento especial. Há seleções que partem naturalmente na frente, como França, Espanha, Brasil ou Alemanha. Mas acredito sinceramente que Portugal tem uma das seleções mais fortes da sua história em termos de qualidade individual.

Temos jogadores de enorme nível e razões para acreditar. Depois, como sempre acontece nestas competições, também será importante a forma como começamos o torneio e os adversários que vamos encontrando pelo caminho.

O grupo de Portugal no Mundial-2026
O grupo de Portugal no Mundial-2026Flashscore