Análise: James Rodríguez encontrou o buraco que Portugal voltou a deixar

James teve muito espaço para trabalhar
James teve muito espaço para trabalharREUTERS/Marco Bello/Flashscore

Para o treinador Nuno Braga, o jogo frente à Colômbia deixou uma ideia clara: Portugal não perdeu apenas duelos, perdeu sobretudo controlo. A equipa tentou pressionar alto, procurou condicionar a primeira fase de construção colombiana e teve alguns momentos com bola em que conseguiu juntar jogadores e chegar a zonas de finalização. Mas a estrutura coletiva nunca foi suficientemente consistente para controlar aquilo que o jogo pedia.

Recorde aqui as incidências do encontro

Portugal quis ser agressivo na frente, mas a linha defensiva muitas vezes respondeu com prudência. Uns corriam para a frente para pressionar, outros corriam para trás para retirar profundidade. No meio, abriu-se o espaço que a Colômbia mais queria. E foi precisamente aí que James Rodríguez encontrou o jogo.

O fosso entre a pressão e a defesa

Portugal tentou pressionar num 4-1-3-2. Bruno Fernandes saltava a um dos centrais, geralmente ao central do lado esquerdo, o extremo do lado da bola colava no lateral e o extremo do lado contrário fechava por dentro, sobre o médio. Em teoria, a ideia procurava condicionar a saída curta da Colômbia e obrigar o adversário a jogar mais direto. O problema é que, quando o jogo era alongado, Portugal raramente estava bem preparado para disputar a segunda bola.

O momento de pressão
O momento de pressãoFlashscore

Esse foi um dos grandes pontos do jogo. Sempre que a Colômbia conseguia esticar o campo, o meio-campo português ficava com poucos jogadores perto da zona de disputa. A bola caía muitas vezes em zonas onde os colombianos tinham mais agressividade, mais presença e melhores condições para atacar de frente. E uma equipa como a Colômbia, intensa no duelo e confortável a carregar jogo com espaço, agradece esse tipo de cenário.

O meio-campo após a segunda bola
O meio-campo após a segunda bolaFlashscore

A estratégia de pressão portuguesa criou também um problema estrutural difícil de esconder: o fosso entre a linha que saltava e a linha que protegia. Quando os jogadores da frente pressionavam, a defesa nem sempre acompanhava. Quando a defesa retirava profundidade, a pressão ficava desligada. Esse comportamento gerou um buraco enorme entre setores, precisamente a zona onde James Rodríguez se sente mais confortável.

Os quarterbacks colombianos no fosso português

James, e mais tarde Quintero, foram talvez a melhor expressão daquilo que a Colômbia percebeu no jogo. Não precisaram de correr muito, nem de aparecer em zonas de desgaste constante. Ficaram livres entre a linha média e a linha defensiva portuguesa, recebendo com tempo suficiente para organizar, pausar e lançar os colegas. Funcionaram quase como quarterbacks da equipa: cabeça levantada, bola no pé e campo aberto à frente.

O posicionamento de James não foi inocente. A Colômbia procurou libertá-lo da obrigação de acompanhar Nuno Mendes nas suas incursões ofensivas e colocou-o na zona onde Portugal já vinha mostrando fragilidades: o espaço entre a pressão e a defesa. Essa liberdade permitiu-lhe fazer aquilo que melhor sabe: ligar, temporizar e descobrir passes que eliminavam vários jogadores portugueses de uma só vez.

James sozinho entre linhas
James sozinho entre linhasFlashscore

Outro problema surgiu na forma como Portugal lidou com a projeção dos laterais colombianos. Quando o extremo do lado contrário fechava muito por dentro para ajudar na pressão, o corredor oposto ficava vulnerável. Se a bola ficava descoberta e a Colômbia conseguia variar o centro de jogo, surgia com facilidade uma situação de 2x1 contra o lateral português. Quando Portugal não fechava por dentro, o espaço central ficava demasiado aberto. Quando fechava por dentro, ficava exposto por fora. A equipa viveu presa nesse dilema.

A construção a três da Colômbia agravou ainda mais essa dificuldade. Com um dos médios a baixar entre centrais e os dois laterais projetados, os extremos portugueses tinham de controlar uma quantidade absurda de espaço. Tinham de condicionar por dentro, saltar fora, proteger a variação e, ao mesmo tempo, estar preparados para defender o lateral em largura. Era demasiado para uma equipa que não estava compacta.

Posicionamento de Pedro Neto
Posicionamento de Pedro NetoFlashscore

Apesar disso, Portugal teve momentos interessantes na primeira parte. Durante alguns períodos, conseguiu pausar o jogo, juntar a equipa e circular com alguma paciência. Nem sempre encontrou os espaços certos, sobretudo por dentro, mas conseguiu ter posse em zonas altas e entrar algumas vezes em zonas de finalização. O último passe falhou demasiadas vezes, mas houve uma fase inicial em que Portugal conseguiu, pelo menos, impedir que o jogo se partisse completamente.

A diferença é que esse controlo era frágil. Portugal não perdeu a bola com facilidade nos primeiros 20 minutos e, por isso, conseguiu gerir relativamente bem esse momento do jogo. Mas a equipa nunca deu sinais de controlar verdadeiramente a reação à perda ou a pressão pós-perda. Esse problema já tinha aparecido na análise ao jogo com o Uzbequistão e voltou a surgir aqui com mais impacto, porque a Colômbia tinha jogadores com outra capacidade para explorar campo aberto.

O gráfico de pressão ofensiva
O gráfico de pressão ofensivaOpta by StatsPerform

O nó tático após a pausa para hidratação

A paragem para hidratação voltou a ser um momento importante. Portugal já tinha mostrado dificuldades após essas pausas e voltou a dar a sensação de perder o fio ao jogo. Depois da interrupção, a partida ficou mais partida, mais emocional e mais favorável à Colômbia. A partir daí, Portugal passou a decidir pior em transição, a perder bolas de forma precipitada e a permitir que o adversário atacasse com metros para conduzir.

Esse foi outro aspeto essencial: a má gestão da bola em transição. Portugal teve momentos para acelerar, mas nem sempre escolheu bem quando devia correr e quando devia guardar. Muitas transições esvaziaram-se em perdas de bola desnecessárias, quando talvez fosse mais importante controlar, esperar pela equipa e reorganizar o ataque. A defesa ficava constantemente longe do ataque e, quando a jogada acabava mal, Portugal estava demasiado largo e demasiado comprido para reagir.

Uma equipa predominantemente associativa não pode ter jogadores tão afastados. Se a identidade passa por ligar, circular, aproximar e criar superioridades através da relação entre jogadores, então a distância entre setores torna-se decisiva. Neste jogo, Portugal atacou muitas vezes como uma equipa partida: uns demasiado altos, outros demasiado baixos, poucos ligados por dentro e pouca capacidade, para não dizer impossibilidade, para juntar após perda.

O posicionamento médio dos jogadores portugueses
O posicionamento médio dos jogadores portuguesesIMAGN IMAGES via Reuters/Nathan Ray Seebeck/Opta by StatsPerform

Cruzamentos a mais e o sacrifício de João Félix

Em organização ofensiva, ficou a ideia de que Portugal procurava chegar às zonas de finalização sobretudo através de cruzamentos 2/3 ao segundo poste, ou com cruzamentos atrasados após fixar o lateral. A intenção fazia sentido em alguns momentos, até porque a Colômbia projetava muito os laterais e deixava espaço nas costas. Portugal conseguiu explorar essas zonas algumas vezes e teve mesmo a sua melhor situação do jogo num lance desse tipo. O problema é que não o fez com consistência nem com critério suficiente.

Houve demasiados cruzamentos largos, muitas bolas demasiado profundas e várias situações em que a defesa colombiana pôde atacar a bola de frente. Quando isso acontece, o cruzamento deixa de ser uma solução agressiva e passa a ser quase uma forma de devolver a bola ao adversário. Faltou variar mais, atacar melhor o espaço entre central e lateral e encontrar mais vezes jogadores em zonas interiores de decisão.

Em bloco baixo, Portugal organizou-se muitas vezes em 4-5-1. Essa estrutura teve um custo ofensivo evidente: João Félix foi empurrado para zonas muito baixas. E isso retirou-o das zonas onde tinha sido importante no jogo anterior, sobretudo na ligação e na definição da transição ofensiva. No fundo, Portugal fez o contrário da Colômbia. Enquanto a Colômbia protegeu James do desgaste e o manteve perto das zonas onde podia decidir, Portugal obrigou João Félix a defender baixo e afastou-o dos espaços onde podia ligar o contra-ataque.

 

Estrutura em bloco baixo
Estrutura em bloco baixoFlashscore

Na segunda parte, os problemas mantiveram-se e agravaram-se. Portugal já nem teve aqueles 20 minutos iniciais de maior capacidade para gerir a bola. A equipa continuou demasiado afastada entre setores, com a defesa longe do ataque mesmo em momentos de organização. 

Distância entre defesa e ataque
Distância entre defesa e ataqueFlashscore

Isso tornou impossível uma reação à perda eficaz. Quando perdia, Portugal não tinha gente perto da bola. Quando pressionava, pressionava sem bloco. Quando baixava, baixava sem conseguir ganhar as segundas bolas, partindo completamente o jogo.

Jogadores da Colômbia completamente sozinhos para poderem carregar jogo
Jogadores da Colômbia completamente sozinhos para poderem carregar jogoFlashscore

No último terço defensivo, a equipa sofreu muito com os 2x1 nas laterais. A Colômbia conseguiu criar várias situações de superioridade nos corredores, quase sempre seguidas de cruzamentos atrasados ou bolas ao segundo poste. Portugal teve muitas dificuldades em controlar essas zonas, principalmente porque a basculação chegava tarde e porque os jogadores que deviam proteger a área nem sempre estavam bem orientados para defender de frente e atacar a zona de queda.

A Colômbia foi, por isso, mais coerente com aquilo que o jogo ofereceu. Percebeu que Portugal deixava espaço entre linhas, que tinha dificuldades nas segundas bolas, que os seus extremos eram obrigados a dividir zonas demasiado grandes e que a equipa portuguesa não estava coordenada entre pressão alta e proteção da profundidade. Depois, colocou os seus melhores organizadores exatamente no sítio certo para aproveitar isso.

A rede de passes da seleção portuguesa
A rede de passes da seleção portuguesaOpta by StatsPerform

Substituições difíceis de compreender e o caso Gonçalo Ramos

Também por isso, as substituições portuguesas tornaram-se difíceis de compreender. A entrada de Rafael Leão fazia sentido. Havia espaço nas costas dos laterais colombianos, já era um ponto que se antecipava como possível caminho para ferir a Colômbia, e Leão podia acrescentar profundidade, aceleração e capacidade para condicionar a subida do lateral adversário. Essa alteração tinha lógica estratégica.

O mesmo já não se pode dizer de outras decisões. As entradas de Samu e Matheus Nunes levaram o jogo ainda mais para uma dimensão onde Portugal não estava confortável: mais duelo, mais espaço, mais transição, mais corrida e menos controlo. Num jogo que já estava partido, Portugal precisava de juntar, pausar e recuperar capacidade associativa. Em vez disso, pareceu aceitar um cenário que favorecia mais os colombianos do que os portugueses.

A saída de Rúben Neves ao intervalo também deixou uma sensação injusta. Num jogo em que o problema era estrutural e coletivo, retirar Rúben Neves tão cedo pareceu mais uma tentativa de encontrar um bode expiatório do que uma correção verdadeiramente ajustada ao que estava a acontecer. O espaço entre linhas não existia apenas por responsabilidade do médio mais posicional. Existia porque a equipa pressionava com uns, recuava com outros e deixava o meio completamente aberto.

Os toques de Cristiano Ronaldo no meio-campo ofensivo
Os toques de Cristiano Ronaldo no meio-campo ofensivoOpta by StatsPerform

Há ainda uma decisão que começa a ser difícil de explicar: a não utilização de Gonçalo Ramos. Num contexto em que Portugal insiste tantas vezes em cruzamentos, bolas ao segundo poste e ataques à área, não ter dado minutos a um avançado com a sua capacidade de atacar zonas de finalização pode ser um autêntico tiro no pé. Especialmente quando o plano ofensivo parecia tantas vezes empurrar a equipa para esse tipo de solução.

Portugal, por outro lado, deixou uma sensação preocupante: quis pressionar, mas não conseguiu encurtar; quis atacar, mas não conseguiu juntar; quis transitar, mas não conseguiu gerir. A equipa teve alguns momentos com bola, algumas entradas promissoras e espaço para explorar nas costas dos laterais colombianos. Mas faltou continuidade, faltou critério e, sobretudo, faltou compactação.

Os números da partida
Os números da partidaOpta by Stats Perform

O diagnóstico: Uma equipa que joga partida

O jogo com a Colômbia mostrou que o problema não está apenas numa decisão individual ou num erro pontual. Está na relação entre os setores. Portugal precisa de falar a mesma língua sem bola. Se a frente salta, o bloco tem de acompanhar. Se a defesa retira profundidade, a pressão tem de perceber que não pode ir sozinha. Se a equipa quer ser associativa com bola, tem de estar próxima para reagir quando a perde.

Contra uma equipa com a intensidade, a agressividade e a qualidade de passe da Colômbia, jogar partido é oferecer o jogo ao adversário. E foi isso que aconteceu durante demasiados minutos. Portugal teve bola, teve intenções e teve alguns caminhos para ferir. Mas a Colômbia teve espaço, segundas bolas e jogadores livres para pensar.

E, neste nível, quando se dá tempo e campo a jogadores como James e Quintero, o jogo torna-se o que eles quiserem.

A análise do treinador Nuno Braga
A análise do treinador Nuno BragaFlashscore

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