Recorde aqui as incidências do encontro
Portugal quis ser agressivo na frente, mas a linha defensiva muitas vezes respondeu com prudência. Uns corriam para a frente para pressionar, outros corriam para trás para retirar profundidade. No meio, abriu-se o espaço que a Colômbia mais queria. E foi precisamente aí que James Rodríguez encontrou o jogo.
O fosso entre a pressão e a defesa
Portugal tentou pressionar num 4-1-3-2. Bruno Fernandes saltava a um dos centrais, geralmente ao central do lado esquerdo, o extremo do lado da bola colava no lateral e o extremo do lado contrário fechava por dentro, sobre o médio. Em teoria, a ideia procurava condicionar a saída curta da Colômbia e obrigar o adversário a jogar mais direto. O problema é que, quando o jogo era alongado, Portugal raramente estava bem preparado para disputar a segunda bola.

Esse foi um dos grandes pontos do jogo. Sempre que a Colômbia conseguia esticar o campo, o meio-campo português ficava com poucos jogadores perto da zona de disputa. A bola caía muitas vezes em zonas onde os colombianos tinham mais agressividade, mais presença e melhores condições para atacar de frente. E uma equipa como a Colômbia, intensa no duelo e confortável a carregar jogo com espaço, agradece esse tipo de cenário.

A estratégia de pressão portuguesa criou também um problema estrutural difícil de esconder: o fosso entre a linha que saltava e a linha que protegia. Quando os jogadores da frente pressionavam, a defesa nem sempre acompanhava. Quando a defesa retirava profundidade, a pressão ficava desligada. Esse comportamento gerou um buraco enorme entre setores, precisamente a zona onde James Rodríguez se sente mais confortável.
Os quarterbacks colombianos no fosso português
James, e mais tarde Quintero, foram talvez a melhor expressão daquilo que a Colômbia percebeu no jogo. Não precisaram de correr muito, nem de aparecer em zonas de desgaste constante. Ficaram livres entre a linha média e a linha defensiva portuguesa, recebendo com tempo suficiente para organizar, pausar e lançar os colegas. Funcionaram quase como quarterbacks da equipa: cabeça levantada, bola no pé e campo aberto à frente.
O posicionamento de James não foi inocente. A Colômbia procurou libertá-lo da obrigação de acompanhar Nuno Mendes nas suas incursões ofensivas e colocou-o na zona onde Portugal já vinha mostrando fragilidades: o espaço entre a pressão e a defesa. Essa liberdade permitiu-lhe fazer aquilo que melhor sabe: ligar, temporizar e descobrir passes que eliminavam vários jogadores portugueses de uma só vez.

Outro problema surgiu na forma como Portugal lidou com a projeção dos laterais colombianos. Quando o extremo do lado contrário fechava muito por dentro para ajudar na pressão, o corredor oposto ficava vulnerável. Se a bola ficava descoberta e a Colômbia conseguia variar o centro de jogo, surgia com facilidade uma situação de 2x1 contra o lateral português. Quando Portugal não fechava por dentro, o espaço central ficava demasiado aberto. Quando fechava por dentro, ficava exposto por fora. A equipa viveu presa nesse dilema.
A construção a três da Colômbia agravou ainda mais essa dificuldade. Com um dos médios a baixar entre centrais e os dois laterais projetados, os extremos portugueses tinham de controlar uma quantidade absurda de espaço. Tinham de condicionar por dentro, saltar fora, proteger a variação e, ao mesmo tempo, estar preparados para defender o lateral em largura. Era demasiado para uma equipa que não estava compacta.

Apesar disso, Portugal teve momentos interessantes na primeira parte. Durante alguns períodos, conseguiu pausar o jogo, juntar a equipa e circular com alguma paciência. Nem sempre encontrou os espaços certos, sobretudo por dentro, mas conseguiu ter posse em zonas altas e entrar algumas vezes em zonas de finalização. O último passe falhou demasiadas vezes, mas houve uma fase inicial em que Portugal conseguiu, pelo menos, impedir que o jogo se partisse completamente.
A diferença é que esse controlo era frágil. Portugal não perdeu a bola com facilidade nos primeiros 20 minutos e, por isso, conseguiu gerir relativamente bem esse momento do jogo. Mas a equipa nunca deu sinais de controlar verdadeiramente a reação à perda ou a pressão pós-perda. Esse problema já tinha aparecido na análise ao jogo com o Uzbequistão e voltou a surgir aqui com mais impacto, porque a Colômbia tinha jogadores com outra capacidade para explorar campo aberto.

O nó tático após a pausa para hidratação
A paragem para hidratação voltou a ser um momento importante. Portugal já tinha mostrado dificuldades após essas pausas e voltou a dar a sensação de perder o fio ao jogo. Depois da interrupção, a partida ficou mais partida, mais emocional e mais favorável à Colômbia. A partir daí, Portugal passou a decidir pior em transição, a perder bolas de forma precipitada e a permitir que o adversário atacasse com metros para conduzir.
Esse foi outro aspeto essencial: a má gestão da bola em transição. Portugal teve momentos para acelerar, mas nem sempre escolheu bem quando devia correr e quando devia guardar. Muitas transições esvaziaram-se em perdas de bola desnecessárias, quando talvez fosse mais importante controlar, esperar pela equipa e reorganizar o ataque. A defesa ficava constantemente longe do ataque e, quando a jogada acabava mal, Portugal estava demasiado largo e demasiado comprido para reagir.
Uma equipa predominantemente associativa não pode ter jogadores tão afastados. Se a identidade passa por ligar, circular, aproximar e criar superioridades através da relação entre jogadores, então a distância entre setores torna-se decisiva. Neste jogo, Portugal atacou muitas vezes como uma equipa partida: uns demasiado altos, outros demasiado baixos, poucos ligados por dentro e pouca capacidade, para não dizer impossibilidade, para juntar após perda.

Cruzamentos a mais e o sacrifício de João Félix
Em organização ofensiva, ficou a ideia de que Portugal procurava chegar às zonas de finalização sobretudo através de cruzamentos 2/3 ao segundo poste, ou com cruzamentos atrasados após fixar o lateral. A intenção fazia sentido em alguns momentos, até porque a Colômbia projetava muito os laterais e deixava espaço nas costas. Portugal conseguiu explorar essas zonas algumas vezes e teve mesmo a sua melhor situação do jogo num lance desse tipo. O problema é que não o fez com consistência nem com critério suficiente.
Houve demasiados cruzamentos largos, muitas bolas demasiado profundas e várias situações em que a defesa colombiana pôde atacar a bola de frente. Quando isso acontece, o cruzamento deixa de ser uma solução agressiva e passa a ser quase uma forma de devolver a bola ao adversário. Faltou variar mais, atacar melhor o espaço entre central e lateral e encontrar mais vezes jogadores em zonas interiores de decisão.
Em bloco baixo, Portugal organizou-se muitas vezes em 4-5-1. Essa estrutura teve um custo ofensivo evidente: João Félix foi empurrado para zonas muito baixas. E isso retirou-o das zonas onde tinha sido importante no jogo anterior, sobretudo na ligação e na definição da transição ofensiva. No fundo, Portugal fez o contrário da Colômbia. Enquanto a Colômbia protegeu James do desgaste e o manteve perto das zonas onde podia decidir, Portugal obrigou João Félix a defender baixo e afastou-o dos espaços onde podia ligar o contra-ataque.

Na segunda parte, os problemas mantiveram-se e agravaram-se. Portugal já nem teve aqueles 20 minutos iniciais de maior capacidade para gerir a bola. A equipa continuou demasiado afastada entre setores, com a defesa longe do ataque mesmo em momentos de organização.

Isso tornou impossível uma reação à perda eficaz. Quando perdia, Portugal não tinha gente perto da bola. Quando pressionava, pressionava sem bloco. Quando baixava, baixava sem conseguir ganhar as segundas bolas, partindo completamente o jogo.

No último terço defensivo, a equipa sofreu muito com os 2x1 nas laterais. A Colômbia conseguiu criar várias situações de superioridade nos corredores, quase sempre seguidas de cruzamentos atrasados ou bolas ao segundo poste. Portugal teve muitas dificuldades em controlar essas zonas, principalmente porque a basculação chegava tarde e porque os jogadores que deviam proteger a área nem sempre estavam bem orientados para defender de frente e atacar a zona de queda.
A Colômbia foi, por isso, mais coerente com aquilo que o jogo ofereceu. Percebeu que Portugal deixava espaço entre linhas, que tinha dificuldades nas segundas bolas, que os seus extremos eram obrigados a dividir zonas demasiado grandes e que a equipa portuguesa não estava coordenada entre pressão alta e proteção da profundidade. Depois, colocou os seus melhores organizadores exatamente no sítio certo para aproveitar isso.

Substituições difíceis de compreender e o caso Gonçalo Ramos
Também por isso, as substituições portuguesas tornaram-se difíceis de compreender. A entrada de Rafael Leão fazia sentido. Havia espaço nas costas dos laterais colombianos, já era um ponto que se antecipava como possível caminho para ferir a Colômbia, e Leão podia acrescentar profundidade, aceleração e capacidade para condicionar a subida do lateral adversário. Essa alteração tinha lógica estratégica.
O mesmo já não se pode dizer de outras decisões. As entradas de Samu e Matheus Nunes levaram o jogo ainda mais para uma dimensão onde Portugal não estava confortável: mais duelo, mais espaço, mais transição, mais corrida e menos controlo. Num jogo que já estava partido, Portugal precisava de juntar, pausar e recuperar capacidade associativa. Em vez disso, pareceu aceitar um cenário que favorecia mais os colombianos do que os portugueses.
A saída de Rúben Neves ao intervalo também deixou uma sensação injusta. Num jogo em que o problema era estrutural e coletivo, retirar Rúben Neves tão cedo pareceu mais uma tentativa de encontrar um bode expiatório do que uma correção verdadeiramente ajustada ao que estava a acontecer. O espaço entre linhas não existia apenas por responsabilidade do médio mais posicional. Existia porque a equipa pressionava com uns, recuava com outros e deixava o meio completamente aberto.

Há ainda uma decisão que começa a ser difícil de explicar: a não utilização de Gonçalo Ramos. Num contexto em que Portugal insiste tantas vezes em cruzamentos, bolas ao segundo poste e ataques à área, não ter dado minutos a um avançado com a sua capacidade de atacar zonas de finalização pode ser um autêntico tiro no pé. Especialmente quando o plano ofensivo parecia tantas vezes empurrar a equipa para esse tipo de solução.
Portugal, por outro lado, deixou uma sensação preocupante: quis pressionar, mas não conseguiu encurtar; quis atacar, mas não conseguiu juntar; quis transitar, mas não conseguiu gerir. A equipa teve alguns momentos com bola, algumas entradas promissoras e espaço para explorar nas costas dos laterais colombianos. Mas faltou continuidade, faltou critério e, sobretudo, faltou compactação.

O diagnóstico: Uma equipa que joga partida
O jogo com a Colômbia mostrou que o problema não está apenas numa decisão individual ou num erro pontual. Está na relação entre os setores. Portugal precisa de falar a mesma língua sem bola. Se a frente salta, o bloco tem de acompanhar. Se a defesa retira profundidade, a pressão tem de perceber que não pode ir sozinha. Se a equipa quer ser associativa com bola, tem de estar próxima para reagir quando a perde.
Contra uma equipa com a intensidade, a agressividade e a qualidade de passe da Colômbia, jogar partido é oferecer o jogo ao adversário. E foi isso que aconteceu durante demasiados minutos. Portugal teve bola, teve intenções e teve alguns caminhos para ferir. Mas a Colômbia teve espaço, segundas bolas e jogadores livres para pensar.
E, neste nível, quando se dá tempo e campo a jogadores como James e Quintero, o jogo torna-se o que eles quiserem.

