Análise: Os números que mostram por que a Argentina vai além de Messi

Jogos da Argentina mostram sintonia entre jogadores e claque
Jogos da Argentina mostram sintonia entre jogadores e claqueTHOMAS COEX/AFP

Desarmes em alta, baliza relativamente bem protegida e uma seleção que não se coíbe de pressionar o adversário para recuperar a bola. A Argentina de Lionel Scaloni chega aos quartos de final do Mundial com atributos que vão muito além do talento de Lionel Messi.

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Se em 2022 o grupo parecia movido pela missão de entregar a taça a um dos maiores jogadores de futebol do mundo em 50 anos, quatro anos depois o cenário é diferente. Campeão mundial, Messi não carrega o peso da dívida histórica. O objetivo agora parece ser permitir que o camisola 10 desfrute do seu último Mundial.

Mesmo aos 39 anos, Messi é capaz de decidir partidas praticamente sozinho. Em muitos momentos, transforma o relvado num campo de futsal, recebendo a bola em espaços mínimos, correndo pouco, e encontrando soluções que desafiam a lógica. Os recordes continuam a cair, mas a campanha argentina mostra que a equipa não depende apenas dele.

Argentina lidera ranking de desarmes no Mundial
Argentina lidera ranking de desarmes no MundialStats Perform/Opta

Entre as oito melhores seleções do Mundial - considerando inclusive os confrontos disputados dos quartos de final - a Argentina aparece entre as equipas que mais desarmes fazem na competição. É um reflexo direto de um meio-campo formado por jogadores habituados a competir ao mais alto nível, com Mac Allister como uma das principais referências.

A presença de médios de raiz também ajuda a explicar outra característica marcante da Albiceleste. Ter a bola não é apenas uma forma de atacar, mas também de se defender. Guardadas as devidas proporções, a lógica lembra a da Espanha: controlar a posse para limitar o volume ofensivo dos adversários. É uma identidade construída por Scaloni e por uma equipa técnica formada por ex-jogadores que conhecem profundamente a cultura da seleção argentina.

Messi procura a consagração com o segundo título Mundial
Messi procura a consagração com o segundo título MundialREUTERS/Carlos Barria/Opta by StatsPerform

Este estilo não surgiu por acaso. Ele começou a ser moldado em 2019, após a traumática eliminação frente ao Brasil na Copa América. A partir daí, a Argentina procurou um futebol mais equilibrado e coletivo. O próprio debate em torno de Messi - durante anos questionado por parte dos adeptos - ajudou a acelerar a construção de uma equipa menos dependente do seu craque.

No Mundial-2026, apesar dos golos sofridos contra seleções de menor expressão, como Cabo Verde e Egito, o volume de remates permitidos continua baixo. O dado reforça a eficiência do sistema defensivo desenhado por Scaloni e sustentado por um meio-campo robusto. A dúvida surge justamente quando a bola consegue atravessar essa barreira: houve desatenção da linha defensiva ou Dibu Martínez poderia ter respondido melhor em lances mais difíceis?

Argentina protege a baliza mas sofre muitos golos
Argentina protege a baliza mas sofre muitos golosOpta by StatsPerform

A pressão sobre os adversários, por mais que o senso comum possa enganar, também está longe de ser frouxa. Entre as seleções ainda vivas no torneio, a Argentina figura entre as que mais incomodam a saída de bola rival. A coincidência - ou problema - é que a líder desse ranking é justamente a Suíça, adversária dos argentinos nos quartos de final.

Por outro lado, há uma limitação evidente. Embora pressione bastante, a equipa não transforma essa pressão em recuperações imediatas de posse com a mesma eficiência dos concorrentes. Entre os oito melhores conjuntos do Mundial, a Argentina aparece no último lugar em recuperações de posse de bola, com apenas 25 recuperações deste tipo.

As equipas que mais pressionam à procura da posse
As equipas que mais pressionam à procura da posseOpta by StatsPerform

O dado ajuda a explicar por que motivo Messi continua a ser tão importante. Numa equipa que nem sempre consegue acelerar as transições após recuperar a bola, a capacidade do camisola 10 de criar algo diferente a partir de uma única ação continua a ser um recurso insubstituível.

Se o Mundial-2022 ficou marcado pela Argentina que jogava para Messi, o de 2026 apresenta uma versão mais madura da Albiceleste. O craque continua a ser o centro gravitacional da equipa, mas os números mostram que existe uma estrutura sólida ao seu redor. E talvez seja justamente essa combinação entre o coletivo de Scaloni e o talento intemporal do camisola 10 que mantenha os argentinos entre os principais candidatos ao título.

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