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Argentina prepara-se para uma longa e difícil transição após a despedida de Lionel Messi

Lionel Messi após a final perdida frente à Espanha
Lionel Messi após a final perdida frente à EspanhaWALEED IBRAHIM / NURPHOTO / NURPHOTO VIA AFP

O adeus definitivo de Lionel Messi parecia iminente, mas o anúncio oficial caiu como um raio na Argentina, onde todos sabem que se aproxima uma longa transição.

É impossível pedir a toda a Argentina que não lamente a retirada de Messi. Mesmo sendo algo esperado após a derrota na final do Mundial frente à Espanha e o falecimento do seu pai, Jorge, o impacto foi enorme quando caiu o martelo da confirmação oficial no país sul-americano.

O receio do que se segue é enorme, tal como as expectativas que ele criou ao longo dos anos em que vestiu a camisola da Argentina. 21 anos, para ser exato. 21 anos com 125 golos em 207 jogos, números que parecem de outro planeta.

Especialmente porque, num país que se estende por mais de 5.000 km e cujo clima vai do tropical ao antártico, a nostalgia pelo passado – e pelo presente que acabou de escapar – é tão forte como uma tempestade elétrica na costa do Rio da Prata. Saiu ainda adolescente, mas manteve-se sempre ligado à sua terra natal por um fio de 13.000 km; Messi foi o símbolo da Argentina moderna.

Mensagem de Messi
Mensagem de Messi@leomessi via Instagram/Handout via REUTERS

Foi o único que ousou desafiar a supremacia técnica de Diego Armando Maradona, cuja sombra pesou sobre ele durante tanto tempo. Não por acaso, a sua série de vitórias com a seleção começou após a morte do Pibe de Oro, que, lá de cima, parecia abençoá-lo nas duas conquistas da Copa América e no triunfo no Mundial do Catar.

Nesse último torneio, a imagem icónica da vitória será sempre a defesa de Emiliano Martinez frente a Randal Kolo Muani no último minuto. Mas é evidente que, sem o número 10, a equipa de Scaloni nunca teria alcançado esse golo.

Todos com Lionel

Agora, começa um período de incerteza para a Argentina. Como refere o jornalista Andres Burgo, a seleção só disputou os Mundiais de 1998 e 2002 sem Maradona ou Messi, num intervalo de quase 45 anos (10 em 12 Mundiais), sempre a depender de um jogador num patamar inalcançável para qualquer outro.

Agora, as nuvens sobre o futuro não são apenas uma ameaça, mas uma realidade concreta. Porque a singularidade de Maradona já era impossível de igualar em termos de carisma e liderança.

Messi, porém, compensou a falta de caráter com uma regularidade incrível, focando-se em expressar o seu futebol livremente, sem que lhe pedissem para imitar o seu ilustre antecessor na retórica. Se, nos primeiros anos, teve de convencer todo um país da sua dedicação à camisola albiceleste, pouco a pouco foi acolhido e acarinhado como um filho pródigo.

Os últimos anos da carreira de Messi
Os últimos anos da carreira de MessiFlashscore

Depois da estreia no Mundial em 2006, viveu o torneio de 2010 com Maradona como selecionador como um ponto de viragem. As exibições pouco conseguidas na África do Sul obrigaram-no a dar mais.

E as três finais perdidas – o Mundial-2014 e as Copas América de 2015 e 2016 – deixaram-no primeiro amargurado (a sua retirada temporária da seleção aos 29 anos foi quase um ato de rebeldia juvenil), depois fizeram-no perceber que teria de liderar com o seu futebol, e não com qualidades humanas que não possuía.

O desastroso Mundial da Rússia, contudo, permitiu à Argentina fazer tábua rasa, com o seu homónimo Lionel Scaloni a assumir o comando. Humilde e inteligente, o antigo jogador do Deportivo da Corunha e da Lazio construiu um verdadeiro exército em torno de Messi. Todos os colegas estavam dispostos a tudo por ele e os triunfos consecutivos de 2021 a 2024 forjaram finalmente a lenda tão aguardada.

Sem herdeiros

O evento global na América do Norte prolongou e ao mesmo tempo diluiu a lenda. Porque, apesar dos números incríveis – oito golos e quatro assistências – a despedida final parecia inevitável. Aos 39 anos, ninguém podia esperar milagres do ponto de vista físico, mas a sua superioridade técnica continuava a levá-lo longe. 

As duas assistências na meia-final frente à Inglaterra marcaram a sua despedida, pois contra a Espanha, Messi foi engolido por um vendaval. E esses poucos lampejos não chegaram para acender sequer uma pequena chama.

O seu palmarés é o de um campeão que provavelmente não voltaremos a ver a jogar a este nível durante muitos anos, mesmo que nas últimas épocas o tempo passado no PSG e a mudança para os Estados Unidos lhe tenham permitido gerir melhor a energia e focar-se na seleção, onde tinha contas por saldar.

A verdade, porém, é que depois dele, a Argentina vai procurar outro número 10 para assumir a responsabilidade e a pressão. E, para já, não há talentos de outro mundo à vista.

Nico Paz tem 22 anos e é titular no Como, enquanto Franco Mastantuono tem desiludido até agora e procura redenção na Fiorentina. Claudio Echeverri foi notícia há dois anos, mas no ano passado desceu à LaLiga 2 com o Girona.

Não há necessidade de pressas nem de ilusões, porque não haverá outro Messi, tal como não houve outro Maradona que enfrentou tudo e todos, tornando-se o maior sem jogar num clube de topo.

Mas talento não falta na Argentina. Porque ali, as crianças continuam a jogar futebol nas ruas. Apesar de uma crise económica que está a dizimar a classe média e a esmagar os menos afortunados.

Enquanto o entusiasmo não for apagado pelo negócio, da Quiaca a Ushuaia, dos Andes ao Atlântico, é legítimo continuar a sonhar.

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