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Quando Carlo Ancelotti divulgou a sua lista de 26 para o Mundial, um nome surpreendeu muitos observadores no Brasil. À sua frente, João Pedro, ponta-de-lança do Chelsea e goleador reconhecido ao mais alto nível europeu, ficava de fora. No seu lugar, Rayan, um extremo de 19 anos recém-saído do Vasco da Gama, transferido para o Bournemouth em janeiro, e que contava apenas com duas internacionalizações pelo Brasil, ambas em jogos amigáveis em março. Era uma aposta ousada para um selecionador conhecido pela sua prudência. Mas revelou-se acertada quase de imediato.
De suplente a titular
A lesão de Raphinha frente ao Haiti acelerou tudo. Retirado de maca, o extremo do Barça deixou um vazio no lado direito do ataque brasileiro que Ancelotti preferiu preencher com Rayan em vez de Gabriel Martinelli, apesar de este ter sido apontado como favorito durante toda a semana. Titular frente à Escócia, o jovem do Bournemouth não vacilou. Graças a uma assistência nesse jogo, tornou-se o mais jovem assistente do Brasil em Mundiais desde Pelé em 1958. Foi também o primeiro adolescente a iniciar um jogo de Mundial pela Seleção desde o lateral Marco Antonio, em 1970. Dois recordes de precocidade numa só noite, para um jogador que nem sequer tinha garantida a presença nas fases seguintes da competição.
Ancelotti não poupou elogios após o encontro. "Fez um trabalho completo, defensivo e ofensivo. Jogou muito bem. Estou satisfeito com o que mostrou. É jovem, tem maturidade, trabalha muito, tem qualidade. Ninguém sabe ainda até onde pode chegar", afirmou o técnico italiano. Palavras que consolidaram Rayan como titular para o duelo deste domingo frente à Noruega, nos oitavos de final. O miúdo que era para ser suplente está a tornar-se um pilar.

Crescer à sombra de São Januário
Este percurso meteórico é apenas o mais recente capítulo de uma história que começou muito antes de o mundo conhecer o seu nome. Rayan nasceu e cresceu na Barreira do Vasco, uma favela da zona norte do Rio de Janeiro, colada ao estádio de São Januário. O bairro, cedido pela Igreja Católica em 1930 a famílias carenciadas, esteve durante muito tempo sob o controlo do tráfico de droga, até meados da década de 2010. Ainda hoje, os seus 20.000 habitantes exigem obras básicas de saneamento. Foi nestas ruas estreitas, onde os tiros eram frequentes, que Rayan aprendeu a driblar.
O futebol, em sua casa, é assunto de família. O seu pai, Valkmar, foi defesa do Vasco no final dos anos 1990, a sua mãe, Vanessa, adepta do clube, também lá trabalhou. "Na altura em que o meu pai jogava, passava muito tempo na Barreira. Depois levou-a para o mundo do futebol. Fizeram a minha irmã e a mim", contaria mais tarde Rayan à Globo, numa descrição discreta sobre o encontro dos pais. Foi o seu tio, Carlão, quem o descobriu aos quatro anos na sua própria escola de futebol do bairro, apesar de a idade mínima ser seis anos. "Era muito forte, muito alto para a idade. Só pelo remate via-se que era diferente", recorda ao O Globo. Dois anos depois, um funcionário do Vasco reparou nele nesse mesmo campo e convidou-o para um teste. Rayan entrou no clube aos seis anos e só sairia 13 anos depois, rumo a Inglaterra.
Uma precocidade quase irreal
Os números da sua infância impressionam. Em 2017, com 11 anos, marcou 115 golos numa só época, ao ponto de a Globo publicar um post que ficou famoso: "Gravem este nome, adeptos do Vasco: Rayan, 11 anos, 115 golos em 2017". Outros registos do clube apontam para mais de 280 golos, em todas as competições e modalidades (futebol e futsal), antes mesmo de completar 11 anos. Aos 15 anos já media 1,85 metros, um porte raro para um avançado brasileiro dessa idade. Foi também por volta dos 11 anos que conheceu Roberto Dinamite, a maior lenda da história do clube, que lhe deixou alguns conselhos gravados pelo pai: "Quero estar vivo para te ver marcar golos aqui". Dinamite morreu no início de 2023. 10 dias depois, Rayan estreou-se como profissional frente ao Internacional e marcou o seu primeiro golo, num remate cruzado de pé esquerdo, tornando-se o mais jovem marcador da história do clube no século XXI, com 16 anos, 10 meses e oito dias.
Já tinha dado os primeiros passos nos seniores alguns meses antes, num Campeonato Carioca frente ao Audax, sob o comando do treinador adjunto Emílio Faro, tornando-se, com 16 anos, cinco meses e 16 dias, o mais jovem jogador a vestir a camisola do clube desde o início do século. Um bonito acaso do destino: Faro tinha, anos antes, trabalhado como preparador físico ao lado de Valkmar, o pai de Rayan, quando este ainda jogava no Americano-RJ e Caxias-RS. "Era um atleta acompanhado de muito perto há muito tempo, que já tinha centenas de golos entre futsal e futebol aos 10, 12 anos, e que estava na seleção brasileira logo aos 15 anos", recorda Faro.
Com as seleções jovens do Brasil, Rayan também somou títulos: campeão sul-americano de sub-17 em 2023, onde foi o melhor marcador do torneio, e depois campeão sub-20 em 2025. Tudo isto ajudou a fixar cedo o seu nome no panorama do futebol brasileiro, ao ponto de ser considerado, segundo Gustavo Almeida, um dos seus primeiros mentores no Vasco, como pertencente à "mesma categoria de jogadores como Estevao e Endrick".
O clique com Fernando Diniz
O clique surgiu com Fernando Diniz, que chegou ao comando do Vasco em 2025. O técnico tornou-se quase uma figura paternal para o avançado, que conta que tudo mudou num exercício individual, logo na primeira sessão sob as suas ordens: "Pediu-me para pegar na bola e levá-la até à baliza. Quase consegui. Disse-me que tinha muito potencial e uma oportunidade de chegar à seleção". Diniz também incentivou Rayan a trabalhar um aspeto específico do seu jogo: o remate de longe. Consciente da potência da perna esquerda do avançado, o treinador repetia-lhe que devia rematar sempre que tivesse oportunidade, em vez de adiar a decisão.
Sob o seu comando, Rayan tornou-se a principal arma ofensiva do Vasco, marcando 11 dos seus 14 golos da época, ou seja, quase 80% do total anual. Diniz chegou a considerá-lo "o avançado mais completo do futebol brasileiro". Na época de 2025, esta explosão valeu-lhe o prémio de melhor jovem do Brasileirão e terminou como co-melhor marcador da Taça do Brasil.
A explosão na Premier League
Este crescimento chamou naturalmente a atenção da Europa. O Barça, Arsenal, o Bayern Munique, Aston Villa e o Tottenham mostraram interesse, mas foi o Bournemouth a apresentar a proposta mais concreta, entre 28 e 30 milhões de euros, em janeiro de 2026, para colmatar a saída de Antoine Semenyo para o Manchester City. Rayan adaptou-se de imediato. Ao fazer uma assistência e depois marcar ou ser decisivo em cada um dos seus três primeiros jogos na Premier League, frente ao Wolves, Aston Villa e Everton, tornou-se apenas o terceiro adolescente da história do campeonato inglês a conseguir tal arranque, ao lado de Robbie Keane em 1999 e Anthony Martial em 2015.
No total da sua primeira época em Inglaterra, terminou com cinco golos e duas assistências em 15 jogos, contribuindo para o inesperado sexto lugar dos Cherries na Premier League. O seu treinador Andoni Iraola resumiu assim o seu perfil antes de partir para o Liverpool: "O Rayan pode fletir para dentro ou ir à linha. Quando há espaço, pode fazer a diferença no um contra um. É mesmo muito difícil de travar".
Um perfil atípico
Em campo, Rayan destoa da imagem clássica do extremo brasileiro, de baixa estatura e drible curto ao estilo de Neymar ou Rodrygo. Ele mede 1,87 metros, com uma taxa de sucesso nos duelos aéreos superior a 95%, uma arma valiosa nos cruzamentos para o segundo poste. Canhoto, gosta de partir da ala direita para o centro e armar o seu remate mais perigoso, mas também pode jogar como ponta-de-lança ou em apoio, como mostrou no Vasco ao lado de Pablo Vegetti. A comparação mais frequente é com Adriano, que ele próprio validou: "Ele herdou definitivamente parte do meu jogo. Tem tudo para triunfar. Espero que consiga fazer ainda melhor do que eu".

No Vasco, Rayan tornou-se um verdadeiro ídolo dos adeptos, ao ponto de ter direito ao seu próprio cântico, "Oi, boa noite". Um estatuto que também deve a um discreto acompanhamento de Philippe Coutinho, colega mais experiente no Vasco que o ajudou a crescer: "Faço-lhe muitas perguntas. Há jogadores que vão cedo para a Europa mas regressam rapidamente. Digo-lhe: 'ajuda-me, quero fazer o meu nome lá fora e depois voltar para fazer o meu nome aqui, no Vasco'".
O miúdo da Barreira no topo
No Rio, a sua convocatória para o Mundial transformou a Barreira do Vasco numa festa permanente, com murais pintados com a sua imagem e ecrã gigante para acompanhar os seus jogos. Rayan, por sua vez, parece ter mantido os pés bem assentes na terra, fiel ao conselho que Dinamite lhe dava em criança. "Poucos jogadores de 19 anos disputam um Mundial. Sou um rapaz da favela, vou aproveitar o momento", confessou ao juntar-se ao estágio da Seleção.
A sua mãe, Vanessa Simplício, escreveu-lhe uma carta comovente antes do torneio: "Meu pequeno tigre (Meu Tigrão), olha tudo o que está a acontecer na tua vida. Vais jogar o teu primeiro Mundial. Quando o Ancelotti disse o teu nome, chorei de um lado e o teu pai do outro. Ele sentiu-se mal, até brinquei a dizer que não era altura de morrer! Toda a família está tão feliz. Lembras-te de tudo o que passámos?". No domingo, frente à Noruega, o miúdo da Barreira terá a oportunidade de provar que já não é apenas uma surpresa, mas uma certeza.
Mundial-2026
O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.
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