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- Conte-me, o que tem feito na sua vida, Alfonso?
- Já estou praticamente afastado do futebol porque estamos noutras áreas, embora mantenha alguma ligação com os veteranos do Real Madrid e das Lendas de Espanha, com quem joguei até há pouco tempo, e tento colaborar com eles, já não de forma ativa a jogar, porque acho que chega um momento em que se deve deixar de o fazer devido ao risco de lesões nesta idade. Já as tinha enquanto profissional, imagina agora que estamos menos preparados e menos cuidados. Agora dedico-me a ver como mais um adepto e já passámos para outra fase da vida, pois os anos vão passando.
- Como espectador então, e como ex-internacional, como vê a seleção espanhola?
- Penso que a Espanha foi-se consolidando sobretudo num estilo de jogo, numa forma de jogar futebol, que foi o que de certa forma a fez triunfar nestes últimos anos. Merecia estar entre as melhores seleções do mundo. É verdade que passámos por diferentes gerações com jogadores muito bons, com boas equipas, mas faltava-nos dar esse passo em frente ou, em muitos casos, ter aquela pontinha de sorte que é necessária neste tipo de competições. Nestes primeiros jogos tens três partidas, algum espaço para erro, mas depois já se joga jogo a jogo. Qualquer decisão do árbitro, qualquer lance de azar, polémico ou o que seja pode deixar-te fora de uma competição destas. E podes perfeitamente ser campeã do mundo, porque eu acredito que, neste momento, Espanha pode ser campeã do mundo. Mas noutras gerações também tínhamos uma equipa muito boa e não tivemos sorte.
Acho que agora Espanha, depois de ter conquistado o Mundial, Europeus, a Nations, já tem um nome e é uma das seleções a ter em conta. Falamos sempre nos Mundiais de Brasil, Argentina, Alemanha, França e por aí fora, que são as favoritas porque têm Mundiais no seu historial, mas Espanha precisava de dar esse passo em frente e, hoje em dia, é uma das melhores seleções tanto a nível de jogadores como, sobretudo, a nível de futebol, que foi o que de certa forma a fez triunfar nestes últimos anos.
- A nível individual, como se prepara um futebolista para este tipo de grandes eventos com tantos dias de concentração, longe da família, sem descanso?
- Penso que o problema que existe hoje em dia é que o calendário não permite descanso. Se fores jogador do Real Madrid, do Barcelona, do Atlético de Madrid, estás constantemente a disputar jogos tanto na Liga, Taça, Champions, jogos internacionais. No fim, estes jogadores chegam com imensos jogos, quase mais do que quando nós estávamos no ativo. E agora, depois disto tudo, não sei se terão tido alguns dias de férias, mas rapidamente têm de se concentrar quase um mês e pensar no Mundial. É verdade que não é só fisicamente, mas sobretudo mentalmente que cansa. No meu caso lembro-me perfeitamente que acabávamos a Liga, tinha uma semana de férias e logo a seguir concentravam-nos, ou em muitos casos ligávamos tudo, o campeonato com o Europeu ou com o que fosse que estivéssemos a disputar.

Lamine, Nico Williams e Oyarzabal
- Há jogadores que têm arrastado problemas físicos em Espanha, como Lamine Yamal ou Nico Williams. Arriscaria colocá-los neste primeiro jogo frente a Cabo Verde?
- Os jogadores têm de sentir-se bem fisicamente, tal como o treinador também os tem de ver bem. Talvez não estejam para 90 minutos, mas se, por exemplo, no caso do Lamine, que teve uma lesão no isquiotibial, ele está fresco, está bem, não sente dores, não tem qualquer problema, então é uma questão de ganhar algum ritmo e ir entrando aos poucos. Porque esperamos que Espanha possa chegar muito longe e que todos os jogadores estejam em perfeitas condições e disponíveis para o selecionador. Mas o importante é que dessas lesões que estes jogadores possam ter, não tenham problemas, não recaiam e que não estejam condicionados para poderem disputar todo o Mundial sem qualquer tipo de problema.
- Aquele que parece indiscutível é Oyarzabal, o '9' desta seleção espanhola. E isso que, de fora, muitos adversários não o veem como um ponta-de-lança.
- O importante é que Espanha tem uma grande variedade de avançados e de jogadores que podem desempenhar esse papel. A verdade é que não é um típico ponta-de-lança como o Haaland a que estamos habituados, aquele avançado robusto, forte no jogo aéreo, que finaliza muito bem, que marca muitos golos. Esse perfil, tirando talvez o melhor Borja Iglesias, que é mais ponta-de-lança, o resto, não sei. Ferran também é um avançado que não tem essa envergadura, mas procura muito os espaços. Oyarzabal gosta de vir buscar jogo, de criar perigo, de dar muita saída à equipa. Acho que tens uma variedade de jogadores que, seja quem for, vão render a um grande nível porque são muito bons jogadores e, dependendo um pouco do jogo ou do que o selecionador quiser, irá rodá-los ou mudá-los. Não acredito que este Mundial seja para jogar sempre com os 11 favoritos do treinador durante todo o torneio. Pode rodar perfeitamente porque todos os jogadores têm um nível altíssimo. O selecionador tem, entre aspas, uma tarefa difícil para escolher o onze ideal.
- Qual acha que é o ponto mais forte de Espanha e qual aquele em que ainda há mais margem para melhorar?
- A maior virtude é o bom futebol que a seleção pratica, os jogadores de qualidade, que isso é fundamental. Aliás, Espanha venceu um Mundial sem ter uma equipa extremamente física. Ou seja, tinha jogadores com um controlo de bola espetacular, de uma qualidade excecional e acho que, no fim, é isso que sobressai. Se conseguires, de alguma forma, contrariar o físico que outros adversários possam ter com um bom domínio de bola e um desgaste com a posse sobre o adversário, Espanha pode estar entre as melhores, sem dúvida. E como ponto fraco, sinceramente não saberia dizer. Sendo uma das melhores seleções, como referi antes, o que falta é ter um pouco de sorte. Até na baliza temos três grandes guarda-redes, temos grandes defesas, médios muito criativos, de enorme qualidade. Para mim, em particular, Rodri parece-me um jogador excecional, um Bola de Ouro. Portanto, acho que no geral temos uma grande equipa. Não vejo muitos pontos fracos assim à partida. Que eles próprios confiem na equipa, no futebol que praticam e é isso que os vai fazer triunfar.
O perigo das seleções mais fracas e desconhecidas
- Cabo Verde é uma das grandes desconhecidas em estreia no Mundial. Tudo indica que vão entrar para defender e pouco mais. Espera isso de Cabo Verde?
- Também não temos muita informação, mas o normal é que uma equipa inferior a uma seleção como Espanha se feche atrás. Eu, mesmo como treinador, sou sempre daqueles que dizem que se no fim te vão ganhar, ao menos que a equipa jogue, que saia, que pressione alto, ou seja, vai um pouco com o meu pensamento de jogador ofensivo e do pouco que treinei uma equipa. Estive em Maiorca (como adjunto de Pepe Gálvez, nota do redator) e a minha equipa era extremamente ofensiva. Sou apologista de dizer, 'o normal é que Espanha ganhe? Sim. Estamos num Mundial? Sim. É uma montra para todos os jogadores que temos? Sim. Vamos jogar futebol dentro do que eles possam defender-se e gerir-se e fazer um bom Mundial'. É isso que faria se fosse selecionador desta equipa. Mas é verdade que Espanha terá de ter paciência se assim for, se se fecharem atrás, e esperar pelas oportunidades e aproveitá-las.
- Conhece bem Julen Lopetegui, que também se estreou com uma seleção teoricamente mais fraca como o Catar. E conseguiu um empate frente à Suíça, arriscando atacar nos minutos finais.
- É que há uma excelente geração de treinadores e o Julen está nesse grupo. Houve um antes e um depois nos treinadores de futebol, na geração, nos jogadores, no trabalho nas camadas jovens onde a posse de bola e a qualidade têm sido muito trabalhadas. E a nível de treinadores, Luis Enrique, Guardiola, Cesc Fàbregas, Arteta, Unai Emery... uma grande quantidade de treinadores que estão em equipas de topo e que perceberam que a melhor forma de triunfar é jogar bem futebol, pressionar alto e não deixar o adversário pensar. Nota-se que essas equipas são de gente jovem e que mudou o futebol. E ao Julen também podemos incluí-lo neste grupo de treinadores.

As novas tendências no futebol de seleções
- Voltando à seleção espanhola, surpreendeu-o não haver jogadores do Real Madrid ou não?
- Tirando, talvez, dois jogadores, também não é que o Real Madrid tenha muitos jogadores nacionais, ou seja, quase todos são estrangeiros. Tirando o Huijsen, o Carvajal esteve lesionado e, pronto, pouco mais. O Ceballos praticamente não jogou. O resto também não vejo que tenham tido possibilidade de ir à seleção. O Huijsen também não teve muita continuidade, teve uma lesão e para ir à seleção tens de ter jogado. A mim, como madridista, teria gostado de ver vários jogadores na seleção, mas para isso também é preciso ter a possibilidade de contar com jogadores da formação, o que talvez o Real Madrid não tem feito muito nestes últimos anos. Talvez nesta última fase com o Arbeloa, fazendo estrear alguns jogadores, mas para isso é preciso continuidade e o Real Madrid tem uma filosofia de contratar os melhores jogadores do mundo, o que talvez feche muito as portas à possibilidade de jogadores da formação subirem.
- Outra tendência é que há cada vez mais jogadores que não nasceram no país que representam. Veja o caso de Marrocos, onde as suas três principais estrelas são um madrileno (Achraf Hakimi), um malaguenho (Brahim) e um gerundense (Saibari). Como vê isto?
- Isto é o que acontece com esta forma de vida do futebol, de famílias que acabam num sítio e se identificam com ele. O próprio Huijsen podia ter jogado pelos Países Baixos e decidiu-se por Espanha. Isto acontece constantemente, esta globalização que existe nesse sentido de famílias que, por trabalho, por diferentes motivos, acabam num país, depois o filho torna-se futebolista, é isto que nos cabe viver. No nosso tempo era totalmente diferente, só podiam jogar três estrangeiros e não havia esta diversidade que existe hoje no mundo do futebol. Mas pronto, no fim os jogadores têm de sentir-se identificados com a seleção pela qual decidiram jogar. Têm possibilidade de jogar por outra seleção, mas optam por uma e há que desejar-lhes o melhor. Isso depende de cada um.
- Por fim, onde acha que vai acabar Espanha?
- Não sei, é difícil prever o que pode acontecer porque é preciso ter muita sorte. O fator sorte aqui é fundamental. É preciso ter uma boa equipa, que acho que Espanha tem, e isso é o mais importante. Um bom treinador, bons conceitos futebolísticos e depois ter sorte. As oportunidades que tivermos, aproveitá-las e não cometer erros. No fim vais defrontar as melhores seleções do mundo. Pode calhar-te uma seleção super poderosa e isso decide-se nos detalhes: naquela finalização de um grande jogador, numa decisão por penáltis, nunca se sabe, é uma lotaria. Por isso digo que neste tipo de competições, que não é como a Champions, em que podes empatar fora e recuperar em casa, e onde podes cometer erros. Aqui já não se podem cometer erros, ou só mínimos. E um erro, talvez, pode deixar-te fora. Portanto, é preciso ter o fator sorte, acho que é muito importante nestas competições. E penso que o resto das coisas, que são muitas e muito boas, Espanha tem-nas.
Mundial-2026
O Campeonato do Mundo de 2026 será realizado de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio contará com 48 seleções nacionais e será disputado em 16 estádios modernos.
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