Exclusivo com Marcos Senna: "Vai ser Mundial animado e que ganhe Espanha ou Brasil"

Marcos Senna com a seleção espanhola
Marcos Senna com a seleção espanholaMIGUEL RIOPA/AFP

Marcos Senna (49 anos) recebeu em exclusivo o Flashscore para recordar como viveu o sucesso alcançado com Espanha no Europeu-2008 e o que espera da equipa orientada por Luis de la Fuente para o Mundial-2026.

O antigo jogador brasileiro revisita em profundidade a sua grande carreira numa conversa descontraída, em que se abordam os seus inícios na elite, o seu passado na LaLiga com um Villarreal que fez história, os principais rivais que vê para a campeã da Europa na grande competição de seleções e muitos outros temas.

- Marcos, comecemos pelo Corinthians. Que importância teve esse período para si enquanto jovem futebolista? Fez parte de um clube que venceu o Brasileirão em 99 e o Mundial de Clubes em 2000. Até que ponto esse ambiente marcou a sua mentalidade para o resto da carreira?

- E esqueceste-te de um Paulista também. Ora bem, o Corinthians foi muito importante para mim. Acho que era um sonho que se estava a concretizar na minha vida. Obviamente, quando um jogador começa a sua etapa a nível profissional pensa em chegar a um grande. E o Corinthians foi o primeiro grande clube onde joguei. Para mim foi um sonho na altura, as coisas aconteceram como eu sonhava quando era pequeno. Ganhei o Brasileirão mal cheguei, o Mundialito de clubes, joguei uma final da Taça do Brasil, que perdemos no relvado do Morumbi e foi muito duro para nós; e finalmente ganhei também um Paulista. Faltou-me uma Taça Libertadores com o Corinthians, mas senti que nesse período tinha dado um passo muito importante na minha carreira e estava muito feliz. Para mim, o Corinthians ficou marcado no meu coração.

- E Marcos, o que é que mais recorda da cultura do balneário do Corinthians nessa altura? Era um sítio onde era preciso amadurecer muito rápido para sobreviver e conquistar respeito.

- Era um balneário com muita liderança, muita gente com muita experiência, muitos anos de futebol e capitães como Freddy Rincón. Estavam o Vampeta, Marcelinho, Dida, Luisao, Edílson... E eu, como jovem recém-chegado, só queria aprender com eles. Na verdade, aprendi imenso com essa equipa e com esse momento. Havia muitas figuras juntas. Obviamente tem o seu lado negativo quando se perde, mas felizmente encontrei um balneário onde ganhávamos e onde grandes figuras ensinavam os mais jovens. Foram dois anos muito bons e muito bonitos, e guardo-os para toda a vida.

Marcos Senna, lenda groguet

- Quando deixou o Brasil para ir para o Villarreal em 2002, viu isso como uma aposta arriscada ou já sentia que podia ser o passo que mudaria a sua vida?

- Eu sonhava em dar o salto para a Europa. Obviamente, antes de chegar ao nível profissional, quando jogava nas camadas jovens no Brasil, o meu sonho era chegar ao profissional. Acho que hoje em dia os miúdos sonham em chegar ao futebol profissional e, logo de seguida, vir para a Europa. Eu queria consegui-lo e manter-me cá. Mas foi-se aproximando uma época em que vi uma geração de futebolistas que já começava a vir para a Europa. Em todos os sentidos, era esperado a nível desportivo, profissional e económico. Queríamos atuar bem no nosso clube e vir para a Europa. Comigo não foi diferente. A ida para o Villarreal, obviamente, não era na altura o sonho porque o Villarreal não era muito falado, mas queria vir. E sobretudo para Espanha. Com o Corinthians fui à Corunha porque se disputava um torneio de verão, o Teresa Herrera. Também veio o Boca e estavam o Superdépor e o Celta. Era uma altura de verão, com praia. E adorei porque nessa altura já acompanhava a LaLiga espanhola. Pensei: 'Uau! Se já tinha vontade de vir, agora ainda mais'. É verdade que em pequeno seguia muito a liga italiana, mas a espanhola começou a crescer e ultrapassou a italiana. O meu desejo era vir para cá e concretizou-se.

- E acabou por ficar 11 épocas no Villarreal e tornou-se num dos símbolos do clube até hoje. O que fez com que esse vínculo fosse tão forte entre o clube e si?

- Bem, isso também não era esperado, porque como já disse, o Villarreal era uma equipa pouco conhecida e que estava em crescimento. E até nisso posso dizer que fui um sortudo, porque participei nesse crescimento. A ideia era chegar ao Villarreal, fazer uma ou duas boas épocas e dar o salto para outro clube da Europa. Mas não foi assim. O Villarreal continuou a crescer. Eu fui-me identificando cada vez mais com o clube e com a cidade à medida que me adaptava a nível culinário e de temperatura. Era muito parecido com o meu país de origem. E sentia-me muito importante no clube, que também sentia que eu era muito importante. Sempre me valorizou imenso em todos os aspetos. E quando alguém se sente bem... é muito fácil desenvolver o que melhor sabe, jogar bem, com a família bem. Então, juntou-se tudo e fiquei no Villarreal 11 anos. Agora, como diretor de relações institucionais, já levo 10.

- Quando é que começou a sentir que estavam a construir algo especial?

- A partir de 2004, porque quando chegou um treinador chamado Manuel Pellegrini, chileno, que trouxe uma metodologia diferente. Transmitia-nos imensa confiança porque durante dois ou três anos tínhamos uma mentalidade de salvação, sempre a pensar 'chegamos a certa pontuação e já estamos salvos da descida. Agora, pensar no próximo ano'. No entanto, quando chegou Pellegrini, obviamente, reforçou-se o plantel, mas logo no primeiro ano conseguimos chegar à Liga dos Campeões. Foi uma época fantástica. O seu lema era: 'Vamos jogar e competir, obviamente, mas vamos desfrutar'. Toda a gente pensava que o Villarreal nem sequer se ia qualificar. Ficámos em primeiro do grupo, estando lá o Manchester United, e conseguimos chegar às meias-finais. A partir daí mudou-se a mentalidade, foi quando pensámos que devíamos ir mais além. E o Villarreal começou a ser falado no mundo, já não era uma promessa, mas sim uma realidade. Hoje em dia continuamos com os pés bem assentes na terra porque sabemos que somos uma cidade de 50.000 habitantes, mas com ideias muito claras, respeitando a história de cada um. Mas a nossa é: primeiro vamos fazer os pontos necessários para garantir a continuidade na Primeira. Aliás, no clube fazemos um brinde quando garantimos a manutenção e depois, no que resta, vamos às competições europeias. Já estamos assim há muitos anos e acho que é um clube que tem as ideias muito claras, e isso agrada-me. Sentimo-nos bem, é uma família

- Dessa época em que chegaram às meias-finais da Champions, o que mais o marcou e que recordações bonitas guarda desse tempo?

- Não consigo destacar apenas uma coisa porque, no fundo, cada jogo me marcou. O frio que se sente, e ao mesmo tempo, a ansiedade de poder entrar em campo e mostrar às pessoas que somos desconhecidos e pequenos, mas cuidado que somos uma boa equipa. E, além disso, ganhávamos jogos e empatávamos, e se nos ganhavam era 0-1 e com sofrimento. Não me lembro dos resultados dessa altura, mas lembro-me que passámos como primeiros. Recordo com muito carinho que conseguimos a primeira vitória contra o Benfica com um golo meu, o primeiro da Champions, e com vitória. Na primeira Champions, poder marcar um golo importante e ganhar 0-1 em Lisboa, isso fica para a história.

- Marcos, com o tempo chegou a ser capitão do Villarreal. O que significou para si usar a braçadeira sendo um jogador que veio do Brasil e se tornou numa lenda do clube?

- Isso é muito curioso, porque considero que sempre fui um líder em campo, não um líder comunicador. Em Espanha, o jogador que está há mais tempo no clube é o capitão. E lembro-me que em 2006 passei a ser o jogador com mais tempo. E isso que tinha chegado em 2005. Sentia-me um pouco estranho com a braçadeira, mas ao mesmo tempo feliz porque estava a ser capitão. Não sabia bem como lidar com isso. Mas pronto, também não se podia falar muito.

Obviamente, como disse, tentava falar em campo, jogando bem e dando bom exemplo fora dele. E fui-me habituando pouco a pouco, e quando dei por mim, já falava um pouco, motivava os meus colegas, comunicava-me... E acho que aprendi esse lado da liderança sendo capitão no Villarreal. Fui capitão durante seis anos.

Da LaLiga à MLS

- Depois de uma etapa tão longa e bonita em Espanha, acabou por terminar a carreira nos Estados Unidos. Foi especial?

- Ora bem, eu também tinha outro objetivo, que era viver uma experiência fora do Villarreal para fechar a carreira com chave de ouro. E foi nos Estados Unidos, porque também coincidiu que eu não conhecia. Coincidiu que queria viver essa experiência, e ainda por cima em Nova Iorque. Foram dois anos lá, uma experiência incrível para os meus filhos e para a minha mulher. Acho que no futebol não podia pedir mais do que recebi. Obviamente, quando se trabalha e se semeia, no fim colhe-se. A minha carreira foi assim e sinto-me mais do que um privilegiado. Se me perguntares: 'O que te faltou na carreira?' Talvez na altura, algo que te vou revelar aqui, jogar no Milan. Porquê? Porque era a equipa da moda e tal. Mas para além disso, aconteceu tudo o que sonhei em pequeno. Jogar Taça Libertadores, jogar final da Taça Libertadores, uma meia-final da Liga dos Campeões, Mundial, Europeu, enfim. O que mais podia pedir? Nada.

- Falando um pouco do presente, queria saber a sua opinião sobre a temporada ambígua do Villarreal, que não correu nada bem na Champions, ao contrário do que aconteceu na LaLiga. Acha que a equipa está muito perto de se afirmar na Champions?

- Todos os que somos adeptos do Villarreal temos uma sensação dupla, de que temos um plantel muito bom para entrar e fazer bonito em todas as competições. Se vai ganhar ou se vai atingir o objetivo, isso já é outra história. Mas é verdade que, por um lado, ficou-nos um sabor amargo com a Taça do Rei e, sobretudo, com a Liga dos Campeões, porque fizemos a pior campanha da história do Villarreal na Champions. E, no entanto, na LaLiga estamos muito satisfeitos porque a equipa terminou à frente do Atlético de Madrid, que tem muito mais recursos e orçamento. Obviamente, o Atlético jogou uma final da Taça e foi longe na Champions. Tem muito mérito como equipa. E nós o mesmo, porque na LaLiga sabemos o quão difícil é competir com Atlético, Betis, Real Sociedad, Athletic... Enfim, estas equipas, hoje em dia, são as da nossa liga. Podemos orgulhar-nos de que estaremos na Liga dos Campeões no próximo ano.

- Do plantel atual da equipa, que jogador mais o entusiasma?

- Diria que não há nenhuma figura, é o coletivo. Normalmente há um jogador que se destaca acima dos outros, mas este ano não. Gosto disso. Podia nomear quatro ou cinco jogadores. Gosto, por exemplo, de um argentino que está lesionado, que é o Juan Foyth, que nos dá imenso quando está totalmente recuperado. O nosso veterano, que é o Gerard Moreno, dá sempre algo diferente: o último passe, baixar a bola em situações mais difíceis, golos decisivos em momentos complicados... E posso nomear os extremos, que nos dão muito, ou os médios-centro. Enfim, é o coletivo.

- Marcos, escreveu uma história muito bonita com Espanha, mas nasceu no Brasil. Quanto o emocionou esse percurso a nível pessoal, passando de forasteiro a figura-chave da história da seleção espanhola?

- Eu, falando egoisticamente, sinto muito orgulho do percurso difícil que tive na vida, no sentido em que nunca baixei os braços porque passei por momentos muito complicados. Podia escrever um livro, que na verdade estou a terminar agora; depois conto-te (risos). Saí das favelas do Brasil e consegui ganhar um Europeu com um país que não era o meu de origem. Quando isso aconteceu, passou-me um filme pela cabeça. E uma voz soava na minha cabeça a dizer: 'Marcos, tudo isto é fruto do teu trabalho. Por isso, desfruta deste momento. Chegaste ao topo e mereces'. Mas obviamente é continuar como sempre, até hoje, com os pés bem assentes na terra, respeitando sempre o adversário e os outros.

Senna, campeão da Europa com "La Roja"

- Fez parte da seleção em 2006, quando jogou um Mundial, e dois anos depois venceu o Europeu. A equipa parecia completamente diferente. O que mudou mais entre 2006 e 2008? A confiança, a maturidade ou a mentalidade com Aragonés?

- Ora bem, acho que a confiança não, acho que foi mais o sistema, porque em 2006 lembro-me de uma equipa que também tinha muito bons jogadores e muita personalidade. Faziam jogos, sobretudo na fase de grupos, em que parecia que íamos chegar muito longe e no fim caíamos, como contra a França em 2006. Depois, em 2007, passámos uma fase muito difícil: a qualificação, em que conseguimos apurar-nos ao minuto 90. Mas a mudança de sistema em 2008 resultou. O futebol, como costumo dizer, são dinâmicas. E se apanhas uma boa geração de grandes futebolistas e uma boa dinâmica, é difícil não ganhar. E foi isso que aconteceu em 2008. Apanhámos uma dinâmica muito boa, com jogadores de grande qualidade, e conseguimos vencer o Europeu.

- Mais tarde foi incluído entre os melhores do Euro-2008. Olhando para trás, vê esse torneio como o ponto mais alto da sua carreira? Não só porque Espanha venceu, mas pelo seu papel a dar equilíbrio ao meio-campo.

- Penso que sim, a nível mediático sim, mas também pela dificuldade e por jogar contra os melhores. Portanto, o grau de dificuldade é muito maior. E se pensarmos na mestria com que Espanha jogou... Obviamente, depois foi apelidada de Espanha do 'tiki-taka', que era de encher o olho. Onde quer que vá aqui em Espanha, até hoje as pessoas reconhecem. Muitos dizem que fui o melhor jogador do Europeu, e eu só posso estar agradecido. Por isso considero que, no geral, foi o título mais importante da minha carreira.

- Que semelhanças e diferenças vê entre a seleção atual e aquela vencedora de 2008?

- Acho que é muito semelhante. O único que muda é que estamos em 2026, mas há uma geração muito boa de jogadores. Acho que este ano entra como favorita. Obviamente, um Mundial é outra conversa, mas é inevitável, não é? São 28 jogos sem perder, mas agora chega a hora da verdade. Para vencer um torneio como o Mundial, que infelizmente não ganhei embora tenha estado perto, ou um torneio como o Europeu que vencemos, é preciso estar e ter muita sorte para que jogadores importantes não se lesionem e cheguem bem. É preciso ir aos detalhes para ganhar, porque ali estão os melhores e preparam-se ao mais alto nível, e Espanha está aí a nível de geração de futebolistas. A partir daí, acho que podem chegar muito longe e até vencer.

- Acha que já é altura de Espanha fazer um bom Mundial depois de três edições em que não conseguiu render tão bem? E ainda por cima depois de ser campeã da Europa.

- Sim, porque Espanha deixou a fasquia muito alta. 2008, 2010, 2012... era a seleção do momento. Isso marca uma época. Em competições como o Europeu ou o Mundial, toda a gente olha para as vencedoras, e Espanha está entre as vencedoras. As pessoas esperam que este ano possa ser o ano de mais um Mundial porque temos uma seleção muito boa. Oxalá Espanha consiga dar o nível que todos os adeptos estão à espera.

- Quem pensa que são os principais rivais de Espanha na luta pelo título?

 Costumo dizer as tradicionais. Estarão sempre lá. Às vezes há alguma surpresa, que também pode acontecer. Este ano é um Mundial com mais seleções. Mas acho que a França entra muito forte, mesmo. Depois, o Brasil e a Argentina estarão sempre lá porque são fortes e têm jogadores de grande qualidade. A Argentina vem de vencer o último título. Ainda tem o Messi. Também vejo a Inglaterra, que nos últimos anos, tanto no Europeu como no Mundial, tem estado a pressionar. E depois, como disse, pode haver alguma surpresa, talvez a Croácia outra vez, a Bélgica, os Países Baixos... E não mencionei a Alemanha. A Itália não está, mas enfim, acho que vai ser um Mundial animado, como esperamos, e que ganhe Espanha ou o Brasil.

"Identifico-me mais com Pedri e Ferran"

- Por quem torce entre eles?

- Sinceramente, apoio que cheguem os dois à final; que vão ao prolongamento ou à marcação de grandes penalidades.

- Na sua época havia muito talento no meio-campo. Xavi, Iniesta, Fàbregas, Busquets, Javi Martínez... Agora, Espanha conta com Rodri, Zubimendi, Merino, Pedri, Fabián... Que equipa é melhor?

- Uau, muito difícil dizer. Acho que o nível da antiga seleção e da atual é muito alto e muito equilibrado, mas obviamente é preciso ganhar. Penso que podes ser um grande jogador, mas se não fores um vencedor, no fim não te sentas à mesa dos outros. Vejo as coisas assim. Acho que esta equipa tem tanto talento como as antigas, mas para se sentar à nossa mesa tem de ganhar.

- Com que jogador da seleção espanhola atual mais se identifica?

- Tenho um amigo que é representante do Pedri e do Ferran, e sempre que vou ver algum jogo, costumo ver os dois e falo um pouco com eles. São com quem mais me identifico, sobretudo o Ferran, que é meu vizinho.

- Na seleção de Luis de la Fuente há alguns futebolistas formados no Villarreal, como Rodri, Baena ou Yéremy. O que significa isto para si?

- Para mim e para toda a massa adepta do Villarreal é motivo de orgulho, porque competir com os grandes é complicado para nós, e ver que vários jogadores são peças principais da seleção espanhola, isso é motivo de orgulho.