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O antigo médio abriu o álbum da carreira e falou do auge vivido no FC Porto de José Mourinho, técnico em quem acredita para ter sucesso num eventual regresso ao Real Madrid. Maniche abordou ainda a experiência no Atlético de Madrid antes da era Simeone, a passagem pelo Chelsea e o atual momento da seleção portuguesa. Sem rodeios, deixou também uma convicção clara para o Mundial-2026: Cristiano Ronaldo merece respeito e "tem de jogar" como titular.
A passagem pelos três grandes: "Vivi o auge da minha carreira no FC Porto"
- Maniche, você é um dos poucos jogadores que teve o privilégio de representar Benfica, FC Porto e Sporting. Olhando para trás, o que significou para si passar por cada um desses clubes?
Para mim, acima de tudo, foi um orgulho e um privilégio representar os três grandes de Portugal. Cada um tem a sua história, a sua dimensão, a sua cultura e o seu ADN, e vivi contextos completamente diferentes em cada um deles.
No Benfica, foi onde cresci e onde fiz toda a minha formação. Foi o clube que me deu as bases para tudo o que viria a conquistar mais tarde. Houve um período final mais conturbado, é verdade, mas passei lá desde os nove anos até chegar a capitão da equipa principal. Por isso, existe um enorme respeito por aquela instituição.
Depois surgiu o FC Porto, fruto das circunstâncias e das mudanças que o futebol inevitavelmente traz. E foi aí que vivi o auge da minha carreira. No FC Porto encontra-se aquilo que tantas vezes se chama de mística. É algo difícil de explicar, porque sente-se mais do que se descreve. Foi no FC Porto que conquistei os títulos mais importantes da minha carreira: a Taça UEFA, a Liga dos Campeões, a Taça Intercontinental e, naturalmente, vários títulos nacionais, e só posso agradecer por me ter ido buscar numa altura difícil. O FC Porto representa tudo aquilo que sonhava alcançar enquanto jogador.

O Sporting apareceu já numa fase diferente da minha carreira, num contexto difícil para o clube. Era uma equipa menos estável e com limitações financeiras, mas também foi uma experiência que me fez crescer e aprender numa fase final da minha carreira. Hoje o Sporting está muito diferente daquilo que encontrei. Não há arrependimento e hoje olho para isso com orgulho.
- Como disse, os anos mais felizes da sua carreira foram no FC Porto. O que tornou aquele grupo de José Mourinho tão especial?
A mentalidade. O compromisso. A disponibilidade. A ambição de ganhar. Éramos todos jogadores ambiciosos que ainda não tínhamos conquistado nada de relevante. O próprio José Mourinho estava a iniciar a carreira como treinador. Havia uma enorme fome de vencer. Depois existia muita qualidade. Basta olhar para aquilo que aconteceu depois: praticamente todos os jogadores saíram para grandes clubes europeus. Mas não basta juntar qualidade. É preciso criar um grupo forte. Em todos os balneários existem egos que podem prejudicar o coletivo, mas naquele grupo isso nunca aconteceu. Os menos utilizados tinham o mesmo compromisso dos titulares e, quando eram chamados, respondiam. Criámos uma família. Incorporámos a mentalidade do clube, da cidade e dos adeptos. Foi isso que fez a diferença.

Mourinho no Real Madrid: "Tem coragem de aceitar desafios difíceis"
- José Mourinho volta a ser apontado ao Real Madrid. Acha que seria a pessoa certa para este momento do clube?
É difícil recusar um clube como o Real Madrid. Não me surpreende esse interesse. Existe uma relação forte entre Florentino Pérez e José Mourinho. Quando Mourinho chegou ao Real Madrid, o Barcelona dominava o futebol europeu e ele conseguiu devolver competitividade ao clube. Mas não é apenas isso. José Mourinho continua a ser um treinador extremamente competente e muito frontal. Ele pode trazer os jogadores para o seu lado. E este interesse não é por acaso. Existe uma narrativa que diz que deixou de ganhar ou que não se adaptou ao futebol moderno, mas eu discordo totalmente.
Mourinho é um treinador de projetos. Basta olhar para o percurso dele. No FC Porto, no Chelsea, no Inter, no Real Madrid, no Manchester United ou na Roma, entrou sempre em contextos exigentes e conseguiu construir equipas competitivas e conquistar vários títulos. Só não ganhou no Tottenham e no Fenerbahçe. Tem coragem para aceitar desafios difíceis, é alguém que gosta de se colocar à prova e continua a ser uma referência mundial na liderança de grupos. Tem toda a competência para dar títulos ao Real Madrid.
- Passou pelo Atlético de Madrid antes da era Simeone. Reconhece hoje a identidade que ele criou no clube?
Sem dúvida. Aliás, se tenho algum arrependimento na carreira, foi ter saído do Atlético de Madrid. É um clube com o qual me identificava muito porque tem muitas semelhanças com o FC Porto ao nível da mentalidade. O Simeone trouxe exatamente isso: identidade. Conhece o clube, conhece os adeptos e percebe perfeitamente aquilo que eles querem. O Atlético teve sempre grandes jogadores na sua história, muitas vezes não teve um grupo. É um clube fantástico e vibro sempre muito. Acredito sinceramente que me teria adaptado muito bem ao perfil de jogador que ele aprecia.

- A passagem pelo Chelsea não correu como desejava. O que aconteceu?
Não gosto de arranjar desculpas e não me sinto campeão na totalidade. A responsabilidade é sempre minha, quer as coisas corram bem ou mal. Quando cheguei ao Chelsea vinha de uma operação ao púbis e não estava fisicamente a cem por cento. Além disso, encontrei jogadores como Lampard, Essien, Makélélé ou Gudjohnsen no auge das suas carreiras. Entrar numa equipa daquela dimensão, a meio da época, sem estar na melhor condição física, tornou tudo mais difícil. Não resultou como gostaria, mas guardo um enorme orgulho por ter representado um dos maiores clubes do mundo.
- O que falta ao Chelsea atual para voltar a ser dominante?
Estabilidade. O Chelsea vive há muitos anos numa lógica de mudanças constantes: jogadores, treinadores, dirigentes. É difícil criar identidade quando tudo muda tão rapidamente. Os bons jogadores e os bons treinadores continuam a existir, mas falta continuidade e um pouco de paz. Falta um projeto sólido que permita construir uma equipa ao longo de vários anos. Sem estabilidade é muito difícil alcançar sucesso de forma consistente.
- O que podem os adeptos ingleses esperar de Geovany Quenda?
Podem esperar um jogador com muita personalidade e irreverente. É jovem, mas tem uma maturidade acima da média. É muito forte no um para um, tem qualidade técnica e também evoluiu bastante na componente defensiva. Hoje em dia valoriza-se demasiado a componente física e esquece-se muitas vezes a criatividade. O Quenda tem criatividade, talento e capacidade para fazer a diferença. Vai precisar de tempo para se adaptar, porque a Premier League é muito exigente, mas acredito que tem todas as condições para ter sucesso. Os adeptos podem esperar um jogador com muito talento.

Papel de Ronaldo no Mundial-2026: "Cristiano tem de jogar"
- Cristiano Ronaldo prepara-se para disputar mais um Mundial. Qual deve ser o seu papel nesta seleção?
Para mim, Cristiano Ronaldo tem de jogar. Enquanto tiver vontade e ambição para representar a seleção, deve continuar a fazê-lo. É um jogador diferenciado. É verdade que já não tem a mesma frescura física de há 20 anos, mas continua a ser um jogador que obriga os adversários uma atenção permanente e cria espaço para os colegas. Temos de ter respeito e acho que muitas vezes existe pouca honestidade intelectual quando se fala dele. Continua a ser uma referência e continua a ser importante para a seleção. Não vejo outro avançado melhor do que ele. Depois cabe ao selecionador gerir a equipa da melhor forma.
- Sem contar com Cristiano Ronaldo, qual é o jogador da seleção que mais gosta de ver jogar?
Temos um dos melhores guarda-redes do Mundo, Diogo Costa. Temos dois laterais fantásticos, o Cancelo e o Nuno Mendes. Depois temos um meio-campo extraordinário com Vitinha, João Neves e Bruno Fernandes. Mas, se tivesse de escolher um jogador para jogar ao meu lado, seria o Vitinha. Eu joguei no meio-campo e adoro ver jogadores daquela qualidade.

- Portugal tem atualmente o melhor meio-campo do mundo?
Diria que está entre os melhores do mundo. Mas uma coisa é jogar nos clubes e outra é jogar na seleção. Tudo depende também da forma como o selecionador potencia os jogadores. Na minha opinião, com jogadores desta qualidade não vale a pena complicar. É deixá-los jogar, desfrutar e expressar aquilo que fazem semanalmente nos respetivos clubes. Acredito que Portugal pode fazer um grande Mundial.
- O que seria um excelente Mundial para Portugal?
Portugal é favorito, mas não é candidato. Eu continuo a colocar à frente seleções que já venceram o Mundial, como Brasil, Argentina, França, Espanha ou Alemanha. Ainda assim, temos qualidade para sonhar. Se me perguntar o que seria um excelente Mundial, diria repetir aquilo que fizemos em 2006: chegar às meias-finais.
Mundial-2026
O Campeonato do Mundo de 2026 será realizado de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio contará com 48 seleções nacionais e será disputado em 16 estádios modernos.
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