Exclusivo com Podolski: "As pessoas daqui a 50 anos ainda vão falar dos 7-1 da Alemanha ao Brasil"

Lukas Podolski ergue o troféu após vencer o Mundial-2014 com a Alemanha
Lukas Podolski ergue o troféu após vencer o Mundial-2014 com a AlemanhaJULIAN FINNEY / GETTY IMAGES SOUTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP

Lukas Podolski é uma lenda da seleção alemã, tendo somado 130 internacionalizações, participado em sete grandes torneios e conquistado o Mundial-2014. O antigo avançado partilhou as suas memórias dessa carreira internacional com o Flashscore e deu a sua opinião sobre a atual seleção do seu país, antes do maior evento do futebol deste verão.

- Lukas, obrigado pelo seu tempo. O que sente ao representar o seu país num Mundial?

- Sim. Antes de mais, obrigado. E, isto foi sempre especial para mim. Não importa se era um jogo do Mundial ou um particular, foi sempre um enorme prazer jogar pela Alemanha e, sabe, em criança sonha-se jogar talvez na Bundesliga. Depois começa-se a fazer alguns jogos na Bundesliga, e então torna-se jogador da seleção, e continua-se isso durante mais de 10 anos. E como digo, foi sempre um prazer jogar... Quando se pensa nisso, apenas 23 jogadores podem ser convocados para o estágio, e depois para o grupo. E eu estive quase sempre incluído, e foi sempre um prazer. E dei sempre tudo o que tinha dentro de campo, e especialmente fora dele, porque representa-se o país quando se está no balneário, no autocarro, no hotel e em todo o lado. E todos nos reconhecem como seleção nacional, por isso foi sempre importante para mim e para nós comportarmo-nos com grande respeito por todos. E, por isso, mais uma vez, foi sempre um prazer vestir aquela camisola.

- No Mundial de 2006, venceu o prémio de Melhor Jovem Jogador. O que significou esse prémio para si, e que conselho pode dar aos jovens jogadores sobre isso?

Claro, conquistei esse troféu, mas para mim o futebol é mais do que troféus. Especialmente o Mundial de 2006 foi algo incrível, foi o melhor Mundial para mim até agora. Durante todo o torneio, a Alemanha ganhou novos estádios. O ambiente foi fantástico. Tivemos quase todos os dias sol, 30 graus. Em 2004, fomos eliminados na fase de grupos do Europeu. Ninguém acreditava em nós. Mudámos de treinador. Chegaram novos jogadores, jogadores jovens. E penso que com o Mundial de 2006, começou uma nova geração. E com esse terceiro lugar, começámos algo, como uma viagem. Iniciámos algo incrível, e fiz parte disso durante 10 anos. E, mais uma vez, para mim, o futebol não é apenas um troféu, um golo, ou o meu primeiro jogo. Para mim, isto é, ok, mas para mim, toda a história com a seleção alemã, nunca vou esquecer. Ninguém me pode tirar isso. E com 130 internacionalizações pela Alemanha, ninguém me pode tirar isso. Por isso não gosto de falar apenas de momentos especiais, como um troféu, ou um jogo, ou como... um quarto de final, ou o penálti em 2006 contra a Argentina. Isso faz parte do desporto... mas penso que o futebol é mais do que apenas 90 minutos.

- Mas houve um jogo extraordinário contra o Brasil, o 7-1. O que sente em relação a isso? Deve ter sido um dos jogos mais estranhos que disputou, certo?

- Sim. Isso acontece talvez uma vez e nunca mais. Mas para nós, sabe, se tivéssemos perdido a final, ninguém falaria desse jogo agora. Por isso, num Mundial ou num torneio, é importante ter um objetivo, e nós tínhamos o objetivo de ficar até ao fim. E para mim, não importa se se ganha por 1-0 nos penáltis ou como fizemos, 7-1, ainda assim há uma final para jogar, e isso é o importante. Mas, claro, toda a história depois do jogo, e especialmente depois do torneio, penso que esse jogo é algo irreal. E todos se lembram dele, e as pessoas vão falar disso daqui a 50 anos. Grande jogo. Mesmo no país onde decorreu o Mundial, no Brasil, vencer a equipa da casa - isso deu-lhe algo... algo extra.  Mas, mais uma vez, era uma meia-final, e numa meia-final, o objetivo é vencer. Por vezes, nos torneios, é uma questão de sorte, de algo extra ou de coisas diferentes que podem acontecer... mas nós conseguimos de forma fantástica. E sim, 7-1, e seguimos em frente.

Os próximos jogos da Alemanha
Os próximos jogos da AlemanhaFlashscore

- Quando olha para a seleção da Alemanha, qual é o fator mais importante para um Mundial?

- Sempre tivemos este espírito de equipa, desde que estou na seleção. Claro que sempre tivemos grandes jogadores, mas também éramos mais do que um ou dois jogadores estrela. Sempre quisemos que a estrela fosse a equipa, sempre. Tínhamos um grande ambiente, uma excelente equipa técnica... um ótimo motorista de autocarro, fisioterapeutas, todos. Todo o staff fazia sempre parte de nós. E penso que, desde que estou na seleção, foi isso que nos deu algo mais. Outros países têm aquele jogador-chave - quando ele tem um bom dia, ganha o jogo. Mas nós éramos assim, sabe, tínhamos um guarda-redes, bons defesas, bons médios, bons avançados. Penso que não temos esses jogadores absolutamente incríveis... mas a nossa estrela era a equipa. E desde 2006, recordo a minha caminhada, ficámos sempre até ao fim. Ganhámos sempre algo, segundo lugar, terceiro lugar. Ficámos sempre até ao fim num torneio. Pode-se lá chegar com bom futebol, mas sem espírito de equipa e ambiente, penso que essa distância não se consegue alcançar.

- Sabemos que não é um desporto individual, por isso isto é muito importante, ser uma equipa, certo?

- Por vezes há momentos em finais. Tem-se os jogadores-chave. Nós também os tivemos, mas penso que, mais uma vez, a nossa estrela foi sempre a equipa. E o espírito de equipa com a equipa técnica, com as pessoas à volta, e isso deu-nos algo especial."

- Julian Nagelsmann ainda é um treinador jovem, mas é o selecionador nacional. O que aprecia na sua abordagem? E qual é a parte mais difícil de ser o treinador da seleção alemã?

- É difícil dizer porque nunca foi meu treinador, por isso não gosto de falar sobre pessoas que não conheço ou com quem nunca trabalhei... Ser o treinador da seleção alemã é algo especial, mas também é diferente de treinar uma equipa (de clube)... Porque numa equipa, há trabalho diário, treinos todos os dias. Prepara-se para 50 ou 40 jogos. Na seleção, há períodos em que se prepara a equipa para um ou dois jogos. E claro, depois há a longa preparação para um torneio, que é sempre, para um país como a Alemanha, e para todos os países, algo especial. E esse é o segredo para o treinador de uma seleção - preparar bem a equipa para aquele momento. E como disse antes, não se pode tirar tudo apenas de um jogador. Tem-se de gerir 23 jogadores para criar um bom ambiente. Também é preciso ter um pouco de sorte num torneio. E por isso penso que é diferente.

- Miroslav Klose é o melhor marcador da história dos Mundiais, com 16 golos. Atrás dele está Lionel Messi com 13. Como foi jogar ao lado de Klose?

- Sim, fantástico. Ele não só marcou golos, foi importante para nós, e também como colega de equipa, era sempre calmo. O seu comportamento fora de campo, a sua experiência e também a sua história foram importantes. Ele não cresceu como um talento aos 16 ou 17 anos porque a sua carreira começou realmente tarde. E o que conseguiu, especialmente com a seleção, é incrível. E ser o seu parceiro na frente, a nossa combinação, especialmente a combinação germano-polaca, foi algo especial. Ele também era um futebolista muito inteligente. Jogava de forma inteligente em campo. E entendíamo-nos muito bem. Por isso, sabe, tenho saudades desses tempos, porque jogar com ele e com os outros jogadores que tivemos foi algo incrível."

Podolski e Klose no Mundial-2014
Podolski e Klose no Mundial-2014DANIEL ROLAND / AFP

- De facto, entendiam-se muito bem, é verdade. Acha que Messi vai bater esse recorde neste Mundial?

- É algo extra. Penso que é possível... Será fantástico vê-lo novamente no maior palco, porque este jogador dá sempre algo extra. E já não se encontram jogadores assim."

- E finalmente, se fosse o selecionador alemão, levaria o jovem Lennart Karl ao Mundial para ganhar experiência?

- Na Alemanha, sempre tivemos esse jogador extra que levamos à seleção. E penso que ele está na lista. Por isso, porque não? Digo sempre em entrevistas ou em geral, não importa se se tem 17, 18 ou 28 anos, é uma questão de qualidade. É sobre o que um jogador dá de extra, e também como é enquanto pessoa... Eu tinha 18 ou 19 anos quando entrei na seleção, por isso porque não o mesmo para o Karl? Para mim, falar de idade, vamos falar dele, da qualidade que tem. E se ele trouxer qualidade, se a seleção precisar da sua posição, quando já se tem três ou quatro jogadores para essa posição... talvez não seja necessário. Mas, se for preciso, e se ele jogar como tem jogado nos últimos meses, porque não? Eu levá-lo-ia.