Nesta entrevista ao Flashscore, Roger de Sa explica como uma autêntica corrida pela Europa nas semanas que antecederam o torneio ajudou a lançar as bases para a campanha, e como é trabalhar com Carlos Queiroz depois de passagens pela África do Sul, Portugal, Egito, Irão, Catar e agora Gana.
- Qual é o seu papel na seleção do Gana?
- O meu cargo é treinador principal da equipa, e a minha função é ajudar o Carlos (Queiroz) em praticamente tudo. Não é diferente do trabalho que já fiz com ele noutras seleções. A maioria dos Mundiais são experiências fantásticas, e este não foi exceção. Trabalhámos com um tipo de jogador diferente, mas eram excelentes futebolistas e ótimas pessoas para trabalhar. Foi mais um grande capítulo na minha carreira.
- Como viu o Mundial-2026 nos Estados Unidos, México e Canadá?
- Na minha opinião, foi um Mundial muito bem-sucedido. Houve alguns problemas aqui e ali, mas no geral foi fantástico. Foi realmente uma excelente experiência.
- O que mais o impressionou nos jogadores do Gana?
- A humildade deles destacou-se. Não diria que me surpreendeu, mas foi maravilhoso ver a vontade que tinham de trabalhar, aprender e dar sempre 100% todos os dias. Isso incluía jogadores de grande estatuto, que já tinham tido grandes carreiras, assim como os mais jovens que estavam a aparecer. Por vezes, quanto melhor é o jogador, melhor é a personalidade.
- Em que estado estava a equipa quando assumiram o comando?
- Assumimos uma equipa do Gana que tinha perdido seis jogos consecutivos. Esse era o desafio. O Gana já teve sucesso no passado e há sempre a expectativa de apresentar resultados, por isso o moral estava naturalmente em baixo. Precisávamos de fazer mudanças e agir de forma diferente para mostrar que estávamos determinados, acreditávamos nos jogadores e podíamos dar-lhes esperança.
- Quão difícil foi o tempo limitado de preparação para o Mundial?
- O nosso tempo de preparação foi muito curto. Tivemos apenas cerca de 10 dias com a equipa, por isso a primeira tarefa foi viajar pela Europa, falar com os jogadores, ver vídeos e acompanhá-los nos seus clubes. Visitei cerca de 24 cidades em quatro semanas, o que implicou viagens bastante intensas. O Carlos não pôde viajar porque tinha sido submetido a um procedimento médico, por isso fui eu que fiz a maior parte da observação.
- Tiveram também de lidar com a ausência de jogadores importantes...
Perdemos quatro jogadores habituais, incluindo os dois centrais, um extremo do Tottenham (Mohammed Kudus) e um médio. A ausência dos centrais era especialmente preocupante porque obrigava a utilizar jogadores mais jovens e com menos experiência. Alguns dos jogadores que estávamos a considerar também não tinham minutos regulares nos seus clubes, o que tornou o processo de seleção mais difícil. Podia-se viajar para outra cidade para ver um jogador, sentar-se no estádio e depois perceber que ele estava no banco.
- Quão útil foi o particular frente ao País de Gales?
- Os jogadores chegaram em dias diferentes porque alguns precisavam de descansar após as épocas nos clubes. Antoine Semenyo, por exemplo, tinha acabado de disputar uma final de taça (pelo Manchester City) e precisava de quatro ou cinco dias para recuperar, por isso não pôde jogar frente ao País de Gales. Empatámos 1-1 depois de estarmos a vencer durante grande parte do jogo e de concedermos o empate nos minutos finais. Ainda assim, foi um teste útil porque aprendemos mais sobre os jogadores e experimentámos diferentes duplas e esquemas táticos. No entanto, provavelmente precisávamos de mais tempo de treino e de mais um particular antes do Mundial.
- Quão importante foi a vitória no jogo de abertura frente ao Panamá no Mundial?
- Sempre considerámos o jogo de abertura frente ao Panamá como a nossa final. Num grupo que também tinha a Inglaterra e a Croácia, era o jogo que sentíamos que tínhamos de vencer para fazer um bom Mundial. Ganhámos 1-0 e, embora não tenha sido uma exibição brilhante, foi uma vitória com raça e determinação. Esse resultado aliviou alguma pressão e deu-nos confiança de que podíamos garantir a qualificação para a segunda ronda, que era o nosso principal objetivo.
- E foram privados de uma possível vitória frente à Inglaterra nesse 0-0 …
- A Inglaterra seria sempre um adversário complicado, mas traçámos um plano, os jogadores acreditaram nele e funcionou. Conseguimos um empate e talvez até pudéssemos ter vencido o jogo. Como dissemos depois, se o VAR não tivesse ido tomar café, provavelmente teríamos tido um penálti a nosso favor. Acho que até o Stevie Wonder o teria assinalado.
- Como avalia o torneio do Gana no geral?
Perdemos 2-1 com a Croácia e depois 1-0 com a Colômbia, por isso terminar a competição com duas derrotas foi dececionante. No entanto, tendo em conta os jogadores disponíveis e o pouco tempo de preparação, considero que foi uma prestação satisfatória no geral.
- Como é trabalhar com o Carlos Queiroz?
- O Carlos tem uma energia incrível e uma mente notável para o futebol. Acho que ele nunca dorme porque o cérebro dele nunca desliga do jogo. Está sempre a pensar no que pode acontecer, no que poderá acontecer e no que vai acontecer. É um treinador que cobre tudo e está sempre atento a todas as circunstâncias possíveis. É meticuloso em todos os detalhes, como sempre foi, e isso tem-lhe dado resultados. A energia dele aos 72 anos é impressionante, e está também em excelente forma física.
