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Com quatro temporadas passadas no AC Milan, Roque Júnior sabe bem como funciona o estilo de jogo do treinador italiano, chamado para resolver as oscilações constantes da seleção canarinha.
- Roque, o público brasileiro vê o Brasil como um dos favoritos. Acha que os fracassos recentes em Mundiais abalaram a confiança do adepto brasileiro?
É difícil falar por muita gente. Na minha opinião, acho que o Brasil não entra como um dos favoritos. A história é grande com a camisola, por ter cinco títulos. Acho que o Brasil entra sempre como uma das possibilidades de ganhar o título pela história, tanto neste Mundial como nos outros. Mas eu acho que, se olharmos para o dia de hoje, o Brasil não entra como um dos favoritos. Mas aqui é difícil falar pela população, são 220 milhões de pessoas.
- O que traz à seleção a presença do Carlo Ancelotti, que conheces tão bem? Que estratégia podemos esperar da equipa?
Ele lida bem com as pessoas, não foi por acaso que ganhou em vários países diferentes. Isso é um ponto importante para saber lidar com uma cultura diferente da nossa. Não sei bem o que esperar, porque também vimos pouco. Pela mentalidade que tem, por ser italiano, ele preocupa-se muito com a parte defensiva. Ele trabalhou com outras culturas e adapta-se bem às características de cada jogador. Tem essa capacidade de liderar, de ter o contacto com os jogadores e tem essa preocupação defensiva por ser algo natural como italiano.

- Há quem diga que o Brasil tem perdido ultimamente um pouco do seu ADN de jogo bonito. Uma das teses deve-se ao facto de o jogador brasileiro sair do país ainda muito jovem. Concorda?
Eu acho que perdemos um pouco do que era o nosso jogo. Acho que era um jogo muito mais individual e isso fazia com que o jogador, tanto ofensiva como defensivamente, se tornasse forte individualmente nos aspetos técnicos ou mesmo táticos individuais. Perdemos isso um pouco, fomos invertendo essa ideia, trazendo muitas vezes o jogo que se jogava na Europa para dentro do Brasil.
Isso perdeu-se na formação. Vês que hoje, se chegares à seleção, nós sempre tivemos grandes avançados, grandes médios que desequilibravam. Na lista do Ancelotti, só temos o Neymar com esse perfil de qualidade e criatividade. E sempre tivemos jogadores assim do meio-campo para a frente. Temos um ou outro a surgir como avançado, mas muito colado à linha. Nós sempre tivemos também grandes pontas de lança, finalizadores. A formação mudou isso até dentro do nosso próprio campeonato, é uma das causas que nos faz ter hoje menos jogadores com essa criatividade.
- Explique, por favor, a um estrangeiro... O Vini Júnior tem no Brasil a mesma reputação que o Ronaldo Fenómeno, o Ronaldinho ou até o Neymar no seu auge?
É difícil fazer essas comparações, mas eu acho que o Vinicius tem o tipo de característica de um jogador que gosta do drible, que faz lembrar o jogador brasileiro. É uma característica diferente do Ronaldo Fenómeno, por exemplo. Ele não está no mesmo nível de Ronaldo e Neymar. É uma peça fundamental no Real Madrid, mas ainda precisa de evoluir para conseguir fazer a diferença na seleção brasileira.

- Tocou num ponto que gostaria de ver aprofundado. Podemos esperar do Brasil um futebol ofensivo ou uma abordagem mais pragmática neste Mundial?
Difícil dizer. Tivemos vários treinadores, o Ancelotti chegou agora no final... Não temos jogadores em que se possa dizer: 'é uma característica mais ofensiva'. Não temos hoje tantos jogadores que desequilibrem ofensivamente. Então olhas para uma seleção que não é ofensiva, não tem grandes jogadores que desequilibram. Temos um treinador que, nos trabalhos que fez, procura fortalecer muito o que cada jogador tem de melhor, ele procura juntar esses jogadores e fazer ali um modelo de jogo, potenciando as características desses jogadores.
Ele tem a cultura italiana, mais defensiva, não gosta de sofrer golos. Se fizeres um a zero, ganhas. Mas o que esperar é difícil. Temos de aguardar para ver o que aí vem.
- Para fechar, houve muito debate sobre se o Neymar devia ou não ir ao Mundial. O que pode ele trazer a esta Seleção Brasileira, como pode ajudar?
Acho que tem uma qualidade inegável, apesar de estar há muito tempo sem jogar com regularidade. Quando tens uma sequência de jogos, isso vai fazendo com que tenhas mais confiança e vás melhorando. Nestes últimos anos, ele não conseguiu ser constante. Isso é um lado preocupante. No Mundial, serão quase dois meses entre treinos e jogos. Será importante ele estar bem fisicamente e bem da cabeça. Sabendo que é um período curto, precisará de ter foco para conseguir dar o seu melhor.
Ele precisa de entender que faz parte de um grupo e que pode ajudar pela sua capacidade, se estiver bem fisicamente. Acho que isso é importante, para que não tenha uma influência negativa. Nós temos uma passagem no último Mundial de um lance dele com o Richarlison que mostra essa importância. O Richarlison agarra numa bola e remata à baliza. E o Neymar reclama com ele. Quando acaba a primeira parte, a primeira coisa que o Richarlison faz é ir na direção do Neymar pedir desculpa. E depois, quando volta para a segunda parte, em todas as bolas que o Richarlison agarrava, ele olhava para o Neymar. Portanto, isso para mim é um ponto de cuidado. O Neymar e os outros jogadores precisam de entender isso.

Há momentos em que vou rematar à baliza e alguém pode reclamar. Mas eu devolvo também essa reclamação e isso, de certa forma, pode influenciar o outro jogador a não fazer determinada jogada a seguir. É importante o Neymar entender o seu papel, é importante ter jogadores que entendam o papel, mas que também tenham personalidade nesse momento. Porque isso é fundamental para que uma seleção ganhe. Em momentos como esse, precisas de ter jogadores com personalidade e também um Neymar que seja uma liderança positiva e não negativa, porque isso influencia diretamente. Se for positiva, o que o Richarlison teria feito era tentar outras jogadas e não apenas olhar para o Neymar. Influencias negativamente e acabas por fazer com que, no momento da decisão, a melhor opção não seja tomada.
Eu acho que isso é um ponto que tem de ter atenção, tanto por parte do Neymar, como dos outros jogadores e do Ancelotti.
Mundial-2026
O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.
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