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- Foi o primeiro diretor da Academia Mohammed VI quando ela foi criada em 2009. Hoje, vê Marrocos nos quartos de final do Mundial-2026, depois de já ter chegado às meias-finais em 2022. Sente que o plano inicial aconteceu como previsto ou superou as suas expectativas?
- Para ser sincero, superou as minhas expectativas. Na época em que criamos essa academia, ela era única. Também foi uma vontade do Rei de retomar a formação em Marrocos, que já existia antes, de forma empírica, já que conseguíamos revelar jogadores para a Europa. Mas, ao longo dos anos, a participação dos clubes na formação de jovens infelizmente diminuiu. No início da academia, tínhamos muitas incertezas: onde recrutar esses jovens, se teríamos uma infraestrutura de altíssimo nível, se teríamos tempo para formá-los. Havia muitas dúvidas. Mas, como era um projeto do Rei, que queria fazer disso um exemplo para todo o país, conseguimos tudo o que precisávamos, tivemos carta branca para trabalhar. E já no primeiro ano fui surpreendido positivamente: houve um engajamento dos jovens como nunca tinha visto. Jogadores de 12 a 18 anos treinavam às 6:30 da manhã e às 16:00, praticamente três vezes por semana, além dos outros treinos e jogos. Fiquei surpreendido com o impacto que isso teve e com a rapidez dos resultados. Quando comparo com a França, que começou a formação nos anos 70 e só teve o primeiro grande resultado na Euro-87, e principalmente no Mundial de 1998, foram 30 anos. Em Marrocos, levamos cerca de 15 anos.

- O objetivo inicial era chegar às meias-finais do Mundial, ou não sabia onde Marrocos poderia chegar?
- Não, sinceramente, não sabíamos. O meu presidente na época, que era o braço direito de Sua Majestade, disse-me que levaríamos o tempo que fosse necessário: 10 anos se precisasse, 12 anos se precisasse. E no fim, deu resultado, porque não podemos esquecer que os jovens que representaram Marrocos no Mundial já frequentavam, logo após saírem da academia aos 16, 17 ou 18 anos, as seleções de formação. A academia realmente foi o ponto de partida para o desenvolvimento do futebol marroquino.
- Qual foi o principal desafio para dar um salto no futebol marroquino?
- O primeiro desafio era encontrar o ecossistema certo. O sucesso de um jovem não depende só de bons campos e treinadores qualificados, mas de tudo ao redor. Os professores, por exemplo: são crianças cujo sucesso desportivo é incerto, então era preciso garantir um verdadeiro percurso escolar. Precisávamos de professores capazes de entender essa dupla formação, escolar e desportiva, com jovens que só sonham em ser profissionais e para quem a escola não é prioridade. O segundo ponto era o ambiente, principalmente os pais, que talvez sonhem em ter um Messi, um Cristiano Ronaldo ou um Benzema que vai ganhar muito dinheiro. Não podíamos vender sonhos, mas sim mostrar a realidade e fazer deles coorganizadores do desenvolvimento do filho. E claro, tinha o próprio jovem: será que ele é capaz de fazer os sacrifícios necessários? Dos 12 aos 18 anos, morar e estudar dentro da academia... será que em algum momento ele não iria cansar-se e querer viver a adolescência? Graças aos treinadores, monitores, professores, mas também às empregadas, cozinheiros, seguranças e pessoal da limpeza, criamos um ecossistema onde a criança realmente foi o centro do projeto. Eles foram incríveis e foram a chave do sucesso.

O que é preciso para formar jogador de futebol
- Quando conversamos com jogadores marroquinos, todos destacam as condições excecionais de trabalho. Faz muita diferença na formação de um jovem?
- Com certeza, isso era fundamental. Quando fui chamado para esse projeto, disse que o sucesso dependeria de duas coisas: as pessoas certas no lugar certo e, principalmente, a infraestrutura. Eu dizia que, para formar um médico, é preciso hospitais; para formar um jogador profissional, é preciso campos, infraestrutura. Sua Majestade entendeu isso imediatamente, deu-nos os meios, e criamos uma academia muito bonita. Depois, quando fui para a Federação, fizemos o mesmo, criando polos de desenvolvimento e, principalmente, reformando o centro técnico nacional, que era muito antigo. Transformamos numa joia, o que incentiva os jogadores a superarem-se porque estão em ótimas condições.
- Essa academia é a pedra fundamental da revolução no futebol marroquino?
- Exatamente, é realmente a base, e todo o mérito é do Rei, que teve a ideia brilhante de trabalhar na base, em vez de tentar corrigir o que acontecia na seleção principal. Muitas vezes, em África, quando a seleção não vai bem, questiona-se tudo, demitem treinadores, afastam jogadores. Sua Majestade sabia que faltava formação, e começou pela formação dos jovens. Hoje, quando olhamos para os jogadores que passaram pela academia: aos 19 anos, dois participaram no Mundial na Rússia em 2018, quatro no Catar, cinco ganharam a medalha de bronze nas Olimpíadas de Paris, e seis venceram o Mundial sub-20. Isso prova que a principal ambição, a pedra fundamental, como você disse, é a academia. Sem ela, não acho que o futebol marroquino estaria nesse nível hoje.

- O projeto, a longo prazo, é ter metade da seleção principal formada na academia?
- Não necessariamente um número exato, mas sim, o sonho da academia é revelar o máximo possível. Ela foi criada para gerar talentos para as diferentes seleções, mas também para ser um modelo para os centros de formação marroquinos. Há grandes clubes que já foram formadores e estão a retomar isso hoje: o Raja Casablanca, o Wydad, o FUS, Tanger. O objetivo da academia é formar os talentos do futuro para as seleções, mas também ser exemplo para os centros de formação. E é o que está a acontecer, já que hoje existe até uma forte concorrência entre a academia e os centros de formação dos clubes, e isso é ótimo para o futebol nacional.
- A ideia também é formar jovens que vão jogar na liga marroquina?
- Sim, era esse o caso. Lembro que acompanhei 57 jogadores durante os meus cinco anos na academia, na época da inauguração. Desses 57, 47 tornaram-se profissionais, 15 jogam na Europa e o restante joga no campeonato marroquino. Isso faz toda a modalidade evoluir.
Cópia adaptada do modelo de França
- É verdade que a academia copiou métodos do modelo europeu?
- Sim, fui eu que escrevi todo o projeto, desenhei o plano. Quando fui chamado, fiz um balanço dos centros de formação por onde passei: comecei no Rouen, o meu primeiro clube profissional, depois no ISCAN, no Stade Malherbe de Caen, no Havre e no Racing de Estrasburgo. Peguei todos esses centros como referência em termos de infraestrutura, metodologia, o que era bom e o que não era, e fiz uma síntese para definir o que era necessário para um centro de formação de padrão internacional: infraestrutura, metodologia, acompanhamento dos jovens, recrutamento. Inspirei-me nos 25 anos que passei em França, mas também tive a sorte de viajar pela Europa, Itália, Inglaterra, Espanha, para observar o que era feito lá. O modelo que mais me inspirava era o francês.
- Como adaptar esse modelo francês ao futebol marroquino?
- Vou ser honesto: nos primeiros seis meses, fui eu quem recrutou todos os jogadores. Fiz toda a deteção com alguns olheiros marroquinos que já estavam lá, percorri o país sozinho, vi mais de 15 mil crianças, das quais só 37 entraram na academia. Depois, aumentamos o número. Mas nesses seis primeiros meses, o que eu via em campo era mau, e fiquei com medo: se fui eu quem recrutou esses jogadores, como podiam ser tão maus? Na verdade, o problema não eram eles, era eu, porque copiei o que vivi na França. Entendi que precisava de adaptar a minha metodologia. Um rapaz marroquino de 15 ou 16 anos, naquela época, não tinha a mesma vivência de um jovem francês que passou por uma escolinha de futebol dos 6 aos 12 anos. Então reduzi o ritmo, diminui a exigência, como se fosse preciso recuperar uma parte da escolaridade antes de entrar no ensino médio. Nos seis meses seguintes, fizemos esse trabalho de recuperação, inclusive usando vídeo para que os meninos se vissem em campo. E no segundo ano, com os mesmos jogadores, foi incrível. Era preciso adaptar o método à cultura do país, porque mesmo sendo de origem marroquina, fui formado à francesa. Tive que reinterpretar a minha filosofia pela cultura marroquina. Foi assim que conseguimos descolar.

- 17 anos depois, a academia ainda precisa de fazer esse trabalho de recuperação com os jovens que chegam?
- Não, agora não, porque a academia ficou muito conhecida. Além disso, criei filiais, já que as crianças só entravam na academia aos 12-13 anos. Havia uma filial em Laâyoune, no Saara, uma em Marraquexe, uma em Casablanca, uma em Tanger, uma em Fès, que recebiam jovens de 9 a 12 anos. Eu pagava os treinadores, equipava as crianças, eles tinham cinco treinos por semana mais amigáveis, e reuníamos todos uma ou duas vezes por ano na academia. Os melhores, aos 13 anos, entravam na academia. Era assim que fazíamos esse trabalho de base, nessas estruturas anexas.
- Hoje, a seleção principal tem vários jogadores formados na academia. O que caracteriza essa geração atual?
- O que os caracteriza é que ensinamos desde cedo o que é ser profissional: como se alimentar, como dormir, tudo que envolve o treino invisível. Eles entenderam isso, como Ounahi, Aguerd e muitos outros. São rapazes muito bem integrados socialmente, mesmo que alguns hoje ganhem muito dinheiro, são muito equilibrados. Em termos de desempenho, conhecem a exigência do mais alto nível, porque ensinamos que entrar nessa profissão é para ter rendimento, não só para jogar. Sempre dizíamos: futebol é um trabalho, não uma brincadeira. Não estamos aqui para se divertir, mas para se preparar para uma profissão. Como dizíamos, quando alguém entra num centro de aprendiz de padeiro, é para virar padeiro; quando entra num centro de formação de futebol, é para virar jogador profissional. E eles entenderam bem. Hoje, quando jogam na seleção, vemos que estão comprometidos com uma missão de desempenho pelo país.

"Para ser profissional, é preciso também representar a sociedade"
- Como a academia conseguiu transmitir essa cultura de vitória, que às vezes falta às seleções africanas? Dizem que elas carecem de continuidade, enquanto Marrocos hoje é muito regular nas grandes competições.
- Simplesmente porque eram jogadores que estavam conosco 24 horas por dia: dormiam no centro de formação, estudavam lá. Avaliávamos praticamente a cada trimestre o modo de vida deles na academia, não só em campo: mas também a cozinha, a limpeza, a segurança avaliavam, a escola avaliava, os treinadores avaliavam. Era preciso ser bom em tudo. Para ser profissional, não basta saber rematar bem a bola, é preciso também ter representatividade na sociedade. Como eram competitivos por natureza, dissemos que era preciso ser excelente na vida no centro, excelente na escola, excelente em campo. Cultivamos neles essa ideia de competição, dentro e fora de campo. Hoje, são rapazes que querem conquistar o seu espaço, querem ganhar títulos. O que aconteceu no Catar com o técnico Walid Regragui e os jogadores que estavam lá aumentou ainda mais a vontade de ter rendimento. Prova disso: os sub-20 ganharam o Mundial com seis jogadores da academia. Marrocos não é mais uma seleção que só participa nas competições, mas uma seleção que entra para ganhar. E isso mudou completamente, porque era o nosso discurso diário, não só em campo, quando a equipa que perdia fazia sprints, mas no dia a dia: como vives, treinas; como treinas, jogas. Se tens alma de competidor fora de campo e nos treinos, vai ser assim também no dia do jogo.

- Dizia-se também que a França formava talentos para seleções como Marrocos, mas isso é cada vez menos verdade. Essa também era a ideia do projeto Mohammed VI?
- Ainda há muitos jogadores formados na Europa que jogam na nossa seleção. Ainda existe uma diferença entre nossos marroquinos da Europa e os locais, mas estamos a diminuir essa distância. Acho que hoje há entre seis e oito jogadores da academia prontos para jogar na seleção principal. Depois, é escolha dos treinadores, porque são tão bons quanto os que foram convocados. E ainda tem os jogadores formados no Raja, no FUS, etc. O tempo vai favorecer cada vez mais os jogadores locais para integrar a seleção principal do futuro.
- Mesmo assim, vimos no Mundial contra o Haiti, uma seleção formada só por jogadores nascidos no exterior. Qual é, para si, o equilíbrio ideal entre os locais e os "binacionais"?
- Não acho que precisamos procurar um número ou equilíbrio exato, nem colocar um contra o outro. Hoje, os jogadores nascidos, criados e formados na Europa são marroquinos de verdade, não há diferença. O que falta hoje é a competitividade do nosso campeonato nacional. Fora cinco ou seis jogos por ano, é pouco para competir com o nível de um jogador que atua na Europa. Mesmo os nossos marroquinos, quando saem de Marrocos para jogar na Europa, como Ounahi ou Aguerd, é para disputar competições de alto nível, como Aguerd no Marselha hoje, ou antes no West Ham, ou Youssef En-Nesyri, que ganhou várias Ligas Europa. Precisamos que o campeonato marroquino evolua para que nossos jogadores locais possam chegar às seleções. Quando se tem um jogador no Real Madrid a disputar jogos de altíssimo nível todas as semanas, ele vai ser melhor do que um jogador que atua regularmente no campeonato marroquino, mesmo que esteja a evoluir. Infelizmente, só há cerca de dez jogos por temporada em altíssimo nível.
"Marrocos não tem mais complexo em relação à Europa ou Brasil"
- O sucesso de Marrocos mostra o caminho para outras nações africanas?
- Sim, com certeza. Marrocos conquistou algo importante: não tem mais complexo em relação ao que acontece na Europa ou América do Sul. Marrocos entendeu que pode ser tão bom, ou até melhor, que algumas seleções europeias. Perdemos o complexo, acreditamos em nós mesmos. Prova disso são os treinadores locais, marroquinos, mesmo que alguns tenham nascido na Europa. É preciso acreditar no nosso potencial e nas nossas capacidades, e Marrocos está abrindo esse caminho.
- Passou por muitos centros de formação em França. Este jogo dos quartos de final contra França tem um sabor especial para si?
- Sim, vai ser muito especial. A França fez-me crescer no futebol, ensinou-me os fundamentos como treinador e formador que sou hoje, sou grato por isso. E tem o meu país, Marrocos, onde nasci, cresci, onde está a minha família, e onde participei da base do futebol marroquino, entre sete anos na academia e cinco anos como diretor técnico nacional. É um grande confronto: a França que me formou, e Marrocos onde apliquei o que aprendi em França.

- Como diretor técnico, também trabalhou para que alguns jogadores escolhessem representar Marrocos em vez da França?
- Sim, foi preciso convencer os primeiros. Consegui convencer alguns jogadores pessoalmente, ou com ajuda dos meus treinadores. Convenci pessoalmente o Achraf Hakimi a juntar-se a nós. Depois, treinadores convenceram o Mazraoui, Amrabat e muitos outros. Na época, também entrei em contacto com Amine Harit e Sofiane Boufal, entre outros, que me pediram um tempo antes de virem para a seleção. Esse grupo de jogadores abriu portas para outros: foi graças a Hakimi e Mazraoui que outros seguiram, com o apoio do presidente da Federação, Fouzi Lekjaa, e o envolvimento de Sua Majestade, sempre atento à evolução do futebol, o que permitiu trazer jogadores como El-Aynaoui, Saibari, Bouaddi e muitos outros.
- Está otimista com o futebol marroquino?
- Sim, estou muito otimista. Saiba que Hakimi escolheu jogar pelo Marrocos aos 16 anos. Bouaddi, por sua vez, tem dois anos a mais que Hakimi tinha naquela época. Por isso digo que os nossos porta-bandeiras, os que abriram esse caminho, foram primeiro jogadores como Moustapha Hadji, depois Boussoufa e alguns outros que escolheram Marrocos. Mas a grande viragem foi a chegada de jogadores como Hakimi e Mazraoui, que escolheram Marrocos muito cedo, aos 16 ou 18 anos, junto com a Federação e as seleções. Isso faz com que hoje, um jogador de 18 anos como Bouaddi escolha Marrocos com facilidade.

- A seleção marroquina será sempre essa mistura entre a diáspora e jogadores locais?
- Não, não é uma mistura. É a seleção marroquina, formada por marroquinos, simples assim. Seja nascido nos Estados Unidos, Canadá, França, temos uma diáspora incrível, mas todos são marroquinos de verdade que escolhem Marrocos para defender as suas cores.
- Quais são as forças de Marrocos neste Mundial?
- Sinceramente, é uma equipa que mostra várias facetas. Consegue adaptar-se ao sistema e às qualidades do adversário, mas sempre a manter a sua linha: não joga só reagindo ao adversário, joga principalmente com as suas próprias qualidades. Tem um meio-campo excecional, capaz de segurar a bola e recuperá-la. Sabe aproveitar qualquer oportunidade para colocar o adversário em perigo. Defensivamente, há muita segurança, e temos um guarda-redes excepcional, fabuloso. É uma equipa completa em todos os setores, com um banco de suplentes forte.
Mundial-2026
O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.
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