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Na altura, a Roja ainda não era a máquina que viria a dominar o futebol mundial entre 2008 e 2012. Sob o comando de Luis Aragonés, saiu da fase de grupos com um percurso perfeito, três vitórias em três jogos, impulsionada por uma juventude promissora: Fernando Torres, David Villa, Andrés Iniesta, Cesc Fàbregas. Sergio Ramos tinha apenas 20 anos e jogava como lateral.
Do outro lado, uma equipa da França envelhecida e nervosa tinha passado por dificuldades na fase de grupos, dois empates frente à Suiça e à Coreia do Sul antes de um impulso salvador diante do Togo. Tudo isto alimentava a confiança espanhola: o diário Marca titulava antes do jogo "Vamos pôr Zidane na reforma", enquanto nas páginas interiores prometia mesmo "depenar" o galo gaulês.
É que Zinédine Zidane, que tinha acabado de completar 34 anos quatro dias antes, já tinha anunciado na primavera que este Mundial seria o último da sua carreira. No entanto, não era a primeira vez que se despedia da seleção: já tinha deixado o futebol internacional uma primeira vez em 2004, após um Europeu falhado em Portugal, antes de voltar atrás no verão de 2005 para salvar uma equipa francesa em apuros na corrida à qualificação. Maestro do Real Madrid, onde já era uma lenda do clube, Zidane vivia com esta 105.ª internacionalização um momento especial, ele que, sendo madrileno de adoção, defrontava a Espanha nos seus próprios domínios desportivos.
Cada jogo a partir dos oitavos podia ser o seu último com a camisola azul, uma perspetiva vertiginosa para milhões de franceses que nunca se tinham resignado a ver partir o melhor jogador que tinham visto desde Michel Platini.
Zidane pôs a Roja na reforma
Este jogo dos oitavos de final tinha também um sabor especial para Thierry Henry, que reencontrava em campo Luis Aragonés, vinte meses depois de o selecionador espanhol ter proferido comentários racistas sobre si durante um treino da Roja. O caso fez grande polémica e valeu a Aragonés uma multa que Henry classificou como "ridícula e risível".
Perante 43.000 adeptos na AWD-Arena, sob a arbitragem do italiano Roberto Rosetti, o encontro começou mal para os Bleus. Logo aos 28 minutos, Lilian Thuram cometeu uma falta na sua área. David Villa não vacilou e converteu o penálti: a Espanha adiantava-se e o Marca parecia já ter razão.
Mas a França não demorou a responder. Patrick Vieira, imparável nessa noite, como já tinha sido frente ao Togo, lançou Franck Ribéry, revelação deste Mundial. Com um drible, o extremo francês ultrapassou Iker Casillas e empatou mesmo antes do intervalo, aos 41 minutos. As duas equipas recolheram aos balneários com o resultado empatado, 1-1, numa primeira parte que, apesar de tudo, favoreceu a juventude espanhola.
Na segunda parte, o ritmo intensificou-se. Vieira viu um cartão amarelo aos 68 minutos, antes de Carles Puyol ser também advertido do lado espanhol (82'). Foi neste contexto tenso que a França volta a passar para a frente: aos 83 minutos, num livre cobrado por Zidane, Vieira elevou-se e cabeceou de forma decisiva, batendo Casillas. Os Bleus passavam a vencer por 2-1. Ribéry viu também um amarelo aos 87 minutos, nos últimos instantes tensos de um jogo de sentido único. E, como símbolo, foi Zidane quem fechou o encontro já nos descontos: aos 90+2, enterrou as últimas esperanças espanholas com um remate de pé direito, inscrevendo o seu nome no marcador antes de, logo a seguir, receber também ele um cartão amarelo. Resultado final: 3-1 para a França.
Foi nesta jogada que o capitão francês sentiu uma dor na coxa, lesão com a qual, poucos dias depois, fez um dos melhores jogos da sua carreira, nos quartos de final, frente ao Brasil.
"Nunca pares!"
Ao apito final em Hanôver, Zidane afastou os rumores de retirada antecipada.
"Para mim, estava claro que não era o último" jogo, afirmou, antes de responder aos críticos: "Há tipos que nem tocam numa bola e acham que podem dizer o que lhes apetece." A Marca mudou logo de discurso no dia seguinte com um "Nunca pares!" dirigido ao número 10 francês.
O resto deste Mundial-2006 entrou na lenda dos Bleus: um jogo dos quartos de final de gala frente ao Brasil, uma meia-final contra Portugal, e depois uma final em Berlim marcada pela Panenka de Zidane, a sua cabeçada em Marco Materazzi, a expulsão e a derrota nos penáltis frente à Itália. Uma desilusão nunca totalmente ultrapassada.
Para a Espanha, a eliminação precoce foi apenas um contratempo. Quatro anos depois, na África do Sul, a geração Iniesta-Xavi-Torres levantava finalmente o troféu, ladeada por dois títulos europeus consecutivos, em 2008 e 2012. Nesse dia em Hanôver, Iniesta nem sequer entrou em campo. Viria, com o passar dos anos, a tornar-se o símbolo dessa geração dourada. Vinte anos depois, a história oferece uma nova página comum entre as duas nações, desta vez numa fase ainda mais decisiva da competição. O que, inevitavelmente, faz reviver a memória de Hanôver.
As duas equipas nessa noite:
Espanha: Iker Casillas - Sergio Ramos, Carles Puyol, Carlos Marchena, Juanito - Cesc Fàbregas, Xabi Alonso, Xavi (Marcos Senna, 72') - Raúl (cap.) (Luis García, 54') - Fernando Torres, David Villa (Joaquín, 54'). Selecionador: Luis Aragonés.
França: Fabien Barthez - Willy Sagnol, Lilian Thuram, William Gallas, Éric Abidal - Patrick Vieira, Claude Makélélé - Franck Ribéry, Zinédine Zidane (cap.), Florent Malouda (Sidney Govou, 75') - Thierry Henry (Sylvain Wiltord, 88'). Selecionador: Raymond Domenech.
Mundial-2026
O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.
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