Recorde aqui as incidências do encontro
A França está nos oitavos de final do Mundial e, neste momento em que escrevemos estas linhas, questionamo-nos quem poderá travar o seu percurso. Esta terça-feira à noite, os Bleus, que foram crescendo ao longo do encontro — sobretudo depois de uma primeira parte em que a bola teimava em não entrar —, atropelaram uma equipa da Suécia completamente desnorteada.
"Quanto ao seu onze, Deschamps não escolheu simplesmente os 11 melhores — só tem os melhores na equipa de França —, mas sim os 11 jogadores que, para este jogo, lhe pareciam os mais adequados. E nota-se logo: há automatismos, cada um sabe o seu papel e, ofensivamente, há muito mais fluidez. Já o tínhamos dito anteriormente, assim que ele colocou Olise a 10 e pôs Dembélé à direita", explica Guillaume Hoarau.
Sobriedade, segurança, autoconfiança: é isto que transmite a equipa de França antes de defrontar o Paraguai, sábado às 22:00 (hora de Lisboa) em Filadélfia. Porque sim, este coletivo está claramente a crescer, e quanto mais os jogos avançam, mais se sente que vai ser difícil travá-los.
Força mental venceu a superstição
No entanto, quando Mbappé, Dembélé, Olise e Barcola criaram sucessivas situações, remates e oportunidades de golo, com o poste a ser atingido duas vezes, a ser roçado três ou quatro vezes, e o guarda-redes sueco Jacob Widell Zetterström a começar a fazer algumas defesas, muitos pensaram que o cenário não era animador.
"Quando dominas e não marcas, conhecemos bem esse contexto, e todos pensamos nisso — até ontem, a certa altura", confidencia Hoarau. "Eu próprio dizia: basta um contra-ataque, sofres um golo e isso traz alguma pressão. Mas não, não é o caso desta equipa de França, porque têm uma força mental incrível. Têm grandes jogadores".
"Quando é o Mbappé que acerta no poste, o Olise assume. Quando é ele que acerta no poste, ainda tens o Ousmane do outro lado. Portanto, é isto: cada um, a seu tempo, traz essa confiança, essa positividade mental, que faz com que a equipa seja sempre puxada para cima. Ninguém baixa a cabeça, porque há sempre alguém pronto a assumir".

O golo de Mbappé, ao minuto 45, surgiu no momento ideal, mesmo antes do intervalo — permitindo encarar a segunda parte com mais serenidade. Um contexto que acalma os ânimos, depois de 45 minutos de agitação.
"Inevitavelmente, ficaram um pouco frustrados no momento em que a bola não entrava. Mas logo na jogada seguinte voltam, tentam, insistem, querem. É como se, realmente, a metáfora fosse que te encostam às cordas e, enquanto não estás KO, continuam a bater... E no fim, é uma equipa que tem um plano e não desiste enquanto não resulta".
"Depois, tens um selecionador, também ele, no banco, que se sente sereno, mesmo vivendo o jogo com as suas emoções. Mas quando tens tanto potencial, tanta artilharia, sinceramente, podes estar tranquilo".
Michael Olise, o homem das boas decisões
Quando o coletivo funciona tão bem e as individualidades correspondem, como Kylian Mbappé — autor do seu 17.º e 18.º golo em Mundiais, igualando assim Leo Messi —, sente-se que tudo corre de feição.
Mas foi sobretudo Michael Olise quem mais impressionou frente à Suécia. Protagonista de uma exibição muito completa no seu novo papel a 10, com duas assistências, o número 11 dos Bleus é o elo de ligação desta equipa, aquele que faz o ataque funcionar. Um jogador que, para Hoarau, é daqueles que fazem os adeptos quererem ligar a televisão para ver um jogo às 22:00, só pelo seu futebol.
"Michael Olise? Para começar, apetece-me dizer: 'deem-lhe a Bola de Ouro. Não quero saber, a Bota de Ouro, o Disco de Ouro, tudo o que for de ouro, tem de ser para ele'. Porque, mais uma vez, mostrou porque é indispensável. Entusiasma-nos, inevitavelmente, ele faz-te entusiasmar: bicicleta, gesto técnico...".
"Mas, na verdade, o que mais me impressiona é a sua capacidade de tomar sempre a melhor decisão", sublinha o nosso analista. "E é aí que percebes: 'o rapaz não joga para as estatísticas, joga para fazer a equipa avançar'. Mesmo quando ultrapassa adversários, cria desequilíbrios, atrai, liberta espaços para os outros. Ontem à noite (terça-feira), fez passes certos, assistiu, é um jogador decisivo, mesmo quando não marca. Por isso, é claramente o jogador que mais criatividade traz a esta equipa de França".
"Pensei para mim, 'hoje, vou despachar-me a chegar a casa para ver o jogo, porque o Olise joga'. E acho que se o Olise estiver no banco, se tiver de cozinhar, posso deixar a televisão ligada, não me incomoda — mas se ele joga, quero ver o jogo. Portanto, hoje, enquanto espectador, telespectador, ele faz-me vibrar. Por isso, tudo o que for de ouro, por favor, deem-lho".

Os momentos menos bons
Vencer um jogo com classe é saber gerir não só os momentos fortes, mas sobretudo os momentos menos bons. Na terça-feira, quando a equipa de França não tinha a bola e era preciso fechar espaços, os Bleus encontraram-se por vezes em situações delicadas. Na primeira parte, Elanga causou dificuldades a Lucas Digne em alguns duelos, provocando duas ou três situações perigosas na defesa. Esta última viu mesmo o adversário conseguir penetrar por algumas vezes na segunda parte, antes de os avançados suecos falharem na finalização.
A França terminou com a baliza inviolada, mas é legítimo questionar o que acontecerá quando defrontar uma equipa bem mais eficaz, como explica Hoarau: "Há um setor onde a França pode evoluir. Não quero dizer a defesa, prefiro falar dos momentos menos bons da equipa de França. Por vezes, sente-se que a linha recua demasiado rápido e que as distâncias entre os jogadores nem sempre são ideais".
"Podemos imaginar que, se a França defrontar uma equipa muito mais perigosa no contra-ataque, pode sofrer. Por agora, conseguiu adaptar-se aos adversários que encontrou — é preciso ganhar os jogos — mas, para mim, ainda não é de classe mundial".
"Podemos dizer que, se há um ponto a melhorar, é nestes momentos menos bons. Mas, para já, estão a geri-los bem, pois continuam com a baliza inviolada. Conhecemos estes momentos: é uma questão de coordenação, de concentração durante os 90 minutos. Por isso, para já, não é algo que os tenha penalizado, conseguem compensar".

