Médico do FC Porto diz que enfarte não impedia regresso de Casillas aos relvados

Nélson Puga disse que Casillas podia continuar a jogar
Nélson Puga disse que Casillas podia continuar a jogarPEDRO FIUZA / NURPHOTO / NURPHOTO VIA AFP

O diretor clínico do FC Porto, Nelson Puga, afirmou esta quarta-feira , em tribunal, que o antigo guarda-redes espanhol Iker Casillas podia ter regressado à alta competição um ano após o enfarte, por não ter ficado com sequelas funcionais.

Na terceira sessão do julgamento, que decorre no Tribunal do Trabalho do Porto, o especialista em medicina desportiva afirmou, em resposta ao advogado de Casillas, que o antigo internacional espanhol apresentava um risco reduzido de reincidência, desde que cumprisse a medicação.

"Em 02 de maio de 2020 podia ter voltado à competição de alto nível. Isso não tenho a mais pequena dúvida", afirmou.

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Questionado sobre os exames realizados ao jogador, explicou que nunca foi detetada qualquer doença coronária, apesar de Casillas ter apresentado apenas um ligeiro aumento do colesterol, insuficiente para justificar exames cardíacos mais específicos.

Às perguntas do advogado da Fidelidade, Nelson Puga rejeitou estabelecer uma relação causal entre o treino e o enfarte.

"O enfarte decorre da doença. Tudo o resto são especulações. Não há trabalhos científicos que permitam dizer que foi o treino que provocou o enfarte", afirmou, acrescentando que Casillas não realizou qualquer esforço anormal nessa manhã.

O médico disse ainda que o jogador apenas lhe relatou posteriormente ter sentido dores na véspera e admitiu, perante a juíza, que a decisão de não regressar aos relvados resultou, na sua perspetiva, da perda de motivação do jogador e da falta de interesse de ambas as partes em renovar contrato.

Também ouvido esta tarde, o cardiologista Luís Macedo, que acompanhou Casillas após o enfarte, afirmou que a rapidez da intervenção permitiu limitar os danos no músculo cardíaco.

"Tempo é músculo cardíaco. Quanto mais tempo demorar a abrir a artéria, mais sequelas pode ter", afirmou, precisando que o tratamento ocorreu cerca de 90 minutos após o início dos sintomas.

Segundo o cardiologista, Casillas recuperou a capacidade funcional, nunca apresentou arritmias nos exames de seguimento e manteve uma função cardíaca preservada.

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"Por mim, eu acho que podia jogar", afirmou, acrescentando que foi o próprio Casillas quem lhe transmitiu, após um ano de paragem, que pretendia abandonar a carreira.

Às perguntas da seguradora, Luís Macedo afirmou que, se o jogador tivesse procurado assistência médica quando surgiram dores na véspera - descritas na nota de admissão da CUF, mas desmentidas em julgamento pelo ex-guarda-redes - o enfarte poderia ter sido evitado.

Questionado pela advogada do FC Porto sobre a existência de evidência científica que estabeleça um nexo causal entre a prática de exercício físico e o enfarte, respondeu negativamente.

À juíza, admitiu não poder confirmar nem excluir que o treino tenha funcionado como fator desencadeante do episódio.

Iker Casillas pretende que o enfarte agudo do miocárdio sofrido durante um treino do FC Porto, em maio de 2019, seja reconhecido como acidente de trabalho.

Na ação, reclama da seguradora Fidelidade o pagamento de 750.821,91 euros por incapacidade temporária absoluta e de 1.521.780,82 euros por incapacidade permanente absoluta para o trabalho habitual (IPATH), bem como a condenação do FC Porto no pagamento da parte das indemnizações que considera não coberta pelo seguro, além de futuras despesas médicas, medicamentosas e do capital de remição da pensão anual a apurar pelo tribunal.

Na sessão anterior, a perita do Conselho Médico-Legal defendeu que o treino pode ter funcionado como fator desencadeante da rutura de uma placa aterosclerótica, mas considerou que a causa primária do enfarte foi uma doença coronária pré-existente e que Casillas não reúne condições para regressar à alta competição.

De acordo com o jornal Público, na primeira sessão do julgamento, realizada em 08 de junho, Iker Casillas afirmou que o enfarte pôs termo à carreira profissional e lhe deixou limitações permanentes. "Não posso correr, consigo uns 20 ou 50 metros. Não dá para mais", declarou então em tribunal.

O julgamento prossegue em 07 de julho.