"Deste grupo do Mundial, 12 já trabalharam comigo"
Primeira coisa que fez como selecionador: "Quis começar com uma entrevista e só podia ser na casa do futebol, na casa da seleção. O meu primeiro dia, depois da apresentação, foi conhecer os cantos à casa por dentro. Quis perceber as dinâmicas e a estrutura desportiva. Olho para a seleção da mesma forma que olho para um clube, há uma estrutura que representa o clube, depois há a estrutura desportiva que eu vou tentar, com o dr. Lourenço Coelho, construir. Não se ganha os jogos só dentro do campo, aí é preciso ter qualidade e carácter, mas fora de campo é preciso ter uma estrutura que te identifique com o processo".
Momentos marcantes nos primeiros dias: "Nem tanto, mais no primeiro dia porque estive a confrontar-me com jornalistas com que estava habituado ao longo da vida. Mais do que motivar, senti o carinho das pessoas. Esta é uma casa muito grande, não conhecia as pessoas. Estou aqui todos os dias, há muita coisa para fazer além do treino e é isso que estou a fazer. Ainda não comecei a falar com jogadores, mas quando for a primeira convocatória, no jogo de 24 de setembro, quero falado com a grande maioria da pré-convocatória".
Como se faz esse contacto?: "Há um contacto pessoal ou telefónico. Se tiver perto, quero fazer o contacto pessoal para falarmos da seleção que é o que me interessa. Não vou ter muito tempo para o primeiro jogo. Tenho uma vantagem: destes 24 jogadores que foram ao Mundial, 12 já trabalharam comigo, há uma ligação e conhecemos as características uns dos outros".
"O preço a pagar"
Disse que se os jogadores querem ganhar têm de aprender a pagar o preço. Qual é o preço?: "É deixar de fazer o que gostam ou gostavam de fazer. Há coisas que, se calhar, querem fazer, mas em relação ao que favorece e é determinante para a equipa, não podem fazer. Vão ter de pagar esse preço. A forma de pensar dos jogadores é a mesma na seleção e nos clubes, depois há quem fique com mais ou menos azia".
Vai explicar o que têm de sacrificar?: "Não direi sacrificar. Para ganhar e ter uma equipa forte, é preciso, para além da técnica e da táctica, ter carácter, união, amizade e compreensão para perceber que não podem jogar todos ao mesmo tempo. São todos importantes, uns mais do que outros, é verdade em todas as equipas".
O que precisa uma grande seleção para ser competitiva: "Não precisa de ser uma grande seleção, é preciso em qualquer equipa. É um princípio que eu defendo: a primeira qualidade de uma equipa é saber defender bem, não é atacar. Falamos de um Mundial com França e Espanha e quem ganhou foi a Espanha porque soube defender melhor e travar a qualidade dos jogadores da França. Passo muito isto para os jogadores das minhas equipas, para conquistar títulos é preciso saber defender bem. Se não defenderes bem vais ganhando uns jogos, mas nunca títulos".
O que podem os adeptos esperar os adeptos?: "Vai ser diferente em relação ao que era. Tenho uma ideia diferente, cada treinador tem as suas, a minha é de sistema. Não há um treinador que diga 'este meu sistema é o melhor', mas o futebol para mim é criatividade, não é uma ciência exata, tem a ver com a criatividade do jogador e do treinador. O que tenho de passar aos jogadores é como devemos defender e como devemos atacar, são dois princípios que parecem fáceis, mas é preciso saber ensinar. Não ensino os jogadores a jogar, mas sim a ter a ideia da minha equipa. Isso é fundamental".
"Partilho o conceito tático de sistema da Espanha"
Que seleção deste Mundial apresenta como exemplo: "Vimos a Espanha a defender muito bem contra a França, houve jogadores que se elevaram nesse jogo, como o Rodri, foi o melhor jogador. A mudança do Pedri pelo Fábian Ruiz foi fundamental para que o meio-campo fosse melhor a defender e mais criativo a atacar. Partilhando a mesma ideia, o conceito tático de sistema, o de Espanha está dentro do que penso. As minhas equipas normalmente jogam assim, mas os jogadores é que me vão dizer o que vou ter de fazer. Não vou aplicar uma ideia que as características dos jogadores não são essas".
Portugal tem potencial para ser um dos melhores meio-campos do Mundo: "Tem potencial para ser um dos melhores. Dizer que é o melhor porque a qualidade individual está lá... mas depois é preciso transportar isso para a tática. Temos de provar que somos os melhores. O meio-campo da Espanha foi o melhor do Mundial, a junção dos dois médios-centro com o Dani Olmo foi perfeita. Na seleção portuguesa há muita quantidade e qualidade para esses setores: se jogarmos com três médios o leque abre, se jogarmos com dois - com um médio posicional que nas minhas equipas costumam ter e outro médio com características ofensivas - o leque reduz para a quantidade e qualidade que há".
Há uns anos disse que o "selecionador não treina, seleciona", mudou de opinião?: "Não mudei de opinião, até porque um treinador é um selecionador do plantel. A primeira qualidade que um treinador tem que ter é escolher os melhores. Vai dar tudo ao mesmo, sendo que num clube tens mais tempo de treino. Há uma diferença entre o treinar e o saber ensinar, há quem treine e há quem ensine. Neste momento, as novas tecnologias dão-nos a possibilidade de treinar teoricamente a equipa sem ser no campo".
Como é que os portugueses podem interpretar a frase "uma seleção a jogar o dobro": "É lógico que, se a seleção não jogar mais do que jogou no Campeonato do Mundo, não vou fazer melhor. Temos que jogar mais, porque se isso não acontecer vamos alimentar um sonho de termos grandes jogadores e não ganharmos muita coisa. Já fomos campeões europeus, há 10 anos, já ganhamos duas Ligas das Nações, é um competição que todos nós achamos que não é muito importante e não é, porque as mais importantes são o Euro e o Mundial. Mas é uma competição difícil porque as grandes equipas europeias chegam à decisão - no ano passado chegaram Portugal, França, Espanha e Alemanha. O que faz a diferença do Campeonato do Mundo para o Euro é que estão lá o Brasil e a Argentina, mais nada".
Mentalidade de ambicionar a títulos como objetivos: "Tive um ano e meio fantástico no Brasil. Só podes pensar em jogar para ganhar, seja nas competições em que estás. Os jogadores dão-te indicação e garantia que isso possa acontecer. A nossa seleção, uma vez que já ganhou o Euro, que tem jogadores nas melhores equipas do Mundo - se são os melhores é outra história. Isso dá-nos uma confiança para poder acreditar que temos todas as condições para ganhar o Mundial e o Euro. Chegámos aos oitavos de final a achar que a equipa podia jogar mais, se não achar que a equipa pode jogar mais, também não passo dos oitavos de final".
"O meu grande foco é o Mundial-2030 em Portugal"
O grande objetivo: "O meu grande foco é o Mundial-2030 em Portugal. Aceitei este projeto porque tenho um grande orgulho de ser treinador da seleção do meu país, mas também havia no horizonte o facto de em 2030 o Campeonato do Mundo ser em Portugal. Temos todas as condições para sonhar com a possibilidade (de o vencer). Nas equipas onde trabalho não tenho outra saída, no Flamengo, no Benfica ou no Sporting, os treinadores dessas equipas não podem dizer 'vamos jogar para ser campeões'. O clube exige que seja assim e a seleção é a mesma coisa. Depois ser ou não ser é diferente, é um jogo".
Primeiros passos na Liga das Nações: "O que me dava jeito na Liga das Nações? O facto da calendarização ser diferente, vamos ter quatro ou cinco jogos seguidos, isso para mim ajuda-me. Vamos ter muito tempo de trabalho e partilha com eles. Os jogos são de três em três dias, há quem jogue e quem não jogue, vamos ter treinos para crescer para o futuro".
Agrada-lhe a mudança na janela internacional com muitos jogos seguidos: "Para mim é melhor, vou estar mais tempo com os jogadores, duas semanas a trabalhar. Quando estava nos clubes, sentia que os meus jogadores vinham das seleções com outras ideias, outra forma de treinar, outra comunicação e isso nota-se logo na primeira jornada. Agora é ao contrário".
Jogo de estreia com País de Gales em casa, mas depois segue-se Noruega e Dinamarca fora. Qual é a solução para enfrentar equipas físicas: "A Noruega eliminou o Brasil, a Dinamarca tem vários jogadores nas melhores equipas da Europa, a Noruega tem o melhor ponta de lança do Mundo. São equipas que conhemos o valor, a questão física coloca-se, mas não é isso que me vai fazer pensar na ideia de jogo da equipa. A condição física tem influência em determinados momentos do jogo, mas a condição técnica e o conhecimento tático do jogo dão vantagem em relação a isso".
"Os jogadores têm de ter estatutos diferentes, mas regras iguais"
Desvalorizar egos na seleção: "O carácter da seleção é vencedor. Os jogadores que fazem parte têm de partilhar esse carácter uns com os outros e apresentarem-se como uma equipa competitiva. Não basta ter os melhores jogadores ou o melhor treinador, é preciso ter carácter. Esse é o momento do jogo que é muito importante e só se consegue quando a equipa está unida e não põe à frente os interesses individuais aos coletivos".
Convocatórias fixas ou dependendo do momento de forma: "Vai depender do momento. Não vou mudar muitos jogadores porque ficamos pelos oitavos de final, não sou burro. Não tenho tanto tempo assim para mudar vários jogadores que não foram convocados e também não há assim um leque muito grande, mas nos próximos quatro anos vão aparecer. De um mês para o outro não vai fugir muito aos que já foram convocados, pode haver dois ou três jogadores novos".
Jogadores devem ter todos o mesmo estatuto?: "Eu não penso apenas na seleção, como nos clubes. Os jogadores têm de ter estatutos diferentes, têm é de ter todos regras iguais. Mas há jogadores que têm de ter estatutos diferentes e os colegas têm que saber que são jogadores diferentes - pelo seu passado, pela importância que têm, etc. Mas as regras têm de ser iguais para todos".
Margem para jogadores que não estejam a 100%: "Isso é subjetivo, se não estiverem a 100% não os posso convocar. Só os ponho a jogar se estiverem a 100%. Na seleção tens mais qualidade, é mais nivelada, vai depender do momento e da forma do jogador".
Tem mais familiaridade por ter passado em três dos quatro grandes clubes portugueses: "Com os clubes sim, todos os clubes que fizeram de mim treinador devem estar orgulhosos de ser selecionador português. O Amora, por exemplo, devem estar orgulhosas. Treinei e joguei em várias equipas em Portugal e essa aproximação do selecionador ao povo é boa".
Falar com presidentes e treinadores: "Com os presidentes não, com os treinadores sim. Muitas vezes os selecionadores falavam comigo, o Martínez por exemplo falou comigo por causa do Rúben Neves, quando estava no Al Hilal, e no Al Nassr, por causa do João Félix e do Cristiano Ronaldo".
Treinadores saem da seleção desprestiagiados por serem defensivos. Preparado para enfrentar crítica?: "Quando falo em ser bom defensivamente tem a ver com a ideia de jogo. Uma coisa é ser defensivo com muita gente, outra coisa, que é o difícil, é saber defender com poucos. A partir dessa ideia, tens a equipa muito mais preparada para ser forte ofensivamente".
"No dia em que não estiver nervoso é porque alguma coisa está mal"
Alguma preocupação no cargo?: "Acredito na qualidade dos jogadores e na minha como treinador. A minha preocupação é colocar a equipa a jogar ao nível que eu acho que a equipa tem qualidade. Não tenho dúvidas do que vou fazer. Tenho mais certezas do que dúvidas, mas dúvidas há sempre. Quando se trabalha com excesso de qualidade ainda pode criar mais dúvidas".
Referência na equipa técnica: "Sim, em todas as equipas onde trabalhei, mesmo no estrangeiro, quero sempre um antigo jogador da equipa. Na seleção a ideia é essa, encontrar alguém que tenha sido jogador da seleção, que possa fazer parte da minha equipa técnica dentro das ideias que ele vai aprender porque as ideias são minhas. Não vou buscar alguém para estar ao meu lado, para marcar o campo e meter cones. É para fazer parte do trabalho".
Aos 71 anos ainda fica nervoso?: "Fico nervoso com os jogos, mas isso faz parte da minha formação como jogador. Durante os jogos estou mais ou menos tenso conforme o que vejo da equipa. No dia em que não estiver nervoso é porque alguma coisa está mal, é porque o meu amor ao jogo não está igual e aí já não serei treinador".
Ainda há margem para surpreender?: "O futebol está sempre a evoluir, quem pensa que não tem nada para aprender engana-se. No futebol não há direitos de autor, se houvesse era muito complicado para alguns treinadores. Há os que são criadores e outros que copiam. O facto de, o Campeonato do Mundo, ter dois descontos de tempo, cria-se um jogo partido. A evolução vai por aí, entras com um sistema de jogo e se não estiver a funcionar, mudas as coisas a partir desse desconto de tempo. Os treinadores que perceberem isso vão ter vantagem".
Possibilidade de cinco substituições mudaram o seu método?: "Sim, porque dá para fazer o que eu faço sem ter descontos de tempo, quando lanças cinco jogadores mudas metade da equipa. Aí podes mudar, não só o jogador que não está a render tecnicamente, mas também a estratégia durante o jogo. É uma defesa do treinador de forma a poder gerir o grupo, são outros cinco que também jogam. Há treinadores que não gostam de fazer as cinco substituições, como o Pep Guardiola, eu quando posso fazer faço, principalmente quando há um grupo de qualidade. Quando tens um gruo reduzido, fazes duas. Mas acho que ajuda".
"Não sou o mesmo Jorge Jesus de quando tinha 40 anos"
Na apresentação disse que se preparou "a vida toda" para ser selecionador. Como se preparou?: "Toda a gente diz que o selecionador tem mais tempo para fazer outras coisas, eu acho que não é bem assim, há sempre muito para trabalhar com a equipa técnica, criando ideias e foi isso que eu tentei nos últimos dois anos. A partir do momento em que voltei para a Arábia Saudita, eu fui para treinar a seleção e não o Al Hilal. As coisas estavam definidas e o team manager do Al Hilal, que já tinha trabalhado comigo, convidou-me e eu abanei um pouquinho, mas comecei a preparar-me a partir desse dia. Ainda houve a hipótese de treinar a seleção do Brasil e comecei a pensar que o meu futuro teria que ser uma seleção e se fosse a seleção portuguesa, seria a cereja no topo do bolo".
O que faltou no Brasil neste Mundial?: "O Brasil é um pouco parecido. Eu digo que Portugal é o Brasil da Europa. Porque há muita qualidade individual, mas quando se chega aos campeonatos... O Brasil é o país com mais títulos, é o passado, mas há quanto tempo não ganham? Têm sempre grandes jogadores, mas não consegue mfazer uma grande seleção. Portugal também, não esquecendo que fomos campeões europeus".
O que teria feito?: "Posso confessar: acabei por não ir treinar a seleção do Brasil, mas já tinha indicações para fazer a pré-convocatória para o jogo de março, depois de terem perdido com a Argentina. O Brasil tem muitos bons jogadores e há muita qualidade no campeonato brasileiro. Teria feito uma convocatória diferente num ou outro jogador, até porque acho que o melhor ponta de lança brasileiro é o Pedro (do Flamengo). Teria convocado dois ou três jogadores diferentes, mas na grande maioria concordava com o que fez. Depois, o cunho pessoal e a forma de treinar ou olhar para o jogo é que faz a diferença. A forma de cada treinador olhar para o jogo e conseguir implementar as ideias do jogo - que não é só atacar e defender - é que faz a diferença".
O que diria aos jogadores não convocados e aos convocados que possam ter receio de perder lugar: "Como treinador, se sentir que há um problema que possa ter com um jogador, mas se sentir que esse jogador é fundamental, para mim o mais importante é a equipa não perder nenhum jogador por causa disso. Há jogadores que também podem pensar que eu já não os vou querer convocar por coisas do passado, mas felizmente não tive muitos problemas dessa ordem, mas qualquer treinador tem. Muitas das vezes é preciso bater com suscetibilidades, interesses e opiniões diferentes, mas isso faz parte. Tento sempre escolher os melhores para a equipa. O jogador nunca vai aceitar isso porque o treinador vê de uma forma e o jogador de outra. Só vão perceber no dia em que forem treinadores".
Ter trabalhado em três dos quatro grandes: "Penso que essa é a minha grande vantagem, ter trabalhado com alguns jogadores. Apesar de já terem passado muitos anos e de estar diferente, não sou o mesmo Jorge Jesus de quando tinha 40 anos. Hoje sou muito mais tolerante e pensador em relação a momentos que possam haver entre treinador e jogador".
