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70,7 graus de latitude norte, em Hammerfest, "a cidade mais setentrional do mundo". Ou seja, a cidade mais a norte do planeta. Foi aí que tudo começou para Marcus Holmgren Pedersen. Em Hammerfest, cidade do Finnmark situada à beira do Ártico, onde o sol não se põe de maio a julho e não volta a nascer de novembro a janeiro. Uma cidade com 11 000 habitantes, a milhares de quilómetros de qualquer grande palco futebolístico.
Foi a partir desta cidade austera que subiu todos os degraus até se tornar jogador da seleção norueguesa e disputar um Mundial. No passado dia 23 de junho, frente ao Senegal, Marcus Holmgren Pedersen não estava previsto jogar. Entrou aos treze minutos para substituir um Julian Ryerson lesionado, e o lateral-direito do Torino inaugurou o marcador numa vitória por 3-2 que apurou a Noruega para os oitavos de final. Um golo histórico: nunca um jogador nascido tão a norte tinha marcado num Mundial.
O próprio Pedersen ainda tem dificuldade em acreditar. "É difícil explicar o que me passou pela cabeça. Foram tantas emoções e tanta adrenalina. Nem me lembro", confessou à VG a partir de Greensboro.

A noite polar como campo de treino
Marcus Holmgren Pedersen nasceu e cresceu em Hammerfest. A cidade, situada na ilha de Kvaløya, é famosa pelas auroras boreais, pelo sol da meia-noite e pela noite polar. Este último fenómeno marcou especialmente Pedersen, afetando os seus jogos de futebol com os amigos, como contou na apresentação no Torino: "É muito frio, temos dois meses em que vivemos totalmente na noite. Acordas e está escuro, vais para a escola e está escuro, voltas para casa e continua escuro... Sempre noite. Mentalmente é difícil porque os teus níveis de energia baixam."
Mas no verão, Hammerfest transforma-se. De 16 de maio a 26 de julho, o sol nunca se põe. Para o jovem Marcus e os seus amigos, era um convite constante para jogar à bola, a qualquer hora. "Podes jogar sempre ao ar livre, recorda na ELF Voetbal. Quando tinha quatro ou cinco anos, já dizia que queria ser futebolista profissional. Era o meu sonho. Ainda hoje, os meus amigos e a minha família lembram-me dessas palavras. Acham bonito eu ter conseguido concretizá-lo."
Das pistas de sprint aos relvados
Antes de se dedicar totalmente ao futebol, Pedersen passou pelo atletismo, especializando-se nos 60 metros desde os 3-4 anos, uma disciplina que claramente deixou marcas no seu perfil de lateral explosivo. O seu pai, Rudolf, tinha outros planos para ele. "O meu pai era um bom esquiador e queria que eu seguisse os seus passos. Incentivou-me a ter aulas. Frequentei-as. Até correu bem. Gostava ainda mais de snowboard. Também tinha talento para isso. Mas o futebol era o que eu mais gostava", contou à ELF Voetbal. Os amigos acabaram por decidir: "Os meus amigos jogavam futebol, isso pesou certamente na minha escolha."

Deixar o grande norte
Para tentar ser futebolista, não tinha alternativa: tinha de sair de Hammerfest. No Finnmark, não existe nenhum clube capaz de formar jogadores ao mais alto nível. Aos 15 anos, Pedersen fez as malas e foi para Tromsø e para a Escola Norueguesa de Desporto de Elite, integrando de imediato o centro de formação do Tromsø IL. Uma saída difícil, assumida com o apoio dos pais. "Tive de sair de casa aos 15 anos para ir para a Sport School, não foi fácil mas os meus pais sempre me apoiaram", contou ao Torino FC. O pai, Rudolf, que o treinou dos 6 aos 15 anos, dá-lhe franqueza; a mãe, carinho. "Se quero ouvir coisas positivas ligo à minha mãe, se quero uma opinião honesta, o meu pai diz-me exatamente o que pensa."
Formado como número 9 em pequeno, antes de ser adaptado a extremo-direito e depois a ala, Pedersen acabou por fixar-se como lateral-direito, embora admita sem problemas: "Diria que sou melhor como ala." Uma polivalência que diz muito sobre a sua capacidade ofensiva, ele cuja velocidade explosiva é hoje uma das suas marcas de referência. Em 2018, ao serviço do Tromsø IL, tornou-se o primeiro natural de Hammerfest a jogar na Eliteserien, a elite norueguesa. "Isso deixa-me orgulhoso, e sinto o mesmo nos habitantes", disse à ELF Voetbal.
Pôr Hammerfest no mapa
Apesar dos anos passados em Molde, Roterdão e Turim, Hammerfest continua gravada em si. "É uma cidade pequena, toda a gente se conhece. É o sítio onde cresci, que moldou a minha personalidade. Gosto sempre de voltar a casa, os meus amigos de infância continuam lá. Tem um lugar especial no meu coração", disse ao Torino FC. Esses amigos de infância foram os primeiros a quem quis ligar depois do golo frente ao Senegal. "São eles a quem faço questão de responder primeiro, porque estiveram comigo desde pequeno e acompanharam-me em todo o percurso. Merecem-no. Acho que é tão surreal para eles como para mim", confessou à VG.
Cada regresso ao país é sempre uma experiência especial: "A aterragem é sempre stressante, dá uma sensação de perigo. O aeroporto de Hammerfest está construído numa montanha. Por causa dos ventos fortes, há sempre grandes turbulências em cada voo. O avião abana antes de aterrar, e a pista também é muito curta. Fico sempre aliviado quando o avião toca o solo em segurança."
O orgulho é mútuo. Em Hammerfest, o presidente da câmara Terje Rogde, que estava de férias em Espanha no momento do golo, viu o seu telemóvel a explodir de mensagens. "Somos de uma cidade pequena e estamos habituados a ser um pouco ignorados. Quando isto acontece, une o país e coloca-nos no mapa. Agora toda a gente fala de Hammerfest e sabe onde fica", declarou à VG.
"Quando vens de Hammerfest, o mundo parece imenso e tudo parece muito longe, acrescenta Pedersen. Isso mostra que é importante ter coragem para sonhar alto e trabalhar muito para o conseguir. Olha para esta equipa. Há pessoas de todo o lado. Mostra apenas que é possível chegar lá se realmente quisermos."
Mundial-2026
O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.
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