Mundial-2026: 1248 jogadores, 16 marcas e a batalha milionária pelo domínio das chuteiras

Batalha de marcas no Mundial-2026
Batalha de marcas no Mundial-2026MATTHIEU MIRVILLE / MATTHIEU MIRVILLE / DPPI VIA AFP

O site especializado Footpack realizou um trabalho titânico ao listar o equipamento escolhido pelas 48 seleções presentes no Mundial e pelos 1248 jogadores em competição no continente norte-americano. Por detrás destes simples dados estatísticos, esconde-se sobretudo uma dura batalha entre fabricantes de equipamentos que lutam por quotas de mercado no maior palco internacional.

Os apaixonados pelo marketing desportivo vão sempre além do simples confronto entre duas equipas, ainda mais nos jogos do Mundial. Também aí, contam-se os pontos virtualmente conquistados pelos publicitários, anunciantes, detentores de direitos televisivos e, acima de tudo, pelas marcas de desporto. Em casa, a Nike mantém-se como a marca líder do mercado em número de jogadores equipados com as suas chuteiras de acordo com o estudo da Footpack. A atravessar um período delicado, a empresa sediada no Oregon vê, no entanto, a diferença para a Adidas, que recupera o seu esplendor, diminuir drasticamente. Foco nos ensinamentos deste estudo XXL.

Póquer de ases para a Nike

O estudo da Footpack vem confirmar aquilo que já se percebia no ecrã. Pelo quarto Mundial consecutivo, o gigante americano é a marca que equipa mais jogadores. 534 jogadores usam as suas chuteiras (42,79% do total) contra 496 da Adidas, colada aos calcanhares do anfitrião (39,74%). Atravessando um ano de 2025 financeiramente difícil, a PUMA consola-se ao manter o seu lugar histórico no pódio internacional, ultrapassando por pouco a fasquia dos dois dígitos (125 jogadores - 10,02%).

A Nike mantém a sua posição, mas a diferença no topo está a diminuir e esse símbolo é evidente depois de a Adidas se ter tornado a marca mais usada pelos jogadores dos cinco principais campeonatos europeus esta época. O símbolo é forte, mas ao analisar os números, o cenário é bem mais preocupante para a empresa americana… Em apenas dois Mundiais, perdeu mais de 20% de quota (62,8% em 2018, 42,79% este ano). Por sua vez, a Adidas ganha 6%, enquanto o seu vizinho histórico de Herzogenaurach cai 2,5% após o crescimento notório entre 2018 e 2022 (+7,55 para a PUMA).

A corrida pelo título mundial também é marketing.
A corrida pelo título mundial também é marketing.Photo by IC / IC PHOTO / IMAGINECHINA VIA AFP

Esta mudança de tendência sente-se claramente num dado mais preciso do estudo da Footpack: é um modelo Adidas o mais usado nos relvados norte-americanos.

F50 à frente da Mercurial

O domínio do pódio é tal que 1155 dos 1248 jogadores presentes no Mundial usam Nike, Adidas ou PUMA. Apenas 93 jogadores optam por outras marcas, embora estas, graças a parcerias estratégicas, consigam uma visibilidade relevante. É o caso da Under Armour com Achraf Hakimi, da New Balance com Bukayo Saka ou ainda da Skechers com o inevitável Harry Kane.

Entre os jogadores sob contrato com a marca das três riscas, a nova F50 é a mais escolhida, até à frente da Predator. Ousmane Dembélé, Lamine Yamal ou Lionel Messi são os principais rostos de um modelo usado por nada menos que 228 jogadores. São apenas mais 15 do que a Mercurial da Nike, cujos maiores embaixadores são Kylian Mbappé e Cristiano Ronaldo.

A Tiempo da Nike usada nomeadamente por Musiala, Saliba e Van Dijk
A Tiempo da Nike usada nomeadamente por Musiala, Saliba e Van DijkPhoto by DARRIAN TRAYNOR / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP

Esta análise foca-se nos modelos mais recentes, pois ao contar também os produtos antigos, é a Mercurial da Nike que lidera este ranking alternativo. A Footpack revela que um em cada quatro jogadores usa o modelo lançado com base na Tiempo Ultra Light, para Ronaldo, em 1998. Na verdade, 97 jogadores continuam a utilizar o modelo antigo, mais do que o número de jogadores que usam chuteiras fora do Big Three.

A batalha faz-se também nas camisolas

Primeiro Mundial da história com 48 equipas, a competição com o selo “We are 26” oferece, em teoria, muito mais espaço a novos protagonistas. Mas não se pode ignorar o apetite voraz do pódio histórico, onde a PUMA detém uma posição bem mais relevante do que no segmento das chuteiras.

Com 14 seleções e designs que chamaram a atenção de revistas especializadas como a GQ, a Adidas lidera o ranking dos contratos com federações. A Nike, mais ousada do que no passado ao integrar a Air Jordan para o Brasil ou ao apostar na ligação franco-americana para a “3F”, surge logo atrás com 12 seleções. É mais uma do que a PUMA, que continua a apostar forte em África e no contrato de peso com Portugal, um dos favoritos deste verão.

A abundância do rosa como mera coincidência

Desde o início do Mundial e com o debate constante em torno destas chuteiras maioritariamente rosas nos relvados, têm surgido todo o tipo de teorias, algumas até contadas como histórias. Por vezes, são as próprias marcas que, fiéis à sua bandeira e ao evidente interesse de marketing, não hesitam em associar a cor rosa a certos valores ou qualidades que se gostaria de ver nos 1248 participantes do Mundial. Do outro lado do Atlântico, um responsável de produto da Nike chegou mesmo a afirmar à The Athletic que a escolha do rosa respondia a uma questão mental, feita para destacar o jogador que usasse essas chuteiras, conferindo-lhe uma vantagem psicológica sobre os adversários…

Contactada, uma gestora de produto do setor desportivo vê as coisas de forma bem mais pragmática. Como os modelos e as suas cores são desenvolvidos internamente muitos meses antes do lançamento oficial, ou até vários anos no caso de eventos tão marcantes como um Mundial de futebol, o testemunho recorda algo factual. No futebol, como noutros desportos ou no universo lifestyle, todas as marcas recorrem a agências de tendências para se basearem, nas próximas épocas, nas cores e padrões que consideram que vão marcar o momento analisado. É muito provável que Nike, Adidas, PUMA e outras recorram às mesmas agências e que a explicação para esta vaga de rosa seja bem mais simples do que uma filosofia sobre a representação ou significado de uma cor no retângulo, que continua tão verde como sempre.

FIFA e Adidas, um contrato à parte e uma presença reforçada para a marca alemã

O contrato é histórico, pois celebrará 60 anos em 2030. Este acordo, iniciado no México com a criação da agora mítica Telstar, atravessou mesmo períodos turbulentos. Para além da simples criação da bola de couro, o contrato inclui também os direitos de utilização das marcas Mundial da FIFA e o equipamento dos árbitros, que veem, pela primeira vez nesta edição de 2026, os seus nomes no colarinho do uniforme.

O árbitro francês Clément Turpin em conversa com Luka Modric
O árbitro francês Clément Turpin em conversa com Luka ModricPhoto by CHARLOTTE WILSON / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP

Esta presença reforçada recorda indiretamente a renovação da marca, impulsionada por escolhas acertadas nos últimos anos. Os historiadores do desporto e do marketing não deixarão, e com razão, de recordar as zonas de sombra que envolvem este acordo financeiro, cujo valor anual nunca foi oficialmente divulgado desde os anos 70.

O Mundial de 2006, disputado na Alemanha, casa da Adidas, revelou um novo conflito quanto à atribuição da competição, possivelmente forçada por um Robert Louis-Dreyfus (dirigente entre 1993 e 2007), enquanto em 2015 a marca das três riscas ameaçou romper após o escândalo de corrupção na FIFA. Onze anos depois, e apesar destas turbulências, a Adidas continua presente e recupera terreno face ao seu principal rival mundial. Pressionada pela nova estratégia da adidas, a Nike tomou recentemente decisões fortes e ousadas para contrariar os planos adversários, como o acordo para a bola da Liga dos Campeões ou a onda mediática provocada pela futura saída da Mannschaft da adidas, após uma relação de mais de 70 anos. Sem mais Trefoil ou três riscas, será o Swoosh a adornar o peito direito dos jogadores e jogadoras da seleção alemã a partir de 2027.