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"Temos de informar os jogadores sobre o que a Áustria e a Alemanha fizeram no Mundial-1982. A desforra desportiva é necessária". Com estas palavras, proferidas ao site Dzair Tube, o antigo ídolo dos Fennecs Lakhdar Belloumi fez eco do sentimento geral que predomina no seu país. Nenhum dos 26 membros da equipa atual tinha nascido quando esse jogo, o seu desenrolar, o seu desfecho e as suas consequências, geraram polémica e depois escândalo. Mas, na verdade, todos conhecem a história, todos sabem que a ferida continua aberta.
Recue-se no tempo. Depois de surpreender o mundo ao vencer a Alemanha Ocidental (2-1) – primeira vitória de uma seleção africana sobre uma europeia num Mundial – a Argélia perdeu (2-0) frente à Áustria, e depois bateu o Chile (3-2). Para poder avançar para a fase seguinte, precisava de contar com um empate ou uma derrota dos alemães frente aos austríacos, ou então uma vitória da RFA por três golos de diferença, no último jogo do grupo 2.
Nada disto aconteceu a 25 de junho, em Gijón. Após o golo inaugural de Horst Hrubesch aos 11 minutos para a Alemanha, os jogadores das duas equipas limitaram-se a trocar passes sem procurar atacar, sob os assobios do público. Nas bancadas, agitavam-se notas de pesetas no ar, gritava-se corrupção. O resultado, 1-0 para a RFA, qualificava ambas as equipas para a fase seguinte e eliminava assim a Argélia, vítima deste acordo grotesco.
"Vergonha", "Schande"
Em direto na televisão francesa, Michel Denisot, no comentário, denunciou um "jogo da vergonha". Uma palavra, "schande", também foi dita no canal alemão pelo seu colega da ARD, Eberhard Stanjek. Do lado argelino, o presidente da federação, indignado, condenou uma paródia de jogo. 44 anos após a anexação da Áustria pela Alemanha nazi em 1938, um jornal espanhol chegou mesmo a apelidar o encontro de "Jogo do Anschluss"...

Logo após o jogo, o lateral da RFA Paul Breitner vociferou: "O público é estúpido se não percebe que se tratava apenas de garantir a qualificação." "Isto é um insulto!", indignou-se o seu selecionador Jupp Derwall quando se falou num acordo.
"Claro que jogámos de forma tática hoje! Mas se, por isso, 10.000 filhos do deserto querem provocar um escândalo, isso só mostra que não foram suficientemente à escola. Eis que um xeque sai de um oásis, tem o direito, pela primeira vez em 300 anos, de sentir o ambiente de um Mundial, e acha que agora pode vir para aqui armar-se em importante", disparou Hans Tschak, chefe da delegação austríaca, acrescentando o racismo ao insulto.
Desde então, os ânimos acalmaram-se, mas o ressentimento argelino permanece. "Parecia mais um jogo amigável do que um encontro de Mundial. Infelizmente, foi a Argélia que pagou o preço. Já esperávamos que estas duas equipas se entendessem. Depois disso, a FIFA alterou as regras para evitar futuros acordos", recorda a antiga estrela dos Fennecs Rabah Madjer à AFP.
A Argélia tinha, de facto, defrontado o Chile na véspera desse Áustria-Alemanha. A partir do Mundial seguinte, em 1986, os dois últimos jogos de cada grupo passaram a disputar-se no mesmo dia e à mesma hora. Uma programação que ainda se mantém.
"Pacto de não agressão"
Do lado alemão, com o tempo, as línguas soltaram-se, incluindo a de Paul Breitner, muito mais disposto a admitir os factos em 2006: "A certa altura, cada equipa começou a gerir o resultado".
"Compreendo o desagrado dos argelinos, porque parecia mesmo tudo combinado. A meio da segunda parte, o jogo tornou-se impossível de ver. Foi um verdadeiro pacto de não agressão", confessou o antigo defesa Karl-Heinz Förster em 2007.

"Digamos que foi um acordo parcial", tentou relativizar à AFP o ex-guarda-redes austríaco Friedrich Koncilia. "Os adeptos perceberam que havia uma espécie de 'cessar-fogo' entre a Alemanha e a Áustria – um termo mal escolhido, pois há tantas guerras a decorrer atualmente... Eu diria antes que tínhamos combinado não perder por mais de 2-0".
"O que aconteceu foi, claro, doloroso, mas assimilámo-lo bem. Suponhamos que tivéssemos defrontado a Tunísia, o Marrocos ou outro país árabe; se estivéssemos no lugar da Alemanha e da Áustria, teríamos feito o mesmo", arriscou o antigo avançado Salah Assad, também em declarações à AFP.
Assim, porque a história gosta por vezes de se repetir, há uma certa ironia em constatar que, 44 anos depois, um empate entre argelinos e austríacos permitiria a ambas as equipas chegar aos 16 avos de final.
Mundial-2026
O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.
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