Recorde as incidências do encontro
A procissão em direção ao emblemático Obelisco, epicentro das celebrações no centro da capital argentina, começou imediatamente após o apito final. "Quem não salta é inglês!", cantavam e saltavam todos em uníssono.
O jogo estava carregado de simbolismo.
Argentina e o Reino Unido travaram em 1982 a guerra das Malvinas, cuja soberania Buenos Aires reclama, e quatro anos depois Diego Maradona eliminou a Inglaterra nos quartos de final do Mundial do México com dois golos que ficaram para a história: a polémica Mão de Deus e o célebre Golo do Século.
No final de um encontro que para muitos argentinos tinha tanta importância como uma final, desconhecidos abraçaram-se, os condutores fizeram soar as buzinas, a avenida 9 de Julho ficou pintada de azul e branco e até se assistiu a pelo menos um pedido de casamento num bar do centro da cidade.
As antes intimidantes barreiras anti-motim que a polícia tinha colocado mais cedo para evitar que a multidão perdesse o controlo já não eram visíveis entre tantos corpos albicelestes.
"Todos os jogos acontece-nos o mesmo. Lutamos até ao fim e acabamos por ganhar. É incrível o que se pode alcançar", disse Fabián Sidotti, um comerciante de 37 anos, com duas bandeiras argentinas pintadas nas faces.
"Até ao último minuto pode acontecer qualquer coisa", acrescentou. Mas olhando para a final de domingo frente à Espanha, pediu para não subestimarem o adversário e para "apoiar até ao último minuto, aconteça o que acontecer".
"Impressionante"
Perto dali, junto ao histórico Teatro Colón, alguém lançava fogo de artifício. O som dos bombos misturava-se com o cheiro a pólvora e o cântico dos adeptos.
Um jovem subiu a um semáforo para agitar a bandeira. Em baixo, a multidão incentivava-o com o hino deste Mundial-2026: "Pelas Malvinas, pelo Diego, pela última do Leo...".
Entretanto, numa fan zone que reuniu milhares de pessoas, voaram água e cerveja pelo ar durante as celebrações. "Agora vou a pé até à 9 de Julho", disse um adepto ao seu grupo de amigos, iniciando a caminhada de sete quilómetros até ao Obelisco.

Em vários pontos da cidade, os autocarros avançavam cheios de adeptos, que faziam tremer os veículos com os seus saltos anti-ingleses, e as carruagens do metro chegavam às estações a apitar.
"Foi impressionante este jogo e este resultado. A felicidade que isto me dá", disse à AFP Rogelio Díaz, um produtor agrícola de 30 anos.
"Contra a Espanha tenho toda a fé na seleção. Sofre-se sempre, todos os jogos sofri, mas que continue assim, que merecemos outro Mundial", acrescentou.
O jogo de Gladys
Mais a sul, no bairro de Caballito, um vizinho envolto dos pés à cabeça numa bandeira argentina gritava numa esquina: "As Malvinas são nossas, o Mundial também! Olé, olé, olé, Messi, Messi!".
Quando o jogo ainda estava 1-0 a favor da Inglaterra, Gladys, uma reformada de 70 anos que via o jogo num pequeno bar perto do Obelisco, empurrava imaginariamente a bola para a baliza adversária fazendo um leve gesto com uma mão, enquanto com a outra tocava numa fotografia de Maradona colada à parede.
"Internamente, isto funciona comigo", contou à AFP. "Além disso, há uma carga subjetiva importante neste jogo", acrescentou, numa alusão a Maradona e às Malvinas.
O golo de Anthony Gordon, aos 55 minutos, interrompeu de repente os cânticos no bar. O tambor que antes não parava, deixou de soar. Fez-se um silêncio absoluto e só se ouviu um talher a bater num prato. Vários levaram as mãos à cabeça.
Gladys, que não quis dizer o apelido, continuou a empurrar a bola imaginariamente durante todo o jogo, enquanto o relógio avançava e o resto da bancada franzia o sobrolho e olhava para o televisor com preocupação.
No final do jogo, quando todos no bar se abraçavam como se se conhecessem, Gladys manteve a mesma serenidade.
"Estou tranquila, porque eu sabia que íamos ganhar", disse. "E com a Espanha também vamos ganhar", concluiu.
Mundial-2026
O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.
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