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Por isso, quando Inglaterra abrir o seu Mundial frente à Croácia na noite de quarta-feira, Kirkland não está à espera de uma exibição de manifesto por parte da equipa de Thomas Tuchel – pelo menos para já. Os jogos de abertura dos torneios são, muitas vezes, para sobreviver, controlar e, idealmente, vencer sem que toda a nação precise de uma sessão de terapia de grupo no final.
"Para mim, o primeiro jogo é só sobre o resultado", afirma Kirkland em exclusivo ao Flashscore.
"Se me dissesses que a Inglaterra ia ganhar o Mundial, mas que não seria o futebol mais bonito de se ver, aceitava. Se me dissesses que iam jogar um futebol brilhante e entusiasmante, mas não o ganhavam, não preferia isso. O que se quer é levantar o Mundial", acrescentou.

Isto não é um apelo para que os Três Leões se fechem sobre si próprios, nem uma aceitação de futebol sem alegria. É simplesmente a primeira regra dos torneios, uma lição que a Inglaterra aprendeu muitas vezes da pior forma: o jogo inaugural é uma armadilha potencial. Evitar cair nela e tudo o resto deverá tornar-se mais fácil.
Croácia será "um teste do diabo"
A Croácia, naturalmente, é um adversário complicado para começar. Já não tem a força de 2018, mas continua tecnicamente segura, taticamente incómoda e experiente o suficiente para obrigar a Inglaterra a trabalhar durante longos períodos sem conceder muitos momentos de controlo limpo. Ainda ocupa o 11.º lugar do ranking mundial da FIFA.
"Vai ser um teste do diabo", diz Kirkland.
"Gostavas de um jogo um pouco mais fácil? Claro que sim. Mas a Croácia tem sempre jogadores tecnicamente muito bons. Sentem-se à vontade com a bola, mantêm-na, fazem-na circular e têm jogadores que podem marcar. É vital que a Inglaterra comece bem. Se perdes o primeiro jogo, ficas logo em dificuldades", acrescentou.
A conversa óbvia à volta da Inglaterra continua a ser sobre o ataque. Os golos de Harry Kane, a condição física de Bukayo Saka, o papel de Jude Bellingham, a forma de Morgan Rogers e a objetividade de Anthony Gordon.
O meio-campo é a chave
Mas, para Kirkland, o ponto fulcral do Mundial da Inglaterra será Declan Rice e Elliot Anderson.
Talvez não sejam o par mais mediático. Mas frente à Croácia, e depois contra as seleções de topo caso a Inglaterra lá chegue, podem ser a diferença entre uma equipa com avançados entusiasmantes e uma equipa com verdadeira estrutura de torneio.
"Acho que Anderson e Rice são fundamentais", afirma Kirkland.
"Têm de proteger a linha defensiva. Um deles tem de proteger. O Anderson tem estado excecional e o Rice é absolutamente crucial", explica.
"Os golos dão-te torneios, sim, mas defensivamente, esses dois têm um papel enorme a desempenhar. Vão ter muito trabalho e vai ser difícil para eles. Se estiverem em grande forma e a jogar bem, a Inglaterra tem uma verdadeira hipótese", acrescenta Kirkland.
Esse ponto é importante porque o maior argumento da Inglaterra neste Mundial é também a sua maior tentação. A equipa de Thomas Tuchel tem qualidade ofensiva suficiente para acreditar que a solução é simplesmente tentar marcar mais.
Vulnerável atrás?
Mas raramente se ganham torneios só por encaixar mais um jogador de luxo no onze e esperar que a organização defensiva perdoe. A visão de Kirkland é clara: a Inglaterra tem avançados para causar estragos a qualquer adversário, mas as suas hipóteses dependem de conseguirem manter-se sólidos atrás.
"Para ganhar torneios, defensivamente tens de ser o melhor", diz.
"Seja na Premier League, na Taça de Inglaterra ou na Liga dos Campeões, normalmente a equipa mais sólida defensivamente é a que vence. A Inglaterra tem de ser sólida. Tem de manter balizas invioladas. É preciso que o Harry Kane esteja inspirado, mas também é preciso que os jogadores atrás dele contribuam. Não se pode depender só do Harry, mesmo sendo ele um fenómeno com os golos que marca", acrescenta.

A preocupação de Kirkland, naturalmente para um antigo guarda-redes, é a unidade defensiva da Inglaterra. Gosta das opções, mas a condição física e a continuidade são o problema. Reece James tem de se manter disponível. John Stones, se for escolhido, precisa de ritmo. Marc Guehi e Ezri Konsa podem ter de crescer rapidamente no torneio. Jordan Pickford, como sempre, tem de ser o adulto na sala, mesmo quando parece zangado o suficiente para incendiar a casa toda.
"Esperas que o Reece James se mantenha em forma", diz Kirkland.
"Esperas que o Pickford se mantenha em forma. Temos guarda-redes excecionais, mas o Pickford tem sido brilhante pela Inglaterra. Depois olhas para os centrais. Se o John Stones jogar, esperas que se mantenha em forma. O Guehi também, o Konsa se jogar. Não queres estar a mudar essa unidade defensiva ao longo do torneio, se puderes evitá-lo", acrescenta.
Kirkland também teria levado Trent Alexander-Arnold.
"Vi o Trent no Liverpool durante muitos anos", diz.
"As pessoas rotulam-no defensivamente, mas a qualidade que traz com bola é enorme. O seu leque de passes, as bolas paradas – foi isso que o Liverpool sentiu falta na época passada. Eu teria levado o Trent sem hesitar. Mil vezes. Maguire é outro. Provavelmente não vai ser titular, mas marca golos e podes lançá-lo para lances de bola parada. Luke Shaw também – eu teria levado. Joga sempre bem pela Inglaterra", defende.
Tuchel, "o homem certo para o cargo"
É aí que o primeiro torneio de Tuchel se torna interessante. A Inglaterra de Southgate foi muitas vezes acusada de ser cautelosa, por vezes com razão. Tuchel chega com uma reputação diferente: decisões mais arrojadas, menos sentimentalismo.
Kirkland vê nele o perfil certo para um grupo que já não precisa de ser convencido de que pertence às fases finais dos torneios – precisa é de ser puxado até ao fim.

"Acho que é o homem certo", afirma Kirkland.
"O Gareth era alguém que tinha jogado, que conhecia os grupos da seleção, e como jogador queres ser tratado da melhor forma. O Tuchel, penso eu, é um pouco mais implacável. Não tem medo de tomar grandes decisões. O Gareth também não tinha medo, mas o Tuchel parece muito focado no que é melhor para a equipa e para o grupo, e em como chegar ao fim e ganhar um grande troféu. Mas com os selecionadores ingleses, tudo se resume sempre aos resultados. O Tuchel será julgado pelo que a Inglaterra fizer", defende.
Pickford consistente
Kirkland é também um grande defensor de Jordan Pickford, do Everton, com quem trabalhou no Preston em 2015/16.
"Foi excecional", diz Kirkland.
"Nos treinos, nos jogos – sem ele, o Preston teria ficado no fundo da tabela. Já o fez no Sunderland. Tem sido brilhante no Everton há oito ou nove anos. Leva com críticas, e percebo porquê às vezes, porque pode ser muito expressivo. Interage com o público, repreende os seus defesas, e isso incomoda algumas pessoas. Mas pela Inglaterra, não me lembro de muitos jogos maus. Nos torneios, provavelmente tem sido o nosso jogador mais consistente nos últimos três", refere.

Pickford, nesse sentido, é um símbolo útil desta Inglaterra. Nem sempre elegante, nem sempre consensual, mas calejado pela experiência em torneios e, geralmente, presente quando a pressão aumenta. Kirkland acredita que continua subvalorizado a nível mundial.
"O meu conselho para ele seria simples: faz o que tens feito nos últimos 10 anos", acrescenta.
"Lembra-te de onde vieste. Lembra-te dos empréstimos, Bradford, Preston, os outros clubes. Lembra-te do que foi preciso para chegares onde estás", diz.
Rogers vs Bellingham
A maior dúvida para a Croácia pode estar na zona do número 10. Se for para escolher entre os dois, Kirkland apostaria em Rogers em vez de Bellingham.
"Eu apostava no Rogers", afirma.
"Fez uma época brilhante no Aston Villa e acho que tens de escolher os jogadores em melhor forma. Para mim, a forma do Rogers é melhor do que a do Bellingham. O Bellingham teve os seus problemas; teve lesões. Não sei bem como terminou a época em Madrid – não me lembro de muitos grandes momentos", lembra.

Então, quem acha Kirkland que deve ser titular no jogo de abertura em Arlington, Texas, na quarta-feira?
"A minha equipa é Pickford, Guehi, Konsa, James, Rice e Anderson", começa por dizer.
Mais à frente, quer naturalmente Gordon, Rogers e Kane em campo, mas a configuração final depende da condição física de Saka e de como Tuchel equilibra Rogers e Bellingham.
"Eu apostava em Gordon, Rogers, Kane", diz Kirkland.
"Podes colocar o Rogers à direita. O Saka esteve bem, mas não terminou a época em grande e acho que também está a jogar limitado. Pode optar por Gordon de um lado, Rogers do outro e Bellingham atrás do Kane. Provavelmente começaria com essa equipa. Mas se for só um entre Rogers e Bellingham, escolho o Rogers", acrescenta.
É um onze (e um grupo) que resume bem a era Tuchel: forma acima da reputação, estrutura acima do excesso, resultados acima do romantismo. Muito pouco inglês, dirão alguns. O que, tendo em conta a história do futebol inglês em torneios, pode não ser a pior ideia de sempre.
Mas primeiro vem a Croácia, e a Croácia vai colocar as perguntas certas: Será que a Inglaterra consegue controlar os espaços sem se tornar passiva? Conseguirão Rice e Anderson dar proteção à linha defensiva sem deixar Kane isolado? Será que a veia implacável de Tuchel vai trazer clareza em vez de confusão? E será que a Inglaterra consegue vencer um jogo frente a uma boa equipa, mesmo que não seja de forma brilhante?

