Aos 91 anos, o percurso do homem que mais vezes acompanhou o Mundial liga os tempos da rádio e da televisão a preto e branco à hiperconectividade dos dias de hoje.
A saúde obriga a lenda do jornalismo desportivo argentino a uma presença mediática mais limitada, mas nunca pensou em perder o torneio que começou na quinta-feira no México, Estados Unidos e Canadá.
"Sinto como se tivesse a obrigação de o fazer", reconhece numa entrevista à AFP antes de viajar esta sexta-feira para os Estados Unidos para acompanhar a sorte da Albiceleste como comentador da DirecTV, DSports e DSports Radio.
"Não sei quanto mais será, mas de qualquer forma este que tenho à mão vou tentar aproveitá-lo", afirma o jornalista, reconhecido pela FIFA em 2022 como "o jornalista com mais coberturas mundialistas".
Apesar de, em mais de sete décadas, ter cultivado um estilo que o impede de ser protagonista, Enrique fala sobre o primeiro Mundial de Pelé, o seu amigo de infância Di Stéfano, os confrontos com Maradona e a sua visão sobre como o futebol mudou.
Cobertura milagrosa
Macaya, cuja voz também chegou a outros países sul-americanos, tinha apenas 23 anos quando a Rádio Belgrano de Buenos Aires o enviou como parte de uma pequena equipa para cobrir o Mundial da Suécia. Desde então, marcou sempre presença.
Viajar para o país escandinavo não foi tarefa fácil. O repórter recordista lembra que chegou "milagrosamente" em múltiplas etapas de avião, comboio e ferry.
"Com um (Douglas) DC-7. Aviões que tinham de fazer escalas praticamente em todo o lado, porque não havia forma de chegar, não havia autonomia", recorda. "Saí por Dacar, fui para Itália (...), depois Dinamarca e o sul da Suécia para chegar a Malmö. Uma coisa absolutamente desconhecida".

Aquele Mundial viu nascer o mito de Pelé, que com 17 anos levou o Brasil a conquistar a sua primeira taça.
"Era um jogador com uma grande capacidade física, para além de outros aspetos ligados à técnica", sublinha Macaya, que garante que naquela altura não era "assim tão fácil" perceber que se tornaria num dos maiores da história.
Di Stéfano, "o melhor"
O melhor da época era Alfredo Di Stéfano, embora o argentino que brilhava no Real Madrid nunca tenha conseguido participar na maior competição do futebol.
"Eu vivia a 50 metros da casa do Alfredo. Tomava conta de uma banca de jornais e o Alfredo vinha lê-los ali. Depois levava-me a sua casa e jogávamos à bola. Era mais velho do que eu. E era o ídolo depois", conta Macaya.
Por causa dessa história de infância partilhada nas ruas do bairro de Flores, em Buenos Aires, talvez seja o único com quem não consegue ser imparcial.
"Para mim foi o melhor. E em comparação com o que enfrentava naquela altura, foi o melhor. Mas pronto, também tinha uma amizade com o Di Stéfano que pode influenciar a minha opinião", afirma.
O pódio dos jogadores do século XX, já disse Macaya em várias ocasiões, completa-se com Maradona. Mas prefere não falar da Mão de Deus ao abordar a brilhante exibição individual do 10 para vencer por 2-1 a Inglaterra nos quartos de final do México 1986.
"Fez-se desse golo toda uma história que não corresponde", afirma, numa opinião polémica entre os argentinos que veem nesse gesto uma justiça após a Guerra das Malvinas de 1982.
Maradona deu-lhe razão
Macaya só deixa de lado a sua habitual sobriedade ao contar a vez em que o Pelusa lhe "deu razão". Foi em maio de 1994 quando, após trocas de palavras nos meios de comunicação, Diego pediu uma reunião, chamou uma câmara e disse que o jornalista estava certo.
Um gesto que não teve com outros repórteres. "A ninguém. Fantástico, incrível", diz com um sorriso.
Desde a Suécia-1958, para Macaya os Mundiais agora "geram o que geram devido ao investimento económico".
O objetivo da FIFA de conquistar o mercado norte-americano tem sido alvo de críticas pelo elevado custo dos bilhetes e o novo formato mundialista com 48 participantes.
"O jogo evoluiu em alguns aspetos e, pela própria evolução, parece contraditório, travou outros", acrescenta Macaya.
