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No dia 22 de junho de 1986, "el Diez" proporcionou, nos quartos de final, os quatro minutos mais loucos alguma vez vistos num Mundial. E provavelmente os mais dolorosos da história do futebol inglês em Mundiais. Aos 51 minutos, o ídolo da Argentina desviou com a mão esquerda uma bola aérea destinada ao guarda-redes Peter Shilton, que acabou no fundo da baliza, sem que o árbitro visse o ato de batota.
"Marquei-o um pouco com a cabeça de Maradona e um pouco com a mão de Deus", declarou com malícia o próprio. Obra de "Deus", portanto, mas com um toque do diabo.
E esse diabo de Diego tratou logo de (quase) fazer esquecer a trafulhice, aos 55 minutos, com uma arrancada fantástica, iniciada no seu meio-campo. Poucos segundos e cinco adversários driblados depois, empurrou calmamente a bola para o fundo das redes. Uma obra-prima realizada por um extraterrestre, "um papagaio cósmico" gritou em transe um jornalista de uma rádio argentina, Victor Hugo Morales, num comentário que ficou para a história.
Lineker "esteve quase a chorar"
"O regresso da Inglaterra à Cidade do México 40 anos depois, ao estádio Azteca, é mais do que um jogo: é a oportunidade de reavivar uma memória, num local onde deixou contas por saldar, onde permanecem fantasmas do passado. Terá a oportunidade de fechar uma ferida ou de a deixar aberta", resume o comentador desportivo Antonio Moreno à AFP.
Antonio Moreno, que dirige o Templo da Fama do futebol internacional em Pachuca (centro), tinha convidado em novembro passado Gary Lineker, que terminou como melhor marcador desse Mundial-1986, para lhe prestar homenagem. O antigo avançado dos Três Leões aceitou o convite sob "uma única condição": "Vou (...) apenas se me garantires que posso voltar ao Azteca. Já lá não vou há 40 anos".

Em plena renovação do estádio para o Mundial, Moreno conseguiu um acesso. Com capacete de obra na cabeça, Lineker pôde então pisar novamente aquele relvado onde reduziu em vão o marcador, depois de ter assistido de perto, como disse várias vezes, "ao mais belo golo de sempre".
"Esteve quase a chorar", recorda Moreno, jornalista que tinha acompanhado o Mundial-1986. Se todos guardam na memória os dois golos de Maradona nesse relvado onde se projetava a sombra de uma aranha gigante, que era na verdade a de uma estrutura metálica suspensa a 36 metros de altura, poucos se lembram que nas bancadas houve confrontos entre adeptos dos dois lados.
"O karma", segundo Tuchel
Após o jogo, a AFP constatou na altura que adeptos ingleses montaram uma emboscada aos argentinos numa avenida próxima do recinto, desencadeando novos confrontos que provocaram dezenas de feridos, com adeptos mexicanos a juntarem-se desta vez aos sul-americanos. No contexto recente da guerra das Malvinas, que opôs a Argentina ao Reino Unido em 1982, "havia uma rivalidade que ia para além do relvado, era uma questão política", sublinha Moreno.
A Inglaterra de Harry Kane e Jude Bellingham, que obviamente ainda não tinham nascido na altura, terá de manter-se imune ao ambiente vulcânico, ainda que menos hostil, do Azteca, com os seus adeptos fervorosos até nas ruas da capital, como o milhão de pessoas que se juntaram na terça-feira passada para celebrar a qualificação frente ao Equador. Celebrações que provocaram pelo menos quatro mortos.
Em termos estatísticos, os Três Leões terão também de conseguir o que ninguém ainda fez: vencer o México no seu templo num Mundial. Mas podem recordar-se de que já tinham vencido o México por 2-0 na fase de grupos, no seu anterior encontro num Campeonato do Mundo. Foi em 1966 e acabaram por ser coroados campeões.
"Talvez seja um dos jogos mais bonitos, um dos mais emocionantes que se pode viver", antecipou Thomas Tuchel. E o selecionador da Inglaterra invocou "o karma": "a mão de Deus estará lá e acabará por nos recompensar".
Mundial-2026
O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.
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