Mundial-2026: Julio Enciso, a grande esperança do Paraguai que teve Óscar Cardozo como mentor

Julio Enciso, o menino de Caaguazu que devolve esperança ao Paraguai
Julio Enciso, o menino de Caaguazu que devolve esperança ao ParaguaiReuters

Quem o conhece garante que Julio Enciso não teme desafios e não renega as suas origens: este "mita'i" (rapaz), que domina melhor a língua indígena guarani do que o espanhol, carrega a esperança de uma qualificação do Paraguai para os oitavos de final do Mundial. Teve Óscar Cardozo, ex-Benfica, como mentor.

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O avançado de 22 anos, revelado esta época na Ligue 1 com a camisola do Estrasburgo, esteve mesmo perto de falhar o grande encontro americano. Culpa de uma lesão na anca e numa coxa, sofrida num jogo amigável uma semana antes do torneio, que o obrigou a sair do relvado de maca, num mar de lágrimas capaz de destruir sonhos de criança. No fim, mais susto do que dano: Julio Enciso recuperou a tempo.

Autor do passe para o golo de honra na pesada derrota frente aos Estados Unidos (4-1), o jogador com 34 internacionalizações (4 golos) voltou a brilhar no segundo jogo, desta vez com uma vitória (1-0) frente à Turquia, que permitiu à Albirroja garantir um jogo decisivo contra a Austrália na quinta-feira, no grupo D.

Os números de Enciso diante da Turquia
Os números de Enciso diante da TurquiaFlashscore

O menino de Caaguazu tem, para já, correspondido às expectativas. Mario Trigo, um dos seus primeiros treinadores, acompanhava-o com mais atenção do que aos outros miúdos, nesta pequena cidade perto de Assunção, cuja principal atividade é a agricultura e a silvicultura.

"Magia"

Era um "mita'i que jogava mesmo muito bem" à bola, recorda Trigo à AFP. "Se a bola não lhe chegava, recuava, e quando a tinha fazia magia: dois, três dribles até marcar um golo".

O seu talento precoce já se traduzia nessa técnica notável e na condução rápida de bola, que hoje fazem dele uma peça fundamental da seleção paraguaia, de regresso ao Mundial após 16 anos de ausência.

Com 12 anos, começou a chamar a atenção dos olheiros, enquanto jogava pelo clube de Caaguazu. O antigo internacional paraguaio Roberto Paredes, formador no Libertad, um dos clubes históricos do país, descobriu-o numa captação.

O primeiro contacto aconteceu em 2016. Paredes, impressionado com este pré-adolescente "dotado de grande controlo de bola e bom remate", procurou levá-lo o mais depressa possível para o Libertad. Os pais de Enciso consideraram prematura uma mudança para a capital, mas acabaram por aceitar, convencidos por Mario Trigo, o treinador de sempre.

Na escola, adaptaram-lhe os horários para conciliar os estudos com o futebol. "Sempre que vinha, mostrava muito entusiasmo e uma enorme vontade de trabalhar", recorda à AFP a sua professora de artes plásticas da altura, Noemi Mercado.

Cardozo como mentor

Nessa altura, Julio Enciso só falava guarani, a língua indígena e oficial do Paraguai juntamente com o espanhol. Mas algo marcou especialmente a professora: "Essa humildade, essa chama viva que recorda de onde vem."

Quando ainda dava os primeiros passos na carreira, a joya (a joia), como foi apelidado pela imprensa local, mantinha uma relação próxima com o ex-Benfica Óscar Cardozo, o melhor marcador da história da seleção paraguaia. Ao lado do seu mentor, Enciso estreou-se pelo Libertad na primeira divisão aos 15 anos, antes de integrar a seleção principal do Paraguai aos 17 anos. Um ano depois, em junho de 2022, rumou ao Brighton.

Após três épocas em Inglaterra, transferiu-se para o Estrasburgo, formando uma dupla de ataque eficaz com o argentino Joaquin Panichelli.

"Foi audaz desde o início" da sua aventura longe da terra natal, confidencia à AFP o jornalista paraguaio Gabriel Cazenave, que o descreve como "imprevisível" e "irreverente". "Não tem medo dos desafios. Partiu para a Europa falando melhor guarani do que espanhol. E, apesar disso, joga, fala, protesta, integra-se. Gostava de ter um microfone lá para saber em que língua fala agora em França."

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