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Na madrugada de terça para quarta-feira (00:00, hora de Portugal continental), em Toronto, Luka Modrić vai inscrever-se ainda mais na história. Quando pisar o relvado frente ao Panamá para o segundo jogo do grupo da Croácia no Mundial-2026, o capitão dos Vatreni tornar-se-á no quarto jogador da história do futebol masculino a ultrapassar a marca das 200 internacionalizações, depois de Lionel Messi, Cristiano Ronaldo e Bader Al-Mutawa do Kuwait. Vinte anos após a estreia pela seleção, aos 40 anos e com uma máscara protetora no rosto, Modrić prepara-se para inscrever o seu nome num clube tão restrito quanto lendário.
Mas esta 200.ª internacionalização surge num contexto especial. Frente à Inglaterra na sexta-feira (derrota por 2-4), Modrić foi uma sombra de si próprio. Substituído aos 58 minutos depois de ter cometido um penálti evitável logo aos 9 minutos, o primeiro na sua carreira, pareceu carregar o peso de meses difíceis. Em abril, num duelo da Serie A entre o AC Milan e a Juventus, um choque com Manuel Locatelli provocou-lhe uma fratura complexa e multifragmentada do osso zigomático esquerdo. Operado de urgência em Milão, iniciou uma autêntica corrida contra o tempo para estar apto para aquela que parece ser a sua última competição com a Croácia. A sua preparação física ressentiu-se, uma semana de paragem total deixa pouca margem quando se está perto dos 41 anos.
"O Luka sofre, quer, mas já não consegue como antes"
A imprensa croata não deixou de o referir. O diário Jutarnji List escreveu: "Vê-se bem que o Luka sofre, quer, mas já não consegue como antes. O Modrić tem de reagir se os Vatreni quiserem sonhar com a vitória." E a redação questiona até o futuro do seu maestro neste Mundial nos Estados Unidos: "Tantas vezes em 199 jogos foi o melhor, e agora é um dos piores. Hoje, a principal questão é: o que pode fazer Modrić? Poderemos contar com ele para este Mundial, pelo menos ao seu nível habitual?".
O diário 24 Sata recusa tirar conclusões precipitadas: "Luka Modrić, o melhor futebolista croata de sempre, merece uma atenção especial. Sim, já não está ao nível a que nos habituou, mas é normal, pois está a entrar nos 40 anos. No entanto, este mesmo Luka acaba de realizar uma época excelente num dos campeonatos mais competitivos do mundo".
O tabloide recorda ainda que a multidão que hoje o critica estava pronta, antes do jogo, "para o ver esmagar os ingleses sozinho". O próprio, após a derrota, fez questão de deixar uma mensagem de confiança: "Temos de virar a página, faltam-nos dois jogos. Tenho a certeza de que as coisas vão melhorar e que vamos atingir o nosso objetivo mínimo".
"Graças a Deus, ainda está connosco"
Para perceber o que representa esta 200.ª internacionalização, é preciso recuar a 01 de março de 2006. Nesse dia, num amigável frente à Argentina, um médio de 20 anos que muitos olheiros tinham descartado em jovem por razões físicas fez a sua estreia pela seleção. Desde então, Modrić marcou 29 golos pela Croácia, levou o seu país à final do Mundial-2018 na Rússia, terminando como melhor jogador da competição, antes de conduzir a equipa ao terceiro lugar no Catar, aos 37 anos.
Em março de 2021, frente ao Chipre, tornou-se o jogador mais internacional da história croata ao ultrapassar Darijo Srna. Com cinco Mundiais disputados, junta-se a um grupo restrito na história do futebol mundial. Zlatko Dalić, o seu selecionador desde 2017, fez questão de acalmar os ânimos antes do jogo com o Panamá.
"Conquistámos muito juntos nestes últimos dez anos. Como capitão da minha equipa e a minha mão direita em campo, ele é fundamental para a nossa equipa. Temos alguns jogadores mais experientes ao lado do Luka que orientam esta geração. Também temos jovens jogadores, que devem estar felizes por o ter ao seu lado. Ele mostra-lhes como trabalhar, como lutar pela camisola croata. A sua principal qualidade é nunca desistir. É o líder dentro e fora de campo. Graças a Deus, ainda está connosco", disse.
Palavras que resumem toda a aura de quem colocou a Croácia no mapa e é um dos últimos do atual plantel a ter vivido as duas epopeias no Mundial. Uma cena transmitida num documentário da Netflix, após o Mundial-2022, ilustrou bem o papel de Modrić no balneário. Antes do Mundial, reparou que Dominik Livaković, brilhante com a camisola do Dinamo Zagreb, parecia bloqueado e menos confiante sempre que vestia a da seleção. Levou então o seu guarda-redes à parte e tentou tranquilizá-lo.
"Não vejo a tua evolução na seleção. Será por causa da pressão? Acho que é porque não transmites segurança e isso passa para toda a equipa. Todos cometem erros, diz-me uma pessoa que não os cometa. Porque é que tu não podes cometer um? Acho que o problema é que tens medo, e isso só piora as coisas. És um grande guarda-redes. Sabes disso, não sabes?", questionou.
Depois desta conversa, Livaković libertou-se. No Catar, sofreu apenas três golos na fase de grupos, antes de ser decisivo nos oitavos e nos quartos de final, contribuindo diretamente para o terceiro lugar dos Vatreni.
"A sua presença torna-nos a todos melhores"
Josip Stanišić, um dos representantes da nova geração e titular como lateral-direito aos 26 anos, explicou o que o balneário sente em relação a Luka Modrić: "Este número de 200 internacionalizações é irreal. Desde o primeiro dia, fosse ele a peça central ou não, foi sempre igual com todos. Manteve-se normal apesar de tudo o que conquistou. É algo que as pessoas de fora não veem ou não sabem".
Luka Sučić, que faz parte dos muitos jogadores apontados como sucessores de Modrić sem conseguirem, para já, tirar-lhe o lugar no onze, vai ainda mais longe: "O Luka é o meu ídolo desde pequeno. Partilhar o relvado com ele na seleção é algo indescritível. Passa muito tempo a aconselhar-nos, a nós, os mais jovens. Dá-nos confiança ao dizer simplesmente para jogarmos o nosso futebol, sem pressão. A sua presença torna-nos a todos melhores".
Joško Gvardiol, que se estreou pela seleção em 2021 quando Modrić se preparava para disputar o seu 4.º Mundial, explica bem o que ele representa para os Vatreni: "Quando chegas à seleção pela primeira vez e te encontras no mesmo balneário que o Luka Modrić, sentes que estás a viver um sonho. É o nosso líder. Só de o veres a treinar, de veres a sua ética de trabalho com esta idade, isso faz-te dar 200% em campo. Dá o exemplo sem precisar de falar muito".
200 com um sonho em mente
A Croácia, por sua vez, não pode falhar. Depois da derrota inaugural frente à Inglaterra, os Vatreni têm de vencer obrigatoriamente o Panamá esta quarta-feira para continuarem a depender de si próprios. E para isso, precisam de um grande Modrić, aquele que dita o ritmo, rompe linhas quando é preciso e dá liberdade aos mais jovens. A nova geração, onde se destacam Martin Baturina e Petar Musa, autores dos golos frente à Inglaterra, ainda não está pronta para carregar o grupo sozinha. O testemunho ainda não mudou de mãos. Continua nas de Modrić.
Por detrás da questão da braçadeira e da sucessão esconde-se outra realidade, mais íntima: Luka Modrić nunca conquistou qualquer título com a Croácia. Finalista em 2018, terceiro em 2022, melhor jogador de um torneio que não venceu, o seu palmarés individual é impressionante, mas o líder de uma geração dourada croata sente inevitavelmente o peso de não ter conquistado um título por uma nação capaz de juntar um milhão de pessoas em Zagreb para celebrar um 2.º ou 3.º lugar no Mundial.
Aos 40 anos, este Mundial-2026 é provavelmente a sua última oportunidade de fechar esse capítulo. Não é uma "última dança" no sentido nostálgico, mas sim uma derradeira ocasião para completar a sua carreira como melhor jogador da história da Croácia.
Esta madrugada de quarta-feira, em Toronto, vai entrar na história pela 200.ª vez com a camisola croata. Este número redondo resume vinte anos de lealdade a uma nação de quatro milhões de habitantes que levou, sozinho ou quase, aos maiores palcos do mundo.
Mas Modrić nunca se contentou em entrar para a história. Sempre quis escrevê-la.
Mundial-2026
O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.
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