O início foi intenso. No primeiro jogo, Mbappé marcou dois golos e, se o árbitro não tivesse fechado os olhos, ainda teria podido marcar de penálti. Kane também bisou. Até Haaland apontou dois golos e ficou sem o terceiro devido a um desvio do adversário, que transformou o seu cabeceamento num autogolo.
Sobre Messi nem é preciso falar – no primeiro jogo fez um hat-trick, no segundo marcou mais dois golos e ainda desperdiçou um penálti. De qualquer forma, já marcou em seis jogos consecutivos em fases finais do Mundial!
Os nomes sonantes não desiludem. Os golos dos famosos goleadores entusiasmam e os adeptos já não se preocupam apenas com que equipa vai conquistar o título de campeã do mundo. Um dos grandes temas é agora também a Bota de Ouro, o troféu atribuído ao melhor marcador do torneio.

O desafio de Fontaine
Apenas por três vezes na história do Mundial o melhor marcador conseguiu atingir um número de golos de dois dígitos durante o torneio. O último a marcar 10 golos numa só edição foi o avançado alemão Gerd Müller. Isso aconteceu em 1970, curiosamente no México. O primeiro foi Sándor Kocsis, cujos 11 golos levaram a Hungria até à final do Mundial de 1954.
Mas o nome que continua a brilhar nos registos é o de Just Fontaine. O goleador de Reims, que em 1958 levou a França à medalha de bronze no torneio disputado na Suécia. "Bater o meu recorde? Não creio que algum dia aconteça," afirmou a já falecida lenda em entrevista à agência AP em 2006. "Quem quiser bater o meu recorde tem pela frente uma tarefa enorme. Tem de marcar dois golos por jogo durante sete jogos," calculou na altura.
O herói francês esteve durante muito tempo tranquilo, pois no virar do século XX para o XXI chegou a era dos estrategas defensivos e, com ela, as oportunidades para os goleadores diminuíram. Mario Kempes, Paolo Rossi, Gary Lineker, Toto Schillaci, Hristo Stoichkov, Oleg Salenko ou Davor Šuker. Da Argentina 1978 até França 1998, os melhores marcadores do Mundial conseguiram sempre apenas 6 golos. Em 2010, a Bota de Ouro foi partilhada por quatro jogadores: Thomas Müller, David Villa, Wesley Sneijder e Diego Forlán. Nenhum deles conseguiu marcar mais de cinco golos.
O mesmo número de golos foi suficiente para Miroslav Klose em 2006. O alemão manteve a sua forma ao longo de quatro edições do torneio e só há poucos dias perdeu o estatuto de melhor marcador da história do Mundial.
O seu impressionante recorde de 16 golos em fases finais do Mundial foi superado este ano por Lionel Messi. "Sempre disse que o Messi não é nada mau jogador. Para mim, é o melhor futebolista de todos os tempos. Parabéns, campeão," elogiou Klose a atual estrela mundial.
Também ele acompanha hoje a batalha dos goleadores. O ídolo argentino Messi já soma cinco golos após dois jogos disputados. E logo atrás vêm outros avançados famintos. Será que, depois de mais de meio século, o Mundial vai voltar a ter um rei dos marcadores com dez golos?
Fatores que favorecem os golos
O torneio que decorre atualmente no continente americano é favorável aos avançados. Existem vários fatores positivos para a abundância de golos. Tudo começa com o aumento do número de jogos. As quatro melhores equipas vão disputar oito partidas. Depois, há também a postura dos árbitros, há pouco tempo perdido e o tempo útil de jogo aumentou significativamente.
Devido ao vasto leque de equipas, é frequentemente visível a diferença de qualidade e há menos duelos táticos. Até agora, apenas quatro jogos terminaram empatados sem golos (incluindo o confronto entre Espanha e Cabo Verde).
Antes de 1970, não havia substituições, e até 1998 os treinadores só podiam trocar dois jogadores durante o jogo. Desde o último Mundial no Catar-2022, podem lançar logo cinco suplentes. Forças frescas ou jogadores com tarefas específicas também aumentaram a produtividade. Este ano, a Suíça foi exemplo disso: três dos quatro golos frente à Bósnia foram marcados por suplentes após os 70 minutos...
A plataforma estatística Opta apontou ainda outro fator. Cada vez há mais golos resultantes de erros defensivos e dos guarda-redes. Enquanto nos Mundiais de 2018 e 2022 houve, no total, 35, agora – a meio do torneio – os estatísticos já contam 29. No Catar, só houve dois autogolos, mas neste Mundial já vão nove.
O resultado são 159 golos em 52 jogos já disputados, o que dá uma média de 3,06 golos por jogo. Para comparação: naquele ano fraco de 2010, a média foi apenas de 2,27. Há quatro anos, no Catar, foi de 2,69 – o valor mais alto dos torneios do século XXI. É de esperar que a edição deste ano traga um aumento significativo no número de festejos de golo.
As guerras estelares continuam
O próximo grande atrativo para os verdadeiros apreciadores de futebol é o duelo entre Haaland e Mbappé. Os adeptos vão estar colados ao ecrã no sábado à noite, mesmo que o robusto norueguês já tenha dito ao mundo que o confronto com o avançado dos Bleus não lhe interessa muito. "Neste momento não me preocupo muito com esse jogo, provavelmente vão vencer-nos e ganhar o torneio todo," comentou numa conferência de imprensa. Noruega e França podem jogar sem pressão, pois ambas já garantiram a passagem ao play-off.
Até agora, Kane, com dois golos, teve, segundo um xamã ganês, o azar de estar enfeitiçado, e por isso ficou em branco no seu segundo jogo do torneio. No terceiro jogo, porém, a estrela inglesa vai defrontar o frágil Panamá. E Messi? No último jogo da fase de grupos, vai ser travado pela defesa da Jordânia.
E não subestimem os outros. Já há jogadores com três golos: o alemão Deniz Undav, o canadiano Jonathan David, Matheus Cunha do Brasil, Johan Manzambi da Suíça e Isamel Saibari de Marrocos.
A enorme motivação para igualar os outros e rivais bem mais jovens é visível até no veterano de 41 anos Ronaldo. Não sai do relvado. E até Vinícius Júnior parece muito mais satisfeito e perigoso com a camisola do Brasil do que com as cores do Real Madrid.
As guerras estelares dos goleadores podem continuar sem medo. E o recorde de Fontaine pode mesmo estar em risco…
