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Dois jogos, dois pontos, zero vitórias. A Bélgica chega à última jornada do grupo G numa desconfortável terceira posição, obrigada a vencer a Nova Zelândia em Vancouver para ainda sonhar com os 16 avos de final. Depois de um empate dececionante frente ao Egipto (1-1) e um 0-0 sofrido diante do Irão, os Diabos Vermelhos já não se podem dar ao luxo de falhar.
"Não teremos outra alternativa senão ganhar o último jogo, e por vezes isso até nem é mau", insistiu Rudi Garcia após o jogo com o Irão. "Teremos cinco pontos, independentemente de onde estivermos, o importante é sair do grupo", acrescentou na beIN Sports, antecipando uma vitória e nada menos do que isso. Se o selecionador e o seu capitão Youri Tielemans destacaram sobretudo a falta de eficácia para explicar os dois maus resultados, a análise do lado belga é mais dura.
"A comunicação da equipa técnica, a começar por Rudi Garcia, e dos jogadores que o seguem, focou muito a falha frente ao Irão na eficácia. Mas para a maioria e para os observadores, antes de se falar em eficácia, está em causa a qualidade do futebol apresentado pelos Diabos Vermelhos, e talvez também as escolhas de composição de Rudi Garcia", analisa Christine Schreder, jornalista da RTBF. Os sinais preocupantes acumulam-se: defesa coletiva desastrosa no golo egípcio, muralha mal organizada nas bolas paradas, construção ofensiva sem ideias. "Não estamos muito confiantes na Bélgica para o jogo da noite de sexta para sábado frente à Nova Zelândia", resume.
A comunicação polida da equipa técnica também levanta dúvidas. "Venderam-nos o bom ambiente antes do grupo. Ouvimos as referências dizerem que nunca tinham vivido um ambiente assim no campo base. E isso, vê-se em campo", continua Schreder, citando as farpas de Zlatan Ibrahimovic, "na primeira parte, quase adormeci, na segunda, adormeci mesmo", e as dúvidas públicas de Patrick Vieira sobre a condição física de De Bruyne.

Referências em dificuldades
Entre as dúvidas, dois nomes: Romelu Lukaku e Kevin De Bruyne. O número 9, de 31 anos, que forçou o autogolo que permitiu à Bélgica arrancar o empate 1-1 frente ao Egito, tinha jogado apenas cerca de sessenta minutos no total da época antes deste Mundial. De Bruyne, por sua vez, vem de um início de época difícil em Nápoles, marcado por uma grave lesão no isquiotibial. "São os veteranos e dos maiores jogadores da história da Bélgica. Se ambos não estiverem em condições de render ao seu nível — talvez não como há cinco anos, mas pelo menos a um excelente nível que ainda podem atingir —, torna-se um pouco difícil garantir qualidade de jogo", reconhece Schreder.
A isto junta-se a ausência de Jérémy Doku frente ao Irão, devido a uma doença pulmonar e depois ao nascimento do seu filho, o que gerou mais polémica num grupo cuja serenidade pública não se confirma em campo. À volta das referências, os trintões da "geração dourada", Courtois (34 anos), Meunier (34 anos), Witsel (37 anos), não trouxeram o brilho que se vislumbrou nos jogos de preparação.
O regresso de Jérémy Doku é apontado como o principal sinal de otimismo antes deste encontro crucial frente à Nova Zelândia. Mas Schreder alerta: "Quando a Bélgica depende dele, não é boa ideia, porque o jogo torna-se uma caricatura. Ele é o melhor do mundo nos primeiros cinco metros, como diz muito bem o Pep Guardiola. Mas se arranca parado, vai ser complicado, ainda por cima quando todos os adversários já o esperam." E se dois defesas o bloquearem, é preciso ter uma alternativa preparada, algo que a Bélgica não pareceu ter nos dois primeiros jogos.
Rudi Garcia e as escolhas táticas em causa
Se o selecionador ainda beneficia de algum tempo, é sobretudo nas suas escolhas de composição que está sob pressão. "Há algo que não funciona no meio-campo com Tielemans e De Bruyne. Não vamos dizer que há um a mais, porque são dois excelentes jogadores. Mas será que o capitão está protegido pela braçadeira? Será que na dinâmica do jogo seria preciso outra opção?" questiona Schreder, que também fala do caso de Hans Vanaken, o melhor jogador do campeonato belga mas cujo défice de velocidade é frequentemente apontado. "Joga essencialmente pelo posicionamento, experiência e visão de jogo. Está no auge da carreira. Talvez seja o seu momento. O Rudi Garcia gosta muito dele. É sobretudo por aí que Garcia é esperado", acrescenta.
A adaptação às condições locais também levanta dúvidas. "Acho que não estão a lidar muito bem com o facto de jogarem ao meio-dia lá. Nem todos os jogadores se preparam da mesma forma para jogar no início da tarde. Terão sido bem preparados para isso?" A boa notícia é que o jogo frente à Nova Zelândia será às 20h locais em Vancouver, com 16 graus e risco de aguaceiros.

O fantasma de 2022
Este início falhado de Mundial pelos Diabos Vermelhos faz lembrar velhas histórias aos adeptos belgas. "Pensávamos que tinham aprendido com a catástrofe do Mundial de 2022. Já tínhamos tido um grande problema de eficácia", recorda Schreder. "Toda a gente achava que, com o bom momento, com a chegada do Lukaku, com a presença do De Bruyne, com o regresso do Courtois, que não esteve no Euro-2024, mesmo que o seu substituto não tenha nada a apontar, e com o surgimento de novos talentos belgas, ainda era possível...", enumera a jornalista, numa altura em que a Bélgica vinha de uma série de 13 jogos sem perder antes de chegar a Seattle. Uma série que subiu para 15 neste Mundial, mas que continua desesperadamente à espera de uma vitória.
Mas o padrão repete-se: eficazes ao longo da fase de qualificação, os Diabos Vermelhos parecem bloquear quando a pressão é máxima. "Os adeptos estão fartos. Muitas vezes, são aqueles que só vão ao Mundial que ficam mais frustrados, esperam por este momento para se juntarem, festejarem, celebrarem", descreve, confessando que também ela não escapa. "Dói-me tanto quanto a eles. Eles deixam-nos em tensão. E por isso, não lhes agradecemos. Fizeram tudo para se colocarem sob pressão, quando podiam ter entrado tranquilamente neste Mundial. O grupo era acessível."

"Ficaremos muito felizes se chegarem aos oitavos de final"
A Nova Zelândia, por sua vez, já não tem nada a perder. Última após o empate com o Irão (2-2) e a derrota frente ao Egito (3-1), deixará o torneio na sexta-feira, a menos que consiga um feito contra os belgas combinado com uma vitória ou empate do Egipto frente ao Irão, o que eliminaria os Diabos Vermelhos.
Para a Bélgica, pelo contrário, cada minuto conta. "Neste momento, não se pode dizer que a transição entre a geração dourada e os mais jovens tenha sido bem-sucedida. Mas um Mundial pode mudar tudo rapidamente. Pode acontecer qualquer coisa", admite Schreder. Se os Diabos saírem do torneio logo na fase de grupos pela segunda vez consecutiva, será a confirmação de um declínio irreversível e, para Rudi Garcia, uma saída imediata, seguida de uma reestruturação mais profunda. "Será preciso ter uma visão estratégica diferente. São questões de gestão da federação. É toda uma estrutura que terá de se questionar", explica, esperando que antigas glórias como Simon Mignolet ou Jan Verthongen se envolvam no futebol belga.
"Fomos muito ambiciosos ao pensar que a Bélgica podia tentar chegar aos quartos de final. Acho que hoje ficaremos muito felizes se chegarem aos oitavos de final", resume Christine Schreder. No momento do sorteio dos grupos deste Mundial-2026, algumas vozes belgas lamentaram que o grupo não fosse mais exigente para lançar logo os Diabos Vermelhos na adversidade de um Mundial. O mesmo sorteio que hoje lhes permite ainda estar vivos na competição e finalmente ter esse "clique". Os belgas vão pôr o despertador para a madrugada e esperam não voltar a sair desiludidos.
Mundial-2026
O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.
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