No 40.º aniversário do Inglaterra-Argentina, o Flashscore falou com o árbitro do jogo da "Mão de Deus"

Maradona supera Shilton com a mão
Maradona supera Shilton com a mãoSVEN SIMON / PICTURE-ALLIANCE / DPA PICTURE-ALLIANCE VIA AFP

O palco foi o Estádio Azteca, na Cidade do México, onde ingleses e argentinos disputaram um lugar nas meias-finais. Quatro anos após o conflito das Malvinas, o duelo estava destinado a ser recordado para sempre. O árbitro principal desse encontro, Ali Bennacer, recorda-o em conversa exclusiva com o Flashscore.

Um jogo não dura apenas os mais de 90 minutos em que a bola rola sobre o relvado. Há um antes e um depois que tornam um evento futebolístico inesquecível. Especialmente quando se vai além do desporto.

Inglaterra e Argentina viveram-no na pele a 22 de junho de 1986, quando Diego Armando Maradona tornou-se lenda ao marcar, em apenas cinco minutos, o golo mais polémico e o mais belo da história dos Mundiais.

Quatro décadas depois desse dia, revisitar o que aconteceu nesse meio-dia de temperaturas elevadas e enormes expectativas vai muito além do aspeto técnico. Porque em campo estavam a seleção do futuro melhor marcador Gary Lineker e o melhor jogador de todos os tempos, que nesse dia também entraram na lista de marcadores. No entanto, o que se passou esteve claramente condicionado por circunstâncias que hoje parecem de outra época. Só algumas objetivas captaram "A Mão de Deus", que abriu o marcador pouco depois do início da segunda parte. Essas imagens só viriam a público mais tarde.

Ali Bennacer durante o encontro
Ali Bennacer durante o encontroJuha Tamminen / AFLO / Profimedia

A carga emocional era enorme, já que quatro anos antes o país sul-americano tinha sido abalado pelos Pibes de las Malvinas, jovens de 20 anos ou pouco mais enviados para morrer pela ditadura militar da altura. O objetivo, ou melhor, a missão impossível, era recuperar as ilhas que os britânicos conhecem como Falkland, para ganhar apoio popular e sustentar um regime em decadência. Foi um suicídio total cujas consequências históricas Maradona soube aproveitar para incutir nos seus companheiros o ódio necessário para entrar em campo e vingar, no desporto, um verdadeiro massacre.

Culpa do fiscal de linha...

Numa época sem VAR nem tecnologia na linha de golo, o 10 argentino usou a arte do engano tão típica da América do Sul, antecipando-se a Peter Shilton com o punho e celebrando o golo para convencer todos da legalidade da sua ação, incluindo os próprios colegas. O árbitro principal também foi enganado. Nomeado pela FIFA para dirigir o jogo, já que não podia ser nem europeu nem sul-americano, o tunisino Ali Bennacer foi escolhido também pela sua capacidade para suportar grandes esforços físicos. 

Desde a sua Tunísia natal, onde consegui encontrá-lo, recorda: "Eu tinha sido atleta de fundo e também maratonista, por isso estava mais do que preparado para o esforço. Além disso, já tinha arbitrado a final da Taça das Nações Africanas entre Camarões e Egito em 1984, por isso tinha o currículo para a ocasião". A revolta dos ingleses, mais do que justificada, deveu-se à alegada negligência de quem devia controlar a legalidade do jogo.

... e de um inglês

Bennacer, no entanto, justifica-se assim: "Não vi o primeiro golo, confundi-me com a mão de Shilton que tapou a de Diego, mas o fiscal de linha búlgaro Dotchev tinha um ângulo de visão melhor do que o meu e disse-me que era uma jogada legal, por isso apliquei à letra o regulamento que a FIFA nos tinha dado antes do Mundial".

O árbitro norte-africano recorda ainda que quem ministrou o curso de conduta para o torneio foi precisamente um inglês: "Penso que se chamava Walton". No final do jogo, após o triunfo argentino, os jogadores ingleses foram felicitá-lo pela arbitragem, enquanto não tiveram piedade do fiscal de linha búlgaro, que para muitos "devia ser decapitado", recorda Bennacer usando a palavra francesa degorgé

Ali Bennacer, na Tunísia, com a camisola da Argentina assinada por Maradona
Ali Bennacer, na Tunísia, com a camisola da Argentina assinada por MaradonaAntonio Moschella

Apito na boca

O melhor, no entanto, estava para chegar. Porque uma aura mística tinha-se instalado sobre o Azteca, onde a sombra dos altifalantes parecia ter transportado o próprio sol para o relvado. E foi à volta desse astro que Maradona criou o tango mais memorável, em corrida, dos Mundiais, culminando o seu percurso romântico e avassalador ao enviar a bola para a baliza deserta depois de deixar para trás seis adversários.

"Fiquei maravilhado com o que estava a ver, tentei acompanhar o ritmo mas fiquei hipnotizado", afirma Bennacer.

O árbitro admite ainda que ficou sem fôlego também porque "tinha o apito na boca porque esperava que o derrubassem de alguma forma, mas não conseguiram". O impacto da jogada abalou todo o estádio, interrompendo até uma das muitas lutas entre ultras de ambas as claques nas bancadas. 

Cinco minutos

A história tinha sido escrita duas vezes, tornando-se mito. O sol brilhava intensamente sobre a Cidade do México para abençoar o que se tinha passado. E os minutos finais, após o 2-1 de Lineker, viram os argentinos sofrer para conquistar a batalha mais aguardada. A memória de Bennacer, que voltaria a encontrar-se com Maradona quase 30 anos depois, ajuda-o a recuperar uma sensação única: "Gostaria que a Inglaterra tivesse empatado e fossem para prolongamento, porque não queria que aquele espetáculo terminasse".

A eternidade desses cinco minutos ficará provavelmente como algo único na história dos Mundiais. O golo de Lineker e a "Nuca de Deus" — ou seja, o remate com a parte de trás da cabeça de Julio Olarticoecha que evitou o empate inglês no final — teriam ficado como factos secundários. Em apenas alguns minutos concentrou-se toda a essência de Maradona, astuto e genial. E que anos depois, na Tunísia para um evento publicitário, voltaria a encontrar-se com Bennacer para lhe oferecer uma camisola da Argentina onde escreveu: "Para Alí, o meu amigo eterno". Mais vale tarde do que nunca.

Bennacer com a camisola assinada por Maradona
Bennacer com a camisola assinada por MaradonaAntonio Moschella